segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Cuíca de Santo Amaro



Cuíca de Santo Amaro e seus folhetos políticos

Cuíca de Santo Amaro, em seus folhetos escritos durante mais de trinta anos, documentou da maneira mais completa a vida cotidiana baiana: a carestia do povo, os costumes, os usos e a moral vigentes na cidade de Salvador, os crimes, os desastres e, talvez mais importante, os pequenos casos escabrosos da vida particular baiana.

Cuíca de Santo Amaro, nome artístico de José Gomes, (Salvador, 19 de março de 1907 - 23 de janeiro de 1964), foi um poeta, cordelista e trovador brasileiro, nomeado por Jorge Amado como o Trovador da Bahia.

Versos, caro leitor,
É pra quem tem competência.
É para quem possui
Um pouco de inteligência
Para concretizá-los
Com toda fibra e cadência.

Versos é pra quem tem
O dom que Deus lhe deu.
Aquele dom que veio
Do berço quando nasceu.
Na Bahia tem alguém
Que tem dom igual ao meu?

(Cuíca de Santo Amaro)

A carne, em altos brados,
Perguntava para o pão:
Por que você, meu amigo,
Deixou o povo na mão,
Subindo tanto! Tanto...
Depois da eleição?

O pão respondeu-lhe:
É coisa que me consome.
Depois da eleição,
Pra mancharem o meu nome,
Resolveram os tubarões
Matar o povo de fome.

*****

Até caixão de defunto,
Onde vai ser enterrado,
Já subiu também de preço
Quando é bem acolchoado.
Sobe palma e capela,
Mas não sobe o ordenado.


Cuíca de Santo Amaro

 


→ Um cronista do cotidiano, mistura de trovador e repórter, infernizou a vida de Salvador, Bahia, dos anos 40 aos 60.

→ Batizado de José Gomes, foi com a alcunha de Cuíca de Santo Amaro que se celebrizou como um dos personagens mais importantes da história recente da cultura baiana.

→ Seus versos virulentos assustavam poderosos e gente comum, e não havia segredo guardado a sete chaves que escapasse do seu faro para escândalos, que tornava públicos na cidade através de cordéis.

→ Este foi, ao longo da vida, o seu ganha-pão. Venal para uns, genial para outros, uma coisa, porém, ninguém nega: este personagem do século passado mantém uma atualidade singular, que não se insere em nenhum rótulo. Conheci José Gomes, o famoso Cuíca de Santo Amaro, cordelista respeitado, em Salvador. Fazia ponto no Elevador Lacerda e era uma figura conhecida e amada pelos baianos. Foi uma espécie de repórter e cronista do cotidiano da Bahia. Era muito querido e respeitado; sobreviveu até a morte, da venda dos seus cordéis, vindo a falecer em 1964.

→ Aparecia um fato intrigante, um marido traído, uma fofoca de patrão com a empregada, um assassinato, a mulher de Brotas (que capou o marido), logo, logo, lá estava Cuíca com seu cordel a verberar na fila do Elevador Lacerda, ponto mais movimentado de Salvador. E sua freguesia era fiel.

Texto de Ricardo de Benedicts, escritor e ativista literário,
fundador da APOLO.






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