segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Histórias de Paraquedistas XXVIII


A Torre

1° Ten Nilton de Albuquerque Cerqueira

(Pqdt 2173 – 1955/8 – MS 362 – SL 158)


Eis que a hora temida chegava...

A demonstração do salto da torre fora feita; uma, a do aluno que se agarra com unhas e dentes aos tirantes de sustentação, pedindo para não saltar, implorando por tudo que fosse sagrado ao MS, que o não empurrasse... (Feita para descontração dos instruendos, humoristicamente).

E a outra, perfeita, o homem lançando-se no espaço, em posição correta, “jeb”, como objetivo a alcançar por todos, para chegarem ao salto do avião.

Ele, desde que “a” conhecera, que sentia uma dorzinha incômoda percorres-lhe as entranhas, sempre que passava por “ela”, ou num relance “ela” surgia em seus pensamentos... Afastava-“a” rapidamente, repetindo a si: não tem mistério, é onda dos “Pqds”!

Mas, agora, sentado no chão, naquela posição incômoda, inventada para martirizar mais o corpo, quando pensava que iria ter um descansozinho, fitava”a” com os olhos arregalados, e “ela” crescia, parecendo multiplicar a sua altura... Suava muito, apesar de não estar quente. Esquisito, era diferente daquele suor que ele conhecia tão bem das corridas, das calistênicas, dos toros... colava na pele, pegajoso...

No mecanismo da instrução, antes de subir pelos degraus até a porta por onde se lançaria no espaço, encontrava-se bem longe “dela”, pronto para puxar o “Trole” que corria preso ao cabo de aço a que o homem ficava suspenso, no salto.

A última chance: “falo com o tenente que estou me sentindo mal, e desapareço”...

Mas não se aventurava, porque seus companheiros permaneciam rígidos, aguardando a vez.

A tontura aumentava. Subindo agora a primeira plataforma, cada degrau tinha um metro de Altura. Sentia-se pesado como se estivesse suspendendo a própria torre em seus ombros. Olhava de relance para o chão: nunca mai haveria de pisá-lo, concluía. Uma vontade louca de descer e desaparecer... Mas, seus companheiros treinavam apenas: “Jeb”, e pôs-se a imitá-los.

Subia... Subia...

O Sargento-monitor inspecionava-lhe o equipamento: caixa de abertura, tirantes do peito, das pernas. Tudo correto. O MS na porta recolhia os troles e os monitores enganchavam-nos.

Segundo da equipe. O instante decisivo corria célere a seu encontro...

Um zumbido que o entontecia, não o deixava ouvir o que o MS recomendava, percebendo que ele falava pelos gestos...

- “JÁ!” e seu companheiro da frente lançou-se sem vacilação no espaço.

- “À PORTA!” ouviu o MS comandar-lhe. Tentou fazer o que havia aprendido na “Falsa porta”, mas não pôde. Estava pregado no chão. Nem um só músculo obedecia à sua vontade.

O MS, com a boca bem no seu ouvido, comandou novamente: “À PORTA!” Num esforço desesperado, seu pé deslocou-se e o monitor empurrando-o, ajudou-o a tomar a posição na porta para o salto.

Uma névoa impediu-o de ver; seu olhar cristalizara. A face pálida, gélida, contraía-se num rictus... A luta  atingia o auge...

- “JÁ!” ouvira como se viesse á do fundo do infinito. “JÁ!” o eco repetira...

Um repuxão violento retirou-o da porta, chamando-o à realidade, e um semblante começou a desenhar-se ante seu olhar. Era o MS que lhe dizia: “É a última chance, dei-te dois “JÁ” e não saíste – se não fores desta vez, podes descer...”

Seus pensamentos, turbilhões. Vergonha!

Morrer pé-preto! Como eles diziam, ser desligado na torre, nem saltar, não!

Saltaria de qualquer jeito. Saltaria!

- “À PORTA! JÁ!”

Fechou os olhos, um vazio enorme, um repuxão – o companheiro, segurando suas pernas, dava-lhe a cordinha para que ele desenganchasse...

- Trole!... ouviu.

Saltara...


N.R.: A instrução do salto da torre constitui o último estágio para o salto do avião. Nela os homens aperfeiçoam-se na técnica da execução dos lançamentos dentro das maiores prescrições de segurança, além de habituar os instruendos com a altura e o choque provenientes da abertura.

Ao término do salto, o instruendo, ainda meio inibido pelas reações nervosas que conseguiu dominar, recebe do instrutor um chamado de alerta... trole... para que conduza o equipamento utilizado à sua posição primitiva.

(Pára-quedista – Publicação Oficial do Núcleo da Divisão Aeroterrestre – Ano II - N° 1)



P.S. Quem não tivesse coragem de saltar da torre, nunca conseguiria saltar de um avião. Muitos soldados e até graduados militares empacaram na porta e desistiram de se tornar um paraquedista do Exército Brasileiro. Houve até gente famosa da TV que não teve coragem de enfrentar o desafio do salto da famosa torre da Área de Estágios.

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