domingo, 18 de dezembro de 2016

Mata Hari



Por trás da exótica personagem que construiu, a de uma dançarina falsamente indiana, a espiã transformou-se em lenda, eternizada pelas dúvidas sobre sua atuação.

Na certidão de nascimento: Margueretha Gertruida Zelle; nome artístico: Mata Hari. Em 13 de fevereiro de 1917, a famosa e exótica dançarina holandesa é presa em um hotel na avenida Champs-Élisées, em Paris, acusada pela inteligência francesa de espionagem durante a I Guerra Mundial.

Mata Hari era filha de um empresário holandês e de uma descendente de javaneses – provável origem de sua beleza diferenciada. A decadência financeira da família e a morte da mãe a levaram para outra cidade holandesa, onde conheceu seu futuro marido e funcionário da Companhia das Índias Orientais, Rudolph McLeod.

Admirou-se com a cultura oriental quando morou na Indonésia, mas seu casamento ia de mal a pior: McLeod era alcóolatra, tinha acessos de fúria e mantinha um caso com uma concubina.

Divorciada, Margaretha decidiu viver independentemente em Paris após McLeod não pagar pensões e ela ser forçada a lhe entregar a filha. O outro filho havia morrido no Oriente, vítima de sífilis contraída dos pais – ou, segundo boatos, de envenenamento de uma criada, do qual apenas a filha sobreviveu.

Assim, passou a exercer a profissão de dançarina na capital francesa. Era 1903, tinha 26 anos de idade, e percebeu que os parisienses da Belle Époche adoravam ver espetáculos com alusões estéticas à distante cultura oriental. Assim nascia Mata Hari, que afirmava ter sido criada em um templo sagrado indiano e recebido aulas de antigas danças do país de uma sacerdotisa, quem havia mudado seu nome para a tradução de “visão do amanhecer”.

Logo ganhou popularidade em toda a Europa, principalmente por dançar e posar quase inteiramente nua diante do público. Cortesã e bailarina, Mata Hari colecionou vários militares e figuras políticas francesas e alemãs como amantes.

Na década de 1910, imitadores haviam aparecido e críticos diziam que seu sucesso se devia a exibicionismo barato e falta de talento artístico. Sua carreira como dançarina desandava e já se iniciava a I Guerra Mundial.


A movimentação daquela mulher que esbanjava relacionamentos amorosos começaram a levantar suspeitas. As circunstâncias de sua apreensão não são consenso – assim como, aliás, muitos fatos de sua vida – mas Mata Hari eventualmente estava em mãos da inteligência francesa.

Algumas fontes afirmam que a França exigiu que ela servisse como espiã a partir de casos premeditados com oficiais alemãs na Espanha. Por fim, mostrou-se inabilidosa, com informações pouco relevantes. Outras afirmam que os franceses interceptaram mensagens de rádio entre alemães em que eram descritas as atividades de um espião alemão, com codinome H21. A partir das informações, os franceses teriam identificado a sigla como Mata Hari.

Após ser presa no hotel Elisée Palace e interrogada, Mata Hari foi acusada de servir como espiã à Alemanha (ou como agente duplo, dependendo da história). Ela teria escrito várias cartas ao cônsul holandês em Paris, clamando sua inocência e dizendo que suas conexões internacionais eram fruto de seu trabalho como dançarina. 

Por um lado, a autora da biografia Femme fatale, Pat Shipman, defende que Mata Hari nunca foi agente duplo e que foi usada para bode expiatório para distrair a opinião pública das grandes perdas sofridas pelo exército francês no front. Por outro, detalhados documentos alemães comprovariam a entrada de Mata Hari como agente na Alemanha e na Espanha e confirmariam o codinome H21.

As circunstâncias de suas alegadas atividades de espionagem durante a Guerra eram – e permanecem ainda – pouco claras. De qualquer modo, em 25 de julho de 1917, Mata Hari foi julgada por uma corte militar e sentenciada à pena de morte.

Seu processo foi tendencioso, cheio de falhas e montado sobre evidências circunstanciais. Não ficou provado que nenhuma informação relevante ou secreta tivesse sido repassada para os exércitos inimigos da França, mas nem ela nem seu advogado tampouco conseguiram sustentar a defesa.

Tendo o presidente francês negado o apelo final de clemência, um pelotão de fuzilamento francês a executou em 15 de outubro do mesmo ano em Vincennes, nos arredores de Paris. Mata Hari não foi amarrada e se recusou a vendar os olhos, recebendo as balas de cabeça erguida, segundo relato de Henry Wales, jornalista britânico que cobriu a execução.

Ainda que envolta em vários mitos e incertezas sobre sua história, Mata Hari permanece como uma das mais glamourosas figuras do sombrio mundo da espionagem, símbolo da ousadia feminina e arquétipo de mulher espião.

(Do Blog Opera Mundi)


Outra foto, ousadíssima para a época (1910 - segunda década do século XX), da espiã holandesa Mata Hari.

A execução de Mata Hari





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