terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Renoir convida para o almoço


Em seu famoso quadro estão atrizes, jornalistas, um banqueiro, um diplomata e a garota do interior que se tornou a esposa do pintor.

David Stewart


O famoso quadro “Le Dejeuner des Canotiers” pintado entre 1870 e 1871

No verão de 1880, os convidados reúnem-se no restaurante Fournaise, em uma ilha do Rio Sena, nos arredores de Paris. Serão imortalizados pelo pintor impressionista Pierre Auguste Renoir. E seu “O Almoço dos Barqueiros” se tornará um dos mais famosos trabalhos de arte do mundo.

Estou convencido de que a razão pela qual esse quadro nos chama a atenção é que muitas pessoas ali retratadas eram amigos de Renoir. Hoje, mais de um século depois, os estudiosos ainda discutem sobre a identidade de alguns dos modelos. Mas as intrigantes histórias do “O Lanche dos Remadores” nos atraem para a vida de Renoir.

O robusto rapaz de barba, à esquerda, em pé, é Alphonse Fournaise Jr., que cuidava dos aluguéis de barcos no restaurante Fournaise. Seu pai havia inaugurado o estabelecimento na Ilha Chatou, parte da qual se chama agora Ilha dos Impressionistas, assim denominada por volta de 1860.

As pequenas ilhas do Sena ofereciam aos parisienses do século XIX a oportunidade de praticar dois novos esportes – natação e remo – que eram a paixão da época. E havia festivais, danças, regatas, concertos e jantares ao ar livre.

Poetas e escritores estavam entre os primeiros a descobrir esses prazeres. Mas foi o impressionista e outros pintores, tais como Claude Monet, Edgar Degas e a americana Mary Cassatt, que melhor captaram essas cenas.

“Você podia me achar no Fournaise a qualquer momento”, disse certa vez Renoir. “A li encontrava tanta gente esplêndida quanto conseguia pintar.”

Aline Charigot, de 21 anos, sentada abaixo de Fournaise, usando um chapéu de palha bem decorado, é uma das “esplêndidas criaturas” com que Renoir se deparou. Uma animada garota do interior, dezoito anos, mais jovem que o artista, ela se casaria com ele dez anos mais tarde. Aline seguiu Renoir da pobreza em Paris para um relativo conforto em Cagnes. Dois de seus três filhos foram feridos na Primeira Guerra Mundial.

Em Renoir, Meu Pai, o segundo filho deles, o notável cineasta Jean, escreve: “Renoir estava pintando o retrato de Aline Charigot antes de conhecê-la. A figura de Vênus (em um vaso pintado quando ele tinha 16 anos) é minha mãe – antes de nascer.”

Mais adiante, inclinando-se pensativa (com a mão direita no queixo), está uma mulher que alguns identificam como Alphonsine Fournaise, irmã de Alphonse. Ela tem 34 anos e era chamada de “a linda Alphonsine” pelos clientes do restaurante de sua família. Aos 18 anos, Alphonsine havia casado com um parisiense, mas ficou viúva muito cedo. Ela não se casou outra vez, durante o resto de sua vida bastante infeliz. Investindo no mercado russo, perdeu tudo. A casa da família Fournaise se deteriorou rapidamente, e Alphonsine morreu pobre, aos 91 anos.

É possível que alguns dos quadros que Renoir deu aos Fournaise, quando ainda era um artista pobre e desconhecido, tenham ajudado a sustentar Alphonsine durante os anos de sua decadência. Jean Renoir recria esta conversa entre seu pai e a família:
Os Fournaise: Você nos dá esta paisagem que pintou?
Renoir: Estou avisando, ninguém quer este quadro.
Os Fournaise: Que diferença faz? Temos que colocar alguma coisa nas paredes para ocultar as manchas de umidade.
Renoir: Se ao menos todos os amantes da arte fossem assim!
Os quadros que Renoir deu aos Fournaise se tornaram valiosíssimos.

Amantes e Outros

Embora não possamos ver seu rosto, o homem a quem Alphonsine parece estar dando toda a sua atenção foi fundamental para a criação de “O Lanche dos Remadores”. Ele é o Barão Raoul Barbier (de costas com chapéu), um diplomata que ajudou a reunir os 14 modelos. Os interesses de Barbier eram as mulheres, cavalos e remo; insistia em dizer que não sabia nada sobre pintura. Talvez seja por isso que ele e Renoir se tornaram amigos.

Outro menos interessado em pintura do que em mulheres era o jornalista Paul Lhote. É o homem de barba, que esta usando um chapéu de palha e uma camisa de malha listrada, no trio localizado no canto superior direito do quadro.

Lhote parecia gostar da companhia dos artistas, por causa da proximidade desses aos modelos femininos. Renoir, que não era nenhum puritano, mas sim um homem prático e franco, observou: “Lamento pelos homens que estão sempre correndo atrás de mulheres. Sempre atentos, dia e noite, sem um minuto de descanso!”

Paul é retratado flertando com Jeanne Samary (de preto), de 23 anos, famosa atriz que apreciava o trabalho de Renoir. A admiração era mútua, mas o casamento não era uma perspectiva. “Ele não é do tipo casamenteiro”, acredita-se que ela tenha dito sobre Renoir. “Ele se casa com todas as mulheres que pinta, mas com seu pincel.”

À esquerda da Lhote e Samary está Eugène Pierre Lestringuez, um excêntrico funcionário público. Dizem que uma vez ele hipnotizou um amigo, ordenou-lhe que se despisse e o mandou sair à rua.

Atrás de do trio de Samary, Charles Ephrussi, colecionador de pinturas impressionistas, conversa com Jules Laforgue, seu secretário pessoal. A cartola formal de Ephrussi parece incongruente, mas como banqueiro rico, ele simplesmente trouxe a moda urbana de Paris.

Pintor e modelos

O jovem de camiseta sem manga (à direita e abaixo), Gustave Caillebotte, componente do trio localizado no canto inferior direito do quadro, recebe um lugar de destaque, talvez por ser amigo especial de Renoir. Pintor impressionista, supostamente disse: “Espero que um dia meu trabalho seja bom o suficiente para ser pendurado na antecâmara da sala onde os quadros de Renoir são pendurados.”

O jovem elegante ao lado de Cailebotte, é um jornalista. Maggiolo é seu nome. Sentada a seu lado está uma senhora, usando um vistoso chapéu que cobre a maior parte de sues cabelos ruivos. É provável tratar-se de Ellène Andrée, atriz e modelo predileta de muitos impressionistas. Uma outra modelo popular, Angèle, está sentada contemplando seu copo de vinho sobre a mesa, próxima a um homem ainda não identificado. (Alguns estudiosos, a propósito, acreditam que a ruiva seja Angèle, e que essa mulher seja Ellen Andrée). Angèle conheceu Renoir quando ele ocupava um pequeno apartamento, num bairro pobre de Paris. Ela era uma dedicada amiga.

Uma noite, Renoir foi agredido por vários homens. Ele tentou correr, mas ficou preso em uma cerca. Temia o pior quando, de repente, um dos assaltantes o reconheceu. “Ei, é o senhor Renoir!”, exclamou. O pintor ficou satisfeito em pensar que sua reputação o salvaria, até que o homem voltou a falar. “Não vamos enforcar nenhum amigo de Angèle!”, disse ele.

Posteriormente, a minúscula ilha mágica do Rio Sena foi ocupada por enorme população e ficou muito tumultuada. Em 1979, o restaurante Fournaise esteve perto do fim. A demolição era iminente quando uma aliança de residentes locais, o governo francês e amantes da arte vieram em seu socorro. Em novembro de 1990, o restaurante Fournaise, mais uma vez, acolheu convidados em seu famoso terraço de toldo listrado.

Há mais de cem anos, Renoir escrevera a um amigo: “Não posso deixar Chatou agora, porque minha pintura ainda não está terminada. Venha para cá e almoce comigo. Não existe lugar mais encantador do que este.”

Seu convite continua vigorando. Todo verão, há um festival na ilha com música, dança e trajes da época. Ou visite o próprio “O Lanche dos Remadores”, de Renoir, na Coleção Phillips, em Washington, Estados Unidos.

(Texto de Seleções do Reader's Digest – junho de 1997)


01. Aline Charigot
02. Alphonse Fournaise
03. Alphonsine Fournaise
04. Barão Raoul Barbier
05. Jules Laforgue
06. Hélène Andrée
07. Angèle


08. Charles Ephrussi
09. Gustave Caillebotte
10. Maggiolo
11.
Eugène Pierre Lestringuez
12. Paul Lhote
13. Jeanne Samary

→ Pierre Auguste Renoir foi um importante artista plástico francês. Fez parte do impressionismo e destacou-se por suas lindas pinturas. Nasceu em 25 de fevereiro de 1841, na cidade francesa de Limoges. Morreu em 3 de dezembro de 1919 em Cagnes-sur-Mer (cidade no sudoeste da França).

→ Já na infância demonstrou grande interesse pelas artes plásticas. Quando criança trabalhou como decorador em uma indústria de porcelanas em Paris. Com 18 anos, Renoir começou a pintar e decorar persianas e leques. Em 1862, foi estudar na Academia de Belas Artes. Estudou também na academia do pintor suíço Charles Gabriel Gleyre. Nesta academia conheceu outros artistas famosos da época como, por exemplo, Claude Monet e Alfred Sisley. De Monet, Renoir recebeu influência no tratamento da luz, sendo que o trabalho com as cores foi influência recebida de Delacroix.

→ Seu estilo artístico era marcado pela presença de cores fortes e brilhantes, texturas e linhas harmônicas. O sentimento lírico é outra característica importante nas obras de Renoir. Em suas pinturas prevaleceram as formas humanas individuais, grupos de pessoas e paisagens.

→ Sua primeira exposição artística ocorreu em Paris, no ano de 1864. Porém, não conseguiu muito reconhecimento. O reconhecimento veio somente em 1874, durante a primeira exposição de artistas da nova escola impressionista. Em 1874, sua pintura Le Moulin de la Galette foi reconhecida como uma grande obra de arte impressionista.

→ A carreira artística de Renoir foi consolidada com a exposição individual realizada em Paris, na galeria Durand-Ruel, no ano de 1883.

→ Os últimos 20 anos de vida, Renoir sofreu com sua saúde. Portador de uma doença articular (artrite), o artista continuou pintando com dificuldades. Amarrava o pincel em seu braço para poder realizar suas obras. Mesmo assim, criou trabalhos ricos e importantes.

Principais obras de Renoir

- Mulher com sombrinha (1867)
- Retrato de Frédéric Bazille (1867)
- O passeio (1870)
- O Camarote (1874)
- A bailarina (1874)
- Le Moulin de la Galette (1876)
- Madame Georges Charpentier e suas filhas (1878)
- Remadores em Chatou (1879)
- Elizabeth e Alice de Anvers (1881)
- A dança em Bougival (1883)
- Mulher amamentando (1886)
- As grandes banhistas (1887)
- Menina com espigas (1888)
- Menina jogando criquet (1892)
- Ao piano (1893)
- Odalisca (1904)
- Retrato de Claude Renoir (1908)
- Banhista enxugando a perna direita (1910)



Nenhum comentário:

Postar um comentário