quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Cantos de aniversários


É big! Não! É pique

(ou origem do “Parabéns pra Você”)


Dia desses, a Luciana tentou emendar um papinho furado sobre uma verdadeira instituição nacional: o nosso bom e velho “parabéns pra você”. Ela garante que, após a tradicional melodia e o famigerado “e pro fulano nada, então como é que é”, as pessoas em Belém do Pará cantam:

– É big! É big! É big, é big, é big!

Como eu nunca ouvi ninguém da região norte cantar parabéns pra mim, tratei de informá-la forma conhecida em São Paulo:

– É pique! É pique! É pique, é pique, é pique!

Continuei a provocá-la, garantindo que provavelmente apenas uns dois ou três guetos paraenses decidiram trocar o “pique” por “big”. Fiquei preocupado no último final de semana, quando a Luciana ressuscitou a pauta diante da blogueira-sem-blog Viva. Para minha surpresa, ela explicou que já ouviu alguns “é pique!” mas os cariocas cantam mesmo “é big!”.

Diante da celeuma, tratei de buscar por indícios que colocassem a pique qualquer menção ao big. Comecei descobrindo que a canção “Parabéns pra Você” nasceu graças a duas professoras norte-americanas de nome Patty e Mildred, como “Good Morning to All” (“Bom Dia pra Você”, como cantava aquele ratinho chato em um desenho do “Tom e Jerry”). Tanto a melodia quanto as quatro linhas repetidas em inglês foram compostas em 1893, mas registradas apenas em 1935 pela empresa Summy Company – que, pasmem, cobra royalties pela execução da melodia! Eu nunca paguei, mas eles chegam a receber alguns milhões de dólares por ano!

A versão brasileira do “Happy Birthday to You” veio em 1942, graças a um concurso da Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Bertha Celeste Homem de Mello*, uma simpática paulista, criou o popularíssimo “Parabéns a você / Nesta data querida / Muita felicidade / Muitos anos de vida”. Repare na flexão do terceiro verso, no singular: enquanto permaneceu viva, Bertha Celeste pedia encarecidamente que as pessoas cantassem a letra exatamente dessa forma…

Claro que num país continental como o Brasil, as diferenças seriam inevitáveis – e vão muito além de um simples plural. No Rio Grande do Sul, o Parabéns Crioulo (ou Gaudério, como queiram), criado por Dimas Costa (radialista do histórico “Grande Rodeio Coringa”) popularizou outra forma de celebrar um aniversário: “Parabéns, parabéns / Saúde e felicidade / Que tu colhas sempre todo dia / Paz e alegria na lavoura da amizade”.

As inúmeras variações regionais explicam a evolução do “pique” para o “big” – e não o contrário, como gostariam os partidários da Luciana. Matéria assinada por Fabrício Marques na revista “Pesquisa Fapesp”, em agosto de 2004, traz uma série de situações geradas ao redor da Faculdade de Direito do largo de São Francisco. Em dois parágrafos, também revela a origem dos versos não-identificados do nosso bom e velho “parabéns”. De acordo com o texto:

O bordão “é pique é pique, é hora é hora, rá-tim-bum”, incorporado no Brasil ao Parabéns a você, é uma colagem de bordões dos pândegos estudantes das Arcadas (como a faculdade também era chamada) da década de 1930. “É pique” era uma saudação ao estudante Ubirajara Martins, conhecido como “pic-pic” porque vivia com uma tesourinha aparando a barba e o bigode pontiagudo. “É hora” era um grito de guerra de botequim: nos bares, os estudantes eram obrigados a aguardar meia hora por uma nova rodada de cerveja – era o tempo necessário para a bebida refrigerar em barras de gelo. Quando dava o tempo, eles gritavam: “É meia hora, é hora, é hora, é hora”.

“Rá-tim-bum” , por incrível que pareça, refere-se a um rajá indiano chamado Timbum, ou coisa parecida, que visitou a faculdade – e cativou os estudantes com a sonoridade de seu nome. O amontoado de bordões ecoava nas mesas do restaurante Ponto Chic (que criou o sanduíche Bauru graças a outro estudante de Direito, Casemiro Pinto Neto), com um formato um pouco diferente do que se conhece hoje: “Pic-pic, pic-pic; meia hora, é hora, é hora, é hora; rá, já, tim, bum”.

Isso significa que algum gaiato ouviu “pic-pic” uma vez e passou a cantar “pique”, até que outro cururu prosseguiu com o telefone-sem-fio, emendando “big”. Provavelmente, ao serem questionados, são capazes de justificar suas escolhas: “pique é o grau mais alto, o auge, é a disposição e energia máxima”. “Mas big significa grande, e é tudo que um aniversário representa”. Nem é preciso discorrer sobre a motivação de quem deturpou o polêmico trecho:

– É pica! É pica! É rola, é rola, é rola…

Enfim, ainda falta descobrir de onde veio outro complemento infame: “com quem será, com quem será… Que o Fulano vai se casar? Vai depender, vai depender… Se a Fulana também vai querer…”.


André Marmota é professor

(Do Blog Marmota maisdosmenos)



*Berta Celeste Homem de Melo (Pindamonhangaba, 21 de março de 1902 - Jacareí, 16 de agosto de 1999) foi uma poetisa, farmacêutica e professora brasileira, autora da letra em português da canção "Parabéns a Você", comumente cantada nos aniversários.

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