quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O Humor de Lamartine Babo



Soneto retratando Lamartine Babo de 1941

‒ Gozadíssima espécie de esqueleto
De abundante matéria cerebral
Como é que o Babo cabe num soneto
Se enche, sozinho, a Rádio Nacional?

Quem o vê, de canelas de graveto,
De um microfone ao pé, fino e espectral,
Julgar ver duas hastes em dueto,
Sendo bem mais gordinha... a de metal.

Certa vez, num bilhar, formou-se um rolo:
Cascudos! Bofetões! Copos em caco!
‒ E o Lamartine estava no bilhar.

Mas quem foi que falou que ele era tolo?
‒ Calmamente escondeu-se atrás de um taco.
E não houve ninguém que o fosse achar!...

(Sebastião Fonseca)




→ Ao encomendar um caixão para um conhecido que morrera, o dono da funerária perguntou ao Lalá:

‒ Quer que leve o caixão à sua casa ou o senhor já vai dentro?

→ Depois que o amigo foi sepultado, Lamartine ainda se demorou um pouco no cemitério. Ao sair, já anoitecendo, o porteiro falou:

‒ Fugindo, hein!.

→ Perguntado se entraria em um cemitério à meia-noite, respondeu:

‒ Quando eu era muito magro entrava em sonhos, crente que era uma das caveiras.

→ Ao chegar a uma esquina, contava, ouviu dois cachorros conversando e olhando para ele:

‒ Se for para a direita, é seu; se for para a esquerda, é meu.

→ Dizia frequentemente que era tão magro que seu pijama só tinha uma listra.

→ Em madrugada de boêmia com Noel Rosa, vindos de um baile na rua Ibituruna, no hoje bairro do Maracanã, sobraçavam os dois garrafas de cerveja, quando se depararam com o leiteiro, por volta das 4 horas. Seguiram-no e quando um litro de leite foi depositado no portão de uma casa, os dois substituíram-no por uma garrafa de cerveja, com a seguinte mensagem:

‒ Vai-te alimentando com a nossa cerveja, enquanto nos envenenamos com teu leite.

→ Apresentado por um amigo a um admirador na Galeria Cruzeiro:

‒ Este é o grande Lamartine babo em carne e osso.

E Lalá:

‒ Exagero, exagero. Em osso só. Em osso só.

→ Quando, certa vez, lhe perguntaram que epitáfio escolheria, respondeu:

‒ Aqui jaz um compositor que nunca gostou de jazz!

→ “Não quero busto quando morrer, prefiro ser vivo e robusto”, costumava dizer.

→ Indagado sobre por que não ia ao dentista, respondia que era um ás do rádio brasileiro. E vinha o trocadilho:

‒ Estou subindo sempre. Sou um ás-sem-dente.

→ Quando o médico chegou à sua cabeceira e, para animá-lo, perguntou:

‒ Por que não aproveita para compor alguma coisinha agora que você melhorou?

Ele respondeu:

‒ Logo agora, doutor, que estou me decompondo!

→ “Não tenho voz, propriamente, tenho vez... E, assim sendo, destarte... a minha vez chegou”, dizia.

→ Ainda sobre sua magreza: era tão magro que conseguia passar incólume entre os pingos da chuva, comentava.

→ Numa entrevista publicada em agosto de 1936:

‒ Eu me achava um colosso. Mas um dia, olhando-me no espelho, vi que não tenho colo, só tenho osso.

→ De certa feita, ao entregar um telegrama no guichê dos Correios, notou que um dos funcionários batia com o lápis, em código Morse, para o colega, referindo-se a Lamartine:


‒ Magro e feio.

E o Lalá, de lápis na mão, também bateu em Morse:

‒ Magro, feio e ex-telegrafista.

 → Durante o carnaval de 1932, Lamartine achava-se nos salões do Botafogo, cercado de moças, quando um folião gritou em direção ao grupo:

‒ Você, Lamartine, assim transparente, no meio de tantas moças, está querendo bancar o último varão sobre a terra!

E o Lalá, prontamente:

‒ Varão não, meu amigo, varinha... varinha!

→ Dizia-se dele: “Poeta de poucos quilos e muitos quilates”.

→ Lalá, dirigindo-se a Ataulfo Alves que lhe pedia músicas para o Carnaval de 1956:

‒ Todos dizem que o Lamartine está em decadência. Então você me dê cadência que eu faço uma música.

→ Ao saber que a entrevista que dera a um telejornal seria preterida pela cobertura que a emissora de TV fizera da chegada do compositor Tom Jobim dos Estados Unidos, Lalá considerou:

‒ Quer dizer então que na verdade eu estou um Tom abaixo?

→ Sobre Lamartine imprimiu-se em determinada época nos jornais;

Quem é?
Foi magro com um palito.
Sem ser feio nem bonito
Quando canta é como o tordo...
Educado no São Bento,
Ninguém lhe nega talento,
Hoje, está, dizem, mais gordo!...

Certa vez foi a Formiga
Ver uma fã ‒ sua amiga ‒
E bancou ‒ dizem ‒ basbaque.
Por paixão ou por pagode,
Ao voltar, tal qual um bode,
Nos voltou de... cavanhaque!

Digam-nos, pois, logo à vista,
O nome do grande artista.

→ Na homenagem póstuma prestada a Lamartine no Teatro Municipal, a 1° de agosto de 1963, sob o patrocínio do Jockey Clube Brasileiro e da Secretaria de Turismo do Estado da Guanabara, o declamador Romeu Gonçalves, antigo amigo do Lalá, declamou da autoria do compositor “Vida de solteiro, vida de casado”:

Vida de solteiro...
um quarto
pouco farto
uma cama
um pijama
um par de chinelos
meio par de meia no chão
prontidão, sozinho...
quase sem carinho!
Vida sem compromisso
(ao menos... há sinceridade nisso!)
Mas... os dias são tão desencontrados...
‒ Que inveja da vida dos casados!

Vida de casado...
um quarto
uma cama, outra cama
monograma
dois pares de chinelos
dois lençóis
até que enfim sós
mil castelos
lar... doce lar...
hora do almoço
hora do jantar
um garoto, dois garotos
três garotos, um casal
dois casais, três casais, quatro casais,
que santa paz!
Dia 1° ‒ de janeiro a janeiro
açougueiro...
vendeiro...
padeiro...
leiteiro...
leiteiro, tintureiro, verdureiro!
Feira... 2ª feira, 3ª feira, 4ª feira, 5ª feira
6ª feira, sábado, feira, domingo, feira
prestação do aparelho de televisão
prestação da geladeira,
prestação da enceradeira
briga com a cozinheira
briga com a lavadeira
rádio ligado
novela quase o dia inteiro
jornal falado
programa de auditório
“é a maior... é a maior...”
Que berreiro
‒ que saudade da vida de solteiro!


(Do livro “Tra-la-lá”, de Suetônio Valença)


Capa do Livro da primeira edição


Suetônio Soares Valença

23/1/1944 Rio de Janeiro, RJ
07/4/2006 Rio de Janeiro, RJ


O filólogo e pesquisador Suetônio Valença morreu nesta sexta-feira, 8 de abril de 2006 de câncer, no Rio de Janeiro, aos 62 anos. Formado em Letras Clássicas pela Universidade de Brasília, ele foi diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e, nos últimos anos, estava aposentado. Deixa duas filhas e dois netos.

Foi autor de livros importantes sobre o mundo do samba, como "Tra-la-lá" (biografia de Lamartine Babo, "Serra, Serrinha, Serrano: o Império do Samba" (em parceria com Rachel Valença) e "Um Escurinho Direitinho", (sobre Geraldo Pereira, com Luiz Fernando Vieira e Luís Pimentel.


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