domingo, 19 de março de 2017

50 verbetes para um Dicionário de Literatura Brasileira


Por Carlos Drummond de Andrade




Publicado em 15/08/52 no Comício, semanário criado por Rubem Braga, Joel Silveira e Rafael Corrêa de Oliveira.
  
ACADEMIA – Instituição que distribui prêmios de quatro mil cruzeiros, sujeito a desconto, não convindo por isso ser atacada, embora também não seja distinto elogiá-la publicamente.

ADMIRAÇÃO – Fenômeno peculiar à adolescência, como as espinhas e a muda de voz, desaparece de uma hora para outra ou se converte em autoadmiração.

AMIGO – Escritor de muito talento, até segunda ordem.

ANTOLOGIA – Espécie de ônibus ou lotação, recomendável para a estreia do literato que tenha pressa de chegar à posteridade.

ASSOCIAÇÃO DE ESCRITORES – Partido pró ou contra alguma coisa alheia à classe dos escritores.

ATAQUE – Maneira explosiva de conseguir que sejamos notados e mesmo respeitados, se praticada habilmente.

BAR – Lugar onde as pessoas de talento continuam a tê-lo, e as que não o têm o adquirem provisoriamente, desde que não falem.

BIBLIOTECA – Lugar de passagem; seguido do adjetivo Nacional, não costuma ser frequentado.

CAFÉ – Sítio mitológico onde os antigos se reuniam para ler seus escritos e ouvir com resignação os do próximo.

CARTA – Instrumento de comunicação em desuso pelos seus inconvenientes; o destinatário a divulgava caído ou averbava no Registro de Títulos, para oprimir o remetente.

COLOFÃO – Inscrição para certificar ao leitor, em certas obras, que tudo tem limite.

CONFERÊNCIA – Ato a que se chega atrasado e do qual se sai antes de terminar, causando irritação e inveja ao conferencista.

CONTO – Narrativa em que deve acontecer alguma coisa ou nada, conforme seja o autor partidário do clube Maupassant ou do clube Mansfield; no segundo caso, também chamada conversa mole.

DEDICATÓRIA – Letra promissória de valor indeterminado, cujo resgate pode deixar de ser feito sem dano para o crédito do emitente.

DIÁRIO – Livro ou caderno de pelo menos 200 páginas, onde se escreve debaixo do segredo aquilo que se deseja levar ao conhecimento de todo mundo.

DIREITO AUTORAL – Direito que assiste ao autor de editar-se à própria custa.

ECOLÓGICO – Diz-se do romance que tenha mais cheiro de terra do que estilo. Variante: telúrico.

EDITOR – Indivíduo mesquinho e destituído de imaginação, que recusou os nossos originais.

ELOGIO – Vide gazua, maconha e compromisso.

ESCRITOR – Entidade indefinível; em caso de emergência, aquele que escreveu um bilhete, ou poderia tê-lo escrito.

EX-LIBRIS – Artifício com que o dono de um livro se torna um pouco seu autor, colaborando numa página.

EXISTENCIALISTA – Menor cuidadosamente despenteada, com ou sem franja na testa, que cultiva o complexo de Eletra das 17 às 19 horas no bar, e mais tarde na boate; seus autores de cabeceira são Heidegger, Jean Marais, Sartre e Prevert-Kosma.

GERAÇÃO – Maneira coletiva e rotativa de ter talento; há casos de indivíduos que mudam de geração.

GLÓRIA – Faculdade de conceder autógrafos durante a conferência ou a exposição, sem ser o conferencista ou o pintor.

HERMETISMO – Resultado imprevisto e feliz da pobreza de vocabulário.

ILUSTRADOR – Desenhista que se abstém de ler o poema ou o conto, a fim de melhor interpretá-lo.

KAFKA – Escritor tcheco, imitador de alguns escritores brasileiros.

LEITURA – Vício secreto; a higiene mental o proscreve como nocivo à carreira literária.

LIVRARIA – Lugar onde as moças sem namorado vão comprar romances antes de partir em férias.

MEMÓRIAS – Aplicação da capacidade de mentir, pela sua conversão em prazer e renda.

MENSAGEM – Conteúdo de uma obra literária, que afina com a nossa convicção ou tendência, ou que simplesmente lhe atribuímos num momento de irreflexão.

MESTRE – Designação satírica que infunde à vítima certo prazer.

MÉTRICA – Arte de fazer passar pelos dedos o que não entrou espontaneamente pela orelha.

NOVO – Indivíduo de idade indeterminada, que fala mal dos outros de certa idade.

ORELHA – Dizeres na borda da capa de um livro, que dispensam a leitura dele; não devem ser grandes.

POETA DO POVO – Indivíduo encarregado de evitar que o povo goste de poesia.

PREFÁCIO – Texto laudatório assinado por um amigo do autor, e ultimamente substituído pela orelha (vide este nome), de autoria do próprio escritor.

PROVÍNCIA – Terra assaz deliciosa, depois que o natural da mesma se mudou para o Rio.

QUARENTA E CINCO – Número cabalístico, que esconjura os maus espíritos e habilita ao conhecimento de T. S. Eliot.

REVISOR – Autor de algumas das melhores páginas da literatura brasileira.

REVISTA – Peça de artilharia grossa, para conquista de posição ou situação literária; provida de entranhas humanas, padece às vezes de comoção intestina.

RIMA – Repetição de som no fim de dois ou mais versos, produzindo efeito desagradável em nossos poemas; recurso vil nos dos outros.

ROMANCISTA DO POVO – Técnico em palavrões.

SONETO – Pedra de toque do poeta; usa-se atualmente o shakespeariano, quer na disposição formal quer nos costumes.

SUPLEMENTO LITERÁRIO – Ajuntamento lícito ou ilícito de escritores, conforme fazemos ou não parte dele.

TRADUTOR – Indivíduo paciente, que manipula duas ou mais línguas, para não ser autor em nenhuma.

TRINTA – Irmão pobre de vinte e dois.

UÍSQUE – Designação geral de uma série de autores escoceses, de conhecimento e cultivo obrigatório para uma boa reputação literária; os escritores norte-americanos do mesmo gênero não são muito manuseados.

VELHO – Indivíduo que, mesmo usando óculos bifocais, não enxerga a nossa grandeza.

VINTE E DOIS – Tigre, na classificação do Barão de Drummond; palhaço, no consenso da nova geração.


Do Blog quarta capa de Guilherme Tauil


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