quarta-feira, 22 de março de 2017

A participação dos negros escravos na guerra do Paraguai


(Excerto)

André Amaral de Toral

As denúncias de que o exército brasileiro ao lutar na guerra (1864-1870) era formado por escravos não são novas. Ao contrário, têm pelo menos cento e vinte anos. Seus primeiros autores foram os redatores dos jornais paraguaios da época. Tratavam de menosprezar o exército brasileiro com base no duvidoso argumento de que, por ser formados por negros, deveria ser de qualidade inferior.

Mais recentemente, diversos autores tentaram ressuscitar o argumento de que o exército brasileiro era formado por negros escravos alistados compulsoriamente.

Soldados negros, ex-escravos ou não, lutaram em pelo menos três dos quatro exércitos dos países envolvidos. Os exércitos paraguaio, brasileiro e uruguaio tinham batalhões formados exclusivamente por negros. Como exemplos temos o Corpo dos Zuavos da Bahia e o batalhão uruguaio Florida. Escravos propriamente ditos, engajados como soldados, lutaram comprovadamente nos exércitos paraguaio e brasileiro.

Para se avaliar corretamente a participação dos negros escravos na guerra é preciso, primeiramente, esquecer ou suspender a questão das nacionalidades envolvidas. Com efeito, se os negros lutaram sob pelo menos três das quatro bandeiras presentes no conflito, o foco da análise deve ser posto sob a situação dos escravos e de seios descendentes nesses exércitos e não sobre suas nacionalidades.

Não repito aqui o erro dos ideólogos lopiztas, que consideravam o exército brasileiro – soldados e oficiais – formado indistintamente por macacos; e nem o dos detratores do Paraguai, que consideravam seu exército formado por caboclos, termo depreciativo que no Brasil designa índios e seus descendentes mais ou menos aculturados, e seu povo formado por descendentes dos guarani, uma vaga referência etnográfica. Negros e índios teriam sido, por essas análises baseadas em simplificações raciais, as maiores vítimas da guerra.

Para além dessas versões ideologizantes, procurarei esclarecer a convocação do negro, ex-escravo, aos exércitos paraguaio e brasileiro, bem como sua participação na guerra.

Como matar a los negros

A frase dita pelo presidente paraguaio Francisco Solano López depois de receber na barriga o golpe de lança do cabo de ordens do coronel Joca Tavares, seu xará Francisco Lacerda – Matem a esos diablos de macacos! –, é reveladora da ideia que seu governo queria fazer dos brasileiros no país.

Na época da guerra (1864-1870), no Paraguai, o negro era, antes de tudo, o inimigo. O exército brasileiro era o exército macacuno, e seus líderes, segundo a propaganda lopizta, macacos que pretendiam escravizar o povo paraguaio, conduzindo-os da liberdade à escravidão.



(Três macacos: Tamandaré, o Imperador e Polidoro,
jornal El Centinela de 1867)

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Voluntário da pátria

A origem da expressão “Macacos me mordam!”




Oficiais brasileiros nos momentos finais da Guerra do Paraguai,
entre eles está o Conde d´Eu (com a mão na cintura), 1870.

Quando o Conde D´eu, genro de Dom Pedro II, foi designado como oficial para servir na Guerra do Paraguai, ele teria feito uma promessa ao Imperador de que mataria o ditador paraguaio Solano Lopez. As tropas brasileiras, compostas de muitos negros e mestiços, eram chamadas de macacos por seus inimigos. Daí o conde teria inventado a expressão, que seria assim se ele se dirigisse aos seus comandados: “Macacos, (vocês) me mordam se eu não conseguir o meu objetivo, que é matar, e, consequentemente, vencer a guerra, contra Solano Lopez.” Ou ainda: (que) os macacos me mordam, referindo aos seus superiores (Tamandaré, Marinha; o Imperador, Comandante-em-chefe e Polidor, do Exército), que foram retratados por um jornal paraguaio como macacos, pois chefiavam gente escura e eles se aproveitaram disso para retratar o povo brasileiro, um castigo (mordidas) se ele não fizesse o que havia prometido aos seus superiores.


Militar brasileiro, de escravo a soldado.




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