sábado, 4 de março de 2017

Abandonado


Autor Desconhecido

1904


O menino estava sentado tão próximo à senhora de roupa cinza que todos tinham certeza de que ele era alguém de sua família; por isso, quando, inconsciente, ele encostou seus sapatos enlameados na ampla saia da mulher que estava à sua esquerda, ela virou-se para a senhora de cinza e disse:

‒ Desculpe-me, madame, mas a senhora poderia ter a bondade de ordenar a seu filho que tenha modos? Ele está sujando minha saia com seus sapatos enlameados.

A senhora de roupa cinza corou um pouco e empurrou levemente o menino.

‒ Meu filho? ‒ ela disse ‒ Por favor, ele não é meu filho.

O menino demonstrou inquietação. Era tão pequenino que não podia encostar os pés no chão.. Então, esticou-os diante de si, como se fossem dois varais para dependurar as roupas, e olhou para eles com ar de culpa.

‒ Sinto muito ter sujado sua roupa - ele disse à mulher à sua esquerda. ‒ Espero que seja fácil limpar.

‒ Ah, não tem importância ‒ ela disse. Ao ver os olhos do menino fixos nos dela, complementou: ‒ Você está indo para aquele lado da cidade sozinho?

‒ Estou, senhora ‒ ele disse. ‒ Sempre vou sozinho. Não tenho ninguém para ir comigo. Meu pai morreu, e minha mãe morreu também. Moro com a tia Clara, no Brooklyn, mas ela diz que a tia Anna também precisa ajudar a tomar conta de mim. Por isso uma vez ou duas vezes por semana, quando ela está cansada e quer ir a algum lugar para descansar, me manda passar uns dias com tia Anna. Estou indo para lá agora. Às vezes, eu não encontro tia Anna em casa, mas espero que ela esteja lá hoje, porque parece que vai chover, e eu não gosto de ficar andando na rua debaixo de chuva.

A mulher sentiu certo desconforto na garganta e disse, um tanto hesitante:

‒ Você é muito pequeno para andar por aí sozinho.

‒ Eu não me importo ‒ ele disse. ‒ Eu nunca fico perdido. Mas, às vezes, me sinto sozinho durante a viagem. Quando vejo alguém que poderia ser meu parente, fico bem perto dessa pessoa, só para fazer de conta que é verdade. Esta manhã eu estava fingindo que era parente desta senhora que está do meu lado e me esqueci de tomar cuidado com meus pés. Foi por isso que sujei a roupa da senhora.

A mulher passou o braço ao redor do rapazinho e puxou-o para perto dela com tanta força que quase chegou a machucá-lo. Os olhares lançados por todas as outras mulheres que ouviram aquela confidência sincera deram a entender que ela permitiria que o menino limpasse os sapatos em sua melhor roupa e que isso a deixaria satisfeita.


(Do livro “Histórias para o coração 2”, de Alice Gray
 – organização)

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