quinta-feira, 2 de março de 2017

João Gilberto em Porto Alegre



Quem trouxe João Gilberto para Porto Alegre, foi o Luis Telles, um dos componentes do conjunto que estourou nas paradas de sucesso em todo Brasil, na década de 1950. O conjunto era Os Quitandinhas Serenades, tendo como companheiros o Luís Bonfá, Francisco Pacheco e o Alberto Ruschel.

(...)

Quando Luis Telles saía com João Gilberto para darem uma caminhada, à tarde, pela Rua da Praia. Levavam o Norton* a tiracolo. Luis era muito popular e tinha um grande número de amigos. Toda vez que se encontrava com um amigo e parava para conversar, João saía de perto e se sentava no meio fio e ficava cantando baixinho, só para ele mesmo. Caso Luis parasse cinco vezes para atender amigos, cinco vezes João se sentava no meio fio. Luis ficava embaraçado com o comportamento particular de seu amigo e despachava seus outros amigos o mais rápido que pudesse para não passar mais vergonha com João.

Quem ainda pensa que João Gilberto faz um tipo, que ficou excêntrico depois que alcançou notoriedade nacional e internacional, está completamente enganado. Quando apareceu por aqui, já era o que hoje ainda é: uma pessoa de comportamento ímpar, diferente mesmo. Aliás, segundo Norton, ele até está mais calmo. João Gilberto apareceu aqui em Porto Alegre quando recém estava se formando o movimento da Bossa Nova. Os gaúchos, muito conservadores na década de 1950, não conseguiram entender a arte desse desconhecido que cantava baixinho e com uma divisão completamente diferente do estavam, acostumados. Eles entendiam Lupicínio, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves e outros do mesmo estilo. Isso gerou alguma resposta atrevidas de João Gilberto aos menos sensíveis ao seu tipo de música.

Certa ocasião, iniciou um de seus sambas, quando ainda se apresentava no Radim Clube. Ary Selhane resolveu acompanhá-lo com uma caixinha de fósforos. Num repente, João parou a música e falou:

‒ Minha música não precisa de acompanhamento, principalmente de uma caixinha de fósforo de um merda que nem isso sabe fazer! Colocou o violão embaixo do braço e ficou desempregado.

Ary era o dono do Radim Clube.

Noutra ocasião, no Clube da Chave, um clube privê, onde só entrava quem tivesse a chave da porta oferecida pelo proprietário Ovídio Chaves, João teve um sério incidente. A propósito, a grã-finagem achava o máximo dizer que tinha a chave da porta. Pois João Gilberto foi se apresentar para a seleta plateia. Assim que se ajeitou no banquinho e arrumou o microfone, foi apresentado por Ovídio.

‒ Senhoras e senhores, tenho o prazer de apresentar o cantor carioca Gilberto.

‒ Meu senhor. Primeiro eu não sou carioca. Sou baiano e meu nome é João Gilberto.

Na metade da música, uma grã-fina começou a rir muito alto, de frescuras com seu acompanhante. João parou, olhou para a grã-fina e, sem papas na língua, disse para quem quisesse ouvir:

‒ Fazemos uma troca, garota. Eu paro a música e você dá logo para ele pra nós vermos! Levantou-se irado e chegou bem mais cedo no Majestic. Com isso, perdera mais um emprego.

Foi a partir desses insólitos acontecimentos que aprenderam que João Gilberto só se apresentava para plateias educadas e que quisessem ouvir boa música.

Não tenho certeza, mas parece que ainda houve incidente semelhante no Clube do Comércio. Ele parou sua música devido a movimentação exagerada dos garçons e das batidas de talheres nos pratos, até que todos silenciassem.

Dos atos cometidos por João Gilberto, tem um que acho antológico. João gostava de ouvir música clássica. Como não tinha eletrola, peruava a da Casa Coates, na Sete de Setembro, embaixo do antigo prédio da Rádio Farroupilha. Quem atendia João era o Carlos Jacoboni**, um dos balconistas. João pediu algumas sinfonias de Beethoven e foi direto lá para o fundo colocar o disco numa enorme eletrola que ficava alta do chão, uns cinquenta centímetros. Ela era sustentada por quatro longos pés roliços. Quase uma hora depois, Jacoboni notou que a música continuava, mas João Gilberto havia desaparecido. Dirigiu-se até ao local e, quando chegou perto, viu uns pés debaixo da eletrola. Era o João, deitado de todo o comprimento, embaixo do equipamento de som.

‒ João, o que é que estás fazendo aí embaixo?

‒ Jacoboni, descobri! Aqui debaixo o som é muito melhor...

E eu, uma besta, lá no banco da praça, assistia ao Norton tomando vitamina com aquele cara, e não sabia que ele seria, pouco mais tarde, o grande João Gilberto.

Paciência...


(Do livro “Os Anos Dourados na Praça da Alfândega 2,
de José Rafael Rosito Coiro*** – 1995)



*Norton Lourenço Mello Fernandes. Apelido Sarará. Empresário. Leiloeiro oficial. Residia em Porto Alegre.

**Carlos Jacoboni: Juiz classista. Residia em Porto Alegre.

***José Rafael Rosito Coiro faleceu em 22 de agosto de 2007. Foi professor e , ainda, foi conselheiro do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.


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