quinta-feira, 23 de março de 2017

Origem etimológica da palavra Samba



“Batuque” - Johann Moritz Rugendas, Pintor alemão (1802-1858)


Sambar, nesse caso, ainda não era um verbo associado a nenhuma espécie de gênero musical. Continuavam sendo apenas uma maneira de fazer festa e dançar. Para alguns, a palavra seria originária da língua do povo quioco, de Angola – o verbo samba, que em português teria sentido de “brincar”, “cabriolar”, “divertir-se como cabrito”. No idioma quicongo, também angolano, existiria uma palavra similar (sàmba), para nomear um tipo de coreografia local, na qual os dançarinos bateriam o peito um contra o outro. Em quibundo, semba, com o significado de “separar”, “rejeitar”, definiria o movimento físico das umbigadas ou as mesuras típicas de danças africanas. Há quem defenda ser “Samba”, com maiúscula, na procedência mais remota, uma divindade angolana protetora dos caçadores. Entre outras hipóteses menos cotadas, existe quem busque um suposto parentesco ancestral com zambra, bailado ibérico de origem moura, ou mesmo com çamba, um tipo de dança ameríndia.

Polêmicas etimológicas e discussões bizantinas à parte, costuma ser consenso que a palavra “samba” teria sido grafada em letras de fôrma pela primeira vez em 1838, no jornal satírico pernambucano O Carapuceiro, no corpo de um artigo escrito pelo padre Miguel do Sacramento Lopes Gama, professor de retórica do seminário de Olinda. No texto, a propósito de tratar dos conceitos do bom e mau gosto, Lopes Gama fazia referência em tom pejorativo a um certo “samba d´almocreves”, batuque considerado grotesco pelo autor quando, por exemplo, comparado às óperas do compositor italiano Gioachino Rossini. Os almocreves, vale dizer, eram os trabalhadores encarregados de conduzir burros de carga, o que associaria o samba a uma classe social inculta e abrutalhada.

Ao se escarafunchar os jornais de época, contudo, constata-se que o termo fora usado pela imprensa oito anos antes. Na edição de 4 de agosto de 1830, sob o pseudônimo de “O Imperialista Constitucional”, um colaborador do Diário de Pernambuco já o citara, também com sentido negativo. Ao comentar a decisão do governador das armas de transferir para o interior da província alguns oficiais acusados de facilitar fugas de prisioneiros do forte das Cinco Pontas, em Recife, o autor do texto protestara: “A ociosidade disporá aos mais bem conduzidos a se entreterem nas pescarias de currais e trepações de coqueiros, em cujos passatempos serão recebidos com agrado a viola e o samba”.

(Do livro “Uma História do Samba – as origens”, de Lira Neto)



Batuque: Johann Moritz Rugendas



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