quinta-feira, 16 de março de 2017

Os burros



É preciso acabar com esse desprezo, ou com esse equívoco. Os burros não são burros. Olhem os olhos deles. Podem ser teimosos, à vezes; às vezes, podem ser maus. Buffon, que sabia mais do que nós, explicou que os burros ficam assim quando o sofrimento lhes mostra, depois de muitas provações, que os homens não prestam.

A melhor defesa das culpas inventadas contra os burros é o amor que lhes têm tido os poetas. La Fontaine fez exceção. Os animais das Fábulas, porém, são homens disfarçados.

Eu gosto dos burros. Principalmente dos que andam na dura lida, sobre as pedras das ruas, sobre o barro das estradas, ao sol, à chuva, dia e noite. Tristes, tristes. Sem uma queixa.

Que humildade! Que paciência! Que coragem! Pensam para dentro. Não procuram impor nem a sua vontade nem a sua opinião. Obedecem. Zurram. É um modo de dizer que não têm nada com isso. Se foram à guerra, foram levados. Combateram os filisteus, resumidos numa caveira, que Sansão brandiu, criando o mais puro dos símbolos. Um burro assistiu ao nascimento de Jesus. Um burro levou Jesus para a entrada festiva em Jerusalém.

Não é fácil julgar criaturas de tamanha discrição. Dos burros, além dos nosso pontos de vista, só possuímos a aparência. Aparência que varia, conforme os nossos pontos de vista. Há quem os ache ridículos. Há quem os ache sublimes. São bonitos, ou feios, de acordo com os temperamentos.

Já existe tanta crítica, de tanta coisa. Para que crítica aos burros? Bom é lhes querer bem, admiti-los, tais quais se revelam, incapazes de aborrecer os outros, inimigos da publicidade, calmos, resignados, melancólicos. Talvez, no mundo interior, conservem a alegria da infância, muito escondida, e continuem brincando com ela. O aspecto que vemos, vivido, será para uso externo: a inocência deteriorada.

Quanto ao coice... quem nunca de um coice, que atire nos burros a primeira pedra.



(Do livro “As amargas, não...”, de Álvaro Moreyra*)


*Álvaro Maria da Soledade Pinto da Fonseca Velhinho Rodrigues Moreira da Silva (Porto Alegre, 23 de novembro de 1888Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1964) foi um poeta, cronista e jornalista brasileiro.

Modificou voluntariamente o longo nome de família para Álvaro Moreyra, com y, para que esta letra “representasse as supressões” destes nomes.


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