quarta-feira, 26 de abril de 2017

Coisas da polícia de choque



A criação e o fardamento

A Guarda Civil, desde a sua criação, rezava o discurso, deveria se pautar “dentro dos princípios da polícia preventiva, branda, maneirosa e assistencial...”, mas cuidando de reforçar, também, o aspecto da força, declarando “... sem prejuízo de ação firme, quando necessária ela se tornasse.”

A partir de 1938, já em tempo da ditadura, o Estado Novo assumindo sua face autoritária-policialesca, vem exigir uma ampliação das responsabilidades da corporação, preparando-a para a repressão violenta das manifestações de rua contrárias aos interesses do regime. É criado dentro da Guarda um grupo especial que se encarregaria, especificamente, desse trabalho. Ganharia o nome de “Policia de Choque”, e mesmo que, depois, viesse a mudar a denominação oficial, assim seria conhecida, enquanto existiu, pelos porto-alegrenses. Que, aliás, ao contrário das simpatias que manifestavam pela Guarda Civil, detestavam profundamente esse grupo, com o qual tantas vezes se envolveria em episódios violentos. Tinham uniformes diferentes dos demais guardas. Usavam, invariavelmente, a cor cáqui, que também era a cor dos uniformes de verão dos outros guardas. Seu quepe era vermelho; tinham cinturão por cima da bata russa, abotoada até o alto. Alguns o chamavam de “Cardeais”, mas o povo os chamava de “cabeça de tomate” ou “cabeça de pica”.

A batalha perdida do “Choque”

Lá por volta de 1945 e num lugar muito especial: a rua Cabo Rocha (Atual rua professor Freitas de Castro, Bairro azenha). Era um tempo que o “Choque” ainda tinha o “Bagre”, o “Xingu”, o Hiturbes, o Viafone, o fiscal Gamaliel... E foram eles, junto com outros que nunca soubemos os nomes, os personagens da maior briga já travada contra os marítimos (Esses homens eram estivadores, homens fortes acostumados a levantar peso todos os dias no trabalho diário. A lenda diz que a briga foi contra os marinheiros, mas não é verdade). Foi num cabaré, que existiu lá pela metade da rua, o “Gato Preto”. Cabaré já antigo, com uma certa tradição de lugar correto, de boas profissionais e de pouca briga. Tinha até uma freguesia cativa entre o pessoal dos marítimos, já que a casa pertencia a um ex-embarcado. O dono do “Gato Preto” não queria saber de “leões-de-chácara”. Se a coisa engrossava, chamava a polícia e pronto. Pois foi o que aconteceu naquela noite: a coisa engrossou e o dono chamou a polícia. A 2ª Delegacia mandou um guarda civil. Geralmente era o suficiente. O pessoal respeitava a Guarda, mas aquela noite seria uma noite de exceções.O guarda chegou e já saiu sendo desacatado, xingado, enxotado...Azar do guarda. Apanhou porque foi lá no dia errado.

“Chama o Choque!” E foi o que o delegado mandou fazer, tão logo ouviu o relato do guarda. “Eles vão lá e cagam a pau esses sem-vergonhas que não sabem me respeitar o guarda.” Não demorou muito, já se ouviu a sirene do caminhãozinho do “Choque”, fazendo a curva da Azenha, nem parou na 2ª Delegacia – foi direto para o cabaré da Cabo Rocha.

Já desceram dando borrachadas em tudo que se movia ou respirava. Era a famosa “cordialidade” do “Choque”. Pau e pau. Mas então, outra exceção, os marítimos não se intimidaram e partiram para a retribuição das gentilezas. Mais pau e pau. O negócio foi ficando feio, o tempo foi passando, o “Choque” não ganhava, os marítimos se organizavam. Era hora de pedir reforços. E nem podia ser diferente, se não resolvessem a parada no ataque inicial, no primeiro pulsão, perdiam o fôlego e tinham que buscar reforço. O fiscal mandou o motorista buscar reforço. Não demora muito e vem outra leva, ainda que menor, dos homens do “Choque”. Juntam-se a eles os guardas dos setores próximos. Os marítimos vão, aos poucos, cedendo terreno. Começam a recuar. Ainda estão em maior número, mas a diferença é pequena e os homens do “Choque” estão mais bem equipados. Hora de chamar reforço, também. Um carro de praça parte rápido para buscar mais gente no centro. Tinha gente nos bares da Mauá e nos do Mercado, nos bordéis do início da Voluntários, nas dezenas de espeluncas e botecos dali mesmo, nas chatas da doca das Frutas, nos navios ancorados no porto, enfim em todos os lugares para quem soubesse procurar. Em poucos minutos, velhos Chevrolets e Fords, da praça do Mercado vão ficando abarrotados de uma horda truculenta de brigões sedentos pra dar porrada! Juntavam-se estivadores, arrumadores, ajudantes de caminhão, gente que trabalhava na faixa portuária. Frequentadores de botecos do Mercado, da Voluntários, enfim todo mundo que tinha alguma diferença com o “Choque”. Tinha até um “General” comandando a operação, era o Pacheco, homem do Sindicato dos estivadores e de quem se dizia, a boca pequena, ter vinculações com o Partido Comunista e com a campanha “queremista”. Seja lá como fosse, o Pacheco, do alto de sua imensa barriga, com aquele vozeirão grave que lhe era marca registrada, transmitia, resoluto, as ordens arregimentadoras: “Ligeiro, camaradas, nossos irmãos necessitam de nossa solidariedade. Embarquem todos, não podemos permitir que as forças da repressão massacrem os trabalhadores. Disciplina revolucionária, camaradas. Esmaguem os inimigos do operariado. Embarquem rápido, camaradas!”

O “front” era uma pancadaria generalizada. Há muito já tinha extrapolado os limites do “Gato Preto” e tomava conta de boa parte do meio da rua. Os contendores mantinham-se agrupados e se enfrentava em linha, como falanges macedônicas. A gritaria era infernal. Todos berravam as mais tenebrosas imprecações. Já tinha guarda com o cacetete de borracha partido em dois. Batiam de mão fechada, então. Na realidade, aquela era uma batalha campal organizada. Tinha regras, lutavam mesmo a soco, nenhum tiro havia sido disparado e nem seria até o final.

Aos guardas, juntaram-se as últimas reservas disponíveis no quartel. Agora, se houvesse necessidade de mais reforço, só apanhando os que estavam de serviço nos setores espalhados pela cidade. E isso seria uma desmoralização para os homens do “Choque”. Uma nódoa em sua ilibada reputação. Nada disso, agora era uma questão de honra – lutariam com os recursos disponíveis até o final. Problema era o “vigor da mão proletária”. E que vigor!

E continuaram brigando ao longo de toda a madrugada, sem trégua, sem parada para descanso ou para pedir clemência. Desistiram pouco depois do amanhecer quando não aguentavam mais. Ambas as facções. Cansados, estropiados, todos arrebentados e em frangalhos, com hematomas disseminados por todo o corpo, foram arrefecendo a fúria e a luta foi perdendo o ímpeto naquela longa noite da Cabo Rocha.        

No dia seguinte, na sede do Sindicato, Pacheco afirmava convicto: “Foi a Stalingrado deles. As forças populares souberam honrar a palavra de ordem da Passionara, “no passarán”, e eles não passaram. Vitória do proletariado organizado.”

Pelo visto, o único perdedor foi o dono do “Gato Preto” que teve sua casa completamente destruída. Por muitos meses foi obrigado a manter uma espécie de imposto sobre o “mixê”, a coisa que desagradava muito as “trabalhadoras” da casa. Ele se defendia dizendo aos gritos; “E aí, o que é que vocês querem. A casa tem de ser consertada ou então vai todo mundo trepar nas moitas!” Tinha alguma lógica...


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Livro consultado:
 Os Vigilantes da Ordem,
guarda, cachaça e meretrizes,
de Rejane Penna e Luiz Carlos da Cunha Carneiro.
Editora Fotoletras


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