domingo, 9 de abril de 2017

Duas versões para a mesma estrofe*


A estrofe incorreta:

Ouça-me bem, amor,
presta atenção, o mundo é um moinho,
vai triturar teus sonhos tão mesquinhos,**
vai reduzir as ilusões a pó...

A estrofe correta:

Ouça-me bem, amor,
Presta atenção, o mundo é um moinho,
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho,**
Vai reduzir as ilusões a pó.

*Estrofe → Conjunto de versos → verso cada linha de um poema.

**Mesquinhos, na primeira estrofe, a incorreta, é um adjetivo que se refere ao substantivo sonhos, significando pobre, insignificante, mísero.

**Mesquinho, na segunda estrofe, a correta, da mesma música, que se refere a mundo, significando: não generoso, não gosta de dar, avaro.

E qual seria a intenção do compositor Cartola? Na internet há as duas versões.

Mas, na contracapa do LP “CARTOLA”, lançado em 1976, está a seguinte letra, que, creio eu, com a devida aprovação do compositor:



O mundo é um moinho

Ainda é cedo, amor,**
Mal começaste a conhecer a vida,
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar.

Preste* atenção, querida,**
Embora eu saiba que estás resolvida,
Em cada esquina cai um pouco tua vida,
Em pouco tempo não serás mais o que és.

Ouça-me bem, amor,
Preste* atenção o mundo é um moinho,
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho,
Vai reduzir as ilusões a pó,

Preste* atenção, querida,
De cada amor tu herdarás só o cinismo,
Quando notares estás a beira do abismo,
Abismo que cavaste com teus pés.

Erros gramaticais:

**Amor e querida são vocativos e devem sempre estar entre vírgulas;

*O verbo prestar deve estar no imperativo afirmativo da segunda pessoa do singular: presta (tu).

O compositor flexiona o verbo em todos os tempos usando a pronome pessoal “tu”, logo deve concordar sempre na mesma pessoa.

E para quem cartola fez esta música?

Parte de um texto de Sidnei Schneider*

Cartola não gerou filhos, embora tenha criado os de Deolinda e Dona Zica, adotivos ou não. Nascido Angenor de Oliveira, ele e Deolinda, sua primeira esposa, adotaram Creuza Francisca dos Santos (1927-2002), nascida no Morro da Mangueira, filha de Rosa do Espírito Santo e Agenor Francisco dos Santos. Estes, os pais biológicos, eram amigos de Cartola e Deolinda, sendo esta última madrinha de batismo da menina. Quando Rosa, a mãe, faleceu em 1932, Creuza tinha apenas cinco anos, e Deolinda e Cartola, juntos há sete naquela época, ficaram com ela. Artista precoce, Creuza começou a cantar aos 14 anos, acompanhando Geraldo Pereira, outro grande compositor de Mangueira, em apresentações na Rádio Nacional, nas quais também cantava músicas de Cartola, que a levava e ensaiava. Assim, a menina aprendeu composições que mais tarde, com a morte do pai, resgataria da memória, inclusive várias inacabadas. Por essa época, integrou enquanto corista o grupo As Gatas, que acompanhava Herivelto Martins. Na década de 1960, apresentou-se ao lado de Cartola em shows na Boate Jogral (Ribeirão Preto-SP), no Zicartola e no Teatro Opinião (RJ), e também cantou ao lado de Genaro da Bahia.

Irineia dos Santos, a mais velha dos cinco filhos de Creuza, disse que Cartola compôs “O mundo é um moinho” ao refletir sobre o que reservaria a vida para Creuza, então uma menina de 16 anos, que passava a se interessar pelos rapazes. Preocupações de qualquer pai amoroso em relação a sua filha, às quais é preciso somar a noção de liberdade artística. Cartola, igual a qualquer compositor, devia interessar-se pelo que a canção podia dizer aos outros, os seus ouvintes, e jamais a reduziu à situação doméstica. Visto que relevante é a maneira como cada ouvinte se apropria da canção, tornando-a pertinente à sua vida e experiência, e eu nem relataria o que relatei não fosse a necessidade de refutar algo tão ignominioso. O poeta e abolicionista Cruz e Sousa, no livro Faróis, ao antever as dificuldades do seu rebento na sociedade escravocrata, produziu algo de tom similar no poema “Meu Filho”: “Minh’alma se debate e vai gemendo aflita/ No fundo turbilhão de grandes ânsias mudas:/ Que esse tão pobre ser, de ternura infinita,/ Mais tarde irá tragar os venenos de Judas!”

(Do jornal A Hora do Povo)


*É poeta, contista, tradutor e colaborador do HP. Publicou os livros Andorinhas e outros enganos (Dahmer, 2012), contos, e Quichiligangues (Dahmer, 2008), poesia, entre outros.


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