segunda-feira, 3 de abril de 2017

E tome polca


José Maria de Abreu e Luiz Peixoto


Num sarau,
Na rua Itapiru,
Em casa das Novais,
O calor está abrasador,
E tem gente demais,
Mas tome polca!

Num sofá,
A Dona Jacintinha
Faz bolas de papel,
E na janela, de papelotes,
A Berenice namorisca o Furriel.

A reclamar silêncio,
Surge o Seu Fulgêncio,
Rotundo e bom comendador.
Sim, porque, nesta altura,
Chega o padre cura
Com o corregedor.

“Hã, hã, senhorita,
A honra desta dança
Acaso me quer dar?”
“Oi, cavalheiro!
A honra é toda minha,
Porém já tenho par!”
E tome polca!

Entra o Sousa,
Que vem pisando em ovos
Com
as botas de verniz,
Enquanto a esposa,
De olhos em alvo,
Fica torcendo
Os cabelinhos do nariz.

Por trás de uma cortina,
Vê-se a Minervina,
Que é mais preta que um tição,
E diz entre risadas:
“Quebra, Dona Alice!
Quebra, Seu Beltrão!”

Atenção!
Acordes da Dalila,
Seu Gil vai recitar:
Formam roda,
E o moço, encalistrado,
Começa a gaguejar.
To-to-Tome polca!

Vem o chá,
Bolinhos de polvilho
E outros triviais.
São onze horas,
Apague o gás,
E assim termina
O bailarico das Novais.
E tome polca!


Polca

Dança de salão em compasso binário, geralmente em tom maior e andamento alegreto, originária da Boêmia (parte do império austro-húngaro, depois Thecoslováquia e atualmente República Theca). Chegou a Paris em meados dos anos de 30 do século XIX, difundindo-se daí para todo o mundo ocidental e tornando-se nele a principal dança de salão. Chegou ao Brasil na noite de 3 de julho de 1845, quando foi mostrada pela primeira vez no teatro São Pedro, (atual João Caetano), no Rio de Janeiro, pelos casais Felipe e Carolina Catton e de Vecchi e Farina. Foi tão grande o sucesso que, três dias depois, o casal Catton abriu um curso de polca. Três meses após, o jornal humorístico “Charivari” dizia que “se dançava à polca, andava-se à polca, trajava-se à polca, enfim tudo se fazia à polca”. Em 1846, criou-se a Sociedade Constante Polca, que anunciava bailes carnavalescos com a quadrinha:

Chegai, senhores, chegai!/Vinde o adeus receber/Da polca que será nossa/Mesmo depois de morrer! Literatos, compositores e chorões concordavam em elogiar a nova dança. Machado de Assis, numa crônica, disse: “A polca é eterna, enquanto não houver mais nada, nem sol, e tudo tornar às trevas, os últimos dois ecos da catástrofe derradeira usarão ainda, no fundo do infinito, esta polca, oferecida ao criador: Derruba, meu Deus. Derruba.” Pixinguinha, por sua vez, falando ao Museu da Imagem e do Som, confirmou: “Quando eu fiz o Carinhoso (por volta de 1916 ou 1917), era uma polca. Polca lenta. Naquele tempo, tudo era polca, qualquer que fosse o andamento.” O velho chorão Alexandre Gonçalves Pinto, no livro “O Choro”, de 1935, juntou sua voz popular ao coro: “A polca é como o samba – uma tradição brasileira. A polca é a única dança que encerra nossos costumes, a única que tem brasilidade.” Esses elogios encontravam razão de ser na fusão dos elementos da polca com os afro-brasileiros do lundu, e na aceitação da rítmica daí resultante pelos conjuntos populares de flauta, cavaquinho e violão, gerando gêneros como o tango (brasileiro), o maxixe e, posteriormente, o próprio choro. Essa aceitação chegou a atingir o meio rural, criando um tipo de polca sertaneja, cujo caráter melódico e rítmico se afasta do original estrangeiro, e um outro tipo denominado puladinho. (Arthur de Oliveira)

(Do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira)

*Há, na internet, um vídeo de um filme argentino de 1955, com a cantora brasileira Marlene interpretando, num teatro, a música E tome polca! Vale a pena assisti-lo.



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