segunda-feira, 10 de abril de 2017

O amansa-burros


Barbosa Lessa


Ao longo do século XVIII a Capitania do Rio Grande de São Pedro já havia dedicado muita atenção ao estabelecimento de quartéis – para suprimento de soldados às guerras de fronteira -, mas nada se fizera ainda na órbita da instrução pública ou particular. Aqui, quem sabia ler ou escrever é porque havia aprendido, meio aos trancos e barrancos, com autoridades religiosas ou civis chegadas do Reino ou de Capitanias mais civilizadas.

Mas eis que, na primeira semana de 1800, a população porto-alegrense recebeu o impacto de um anúncio pendurado junto à ponte, na Rua da Ponte (hoje Riachuelo), dizendo assim: “Antônio d’Ávila, recém-chegado a este Continente participa ao público que vai abrir uma escola para ensinar a ler, escrever e contar e doutrina cristã. As pessoas que quiserem se aproveitar de seu préstimo podem trazer os seus filhos para a dita escola”. Aos interessados, que conseguiram localizá-lo, acrescentou duas condições: o aluno não poderia contar mais do que oito anos de idade, e cada pai pagaria duas patacas por mês.

Nunca se soube ao certo de onde tinha vinda o homem – parece que do Reino de Portugal – nem qual era essa família “d’Ávila” a que pertencia. Mas não tinha importância. Logo a sua escola começava a funcionar, com um total de 50 guris analfabetos – e ele ganhava um apelido que se sobrepôs a seu próprio nome de batismo: Amansa-Burros.

A sala de aula se caracterizava, à esquerda, por três ordens de arquibancadas, semelhantes às de um circo de cavalinhos, onde se distribuíam os piás. Ao centro, uma poltrona de couro, para o mestre, tendo às costas, pendurada na parede, uma cruz de madeira pintada de preto. E à direita um banco mais alto, desempenhando a função de escrivaninha, além de um tamborete individualmente utilizado na hora em que o aluno precisava prestar suas provas orais.

À medida que o curso ia progredindo, Amansa-Burros selecionava, dentre os alunos, até quatro “decuriões”,* para prestarem ajuda aos mais atrasados, além de um “decurião-mór” investido da função de auxiliar direto do mestre, inclusive nas questões de disciplina.

A escola era aberta às 7h30min da manhã. Quando os discípulos já estavam todos acomodados, entrava o professor. A gurizada se levantava, cantando “Bons dias!”, e em seguida recebia sinal para que tornasse a se abancar.

Felicíssimo de Azevedo, contemporâneo do Amansa, dele deixou a seguinte descrição: “Seu aspecto inspira antipatia: um semblante sempre carregado, seus olhos negros e encovados mostram medo às crianças, que tremem só com a sua presença”.
  
O curso principiava com a distribuição de um pedaço de papelão onde o mestre grudava um abecedário manuscrito. Na etapa seguinte já se grudavam as “cartas de nomes”, com as várias letras se ajustando em vocábulos básicos. A seguir, começava a escrita, com o mestre ditando passagens da Bíblia – para respeito a Deus – e sentenças judiciais como aquela que condenara Tiradentes à forca – para respeito ao Rei. Aquilo que havia sido escrito era então lido sob a forma de cantochão, em coro. E ai de quem desafinasse, pois a palmatória logo saltava da poltrona do professor…

Esse castigo, à base de “bolos” de palmatória, era uma constante ao longo de todo o curso. Três vezes por semana havia uma espécie de “prova” individual, para avaliar se o aluno já escrevia corretamente, e em cada papel o mestre ia acrescentando os números 0, 2, 4, 6 ou 8. Esse o número de “bolos” a que o guri era condenado, à proporção das besteiras que fosse cometendo. E geralmente o castigo se tornava ainda mais frequente com as aulas de gramática latina, quatro operações aritméticas, regra de três e uma conta de juros. Então o guri subia ao tamborete, para ver o que era bom. “Só este aparato deixa a criança em tal excitação” – acrescenta a evocação de Felicíssimo de Azevedo – “que nada sabe responder, resultando sair o menino da escola às vezes com as mãos inchadas, sendo preciso lavá-las com salmoura para evitar a inflamação”.

Além do curso elementar, Amansa-Burros também dava cursos especiais de Latim – com duração de cinco anos, em que demonstrava brilhante domínio de textos clássicos como os de Virgílio, Horácio e Ovídio – e de Francês. Nesta língua viva, porém, frequentemente ele se enredava feio, e bem que merecia ganhar uns “bolos” para deixar de ser burro.

 *decurião = monitor

(Do Blog Extra Classe.org.br)




Antônio D’Ávila, o Amansa-Burros, foi um educador luso-brasileiro. Foi um dos primeiros educadores de Porto Alegre, tendo pouco após chegar ao Brasil, aberto uma escola, em 8 de janeiro de 1800. Teve como alunos, entre outros, Antônio Alves Pereira Coruja e Francisco Isidoro de Sá Brito.

Aliás, falando em “amansa-burro”,
você sabe qual a origem dessa expressão?

Segundo o Prof. Ari Riboldi, há três versões:


a) Em latim, “burrus” quer dizer vermelho, ruço, encarnado. Antigamente, os dicionários tinham capas vermelhas, o que pode ter levado à ideia de que a pessoa que recorresse a esse livro era curta de inteligência. O dicionário ficou conhecido, no meio popular, como amansa-burro e também pai dos burros. Puro preconceito, pois quem recorre ao dicionário quer aprofundar um tema, buscar novos significados, pesquisar mais detalhes, enfim saber mais;

b) conta uma história que uma moeda antiga tinha uma estampa de um rei não muito esperto e com uma enorme cabeça, semelhante à de um burro, o que teria levado à infeliz associação entre o bicho e a falta de inteligência;

c) a terceira versão está vinculada à lenda grega do rei Midas, que, por tolice, contrariou o deus Apolo, tendo, por isso, recebido, como castigo, enormes orelhas de burro.



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