domingo, 16 de abril de 2017

O que a escola, às vezes, consegue.


Não é possível ser inspirado por uma ideia
e seguir como se nada tivesse acontecido.


Sempre gostei da sala de aula. Assim que terminei a residência médica, fiz concurso para a função de professor auxiliar de ensino da então Faculdade Católica de Medicina, uma escola que vi crescer e aprendi a amar como uma das extensões da minha vida que mais gostei de viver. O convívio diário com os estudantes me ensinou o encanto do olho brilhando quando alguma coisa que dizemos mexe com os sentimentos de quem, sem perceber, fecha o virtuoso círculo pedagógico, porque a relação aluno/professor só se completa quando os dois voltam diferentes para a aula do dia seguinte. Não é possível inspirar ou ser inspirado por uma ideia nova e seguir a vida como se nada tivesse acontecido.

Como não existem duas turmas iguais, porque as pessoas, felizmente, são diferentes, o desafio da conquista de confiança e afeto se renova em cada novo trimestre. O sentimento é idêntico ao descrito por artistas veteranos que confessam que o frio na barriga ao entrar no palco os acompanha até a aposentadoria ou a morte, que não por acaso são sinônimos para quem faz o que faz no limite da paixão.

Algumas turmas são especialmente difíceis e a conquista, mais desafiadora. Na nossa faculdade, a maioria dos grupos, quando chega para a cirurgia torácica, já passou por cirurgia plástica, urologia e ortopedia, de modo que, se uma determinada turma é mais complicada, as noticias chegam antes.

Foi assim com aquela turma, que o nosso insubstituível Roberto Chem, com seu humor ácido, definiu como “um grupo marca diabo, uma gangue, e mais do que isso, uma gangue com líder!”

Já tinha quase esquecido essa advertência quando entrei na sala para uma turma nova e soube, instantaneamente, que eles tinham chegado.

O alarido que ignorou a entrada do professor, as roupas despojadas, as camisetas do Sepultura (uma banda que em algum momento do século passado simbolizou rebeldia), os tênis luminosos no calcanhar repousando nas cadeiras da frente, tudo, enfim, apontava para uma barra pesada a desafiar o convencional. Tendo percebido que alguma coisa tinha de ser feita agora, tive uma ideia boa: “Pessoal, além de cirurgia torácica, tenho um interesse antropológico: como há uma diversidade de caminhos para se chegar à nossa escola, gostaria que vocês me ajudassem numa pesquisa paralela: Qual é a procedência dos nossos atuais acadêmicos? Não se assustem porque a pesquisa é simples. Só peço que vocês se comportem aqui como se estivesse nas suas próprias casas e saberei, imediatamente, da origem social de vocês.”

Apanhados de surpresa, sem chance de ensaiar uma pose de rebelde irreverente, todos se retraíram e, em 10 segundos, tínhamos uma turma de gente jovem e bonita, em atitude compatível com estudantes de uma Faculdade Federal de Medicina. Acho que foi o primeiro confronto daquela turma com uma realidade que a circunstância inesperada apenas antecipou. Quando lhes disse que queria agradecer em nome dos futuros pacientes que tratariam, porque os enfermos sabem como ninguém valorizar uma atitude respeitosa que lhes dediquemos num momento de fragilidade máxima pela doença, soube, instantaneamente, que os tinha conquistado.

O “marca diabo” sabidamente é inteligente, até porque de outra maneira não sobreviveria.

Direcionar para o bem aquela energia aparentemente maligna é um dos maiores e mais gratificantes desafios para qualquer professor.

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J.J. Camargo é cirurgião torácico e diretor
do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre

(Do Caderno Vida de Zero Hora, abril 2017)




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