domingo, 9 de abril de 2017

Pérolas de Aldir Blanc



Aldir Blanc sempre foi pra mim uma referência como letrista, e depois como cronista. Aliás, muitas de suas letras já eram crônicas, que traziam pequenas histórias e personagens. Passei a prestar maior atenção no letrista a partir de sua parceria com João Bosco, que eu descobri maravilhado ainda adolescente. Depois vim saber que aquele Aldir que eu pensava estar descobrindo naquele período, eu já conhecia e nem sabia. “Amigo É Pra Essas Coisas”, “Nada Sei de Eterno”, “De Esquina Em Esquina”, músicas que eu conhecia dos antigos festivais universitários da TV Tupi, eram letras suas, sem que eu soubesse. Depois, anos mais tarde, conheci o Aldir cronista, através de sua coluna no jornal O Pasquim, crônicas que depois foram reunidas em dois livros (“Rua dos Artistas e Arredores” e “Porta de Tinturaria”). Abaixo selecionei algumas frases curtas, verdadeiras pérolas de uma prosa poética, carregada de sensibilidade e um refinado humor:

“O amor tanto se mete a edredon que acaba virando colcha de retalhos.”

“Às vezes, eu me provo tão velho quanto esses biscoitinhos que a gente serve pra visita inesperada. E ainda mais falso que o sorriso de 'que surpresa!'”

“Todo escândalo de adultério deve comportar uma trégua pro cafezinho.”

“Na inauguração do novo Distrito Policial coube ao Secretário de Segurança dar o pontapé inicial.”

“A casa era exatamente o que eu esperava. Um jardim, aquelas garrafinhas pra beija-flor, o maior sossego. Respirei fundo e fiquei repetindo pra mim mesmo: 'Puxa! É impossível que alguém se sinta infeliz num lugar assim'. Eu tava me sentindo muito infeliz.”

“Nos jogos do amor eu sempre perco porque sou amador.”

“... na varanda de uma casa em Paquetá, a moça sorri:
‒ Mas nós nos conhecemos tão pouco, amor!
E dentro da casa, a mãe da moça resmunga:
‒ Eu conheço bem esse filho-da-puta.”

“... em Vila Isabel, meu avô Aguiar me explica:
‒ Nos fins de domingo sempre se pensa na morte. Chato é que às vezes a gente morre mesmo.”

“...passa aos gritos o Carro de Bombeiros, girando a pupila vermelha na grande órbita da noite, insano como os olhos verdadeiros solitários, solidário como os verdadeiros insanos. Um homem fala sozinho:
‒ Em algum lugar há fogo, Zelda. Meu coração inveja.”

“... penso nos teus cabelos e naquelas frases todas, não sei por que estou dizendo tudo isso. Por favor, não ria. Eu poderia escrever um livro sobre nós dois, enquanto, com o piano de Teddy Wilson, Billie Holiday me ensina que depois de tudo isso:
‒ I'll never be the same.”

(Do Blog Tarati Taraguá)


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