quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Cola


Luís Fernando Veríssimo


(Desenho de Fúlvio Pacheco)


A ideia de reunir a turma 25 anos depois da formatura parecera ótima, mas o César se arrependeu de ter aceito o convite assim que viu quem sentara ao seu lado na churrascaria. O Marçal. Logo o Marçal!
– E aí, velho?
– Tudo bem. E você?
– Quero saber tudo. Casado? Divorciado? Filhos? Netos?
– Casado. Dois.
– Grande!
O Marçal o cutucara. Aquilo ele tinha esquecido. O Marçal cutucava. O “grande” viera acompanhado de uma cutucada no braço. A cutucada doera.
– E você? – perguntou César, tentando se afastar do Marçal.
– Dois casamentos. O que é que eu estou dizendo? Três. Acabei de me divorciar da terceira. Nenhum filho.
– É mesmo?
– Você não pensa que eu esqueci, pensa?
– Do quê?
– Da cola que você não me deu.
– Cola? Eu?
– Você não lembra? Claro que lembra. A cola que eu pedi e você negou. Por princípio. Lembra?
Outra cutucada. Mais forte.
– Não me lembro de nada.
– Lembra, lembra. Você era o primeiro da turma. Não me deu cola por uma questão de princípios. E ainda me deu uma lição sobre princípios. Por causa dos seus princípios, eu quase rodei no exame. Me formei ali, ali. Com as minhas notas baixas, sem qualquer recomendação, não tinha nenhum perspectiva depois da formatura. Fui trabalhar vendendo carros. E sabe o que eu sou hoje? Hein? Hein?
Cutucada. Cutucada.
– O quê?
– Milionário! Ao contrário de você que é... O que você é, mesmo?
– Advogado.
– Advogado, claro. Você se formou como primeiro da turma. Todas as portas se abriram para você. Aposto que é um advogado corretíssimo. Tem uma vida corretíssima, uma mulher corretíssima, filhos corretíssimos. Tudo que merece um homem de princípios. Grande!
– Pare de me cutucar.
– O quê?
– Não me cutuque!
– Salsichão?
O garçom colocara um espeto entre os dois. César fez um gesto para Marçal.
– Você primeiro.
– Não, não. Você. Quem tem princípios, principia.
– Vamos esquecer essa história? Afinal, faz 25 anos.
Marçal ficou em silêncio, olhando para o seu prato vazio. Não aceitou salsichão. Nem coração de galinha. Quando veio a picanha, virou-se para César e cutucou-o outra vez no braço. Desta vez, de leve. Pediu:
– Me fale da sua família. Da sua vida.
E confessou que quando vira o César na mesa pedira para sentar ao seu lado. Precisava saber tudo a seu respeito. Tudo. Numa boa. Sem ressentimentos. Como tinham sido os 25 anos com princípios do César, em contraste com os seus 25 anos sem princípios, em que fracassara em três casamentos, não tivera filhos, não fizera nada de útil, só enriquecera. O César se importava?
– Não – disse César. – Só não me cutuque.

       

(Luís Fernando Veríssimo – 26 de setembro de 1936, Porto Alegre-RS)

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