sábado, 13 de maio de 2017

Cruz e Sousa: família, trabalho e pobreza


Poeta negro de luminoso rastro


O jovem poeta Cruz e Souza

"De um talhe espiègle e elegante, muito preocupado com sua pessoa, Cruz, como os pais não precisassem de seu auxílio para viver, gastava tudo o que ganhava, nas lições particulares que tinha, em trajes variados, finos e bem-feitos, pelo que andava muito asseado e bem vestido, despertando ainda, por esse lado, maiores odiosidades e invejas. Tinha uns dentes belíssimos e alvos, fazendo quando sorria, uma pequenina lua de opala, a sua boca negro-escarlate, onde bailava uma ironia casquilhante e perene. Sempre inspirado e feliz, caricaturista endiabrado e perfeito no verso pilhariço e trocista, trazia a Velha Escola acossada, flagelada e coberta de imenso ridículo."

(Virgílio Várzea)



(Cruz e Sousa: 1861-1898)

Em 1891 Cruz e Sousa havia conhecido Gavita Rosa Gonçalves. A moça trabalhava numa oficina de costura e fora criada na casa de um médico conhecido, o Dr. Monteiro de Azevedo. Logo se iniciou um romance entre os dois.

Gavita e João da Cruz e Sousa sonhavam com o casamento, que não aconteceu pela pobreza de ambos.

Em 1893, Cruz e Sousa e Gavita já viviam como marido e mulher, apesar de péssima condição financeira do poeta. Casam-se em novembro desse ano, com Gavita já em estado adiantado de gravidez.

Para custear o sustento da recém-formada família, o poeta solicitava de amigos sucessivos empréstimos, que, na maioria das vezes, lhe eram negados.

No final de 1893, provavelmente graças ao auxílio de Nestor Vitor, o poeta consegue o humilde posto de praticante de arquivista na Central do Brasil. O irrisório salário que ganhava garantia-lhe, ao menos, o pão cotidiano, embora não lhe tirasse da incômoda situação de pobreza.

O poeta negro estreita laços de amizade com Nestor Vitor, com o qual tinha intensa afinidade intelectual.

Em 1894 ele é promovido a arquivista da Central do Brasil. Mas o pequeno aumento de salário foi insuficiente para estabilizar sua situação. Em fevereiro, o nascimento do primeiro filho, Raul, inicia ima grave crise financeira, que estender-se-ia até o fim da sua curta vida.

Publicados seus dois primeiros livros, Cruz e Sousa começa a reunir material para novas obras. O volume de originais aumenta, mas editora alguma se anima a publicar os trabalhos do poeta. Seus dois primeiros livros haviam sidos incompreendidos, combatidos. A venda de Missal e de Broquéis foi desanimadora.


Desenho de Ângelo Agostini, publicado na Revista Ilustrada,
saúda a primeira edição de Missal (1893).

Publicados seus dois primeiros livros, Cruz e Sousa começa a reunir material para novas obras. O volume de originais aumenta, mas editora alguma se anima a publicar os trabalhos do poeta. Seus dois primeiros livros haviam sidos incompreendidos, combatidos. A venda de Missal e de Broquéis foi desanimadora.

A Livraria Moderna, que dera espaço aos novos talentos, estava em sérias dificuldades financeiras. O destino mostrava-se cada vez mais impiedoso com o poeta. Sem editor, ele acumulava originais, sem esperanças quanto à sua publicação futura.

Como se bastasse essa situação torturante, uma anemia profunda altera as faculdades mentais de Gavita e, em março de 1896, quando o casal retornava para o lar, à noite, a esposa do poeta tem uma crise de loucura, fazendo cônscio o seu marido da gravidade de seu estado mental. Este trágico episódio é descrito por Cruz e Sousa no conhecido texto “Balada de Loucos”, incluso em Evocações.

Desesperado, Cruz e Sousa recorre a Nestor Vitor e ao Dr. Monteiro de Azevedo, em cuja casa Gavita havia crescido, o poeta escreve uma carta a esse médico, pedindo orientação. A carta de resposta, porém, deprime ainda mais o poeta, na medida em que prescreve providências que iam além de suas possibilidades financeiras, como remédios caros e uma alimentação especial.

Ainda em 1896 é fundada a Academia Brasileira de Letras, tendo como primeiro presidente Machado de Assis. O nome de Cruz e Sousa em momento algum foi cogitado para integrar a lista dos membros da ABL.

O poeta sofria duplo preconceito: racial e literário. Era negro e mais que isso, era Simbolista. Não frequentava a rodinha da Editora Garnier nem ia aos chás da Revista Brasileira. Nem mesmo tinha acesso aos jornais de maior circulação. Era um guerreiro silencioso, que sabia que só o futuro provaria o valor de sua obra.

É conveniente frisar com insistência que o “Dante Negro” tinha forte convicção de seu próprio valor e sabia que a qualidade de sua obra acabaria pro vencer todos os preconceitos e negações.

Já mergulhado em sofrimento e alienado, Cruz e Sousa se revela, em finais de 1897, tuberculoso.

O Cisne Negro, no entanto, não parava de produzir e conseguia, esporadicamente, divulgar seus textos em periódicos, evitando assim o anonimato.

A situação do poeta era deplorável. Encurvado pela doença e em desespero financeiro, ele solicitava empréstimos frequentemente e normalmente recebia respostas negativas.

Em 1898 o estado do poeta complica-se tanto que começam a surgir na imprensa as primeiras notícias sobre sua decadente situação. Em janeiro o poeta já não consegue ir ao trabalho. Temeroso de perder o emprego, recorre a Nestor Vitor, que com muito esforço consegue uma licença.

Diversos jornais cariocas abrem subscrição em favor do poeta. São organizadas listas para arrecadação de dinheiro para ajudar Cruz e Sousa.

Embora Cruz e Sousa manifestasse o desejo de retirar-se para Desterro, onde contava recuperar-se, a pedido de seu médico, o Dr. Araújo de Lima, fuçou decidido que o poeta seria levado para estação de Sítio, na Serra da Mantiqueira, a 15 Km de Barbacena.

A essa altura, a ideia da morte assombrava o poeta e contaminava suas últimas composições.

Cônscio que estava das suas condições de saúde, antes de partir para Sítio, Cruz e Sousa aproveita a última visita de Nestor Vitor para entregar-lhe os originais de 3 livros: Evocações, Faróis e Últimos Sonetos.

Deixando os três filhos com a mãe de Gavita no Rio, Cruz e Sousa partiu com a esposa para Sítio em 15 de março de 1898. Seus amigos mais íntimos foram levá-los à estação.

A viagem foi desgastante para o poeta, que já tinha se resignado e não mais lutava para viver.

Ao chegar a Sítio encontrou um clima mais frio do que o esperado, o que acabou agravando seu estado de saúde. À tuberculose acrescentou-se vigorosos ataques de pneumonia e o poeta morre a 19 de março de 1898, deixando a esposa grávida do quarto filho.

Como que numa última ironia do destino, seu cadáver foi recambiado ao Rio num vagão de transporte de animais.

Em O País a morte do poeta foi registrada numa longa nota, com alusões às injúrias e insultos que ele sofrera por ser preto. A nota assegurava que, embora negro, Cruz e Sousa fora um intelectual digno e puro, um verdadeiro lutador, ao mesmo tempo simples e altivo. O poeta negro é mencionado nos jornais por nomes como Olavo Bilac, Artur Azevedo e Coelho neto. Durante vários dias não faltavam sonetos inéditos de Cruz e Sousa nos jornais cariocas.

Os livros Missal e Broquéis, principalmente este último, são sobremaneira valorizados a partir do primeiro mês pós-morte do poeta.

Graças aos esforços de amigos e admiradores do poeta, principalmente Saturnino Meireles, o livro Evocações é publicado naquele mesmo ano, com amplo apoio da imprensa.

Cruz e Sousa ia tendo, na morte, o reconhecimento que não teve em vida.

Nestor Vitor faz imprimir em 1900, na tipografia do Instituto Profissional o volume chamado Faróis. Em 1915, em Paris, com muito esforço, consegue que a Casa Aillaud & Cia publique os Últimos Sonetos.


Cruz e Sousa aos 22 anos, em Nossa Senhora do Desterro 
(atual Florianópolis), SC.

Textos do livro “100 anos sem Cruz e Sousa”, Congresso Nacional.
Prêmio Cruz e Sousa – Monografias premiadas - 1998.

*****

Em 1893, foi nomeado presidente de Santa Catarina o doutor Francisco Luís da Gama Rosa. Ele envolveu-se muito com o grupo de novos literatos, chegando a nomear Cruz e Sousa promotor de Laguna, cargo que o poeta não chegou a ocupar por ser negro, resolutamente se opuseram a ele os chefes políticos. Com esse cargo, provavelmente, a vida de Cruz e Sousa poderia ter sido outra...

P.S. Gavita, a esposa, morreu em 1901. Dos filhos, dois morreram antes dela, um imediatamente depois; sobreviveu João, nascido a 30 de agosto de 1898, que morreu em 1915, de tuberculose pulmonar, como seu pai, sua mãe e seus irmãos. 

(Um resumo para professores de Literatura)

O Simbolismo

01.  Época:
→ O simbolismo, em nossas letras, manifestou-se na segunda metade do século XIX.
02.  Datas que assinalam o início e o fim do simbolismo:
→ 1893 - ano em que Cruz e Sousa publicou as obras “Missal” (prosa) e “Broquéis” (poesia).
→ 1922 - Semana de Arte Moderna
03.  Momento histórico:
→ O Simbolismo reflete um momento histórico extremamente complexo que marcaria a transição para o século XX e a definição de um novo mundo, o qual se consolidaria a partir da segunda década deste século; basta lembrar que as últimas manifestações simbolistas são contemporâneas da Segunda Guerra Mundial e da Revolução Russa.

Tomava corpo, assim, o fantasma da guerra. Sempre que se torna difícil analisar o mundo exterior e entendê-lo racionalmente, a tendência natural é cair na sua negação, voltando-se para uma realidade subjetiva; as tendências espiritualistas renascem; o subconsciente e o inconsciente são valorizados, segundo a lição freudiana.

04.  Origem do Simbolismo:
→ O Simbolismo originou-se na França, através da poesia de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine e Mallarmé.
05. Aspectos de oposição entre o Simbolismo e o Parnasianismo (estilo literário que o antecedeu e ao mesmo tempo lhe foi contemporâneo):
→ Ao contrário do Parnasianismo, que propunha uma poesia afastada dos valores subjetivos e românticos, o Simbolismo reinstaura a linguagem poética, fundada no “eu” e na percepção subjetiva da realidade.
06.  Relação entre a poesia Simbolista e outra manifestação cultural contemporânea:
→ O Simbolismo desempenhou, na poesia, um papel semelhante ao desempenhado pelo Impressionismo na pintura. Por outro lado, a poesia simbolista teve pontos de convergência com as Filosofias de Bergson, Hartmann e Schopenhauer.
07.  Características da poesia Simbolista:
→ aprofundamento da introspecção;
→ exploração do subconsciente e do inconsciente;
→ fuga da matéria e a busca da região do espírito (fuga da realidade exterior);
→ temática intimista (volta-se para si mesmo);
→ linguagem figurada, musical, colorida e rica (supervaloriza a metáfora, a imagem; a sonoridade, o ritmo, as vogais, as rimas; as cores, principalmente a branca; emprega vocabulário nobre, incomum, brilhante);
→ O Símbolo: o simbolista, com freqüência, não conseguem (ou não pretende) descrever essas emoções ou estados da alma. Usa, por isso, de meios indiretos, para sugerir ou representar tais momentos. O meio mais usado é o símbolo para manifestar ou retratar o mundo interior.
08,  Principais poetas simbolistas brasileiros:
→ João da Cruz e Sousa¸ Alphonsus de Guimaraens, Mário Pederneiras, Emiliano Perneta e Alceu Wamosy (simbolista gaúcho).

Principais Simbolistas

Nome:
João da Cruz e Sousa (1861 - 1898) = Cruz e Sousa
→ nome literário: Cruz e Sousa
→ nascimento: 1861, Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis)
→ morte: 1898, Sítio, Minas Gerais
→ origem humilde: pais escravos (mãe alforriada)
→ proteção dos senhores: sobrenome, educação
→ participação na campanha abolicionista
→ vida pontilhada de tragédia familiares
→ epítetos: “Cisne Negro”, “Dante Negro”, “Poeta Negro”
Obras:
→ “Broquéis”, “Faróis”, “Últimos Sonetos”, “Tropos e Fantasias” (parceria com Virgílio Várzea) - poemas em verso.
→ “Missal”, “Evocações” - poemas em prosa.
Características:
→ autor das primeiras obras simbolistas brasileiras: “Missal” e “Broquéis” (1893 - introduzindo entre nós o Simbolismo);
→ com Virgílio Várzea e Nestor Vítor - grupo mais importante do simbolismo brasileiro;
→ “Antífona” - profissão de fé simbolista;
→ herança parnasiana (soneto);
→ fortes traços simbolistas: uso de maiúsculas, criação de palavras novas, sinestesias, pontuação expressiva, elevado grau de sonoridade nos poemas (assonância, aliterações, repetições);
→ temática: contemplação mística, visão estetizante da realidade, expressão de um grande pessimismo;
→ elevado grau de misticismo;
→ transfiguração da paisagem;
→- paralelo entre a vida e a obra;
→- principais poemas: “Antífona” - “Violões que Choram”

Antífona

Cruz e Sousa

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
de luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmante puras,
de Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
e dolências de lírios e de rosas ...

Indefiníveis músicas supremas,
harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
fecundai o Mistério destes versos
com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
que fuljam, que na Estrofe se levantem
e as emoções, todas as castidades
da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
de carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
do Éter nas róseas e áureas correntezas...

Cristais diluídos de clarões álacres,
desejos, vibrações, ânsias, alentos
fulvas vitórias, triunfamentos acres,
os mais estranhos estremecimentos...

Flores negras do tédio e flores vagas
de amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
em sangue, abertas, escorrendo em rios...

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
nos turbilhões quiméricos do Sonho,
passe, cantando, ante o perfil medonho
e o tropel cabalístico da Morte...

*****
Nome:
Afonso Henriques da Costa Guimarães (1870 - 1921) Alphonsus de Guimaraens
→ nascimento: 1870, Ouro Preto
→ morte: 1921, Mariana
→ noivado com Constança, sua prima, filha de Bernardo Guimarães
→ pseudônimo: Alphonsus Guimaraens
→ epíteto: “O Solitário de Mariana”

Obras:
→- “Setenário das Dores de Nossa Senhora”, “Câmara Ardente”, “Dona Mística”, “Kyriale”, “Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte”, “A Escada de Jacó”, “Pulvis”, “Pauvre Lyre”.
Características:
→ religiosidade: título dos livros, ambientes e cenários, pseudônimo latinizante;
→ Amor e Morte: fusão de ambos, a amada morta (paralelo com a biografia - Constança - noiva precocemente falecida de tuberculose);
→ traços formais: sonoridade, percepção sensorial da realidade;
→ principais poemas: “A Catedral”, “Ismália”, “As Mãos da Morte”.



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