quinta-feira, 4 de maio de 2017

Histórias de paraquedistas XXX


Um simples sinal de fé

Nilo da Silva Moraes – Pqdt -11779 – 1964/4


Um padre católico e um rabino foram juntos assistir a uma luta de boxe. Era uma luta de pesos-pesados que daria ao vencedor uma vultosa soma em dinheiro.

Ao entrarem no ring, um dos lutadores fez o sinal da cruz. O rabino, curioso, perguntou ao padre:

- O que significa isso que ele acabou de fazer?

Respondeu o padre:

- Nada, se ele não souber lutar.

Conto essa pequena história, que ouvi de um personagem de um filme (O Voo do Fênix) contar a outro, porque me lembrei da emoção que sentíamos dentro de um avião antes de saltar: a tensão, a expectativa, a adrenalina e a força da fé realçada por um simples sinal da cruz.

Fui muito religioso na minha infância e juventude. Aos domingos, quando de folga, eu ia com grupo de pqdts gaúchos à missa numa igreja de Marechal Hermes, antes de irmos nos divertir ou passear. Eu sempre que estava sentado no banco de uma aeronave, já com o avião esquentando os motores, para não dar na vista, fazia, discretamente, um sinal da cruz cheio de sutilezas: um dedo na teste, simulando coçar; um pequeno toque no peito, outro dedo no ombro esquerdo, outro toque no ombro direito e, finalmente, a mão nos lábios. Pensava, fervorosamente, em Nossa Senhora Aparecida e me considerava pronto para o que desse e viesse. Estava protegido pelo sinal da cruz, pela minha fé e a confiança no equipamento de salto: o paraquedas.

Quando uma equipe recebia os comandos: Preparar! Levantar! Enganchar, Verificar equipamento! Contar!, sabíamos que iríamos para uma aventura sem retorno. Você só pensa nos comandos recebidos. Você é uma máquina executando ordens por puro reflexo condicionado. Você chega à porta e, recebendo o já, nem por um momento você vacila. Você se joga, sem pensar, olhos arregalados, punho no reserva e, de repente, você estanca no ar. Um enorme cogumelo verde infla sobre a sua cabeça. Então, você grita de felicidade: puta que pariu! O que vem pela frente não tem a menor importância. Você está vivo! O equipamento funcionou. O paraquedas desce lentamente, e, dependendo do vento, você flutua suavemente. É um momento que gostaríamos que demorasse uma eternidade. Gritos de alegria de todos os saltadores; centenas de paraquedas abertos por todos os lados. Você se julga um pássaro, o próprio guerreiro alado da canção. Você já quer fazer tudo de novo, por vibração, pela adrenalina, pela intensa felicidade de ser um corpo que flutua no espaço.

Alguém já disse uma vez, com certa propriedade, que saltar de paraquedas é um suicídio controlado. Você está saltando para a morte por poucos segundos, quando um objeto o salva no ar. Objeto que, algumas vezes, já falhou, ocasionando a morte do paraquedista.

Por que muitos de nós nunca tiveram medo? Somente pelo dever, pelo amor, pela fé, pela certeza da proteção do sinal da cruz e por sermos, simplesmente, paraquedistas treinados a ferro e fogo para cumprir qualquer missão!

Adendo:

É claro que cada um de nós, jovens recrutas do antigo Regimento Santos Dumont, tinha a sua própria fé no seu Deus particular. Cada um de nós tinha a sua crença, podia ser católico, evangélico, espírita, umbandista, ou até mesmo quem cresse num orixá. Mas todos pediam proteção divina. Digo isso, porque, na hora do salto, na porta de uma aeronave, olhando para baixo, quem não confiaria no seu Deus e no seu paraquedas?


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Opinião de uma velha águia Paraquedista

Amigo Nilo, fui um Pqdt “calejado”, cheio de tarimba e sem modéstia alguma. Porém foi o melhor depoimento de um salto de aeronave em voo que até hoje li, mostrando nossa “cara de salto”. Para uns, esta “cara de salto” se manifestava no cheque dos motores na cabeceira da pista, era o meu caso; para outros, ao acender a luz vermelha e assim por diante...

Nilo, quando o avião taxiava em direção à cabeceira da pista e lá chegando, piloto com avião freado, conferindo os instrumentos, avião contido como bagual na raia de largada, trepidando, pronto para a decolagem... este velho guerreiro pensava com seus botões; ou melhor, ajustando a queixeira do capacete... estou pronto! Nada mais me atemorizava. Pulso voltava a normalidade, o salto deixava de ser um problema, só os deveres com a equipe afloravam em minha cabeça. Nilo, eu ficava tão tranquilo, que um Tenente, meu aluno de básico, vendo-me sair numa equipe de Prec*, ele pensava: “Um dia ainda vou ser tão tranquilo como aquele Sargento.” Dito pelo General Siqueira, numa festa dos Precs Veteranos na Colina Longa.

Seu depoimento achei bonito, sinceramente. Que tal cada um falar sobre sua maior tensão no momento que antecedia o seu salto?

Ly Adorno

*Prec: Precursor é o paraquedista com curso e treinamento especiais para se lançar com qualquer tempo em um ZL e dar, ou não, condições de lançamento de uma equipe de paraquedistas. É ele que assinala com um T a vertical do ponto para a visualização do MS (Mestre de Salto), na porta do avião, e comandar uma equipe a saltar numa Zona de Lançamento (ZL).


Um equipe de Precursores,
e seus Gorros Vermelhos com a Tocha Alada,
símbolo do Precursor.


Fotos de saltos:


Um equipe de paraquedistas militares brasileiros
preparando-se para entrar na aeronave.


Antes do salto, cada um com a sua fé.


Salto de um recruta, o chão é o limite...


E quando o salto é na água, o perigo é redobrado.


Salto em equipe, esperando a abertura do paraquedas.


Salto na ZL do Campo dos Afonsos.


Salto noturno, um mergulho na escuridão...


E, finalmente, a alegria de ver todos os paraquedas abertos...


(Fotos de Blogs da Brigada de Infantaria Paraquedista)



2 comentários:

  1. UM PRIMO MEU QUE ERA PQD DA 2ª CIA CHEGOU NA MINHA CASA E PERGUNTOU VAI DAR VIVA AO DIABO? MINHA MÃE ESCUTOU E MESMO FEZ PROMETER QUE EU JAMAIS IRIA FALAR UMA COISA DESSA, EU RESPONDI QUE NÃO IRA FALAR, E SOFRI MUITO NA ÁREA DE ESTAGIO POR CAUSA DISTO.MAS MESMO ASSIM SINTO MUITA SAUDADE DA MINHA JUVENTUDE. DOS MEUS COLEGAS, FOI UM ANOA MUITO DIFÍCIL ERA MUITA PRONTIDÃO FUI ATÉ PERSEGUIDO POR UM SARGENTO CHAMADO RONEI DA 4 CIA. RECLAMAR COM QUEM? MAS RESISTI A TUDO ISSO E ESTOU AQUI FELIZ POR TER CUMPRIDO MEU DEVER. ABRAÇOS AMIGO.

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    1. Amigo, num avião, por vibração e até mesmo para provar machismo, a gente grita qualquer coisa. Devo,também, ter gritado "Viva o diabo!", mas era uma frase dita de boca pra fora. Ela não representava o que nós, paraquedistas, estávamos sentindo. O que valia mesmo era oração rezada silenciosamente por todos nós na hora do salto.
      Um abraço de Nilo da Silva Moraes

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