quinta-feira, 11 de maio de 2017

Humor do Teatro de Revista


Entre os humoristas, um dos que mais escreveram para as revistas foi Bastos Tigre: entre os anos de 1906 e 1935 escreveu cerca de dezenove peças para teatro de revista, sendo que todas foram encenadas. Utilizando-se dos mesmos processos paródicos, mas de uma forma menos presa ao formato do soneto, Bastos Tigre mostrou grande habilidade em compor versos humorísticos curtos em tom de diálogo, muito mais adequado à musicalidade do teatro de revista. Não se caracterizava pela comicidade obscena ou mais apimentada, como no caso de algumas revistas da época, mas, não raro, veiculavam uma comicidade burlesca, não isenta de alguma malícia, como no exemplo da revista De pernas pro ar, de 1916, na qual uma costureira ingênua – interpretada pela atriz Natalina Serra – cai na lábia de seu namorado, um chofer chamado Pedrinho, e canta versos cujo estribilho – “Pedrinho, não faça isso!” – provocava, segundo testemunhos da época, grande hilaridade:



Quando passa lá em casa,
Eu tinha as faces em brasa,
Ao vê-lo no auto vermelho.
Mamãe conselhos me dava...
Quem ama como eu amava
Quer saber de conselho?
(...)
Foram-se os dias passando
E tantos beijos foi dando,
Que eu nem reparava nisso...
Uma vez beijou-me na boca!
Fiquei tonta, fiquei louca:
‒ Pedrinho, não faça isso!

Uma vez, por meu castigo,
Saiu a passear comigo,
Ao terminar o serviço.
‒ Vou tocar para a Tijuca!
Meu Deus, que ideia maluca!
‒ Pedrinho, não faça isso!

Fomos. O auto em disparada
Devorava a linda estrada!
De repente – zás – um enguiço.
Quem passasse ali por perto
Me ouvia dizer por certo:
‒ Pedrinho, não faça isso!

E na sequência, de resto previsível, Pedrinho resolve mudar de profissão, de motorista vira rapidamente embarcadiço, abandonando a namorada que, inconsolável, canta:

E foi-se. Foi-se para o Norte!
Hoje confesso que é a morte
O único bem que cobiço.
Talvez que outra, lá fora,
Lhe esteja dizendo agora:
‒ Pedrinho, não faça isso!


(Do livro “Raízes do Riso”, de Elias Thomé Saliba,
Companhia das Letras)


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