segunda-feira, 22 de maio de 2017

Um inimigo do povo


Henrik Ibsen


Ao trazer um idealista em luta contra a corrupção, esse aclamado clássico de Henrik Ibsen (1828-1906) permite entrever o que há por trás dos desmantelos no mundo político.

Em seu combate à “hipocrisia institucionalizada e suas consequentes crueldades”, Ibsen expõe as motivações do descaso com as normas sociais corruptas.

A ação que se desenrola numa pequena cidade, cuja maior fonte de renda é o turismo de seu balneário, tem como personagens principais, um médico idealista, Dr. Stockmann, seu irmão, Peter, que é o prefeito da cidade, o editor e o impressor do jornal “A Voz do Povo”.

Em visita ao irmão médico, o prefeito, orgulhoso por ser um “funcionário superior do Estado”, exulta o espírito de tolerância, que é o autêntico espírito de cidadania.

Enquanto aguarda comprovação da existência de substâncias nocivas nas águas da cidade, o médico diz que talvez as coisas não estejam tão normais.

O prefeito exige que tudo se resolva segundo os regulamentos e passe pela autoridade legalmente constituída, pois a tentação de fazer as coisas por sua própria conta numa sociedade bem organizada é inadmissível: “As iniciativas particulares devem se submeter, custe o que custar, ao interesse geral, ou melhor, às autoridades encarregadas de zelar pelo bem geral”. E se vai.

Mais tarde, ao encontrar com o capitão do navio na casa do médico, o editor do jornal pergunta se o capitão se interessa pelos assuntos públicos, ele diz que, para falar a verdade, não entende dessas coisas. O editor chama a atenção para o fato de que, mesmo assim, deve-se votar. E o capitão lhe pergunta: “Mesmo os que não entendem nada?”.

O editor fica espantado: “A sociedade é como um navio. Todos devem estar atentos a sua rota”.

Após ler a carta das autoridades sanitárias, o médico confirma suas suspeitas: “O Balneário todo nada mais é do que um sepulcro envenenado. Perigosíssimo para a saúde pública! E esse maldito lixo envenena as águas e vai até a praia...”.

É grave! Há presença de substâncias orgânicas, está cheia de detritos de animais em decomposição.

Sua mulher chama a atenção para gravidade da descoberta, e ele a tranquiliza dizendo que, cônscio do rebuliço, não é louco de divulgar sem ter certeza, pois será preciso mudar toda a canalização.

O médico também ouve do sogro que é preciso ter o apoio da imprensa para que essas coisas deem certo.

Novamente com o editor do jornal, este o alerta que como médico e cientista, ele só está vendo a questão das águas sob o ponto de vista médico e científico, mas que haverá outras implicações.

O jornalista profere que a verdadeira contaminação que está apodrecendo a cidade vem é de outro lugar: “São esses ricos, que ostentam nomes tradicionais, os mesmos que nos governam”. E salienta que: “Todos os negócios da cidade passaram, pouco a pouco, para as mãos de um bando de políticos.”.

O médico acredita que ainda se pode remediar o mal e que, fácil ou não, isso tem que ser feito, sobretudo se a imprensa se ocupar do caso, e o editor o apoia: “Quando tomei a direção da Voz do Povo foi com a ideia de acabar com esses velhos aproveitadores que dominam o poder!”.

Mas o doutor lembra que isso quase o faliu, e ele concordou: “Tivemos que nos calar (…). Mas um jornalista com tendências democráticas, como eu, não pode deixar escapar esta grande oportunidade. É preciso acabar com a velha lenda da infalibilidade dos homens que nos dirigem”.

O editor reitera que um jornalista não pode deixar de trabalhar pela emancipação da massa dos humildes, dos oprimidos e, aparentando convicção, expõe: “Sou de origem humilde. Isso me permitiu compreender claramente que as camadas populares, as chamadas classes inferiores, devem participar do governo, dirigindo, elas também, os negócios públicos. Nada melhor que isso para desenvolver o sentimento de cidadania e da própria dignidade...”.

O impressor também oferece apoio: “Unidos, formamos uma maioria compacta. Os que estão no poder não veem com bons olhos os projetos que beneficiam outras categorias sociais, os gastos que só beneficiarão as pessoas sem trazer lucro imediato a eles. Eis porque, a meu ver, deveríamos fazer uma manifestação”.

Sugere uma coisa moderada: “(…) num tom suave para não ofender as autoridades. Nessas condições, não nos poderão censurar, não é verdade?”.

Cauteloso, reitera: “Nada de ataques à autoridade. Nada de oposição àqueles de quem dependemos. Mas não há nada de ofensivo no fato de um cidadão exprimir livremente algumas ideias sensatas”.

Chama a atenção para o fato de que as autoridades se movem com uma certa lentidão e insiste em que o médico aja com prudência porque do contrário não conseguirá nada e prossegue animado: “Não lhe parece que é tempo de sacudir todo este torpor, esta covardia em que está mergulhada a cidade?”.

Atenta ainda, que a classe média é um muro sólido, é a maioria: “Sempre nadando entre duas águas, pequenos burgueses medíocres enleados numa rede de compromissos que os impede de dar um único passo decisivo”.

Depois que ele se vai, o médico conversa com a mulher: “Tenho por trás de mim a maioria dos concidadãos, a opinião pública!”.

Chama então seu irmão, o prefeito e o coloca a par do relatório sobre a contaminação. Mas este o repreende: “Você já imaginou o que poderiam custar essas mudanças? (…). Desse modo você terá arruinado a sua cidade.”

Diz que o relatório não o convenceu: “Isso não quer dizer que a direção se recuse a examinar as suas ponderações no seu devido tempo, desde que isto não importe em gastos acima de suas forças”.

Inconformado, o doutor diz que ele sabe que é essa a verdade, mas não quer aceitar. Mas o prefeito não recua, salienta que o médico tem gênio inquieto, rebelde, até subversivo: “É o interesse público que está em jogo”.

Mas o idealista está convicto: “Não é dever de todo bom cidadão, logo que lhe vem as ideias novas, comunicá-las ao povo?”, ao que o prefeito retruca: “Ora! O povo não precisa de ideias novas. O povo precisa é das boas e velhas ideias!”, diz que o irmão não calcula o mal que causa, sempre se queixando das autoridades, do governo, prevenindo-o de que será inflexível.

Ao ser informado que a imprensa já sabe do relatório, sugere que o médico faça um desmentido, pois esse tipo de coisa só interessa às autoridades.

Mas o Dr. Stockmann insiste em dizer que não vê vontade política em solucionar e o prefeito não se contém: “Eu sou seu chefe e lhe proíbo.”, avisando-o que está entrando num jogo perigoso.

O médico afirma que denunciará todos os erros que os políticos cometem no comércio de imundices e veneno em que vivem, mas o prefeito insiste que o homem que emite tão odiosas insinuações contra a sua própria cidade não pode ser senão um inimigo da comunidade.

Quando o prefeito se vai, o doutor confessa à mulher que devia ter reagido aos desmandos dessa gente há muito tempo, mas Catarina o lembra de que, sendo prefeito, seu irmão tem poder na cidade, contra isso não há o que fazer. “Sim, mas eu tenho a verdade ao meu lado”, e ela pondera: “Oh! A verdade... De que serve ela se você não tem o poder?”.

Incrédulo, pergunta à esposa se num estado livre não adianta nada ter a verdade ao seu lado; está decidido a combater pela justiça e pela verdade, mesmo que o prefeito o tenha declarado “inimigo do povo”.

Falar é fácil, diz a sua mulher, e a família para sustentar? Ele então pergunta se ela acha que se ele fosse bastante covarde para cair de joelhos aos pés dos governantes e de sua corja, poderia ter um momento de felicidade na vida.

Catarina o lembra das privações que já passaram e de que há as crianças. Ele protesta: “Eis a situação a que esses burocratas podem reduzir um homem de bem.”.

A esposa diz que há muita injustiça no mundo, mas que é preciso ceder. “Não, ainda que o mundo desabasse, eu não me curvaria a esses canalhas”.

O manifestante sentencia que quer ter o direito de olhar seus filhos de frente e de cabeça erguida quando eles forem homens.

(Do Blog Carta Forense)

P.S. O filme "O Tubarão", o primeiro desse gênero de Steven Spielberg, foi baseado nesse livro de Hentik Ibsen.


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