sábado, 22 de julho de 2017

Impulso para viver



Lutamos contra o silêncio do corpo. Ainda que haja dor, demora, descaso. Somos feitos de células, céus, terras, tecidos, versos, veias. A vida é maior que tudo e, diante do susto de perdê-la, ninguém volta a ser o mesmo. Respiração profunda. Batimentos, sentidos, temperatura. Pulso, impulso, oxigênio. Esterilidade das paredes brancas e do avental azul suave contrasta com o cítrico desejo de resistir. Rodeados por aparelhos, bolsas de soro, distantes de casa, os olhos encharcam, denunciam que nem tudo é palpável, matéria, rigidez.

Há palavras soltas, pensamentos sem nome. Lá fora, as filas crescem. Guardar alguns sonhos. Aguardar. Guerra travada contra os invasores dos órgãos e outros desequilíbrios. Para os médicos, somos pacientes. Para o sistema, temos que ter paciência. E, de nós, o que queremos é paz. Não a paz calada. A paz que canta e dança, que insiste em proferir a entonação de dentro do peito.

Alina Souza, no Correio do Povo




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