domingo, 9 de julho de 2017

Miscelânea do Anedotário Emiliano

Raimundo de Menezes


O homem engraçado que viveu em Emílio de Menezes fez escola e teve adeptos.

A sua geração consagrou-o como o maior de nossos gênios espirituosos, depois de Paula Nei, que lhe cedera o principado com a sua morte em 1897. Emílio chegara depois, e teve a sua coroação nos começos deste século.

Eis algumas piadas de Emílio coligidas por Humberto de Campos, e contadas no seu discurso de recepção na Academia de Letras:

Guimarães Passos era, como se sabe, tuberculoso, e vivia em perpétua luta com a moléstia insidiosa. Um dia, apareceu nas livrarias o “Tratado de Versificação Portuguesa”, do autor dos “Versos de um simples”, e cujo produto ele reservava para uma viagem à Europa, onde pretendia curar-se.
– Coitado do Guima! – comentou Emílio de Menezes, uma tarde na antiga Colombo.
E simulando pena:
– Desde que o conheço que ele, coitado, tem “tratado de ver se fica são”!...


Achava-se Emílio de Menezes em uma roda da Pascoal, quando chegou um amigo e apresentou-lhe um rapaz que vinha em sua companhia:
– Apresento-te Fulano; é o nosso patrício e tem corrido o mundo inteiro! Fala corretamente o inglês, o francês, o italiano, o alemão e o espanhol.
O rapaz sorria, modesto, ante os elogios e a palestra voltou ao que era. Ao fim de uma hora, durante a qual apenas proferiu alguns monossílabos, o viajante despediu-se, e se foi embora.
– Que tal esse camarada? – perguntou a Emílio um dos da roda.
– Inteligentíssimo, sobretudo, muito criterioso – opinou o rei dos boêmios.
– Mas ele não disse palavra!
– Pois, por isso mesmo, tornou Emílio.
E rindo:
– Você não acha que é ter talento saber ficar calado em seis línguas diferentes?


Em uma cervejaria de São Paulo, cujo soalho, como é de praxe nos estabelecimentos do gênero, se achava coberto de serragem, bebiam Emílio de Menezes e alguns amigos, quando um conhecido engenheiro, falando de arte, começou a louvar Florença, e a influência dos florentinos na Renascença. No auge, porém, do entusiasmo, põe-se de pé, afasta a cadeira e, ao sentar-se de novo, projeta-se de costas no chão. Levanta-se sujo de serragem, quer insistir.
– Sim, é aos florentinos que devemos todo esse patrimônio artístico...
– Homem – intervém Emílio de Menezes – deixa os florentinos...
E limpando-lhe a serragem:
– Tu agora estás “à milanesa”.


Entre as figuras de relevo que serviam de alvo habitual à sátira impiedosa de Emílio de Menezes, estava Capistrano de Abreu, historiador ilustre, sábio respeitadíssimo, em torno do qual se criara uma glosadíssima lenda de desleixo, de abandono próprio, e, mesmo, falta de higiene. Utilizando essa versão popular, conta o poeta:
– Uma vez, o Capistrano mandou à tinturaria, para ser lavado, um terno com que andava há doze anos. Uma semana depois, apareceu-lhe à porta um empregado da tinturaria, e entrega-lhe um embrulho pequenino, que lhe cabia nas mãos.
E como lhe perguntavam o que seria, Emílio concluía, invariável:
– Eram os botões, menino! A roupa, de puída e velha, havia se dissolvido n’água.


Certa vez, ia Emílio de Menezes em um bonde, quando se sentaram no banco imediato, em frente, duas senhoras de grandes banhas, que dificilmente puderam entrar no veículo. Com o peso das duas matronas, o banco, que era frágil, range, estala, geme, estranhando a carga. O poeta, que observa o caso, leva a mão à boca, no gesto característico, e põe-se a rir em silêncio, no seu riso sacudido e interior.
E como o companheiro o olhasse, explicou:
– Sem senhor! É a primeira vez que eu vejo um banco quebrar por excesso de fundos...


Emílio visitava uma Exposição de Cereais. Entra um fabricante de espírito barato e, vendo-o, grita:
– É milho!...
E o cantor de “Pinheiro Morto”, cofiando e descofiando o bigode:
– Você hoje está com a veia...
E vendo que o outro queria escapulir, embarga-lhe os passos:
– Não s’evada!... Com isso é que eu me in... trigo!
E plantando-o numa cadeira:
– Sentei-o...


O Senhor Bastos Tigre, amigo e companheiro inseparável de Emílio, colecionou, entre muitas outras várias anedotas cuja paternidade cabe ao poeta boêmio:
Um famoso jornalista da época, que andara metido, no Rio, numa negociata de fornecimento de moedas de prata, voltava da Europa. Contava ele, na impiedosa roda da “Colombo”, que assistira, em Londres, como convidado de honra, ao grande banquete do “Mayors”.
– Uma coisa fantástica, dizia ele; imaginem que os talheres eram de ouro...
– Mostra! – atalhou Emílio, fazendo menção de abrir o paletó do narrador.


Certa vez, S., poeta sem estro, apareceu a Emílio, na confeitaria, sentou-se, e disse:
– Escrevi ontem dois sonetos. Hoje burilei um deles. Aqui está. Vou ler e você me dirá a sua impressão. Amanhã trarei o outro.
Leu com ênfase, martelando as tônicas, sob silêncio. Ao cabo, inquiriu, triunfante:
– Que tal?
Muito calmo, cofiando os longos bigodes, Emílio redarguiu:
– Gosto mais do outro...


Aqui vão algumas colhidas em outras fontes:
Tornara-se indesejável a permanência de certo figurão no cargo de ministro, e, entretanto, não pedia exoneração...
Era assim comentado na roda de amigos de Emílio de Menezes:
– É uma injustiça combatê-lo, pois é um estadista insigne!...
Emílio aproveitou a deixa para trocadilhar:
– É um “insigne... ficante!”


Foi no verão de 1914. Na casa do Comendador X, realizava-se grande baile comemorativo ao aniversário de sua filha.
Numa roda de intelectuais, prendia a atenção, com seus chistes e trocadilhos, Emílio de Menezes.
Eis que se aproxima uma senhora, toda donairosa, e, entre mil perguntas pueris, dirige-se ao grande boêmio: Sr. Emílio! Sabe quais são os encantos da mulher?
– “Sei-os”, minha senhora.


Longa, como se vê, é a miscelânea do “humor” emiliano.
Outras e muitas outras piadas, para mais de vinte mil, existem por aí que lhe são atribuídas, e cuja paternidade não lhe pertenceu jamais.
Ele mesmo costumava protestar, indignado, contra a autoria que lhe emprestavam de tudo que aparecia, “desvernaculizado”, com pretensões a espírito, nas rodas de letras e de imprensa:
– “Eu não sou a Sapucaia das perfídias alheias sem graça e sem gramática!”, clama, melancólico, nos últimos tempos.

(Do livro “Emílio de Menezes, o Último Boêmio”)


Outras histórias de Emílio de Menezes

Emílio de Menezes ia ao final de todos os meses ao Tesouro para receber do salário de um cargo público que exercia. E ao entrar ali era sempre abordado por um sujeito que, chorando as suas misérias, conseguia extorquir-lhe uma cédula de cinco mil réis.
Certa vez o mordedor exagerou nas suas lamentações:
– O senhor não imagina – gemia, – o que eu tenho passado. Basta dizer-lhe que há quinze dias não como!
– O que, homem? – espantou-se o poeta.
E para os funcionários:
– Este camarada com certeza já está com teias de aranha no céu da boca!…


Olavo Bilac passa pela Cervejaria Brahma, na Avenida Rio Branco, às 7 horas da manhã, quando teve a grande surpresa de ver Emílio de Menezes, displicentemente sentado no interior do bar, tendo a frente um respeitável copo de chope. 
Bilac, aproximando-se de Emílio, disse-lhe em tom brejeiro:
– Mas, então, Emílio, já?
Ao que Emílio de Menezes respondeu:
– Já, não. Ainda…


Certa vez Emílio de Menezes encontrou na rua com Teixeira Mendes, pregador da religião positivista, que lhe explicou:
– Vou para o apostolado.
Ao que Emílio retrucou:
– Ah, pois eu vou para o lado oposto…


Não tendo o que fazer Emílio de Menezes aceitou, certa vez, o convite de um médico da Saúde Pública para acompanhá-lo na fiscalização de uma fábrica de salsichas.
À saída disse o poeta:
– Agora sei por que é que as salsichas são cobertas com uma tripa.
– Por que é? – perguntou o médico.
– É para a gente não saber o que há dentro…


Emílio de Menezes, sempre muito reparador, tudo comentava. Podia até perder o amigo, mas não perdia a piada. Sempre, com seu grupo de amigos, observava todos e todas que passavam. Num cair da tarde, em plena rua do Ouvidor, passava uma dama elegante brilhando em joias e um dos amigos de Emílio exclama:
‒ Que ricas joias leva essa dama!
E Emílio que observava a dama, e ouvira a exclamação do amigo, não deixou por menos e maliciosamente esclareceu a origem das joias:
‒ Podem ser di... amantes...


Na Colombo, o boêmio saboreava siri recheado e expunha a Pedro Rabelo, um dos seus diletos amigos:
‒ Sempre que saboreio isto, evoco os lagos pitorescos da Suíça.
Pedro estranhou:
‒ Na Suíça não há siris.
Emílio acrescentou, mostrando o prato:
‒ Aqui também não há.


Emílio se incomodava muito com as pessoas que o achavam gordo; dizia sempre que eram uns chatos. De gênio espeloteado, se irritava com facilidade, principalmente quando alguém lhe batendo à barriga, com exagerada intimidade, fazia referência ao seu abdome que se avolumara desde a última vez que o vira.
‒ Então, Emílio, como engordaste! O que há aqui por dentro, heim?
O boêmio, num gesto, indicando com a mão, da cabeça até o estômago, explicou:
‒ Até aqui uísque... daqui para baixo, parati.


Emílio contava que quando Sherlock Holmes morreu, São Pedro recusou-se a recebê-lo. Negativas atrás de negativas. Depois de tanta insistência deixou-o entrar com uma condição: encontrar a mãe de Adão. Sherlock concordou.
Passaram-se meses até que chega o famoso detetive com a mãe de Adão.
‒ Eis a mulher que procuras! Exclamou num semblante de júbilo, apontando uma senhora de andar trôpego.
‒ És a mãe de Adão?
 ‒ Em carne e osso, meu bom santo.
‒ E por que você a conhece? Indaga São Pedro, meio assustado com a descoberta do inigualável policial.
‒ Porque é a única mulher que não tem umbigo aqui no céu!


Frequentava a roda emiliana um certo guarda-livros, metido a conquistador e que se caracterizava pelo tamanho descomunal das orelhas, que em sua última aventura donjuanesca levou uma tremenda surra do marido ultrajado. Quando reapareceu completamente estropeado, Emílio fez-lhe um epitáfio:

Morreu depois de uma sova
E como não tinha campa,
De uma orelha fez a cova
E da outra fez a tampa.


Quando ingressou na Academia Brasileira de Letras o notável escritor João do Rio, homossexual assumido, de roupas espalhafatosas, Emílio com a maldade de sempre celebrou o fato com estes versos:

Na previsão de próximos calores,
A Academia que idolatra o frio,
Não podendo comprar ventiladores,
Abriu as portas para o João do Rio...

Da coluna Rio de Sempre, do Blog do Noblat

→ Emilio, prático farmacêutico, jornalista e poeta, nasceu em 1866, em Curitiba, e com 18 anos chegava ao Rio. No bolso trazia alguns poemas simbolistas, estilo poético a que mais se aproximava. Em pouco tempo, tornou-se um crítico feroz dos simbolistas e abraçou o parnasianismo.

→ Logo após sua chegada, conhece a turma de boêmios e poetas que se reuniam nas confeitarias e cafés do centro da cidade e se torna um dos mais assíduos e brilhantes da roda. Era considerado pelos amigos como uma pessoa excêntrica e extravagante.

→ Luis Edmundo, chamado para falar de Emilio, assim se manifestou: “Atenção, meus senhores, atenção, que vai passando o homem de maior prestígio nas rodas boêmias do seu tempo! É um conversador admirável: vivo, leve, amável, gracioso. Sua prosa incisiva e mordaz é toda uma seqüência amável de jeux de mots, trabalhada em planos humorísticos, brilhante, imprevista, nova, repontando aqui, acolá, em boutades, em deformações gaiatas de tipos, de costumes, e de coisas...”

→ Emílio viveu um Rio que se transformava com a mudança do Império para República, presenciou as picaretas do prefeito civilizando a cidade, participou da vida jornalística que ganhava novos contornos. Seu perfil de boêmio valorizou a boemia da cidade. Soube, como ninguém, ser um transeunte atento às coisas da cidade: as ruas, os bondes e as pessoas que ganharam vida em seus textos e blagues. Com ele e sua turma nasceu o espírito do carioca.

→ E quem passe pelo Largo do Machado, em frente ao Café Lamas, vai encontrar a herma do grande poeta. Local escolhido por ser ali o último estágio dos poetas, escritores, artistas plásticos da sua época como Bilac, Patrocínio, Coelho Neto, Luis Murat, Raul Pederneiras, Pardal Mallet, Bastos Tigres, e tantos outros que encerravam as peripécias de suas noitadas.

→ Procurei a herma e não achei!

→ Pouco antes da sua morte, já no leito, seu amigo Alberto Oliveira pergunta-lhe: “Como está passando?” Emílio olha para a mesa cheia de remédios e responde: “Não há mais remédio...”. Seu último trocadilho.

→ Em 1913, Oswald de Andrade, escritor paulistano e um dos idealizadores do movimento modernista de 22, enviou carta a Emilio dizendo:

“Emilio, quero viver muito tempo para que, velho, passando pela sua estátua, eu possa dizer aos moços que te conheci de perto, e explicar que, homem, eras ainda maior que o Poeta. A glorificação que te trarão os teus versos será bem mesquinha, decerto, por maior que seja, ao lado dos templos que se irão erguendo para o teu culto no coração dos teus amigos”.

→ Essas e outras histórias de Emílio Menezes e de sua época são encontradas no livro de Raimundo de Menezes (que era cearense, e nada tinha a ver com Emílio) “Emílio de Menezes, o Último Boêmio”, Editora Saraiva, 1949 (certamente só disponível em sebos). O livro permite conhecer hábitos incríveis da cidade do Rio, como a história das vacas leiteiras, com campainhas ao pescoço, que eram tangidas até ao centro e permitiam tomar-se leite em copo quentinho, tirado na hora, e isso se tornara muito comum e dava a nota característica à rua que amanhecia... Mais tarde, Francisco Pereira Passos, prefeito da cidade entre 1902 e 1906, acabou com esse feio hábito.


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