quarta-feira, 12 de julho de 2017

Quarta-feira do Paixão

Folclorista completa 90 anos de amor ao pago


Mas que tal, Xiru Velho! Pois então colhes hoje (12 de julho de 2017) mais uma moranga nesta grande lavoura da vida? Que beleza! Receba do povo do Rio Grande um forte abraço. Um pequeno gesto de reconhecimento pelo teu valor, pela tua garra charrua em sempre defender as coisas da nossa terra, a pata de cavalo e com a lança firme na mão. Noventa anos. Feliz aniversário, Paixão Côrtes! É o que te desejamos nós, campeiros e urbanos, gente do campo e da cidade, de todas as classes sociais, de todas as profissões e de todas as idades. Nós te idolatramos, pois teu nome é uma metáfora e o teu trabalho é um símbolo. Grande e eterno Paixão. Muito obrigado por ter despertado em nós o amor às tradições. Tu nos ensinaste a compreender e a valorizar o folclore do pago. Hoje, 12 de julho, tu estás de aniversário, mas o presente é nosso. Tu vieste para nos guiar nesses caminhos tortuosos da cultura regional, do aprendizado, das pesquisas gauchescas e dos estudos rio-grandenses. Obrigado, velho tropeiro da cultura gaúcha. Teu legado será sempre uma luz que nos repontará hoje e pelos outros anos que virão. Quanta coisa linda fizeste! Que belos e marcantes gestos o amigo protagonizou, como o da Chama Crioula, o da estátua do Laçador, o resgate das danças e das músicas, os livros, os programas de rádio, a divulgação mundo afora. Hoje estamos aqui, juntos e irmanados, te desejando muitos anos de vida, te agradecendo num fraterno abraço de luz. Xiru Velho, hoje o dia é teu. Por isso, decidimos chamar este dia, esta quarta-feira histórica, de “Quarta-feira do Paixão”.

Ator: Laçador, símbolo da cidade


→ Se durante toda a sua vida João Carlos D´Ávila Paixão Côrtes sempre foi extremamente sincero e autêntico, em vários momentos mostrou talento em outras artes, como na música, na dança e na representação cênica. Provou esta capacidade em diversos momentos, como no filme “Um Certo Capitão Rodrigo”, do diretor Anselmo Duarte, interpretando o papel de Pedro Terra, baseado na obra “O Tempo e o Vento”, do escritor cruz-altense Érico Veríssimo.

Isso mostra que o homem campeiro, mas culto, sempre soube que as artes são ferramentas primordiais para difundir e valorizar a cultura de um povo. Este senso estético do homem que, com o tempo viraria símbolo da tradição gaúcha, sempre pode ser visto em todos os seus trabalhos artísticos, pela qualidade e pelo belo.

Ao posar, em 1956, para o escultor Antônio Caringi, Paixão Côrtes moldou à imagem de gaúcho típico do Rio Grande, uma representação e, a partir dali, virou uma identidade. O modelo se confundiu com o próprio homem, transformado no “Laçador”, símbolo de Porto Alegre, a Capital do Estado.

Idealista: Inventor da Chama Crioula


→ A vida de Paixão Côrtes, nascido em Santana do Livramento em 12 de julho de 1927, é cheia de idealismos. Esta característica do jovem nascido na Fronteira tem seu auge e momento decisivo em 1947. O ato de institucionalizar a Chama Crioula, junto com alguns colegas do Colégio Júlio de Castilhos, o Julinho de Porto Alegre, acendeu nos gaúchos o orgulho pela sua cultura.

Ao inventar a Chama Crioula, retirando a centelha numa estopa embebida em querosene e amarrada num cabo de vassoura, acabou incutindo em outros colegas a paixão pela defesa intransigente dos usos e costumes da gente campeira do Rio Grande. Naquela época, Paixão era apenas um estudante cheio de ideais, com vontade de transformar coisas, de valorizar as músicas, as danças e todo o aparato cultural de sua terra, que, logo após o pós-guerra, consumia tudo que vinha do exterior, principalmente dos Estados Unidos. Então, entendeu que era a hora de dar um grito de basta, como já fizera há quase 200 anos o índio Sepé Tiaraju, nas Missões, e dizer que esta terra tinha dono. O resto da história todos sabem.

Folclorista: Acervo vai muito além

→ Pesquisadores de todas as áreas e de todos os rincões do Brasil e do mundo terão sempre, na obra de João Carlos D´Ávila Paixão Côrtes um manancial sério, profundo e profícuo sobre as coisas do Rio Grande do Sul. Durante décadas, ele percorreu as regiões gaúchas observando, conversando e, principalmente, registrando, aquilo que considerava importante perpetuar para as atuais e vindouras gerações.

Armado de gravador, de câmera fotográfica, filmadora Super 8, Paixão resgatou em muitos confins do Estado, em suas várias regiões, como Serra, Litoral e Campanha, aspectos curiosos da nossa cultura popular que estavam esquecidos e que corriam o risco de serem perdidos. Entre elas, estão as tradicionais manifestações religiosas, como o Terno de Reis, além de folguedos e danças trazidas pelos imigrantes.

Segundo seu filho Carlos, o acervo até aqui obtido pelo pai é extremamente vasto, vai muito além do que já foi publicado em livros, livretos e opúsculos e transmitidos em palestras, em entidades tradicionalistas espalhadas por todo o Brasil.

Pesquisador: Reinado da gaita


→ São inestimáveis para a cultura gaúcha as pesquisas desenvolvidas por Paixão Côrtes ao longo de sua trajetória. Entre elas a música feita no Rio Grande do Sul desde os seus primórdios, como no livro “Aspectos da Música e da Fonografia Gaúchas”, de 1984. Segundo estudos de Paixão Côrtes, a música do pago pode ser dividida em dois momentos: “Antes de depois da gaita (Acordeon)”.

A primeira fase vem posterior à metade do século XVIII, até além da metade do século XIX, quando são destacadas as presenças de instrumentais dos violeiros (10 ou 12 cordas) e rabequistas (o violino rústico). Depois, o som aerófono do acordeão, suplanta a voz do cantor do período anterior e os temas gauchescos passam a ser mais musicais do que vocais.

Assim, predomina o aspecto sonoro bailável. “O pago começa a assistir ao reinado da gaita na transição dos entreveros da Guerra do Paraguai (1865/1870)”. Além disso, resgatou períodos da música, como o ciclo do gramofone (com surgimento da casa A Elétrica), ciclo da música radiofônica e o ciclo do disco Long Play (LP).

Mestre: Árdua pedregosa tropeada

→ Quando chega aos 90 anos, o velho “Tropeiro da Tradição”, como diz seu filho Carlos Paixão Côrtes, decidiu, por meio de uma carta histórica escrita em 2 de julho e publicada dois dias depois no Correio do Povo, dar um descanso nas atividades públicas, pois já não tem mais a energia de antes. O homem que gostava de camperear, andar de pago em pago em busca de manifestações folclóricas, de falar em público, de cantar e dançar, está cansado.

“Vai dar uma pausa na atuação como homem público, pois os anos de tropeadas lhe causaram desgaste de saúde. Já não consegue atender igualmente a todas as demandas e não quer preterir ninguém, mas precisa se fortalecer”. O Rio Grande vai entender este gesto em que o folclorista parece pedir desculpas por não conseguir mais atender os muitos pedidos de entrevista, de participações aqui e ali.

Fica o ensinamento do mestre, que sabe a hora de se recolher, de se dedicar à família e poupar energias. A sabedoria do campeiro que sabe manejar as rédeas do destino, que não pode cansar demais o cavalo nesta árdua e pedregosa tropeada.

Bailarino: Dança se espraiaram

→ Alegre e bem-humorado, Paixão sempre brilhava os olhos quando ia desempenhar a chula, uma dança masculina que exige força, agilidade e coreografia. Mas não ficou nisso. Foi atrás das danças coletivas, resgatou, registrou e ensinou e essas depois, foram se espraiando pelos CTGs e outras entidades de tradição. Embora seja um precursor do tradicionalismo, Paixão sempre deixou claro que o mais importante é o folclore e não as regras impostas.

Para o pesquisador, o que sempre importou é a manifestação popular genuína. Mais recentemente publicou diversos livretos com fotografias e explicações claras sobre essas danças. Em suas palestras, distribuía para a plateia e para as entidades os livros explicativos.

A maioria foi editada sem apoio institucional, apenas de apoiadores, amigos e incentivadores da cultura. Num desses livretos, intitulado “Nossos Bailares – Sociais, urbanos e campestres”, faz um apanhado do que aconteceu de 1600 a 1800, com descrições de músicas e danças. Foram publicados diversos livros com representações e desenhos das coreografias.

Texto de Paulo Mendes,
no Correio do Povo de 12 de julho de 2017.



Foto Agência RBS

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