terça-feira, 4 de julho de 2017

Um homem precisa de uma secretária


David Coimbra*


Queria ter uma secretária. Chega um momento da vida em que um homem precisa de uma. É o meu caso. Não gosto de mulheres de coque, mas minha secretária usaria coque. E óculos, claro, óculos são peça de lei em secretária, inclusive as de boa vista.
                           
Minha secretária seria longilínea, magra, mas não muito, as pernas sólidas, morena. Vestiria aqueles conjuntinhos comportados. Seria muito séria. Só me chamaria de “seu David”. Ai de você, se quisesse se meter a galã com minha secretaria. Ela dispararia um olhar de raio congelante que o deixaria humilhado.

Minha secretária se chamaria Celene. Dona Celene. Sonho em apertar aquele botão do interfone e convocar:

‒ Dona Celene, venha à minha sala para ditado.

Dona Celene viria de lá com seu bloquinho e seu lápis, se acomodaria em uma cadeira posta à frente da minha mesa de dois metros de comprimento, cruzaria as longas e luzidias pernas cor de caramelo e, depois de me enviar um olhar neutro, perguntaria, ajeitando os óculos no nariz fino:

‒ Pois não?

Tenho de pensar em assuntos para o ditado.

Graças à dona Celene, todos os meus e-mails seriam respondidos pressurosamente, que tenho milhares a responder. Minhas contas estariam sempre em dia. Jamais faltaria papel na impressora. E, o mais importante, ela é que faria essas compras on-line, sempre me atrapalho nas compras on-line. Dona Celene, a própria eficiência.

A despeito de sua necessária formalidade, dona Celene trataria de meus assuntos pessoais com intimidade profissional. E é aí que está o grande segredo, o busílis, aí é que está o motivo de eu precisar tanto de uma secretária, a esta altura da vida. É que, com seu profissionalismo, dona Celene eliminaria qualquer sentimento de culpa que eu pudesse acalentar ao praticar certas atividades, digamos, menos produtivas. Porque hoje é assim: vou jogar um xadrezinho e logo me assalta aquela ansiedade que ralha: “Neste tempo, você poderia estar escrevendo uma página inteira, seu vagabundo”.

Com dona Celene, não. Dona Celene chegaria com seus olhos de Charlize Theron e seus joelhos de Natalie Wood e me lembraria:

‒ Senhor David, eu estava revisando as minhas anotações e percebi que já faz tempo que o senhor não vê um bom filme de detetive no cinema.

‒ Senhor David, coloquei uma Blue Moon no congelador e, a esta hora, ela deve estar branquinha. O senhor quer que a sirva em uma taça ou em um copo?

‒ Senhor David, segundo a agenda, é hora de descascar uma laranja na sacada e comer vagarosamente, gomo por gomo, observando as crianças que brincam na pracinha.

Como dizer não à solenidade de dona Celene? Se ela falou, tenho de fazer. É compromisso. Obrigação.

Assim, eu reconheceria que ela está certa, balançaria a cabeça, emitiria um suspiro de resignação e concordaria:

‒ Tudo bem, dona Celene... Paciência... Me passe aqui essa taça de Blue Moon bem geladinha.

*****

(De sua coluna diária no jornal Zero Hora,
de Porto Alegre, RS.


*David Wagener Coimbra (Porto Alegre, 28 de abril de 1962) é um jornalista, radialista, escritor e cronista brasileiro.




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