segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O candombe da mãe Rita

Um fato da antiga Porto Alegre

(1881)

Por Antônio Álvares Pereira, o Coruja.


Uma Mãe-de-Santo da época
  
O candombe (1) da mãe Rita era na Várzea (2), defronte da casa e curral do antigo matadouro (3), mais ou menos no terreno então baldio e depois ocupado pelas casas do Firmo e a olaria do Juca (José de Sousa Costa), ou Juca da Olaria (4), nomes quase iguais à Baiana do Presépio ou Presépio da Baiana (5).

Ali se reuniam nos domingos à tarde pretos de diversas nações, que com seus tambores, canzás, urucungos e marimbas cantavam e dançavam esquecendo as mágoas da escravidão, sem que causassem maiores cuidados à polícia, como e à mesma hora acontecia aos parelheiros da Várzea em frente à chácara do velho Leão (6), com os tantos patacões aos pés do bico blanco, do zaino, do mano Juca, etc., apostas que quase sempre acabavam em rolo.

Nesse candombe também se ensaiavam os cocumbis (7) que pelo Natal nas festas da Senhora do Rosário, levando á frente o Rei e a Rainha vestidos à caráter, com a juíza do ramalhete e a competente aristocracia negra, iam dançar, ou antes, sapatear no corpo da igreja (8) com guizos nos tornozelos, enquanto dali não os expulsou o falecido vigário José Inácio, de saudosa memória.

Esta expulsão ou proibição deu causa a que o tesoureiro da irmandade, Francisco José Furtado, promovesse a ereção da atual Igreja do Rosário (9), mas quando anos depois na se concluía, já não dançavam aí mais os pretinhos, porque os tempos já eram outros, e só em Viamão se viu um arremedo do cocumbis, em que o rei e a rainha se caracterizavam com as colchas das sinhás-moças.

Não sei se o vigário tinha razão nesta expulsão ou proibição, pois como era octogenário devia saber que em julho de 1756, quando pela capitania andou o conde de Bobadela, foi no povo de Santo Ângelo obsequiado ele e a oficialidade que o acompanhava, pelo padre Bartolomeu Piza, superior daquela missão, com um sermão dentro da igreja. À entrada da porta principal, e que as índias e índios dançavam minuetos e contradanças nobilíssimas em honra de Santo Inácio de Loyola, patriarca da Companhia de Jesus de quem reza a igreja no dia último desse mês.

E o vigário José Inácio não devia ser mais católico nem mais cristão do que os próprios jesuítas.

Notas

  1. Candombe equivale à designação atual batuque, observa Sérgio da Costa Franco. É de ver que a palavra candombe sobreviveu no Uruguai, onde designa um gênero musical afro-americano.
  2. Grande área alagadiça que compreendia o atual parque Farroupilha e era maior que ele.
  3. Parece ser aquele que funcionou até 1824 na altura da atual Rua Avaí, perto da João Pessoa.
  4. Não era este o mais antigo proprietário de uma olaria na região, onde hoje corre a Rua Lima e Silva.
  5. Trata-se de Ana Maria de São José, senhora que vivia no antigo caminho da Azenha, atual João Pessoa, que de fato abria à visitação um presépio, por ocasião do Natal, segundo Coruja. Era uma “mulata velha” que sobreviveu como parteira depois de ter sido preterida numa herança rica a que tinha direito.
  6. Atrás do atual Colégio Militar.
  7. Na região de Osório se manteve esta tradição, a das congadas ou moçambiques e dos cocumbis permaneciam só em Viamão, que era o município a que pertencia a região litorânea toda.
  8. Esta igreja era a antiga Matriz, que existia até a década de 1920 no mesmo local da atual.
  9. Atual na época da redação, claro. Coruja está falando da antiga Igreja do Rosário, construída pela irmandade dos pretos (livres ou escravos), construída na atual Rua (ironia da história?) Vigário José Inácio entre 1817 e 27 e destruída irracionalmente nos 1950, para dar lugar à atual.

Nenhum comentário:

Postar um comentário