quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Pequenas histórias, Grandes autores


Epitáfio

Nikos Kazantzakis

Um hindu lutou muito tempo contra a corrente que carregava seu barco para a catarata. Quando o grande lutador compreendeu que todo esforço era em vão, cruzou os remos e se pôs a cantar...
Ah! Que a minha vida se torne este canto: “Não espero mais. Não creio mais. Sou livre!”

O sistema

Eduardo Galeano

que programa o computador que alarma o banqueiro que alerta o embaixador que janta com o general que ordena ao presidente que intima o ministro que ameaça o diretor-geral que humilha o gerente que grita com o chefe que pisa no empregado que despreza o operário que maltrata a mulher que bate no filho que chuta o cachorro.

A árvore eterna

Guilherme de Almeida

Ela foi plantada do Éden, há seis mil anos. Era uma boa macieira, de sombra refrescante e fruto ácido, com um interessante diabo, em forma de cobra, enrolado no seu tronco, para enfeitá-lo ainda mais, como uma pulseira num abraço. E tinha um encanto máximo, essa Árvore: o de ser proibida. Por isso mesmo, houve dentadas no seu fruto e beijos na sua sombra; e, no seu tronco, alguém gravou um coração com estas iniciais dentro: “A.E.”...
  
Mentiras

Fernando Bonassi

“Eu minto. Minto sobre o passado, sobre o presente e o futuro. As mentiras saem de mim de forma tão natural, que se incorporam à minha vida com o peso de experiências. Filmes que não vi, lugares que não visitei, mulheres que não tive, presentes que não ganhei, sofrimentos que não passei. Minto assim, sem nenhum charme. Diria mesmo que, vez por outra, os acontecimentos são mais interessantes que as mentiras que coloco no lugar. Minto pra cacete. Minto inutilmente. Minto de me envergonhar. Agora mesmo eu nem sei se estou falando a verdade...”.

Metamorfose

Ramon Gómez de La Serna

Gazel não era rude, mas costumava dizer coisas violentas e inesperadas durante o seu silencioso idílio com Esperanza. Trabalhara muito naquela tarde e estava nervoso, com desejos de dizer uma grande frase qualquer que surpreendesse e assustasse sua mulher. Sem erguer os olhos do trabalho que estava fazendo, disse-lhe, de súbito: “Vou lhe atravessar com um alfinete como se você fosse uma borboleta!”
Esperanza não lhe deu resposta, mas, quando Gazel olhou para trás, viu pela janela aberta fugir uma borboleta, que se perdia na distância, enquanto o quarto submergia na sombra.

O labirinto

Jorge Luis Borges

Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.
  
Desista

Franz Kafka
  
Era de manhã bem cedo, as ruas limpas e vazias, eu ia para a estação ferroviária. Quando confrontei um relógio de torre com o meu relógio, vi que já era muito mais tarde do que havia acreditado, precisava me apressar bastante; o susto dessa descoberta fez-me ficar inseguro no caminho, eu ainda não conhecia bem aquela cidade, felizmente havia um guarda por perto, corri até ele e perguntei-lhe sem fôlego pelo caminho. Ele sorriu e disse:
- De mim você quer saber o caminho?
- Sim, eu disse, uma vez que eu mesmo não posso encontrá-lo.
- Desista, desista, disse ele, e virou-se com um grande ímpeto, como as pessoas que querem estar a sós com o seu riso.

As linhas da mão

Julio Cortázar

De uma carta jogada em cima da mesa sai uma linha que corre pela tábua de pinho e desce por uma perna. Basta olhar bem para descobrir que a linha continua pelo assoalho, sobe pela parede, entra numa lâmina que reproduz um quadro de Boucher, desenha as costas de uma mulher reclinada num divã e afinal foge do quarto pelo teto e desce pelo fio do para-raios até a rua. Ali é difícil segui-la por causa do trânsito, mas prestando atenção a veremos subir pela roda do ônibus estacionado na esquina e que vai até o porto. Lá ela desce pela meia de náilon da passageira mais loura, entra no território hostil das alfândegas, sobe e rasteja e ziguezagueia até o cais principal, e aí (mas é difícil enxergá-la, só os ratos a seguem para subir a bordo) alcança o navio de turbinas sonoras, corre pelas tábuas do convés de primeira classe, passa com dificuldade a escotilha maior, e numa cabine onde um homem triste bebe conhaque e ouve o apito da partida, sobe pela costura da calça, pelo jaleco, desliza até o cotovelo, e com um derradeiro esforço se insere na palma da mão direita, que nesse instante começa a fechar-se sobre a culatra de um revólver.


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