segunda-feira, 16 de julho de 2018

A República da Degola

Por Angela Alonso



Foto de Affonso de Oliveira Mello, de 1894, registra a execução de um rebelde, testemunhada por oficiais do Exército. O carrasco que mira a câmera é Sebastião Juvêncio.

→ Professora do Departamento de Sociologia da USP, pesquisadora do Cebrap* Sebastião Juvêncio olha para você. De frente. Sem pejo, sem remorso. Faz o que é certo, o que é justo. Podia dizer como Fafafa, no Grande Sertão: Veredas: “Pois, amigo, a gente tem lá meios de guardar prisioneiro vivo? Se degola é da banda da direita para a esquerda”. Sebastião é senhor de seu ofício. Praticante experimentado. Tem talvez um laivo de vingança por tantos de sua cor, tantas vezes, por tantos séculos, no lugar do debaixo, cuja face a mão esquerda escamoteia. A direita segura decidida o instrumento de trabalho. A faca parece pequena para o perímetro do pescoço da vítima, que respira, sabe, um ar que será seu último. Está de joelhos, paralisado, resignado. Constrito. A câmera obrigava longo imobilismo, dando ao futuro degolado tempo de imaginar seu destino.

→ Sebastião não teme, não treme, não fraqueja. Os outros o admiram. São sete, como os pecados. Ali está, dono da cena, protagonista do ato que está em vias, suspenso por um instante, para que a modernidade da câmara capte em plenitude a barbárie da sua arte.

→ Degolar é costume e ciência. Não serve qualquer mão, nem qualquer estômago. Ação precisa, frequente e longeva. Praticou-se na Confederação dos Tamoios, nos começos do país, e pratica-se ainda hoje, nos presídios. Toda vez que os brasileiros se imaginam civilizados juram banir a selvageria. Foi assim no princípio da República, quando a promessa era expandir trabalho livre, secularizar o Estado, difundir a educação, urbanizar. A palavra de ordem era progresso.

→ O ímpeto de modernizar foi contra-arrestado por movimentos armados de contestação, que variaram quanto ao perfil dos participantes, aos objetivos, às estratégias. Durante toda a Primeira República, o Estado esteve sob disputa e a perigo. Os setores que o ocuparam monopolizaram a violência com sucesso apenas relativo. Ora enquadraram, ora foram enquadrados.

→ Seu domínio sofreu o revide de movimentos de elites sociais insatisfeitas com a linha do governo e de mobilizações de estratos sociais baixos contra intervenções em seu modo de vida. Assim nasceram guerras, revoltas, insurreições e guerrilhas, tentativas ora de tomar o Estado, ora de escapar ao seu domínio.

→ Tudo longe do mito do povo pacífico. No andar de cima e no debaixo, nas cidades e nos campos, na caatinga e nos pampas, a Primeira República foi tempo de briga, na base de espada e revólver.

→ O avanço tecnológico trouxe novas formas de viver, diminuiu distâncias, com telégrafo, tipografia, locomotiva, mas também novos meios de matar, a dinamite, metralhadora ou canhão.

→ As armas modernas chegaram devastando, mas nunca substituíram a navalha na carne. Civilização e barbárie não se sucederam, nem se anularam, se amasiaram.

→ O sangue esguicha do mesmo jeito, de faca ou de tiro.

* Este texto faz parte do livro-catálogo “Conflitos – Fotografia e Violência Política no Brasil, 1889–1964” (2018), publicação editada pelo Instituto Moreira Salles.

O livro

A exposição “Conflitos – Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964”*, que já foi apresentada no Instituto Moreira Salles (IMS) do Rio de Janeiro, pode ser visitada no IMS de São Paulo (Avenida Paulista, 2.424, galeria 3) até o dia 29, de terças a domingos, das 10h às 20h. O livro-catálogo, com 427 páginas, está à venda por R$ 129,50. Para comprá-lo ou obter outras informações sobre o projeto acesse: conflitos.ims.com.br.

*Livro e exposição em cartaz no Instituto Moreira Salles apresenta fotos históricas de conflitos entre 1889 e 1964. Rio Grande do Sul aparece em destaque em diversos registros − leia texto incluído no catálogo sobre imagem icônica da Revolução Federalista de 1893

A prática de degolar os inimigos não era incomum no sul da América, pelo contrário, tendo sido bastante usada em combates e batalhas no Rio Grande do Sul, como na Guerra dos Farrapos. Sua presença nesta foi em escala reduzidíssima, comparada com o que se viveria na Revolução Federalista. A violência política foi uma prática comum em boa parte do Rio Grande do Sul durante a República Velha. Na Revolução Federalista de 1893, bem como em sua continuidade em 1923, as perseguições e os assassinatos de opositores tornaram-se fato comum em diversas cidades do Estado. Este método punitivo aos perdedores era de extrema crueldade dada a situação em que encontravam.

Historiadores consideram que a prática era aplicada devida a duas situações básicas:

Devido ao modelo militar adotado, que era a cavalaria propriamente dita, de movimentação constante e relativamente rápida, o que tornava difícil manter tal tipo de prisioneiro, ao mesmo tempo em que poupava munição.

Meramente de forma punitiva, para infligir terror aos combatentes inimigos.

No âmbito médico-legal, degola é uma lesão incisa (produzida por instrumento cortante, como navalha ou bisturi) localizada na região posterior do pescoço. Não confundir com esgorjamento, que é também uma lesão incisa localizada no pescoço, porém em sua região anterior. 


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