quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O Submarino



A base aérea estava engalanada para comemorar mais um aniversário. Foram convidados oficiais de uma base naval das proximidades com quem ombrearam em várias batalhas. Após os comes e bebes, os discursos, as homenagens e condecorações, os oficiais da marinha foram convidados para participar de um rápido voo pelos arredores para conhecerem os novos aviões recebidos. Depois da decolagem, os pilotos iniciaram uma série de acrobacias: loopings, tuneaus, folhas secas, etc, às quais os marujos não estavam acostumados. Após muita judiação, os aviões aterraram e os convidados saíram tontos, trocando as pernas e maldizendo a hora em que aceitaram aquele convite.

Alguns meses depois, os oficiais da base aérea foram convidados a participar de uma comemoração na base naval. Os aviadores trocaram opiniões sobre a possibilidade de uma desforra, mas compareceram seguros e sem receios porque navio não faz piruetas.

Passaram um dia muito agradável em um ambiente de sincera confraternização, e para fazer um rápido passeio de submarino. Prontamente os aviadores se encaminharam para o cais e embarcaram confiantes.

O comandante deu ordem para desatracação, e com a máquina devagar adiante, foram demandando e cruzaram a barra ainda na superfície.

Enquanto navegavam, os aviadores recebiam informações técnicas do funcionamento do sonar, do ecobatímetro, do sistema de comunicação, números de torpedos e seu alcance, armamento antiaéreo, enquadramento para ataque, utilização dos motores a diesel para navegação na superfície e com geradores elétricos para navegação imersa. Foi descrita a estrutura monobloco do submarino que suportava a pressão hidrostática de até 100 metros de profundidade, etc. Já em alto mar, enquanto prosseguia mostrando os compartimentos, as seções e os equipamentos, foi determinada a profundidade de 50 metros para nivelamento.

O profundor foi marcando 10, 20, 30, 40, mas não parou em 50 metros e continuou afundando sem controle. Foi dado o alarme. O chefe de máquinas foi chamado, porém não atinou com a avaria: algo estava travando o leme de profundidade. Mandou cambar o óleo de peak tank para a popa.

- 60 m...

A bomba não funcionou, estava em curto. Os aviadores ficaram assustados. As máquinas foram paralisadas, estourou uma válvula hidráulica e a praça dos torpedos foi alagada. Estourou outra válvula no paiol e o corre-corre foi geral.

- 70 m...

A luz ficou bruxoleante e acabou apagando. Alguém gritou: “Liga o gerador de emergência!”. “Só temos bateria para mais 20 minutos! Desliga o ar!”

A atmosfera estava pesada.

- 80 m...

Um cheiro nauseabundo de óleo e fumaça tomava conta do ambiente. Os aviadores já estavam desesperados. Foi comunicada a situação à base, pedindo socorro.

- 85 m...

Entre a precária iluminação, o ar poluído, as válvulas estourando e alagando os compartimentos, o pavor e a sensação de impotência demonstrada pela tripulação, ocorreu o pior: o ronco do casco resistindo à pressão. Os aviadores prostrados no chão mordiam o boné e se ajoelhavam chorando. Estavam maldizendo a hora em que entraram naquela arapuca.

- 90 m...

 - Comandante! O paiol está alagado! - gritou um marujo.

- Tranca a porta estanque!

- Não pode, Comandante. Os bombeiros estão lá dentro!

- TRAAANCAAAAAAA!!!

O desespero era geral e ninguém sabia o que fazer. Os tripulantes, como baratas tontas, corriam para todos os lados desnorteados e os roncos provocados pela pressão sobre o casco eram cada vez mais tenebrosos: a situação estava totalmente fora do controle.

Os aviadores já imploravam, aos prantos, para que a pressão esmagasse o casco logo de uma vez para terminar aquela angustia.

De repente surgiu um alento: o chefe de máquinas conseguiu fazer uma manobra e o submarino parou de submergir e começou a voltar à superfície lentamente: 98, 97, 96... E com esse pequeno alívio, o navio foi se deslocando lentamente emergindo de volta à base.

Uma hora depois, cruzaram a barra já na superfície e, no cais, lançaram os cabos e atracaram. As escotilhas foram abertas e os aviadores se comprimiam para fugir daquela lata de sardinhas.

O cais estava deserto. O submarino estava seco e bem amarrado. Não havia nem desatracado...

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Este conto, que poderíamos chamar de “Sacanagem contra Sacanagem”, foi retirado do livro “Coisas do Arco do velho”, livro de memórias de Jack Manel, pseudônimo de João Carlos Moraes Aranha, Pqdt 155 do 1949/7.

Contacto para a compra do livro: jackmanel@yahoo.com.br

O autor do livro mora no Rio de Janeiro.

P.S-1. No livro há histórias sobre a Escola de Paraquedistas, Nacional Transportes Aéreos, Escola da Marinha Mercante, Marinha Mercante, Corretor de Imóveis, Historietas e Crônicas.

P.S-2. Segundo o autor do livro, o Pqdt Aranha, o conto também poderia se chamar “O simulador também faz essas gracinhas...”

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