domingo, 22 de outubro de 2017

Poemas humorísticos e irônicos de Cruz e Sousa



Paranaguadas

Que importa que tu fales
Que importa que tu files
Que importa que não cales,
Que importa que tu fales
Que importa que te rales,
Que importa-me essa bílis
Que importa que tu fales
Que importa que tu files.

Pinto, pinta - ponta à ponta

Pinto, pinta - ponta à ponta
Tanta ponta, Pinto pinta
Que pinta se pinta a pinta
Pinto - pinta - ponta à ponta
Pinto é ponto mas não ponta
Mas se pinta por um pinto
E já que o Pinto se pinta
Eu pinto-lhe a pinta ao Pinto.

[Como fortes gargalhadas]

Como fortes gargalhadas
Por um templo de cristal,
Sonoramente vibradas,
Como fortes gargalhadas,
Sinto idéias baralhadas
N’um frágil descomunal
Como fortes gargalhadas
Por um templo de cristal.

[Da bruma pelos países]

Da bruma pelos países
Pelos países da bruma,
Longe dos astros felizes,
Da bruma pelos países,
Tu vais perdendo os matizes
Da luz e da glória em suma,
Da bruma pelos países,
Pelos países da bruma.

Carta Renúncia de Jânio Quadros



Jânio Quadros por Baptistão

“Fui vencido pela reação e assim deixo o governo. Nestes sete meses cumpri o meu dever. Tenho-o cumprido dia e noite, trabalhando infatigavelmente, sem prevenções, nem rancores. Mas baldaram-se os meus esforços para conduzir esta nação, que pelo caminho de sua verdadeira libertação política e econômica, a única que possibilitaria o progresso efetivo e a justiça social, a que tem direito o seu generoso povo.

Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos ou de indivíduos, inclusive do exterior. Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam, até com a desculpa de colaboração.

Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranquilidade, ora quebradas, indispensáveis ao exercício da minha autoridade. Creio mesmo que não manteria a própria paz pública.

“Encerro, assim, com o pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes, para os operários, para a grande família do Brasil, esta página da minha vida e da vida nacional. A mim não falta a coragem da renúncia.

Saio com um agradecimento e um apelo. O agradecimento é aos companheiros que comigo lutaram e me sustentaram dentro e fora do governo e, de forma especial, às Forças Armadas, cuja conduta exemplar, em todos os instantes, proclamo nesta oportunidade. O apelo é no sentido da ordem, do congraçamento, do respeito e da estima de cada um dos meus patrícios, para todos e de todos para cada um.

Somente assim seremos dignos deste país e do mundo. Somente assim seremos dignos de nossa herança e da nossa predestinação cristã. Retorno agora ao meu trabalho de advogado e professor. Trabalharemos todos. Há muitas formas de servir nossa pátria.”

Brasília, 25 de agosto de 1961.

Jânio Quadros
  
Alarde de golpe e renúncia

Jânio Quadros por Liberali

 Em meio a tantas polêmicas, o ex-padrinho político Carlos Lacerda, irritado com as contradições e a independência partidária de Jânio, quis reforçar entre os militares e a opinião pública, a ideia de que o presidente estava ligado ao comunismo. Lacerda foi à televisão denunciar um possível golpe que estaria sendo articulado pelo presidente e então ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta.

 Na manhã seguinte, Jânio apresentou sua renúncia ao Congresso, que a aceitou de imediato. Para Newton Itokazu, as “forças ocultas” citadas na carta mostravam as dificuldades que o presidente teve para lidar com a oposição dos antigos aliados, a elite conservadora e os militares.

De acordo com Schmitt, porém, a abdicação foi o maior blefe de Jânio.

- Ele esperava obter poderes extraordinários com a renúncia. Jânio não tinha a intenção de sair do governo pelas portas do fundo.

Para o historiador Marco Antônio Villa, da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), Jânio tinha uma enorme instabilidade emocional. Segundo ele, o presidente esperava voltar ao poder pelo clamor popular.

- Jânio tentou construir uma versão da renúncia que nem ele conseguiu entender.

Por fim, seu vice, João Goulart, que no momento fazia uma viagem à China comunista, assumiu o poder – fato que reforçou a resistência das elites conservadoras e militares, e que, no fim, culminaria com o golpe militar de 1964.

Uma pequena história folclórica sobre Jânio Quadros


Conta a lenda que um dia alguém perguntou a Jânio Quadro o porquê da sua renúncia. Ele teria respondido:

- Fi-lo porque qui-lo.

Quando a história da pergunta chegou aos seus ouvidos, ele teria dito:

- Eu nunca teria dito tal frase, pois ela está gramaticalmente incorreta. Eu teria dito: Fi-lo porque o quis. Nunca usaria a ênclise na primeira oração e, sim, a próclise na segunda, pois a conjunção “porque” atrai o pronome oblíquo para antes do verbo. Se me perguntassem: Fizeste isso? Fi-lo. Quiseste isso? Qui-lo.

Outra pergunta feita a ele, pelo seu prazer me tomar um traguinho, por que ele bebia:

- Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia


Etiqueta na mesa, no restaurante.



→ Entrando num restaurante, o homem toma a frente, para falar com o maitre, escolher mesa, etc. Também deve esperar a mulher se sentar e só depois se acomodar.

→ Sentado, que nenhum fique olhando em volta, como se procurasse alguma coisa. Dê toda a atenção à pessoa que está a seu lado, faça com que ela se sinta especial, única. A não ser que você seja colunista social, e a trabalho.

→ Mesmo sem fome, peça alguma coisa, não deixe o outro comer sozinho.

→ Cuidado com os cotovelos. Só os apoie na mesa quando não estiver comendo.

→ Se cair água ou vinho na mesa, fique frio(a). Se for champanhe, molhe as pontas dos dedos e toque atrás das orelhas, dá sorte. Mas se derramar o copo inteiro e você perceber que vai cair no seu colo ou no chão, use o guardanapo para diminuir o tamanho da catástrofe. Depois, peça outro.

→ Segure o copo de vinho ou champanhe pela haste, para não interferir na temperatura do líquido. A não ser que você esteja tomando conhaque.

→ Use os talheres começando pelos de fora. Se você cometer algum erro, não dê importância. Seus amigos delicadamente fingirão que nada viram. Afinal, há alguma coisa menos importante do que, um dia, usar o garfo errado?

→ Tomando sopa, o silêncio deve ser total. Que se possa ouvir ruído do voo de uma mosca. Se a sopa vier num bowl (taça, xícara grande com asas), no final, você pode levá-la diretamente aos lábios, sem a ajuda da colher. Cuidado para não deixar a colher dentro da taça, é horrível.

→ Não se balance na cadeira.

→ Não tamborile na mesa com os dedos.

→ Mesmo que você adore comer, não se atire no prato como se estivesse saindo de uma greve de fome. Se você for mesmo um Pantagruel, coma uma coisinha antes de sair de casa. A não ser, claro, se for um jantar tipo Confraria dos Gastrônomos. Nesse caso, fique 72 horas sem comer, esperando o dia do jantar.

Será preciso dizer?


→ Não encha demais a boca.

→ Não mastigue de boca aberta.

→ Não fale de boca cheia. Ma aprenda a falar com alguma coisa na boca – desde que pouca. Ninguém vai ficar esperando que você mastigue, engula, e só então volte a falar. Treine em casa diante do espelho.

→ Nunca aponte para nada com o dedo – só para as estrelas.

→ Não gesticule nem converse com alguém do outro lado do restaurante. Peça licença e vá lá, se for o caso.

→ Não coma nada com as mãos, a não ser alcachofra e aspargos (mas quando os aspargos vêm como acompanhamento de uma carne, tudo de garfo e faca). Mas pode e deve, em nome do prazer, atacar uma asa de frango, ou a batata frita que passou diante de seus olhos – é irresistível. Em churrascarias, vale uma costelinha.

→ Lagosta, caranguejos nunca devem vir inteiros para a mesa. Só na beira da praia, com uma tabuinha e um martelo. Em Fortaleza, de preferência.

→ Se o seu garfo caiu no chão, que pena. Mas não se preocupe nem se abaixe para apanhar. Chame o garçom e peça outro.

→ Quando você perceber que um caroço de azeitona ou uma espinha de peixe foram para dentro de sua boca, fique frio. Passe discretamente para o prato, fazendo escala no garfo. Se você sentir que vai sufocar, não hesite, grite por uma ambulância.

→ Ao levar uma porção à boca, que isso aconteça em cima do prato. Se por infelicidade alguma coisa escorregar do garfo, não cairá no seu colo nem no chão.

→ Pão, ovos e saladas têm horror a facas. Por isso, nada de folhas de alface inteiras, o melhor é que já venham rasgadas (com as mãos – e muito limpas).

→ Palitos. Não devia nem falar, mas vou. Nem pensar, mas nem pensar mesmo. Só escondido(a), trancado(a) no banheiro, luz apagada

→ Se estiver resfriado(a), não se esqueça de ter um lenço de prontidão. Não use, nunca, o guardanapo como lenço. Se tossir, mão na frente da boca. Se está assim tão mal, por que não ficar em casa lendo um bom livro?

→ Quando se levantar da mesa, nunca dobre o guardanapo. Que fique bem claro que ele não poderá ser usado novamente se não for lavado e passado.

→ O macarrão. Espete uma porção com a ponta do garfo, encoste-a verticalmente no prato, enrole. (Entendeu alguma coisa?) Observe os que sabem, quando estão fazendo alguma coisa que você não sabe. Ah, o macarrão: nunca ajude com a colher.

→ Quando for beber, ou comer um pedacinho de pão, descanse os talheres.

→ O molho que sobrou no prato. Se estiver mesmo maravilhoso, peça licança com muito charme (“Ah, não resisto!”), espete um pedacinho de pão na ponta do garfo e regale-se. Afinal, é uma homenagem ao chef. Mas só faça isso quando houver uma relativa informalidade e, claro, não existir uma colher especial para o molho.

→ Terminou, garfo e faca no prato, paralelos – cruzar, jamais.

→ Antes da sobremesa, tudo que diz respeito aos pratos de sal deve ser removido. Mostarda, azeite, vinagre e cia.

→ Não empurre o prato depois que terminar, é horroroso.

→ Frutas. Para facilitar a vida, peça as que costumam vir já cortadas. Assim, ficam dispensadas as lavandas – pode ser melhor?

→ Nunca deixe a colher dentro de uma taça de sorvete, xícara de chá ou café.

→ Cuidado com o dedinho ao segurar qualquer xícara. Ou um copo. Se ele insistir em levantar, use um esparadrapo.

→ Atenção: uma pessoa realmente elegante nunca se irrita se a mesa que lhe deram no restaurante não é a mais bem situada. Também não exige tratamento especial do maitre. E trata tão bem os garçons quanto o gerente de banco. E outra coisa: fala com os garçons olhando para eles nos olhos. Garçom é gente.

→ Mesmo que você tenha um compromisso depois do seu almoço ou jantar, não fique olhando para o relógio, em agonia. Dá impressão de que você está louco para ir embora. Mesmo que esteja, disfarce.

→ Num restaurante, que sejam no máximo quatro pessoas. Mais de quatro é suplício, a não ser em mesas redondas.

→ Atenção: fale baixo. Em sua casa, na casa dos outros, em lugares públicos. É incrível o ruído que se ouve quando se entra em alguns restaurantes, sobretudo os não acarpetados.

(Do livro “Na sala com Danuza”, de Danuza Leão)


P.S. Ficar tuitando no celular num encontro de casal, num restaurante, jamais!



sábado, 21 de outubro de 2017

O que significa “Caralho”?


Por Adelson Mendes de Assis (SP)


Segundo a Academia Portuguesa de Letras, “Caralho” é a palavra com que se denominava a pequena cesta que se encontrava no alto dos mastros das caravelas, de onde os vigias perscrutavam o horizonte em busca de sinais de terra.

O caralho, dada a sua situação numa área de muita instabilidade (no alto do mastro) era onde se manifestava com maior intensidade o rolamento ou movimento lateral de um barco. Também era considerado um lugar de “castigo” para aqueles marinheiros que cometiam alguma infração a bordo. castigado era enviado para cumprir horas e até dias inteiros no Caralho e quando descia ficava tão enjoado que se mantinha tranquilo por um bom par de dias. Daí surgiu a expressão: “Mandar pro Caralho”.

Hoje em dia, Caralho é a palavra que define toda a gama de sentimentos humanos e todos os estados de ânimo. Ao apreciarmos algo de nosso agrado, costumamos dizer: “Isto é bom pra caralho”.

Se alguém fala conosco e não entendemos, perguntamos: Mas que Caralho você está dizendo? Se nos aborrecemos com alguém ou algo, o mandamos pro Caralho. Se algo não nos interessa dizemos: Não quero saber nem pelo Caralho. Se, pelo contrário, algo chama nossa atenção, então dizemos: Isso me interessa pra caralho.

Também são comuns as expressões: Essa mulher é boa pra Caralho (definindo a beleza); essa dona é feia pra Caralho (definindo a feiúra); esse filme é velho pra Caralho (definindo a idade); essa mulher mora longe pra Caralho (definindo a distancia); enfim, não há nada que não se possa definir, explicar ou enfatizar sem juntar um “Caralho”. Se a forma de proceder de uma pessoa nos causa admiração dizemos: “Esse cara é do Caralho!”. Se um comerciante está deprimido pela situação do seu negócio, exclama: “Estamos indo pro Caralho”. Se encontramos um amigo que há muito não víamos, dizemos: “Porra, por onde, Caralho, você tem andado?”

É por isso que lhe envio este cumprimento do Caralho e espero que seu conteúdo o agrade pra Caralho, desejando que as suas metas e objetivos se cumpram, e que a sua vida, agora e sempre, seja boa pra Caralho. A partir deste momento poderemos dizer “Caralho”, ou mandar a alguém pro “Caralho” com um pouco mais de cultura e autoridade acadêmica...

Envia esta mensagem para alguém de quem goste pra “Caralho”.

E tenha um dia feliz! “Um dia do Caralho!
  


Teste dificílimo


Aos meninos da pré-escola fizeram a seguinte pergunta:

− Em que direção está viajando o ônibus que se mostra nas figuras abaixo?


Olhe cuidadosamente. Sabe a respostas?

As únicas respostas possíveis são: direita ou esquerda.

Pense. Segue sem saber?

OK, vou dizer a resposta. Todos os pré-escolares responderam: “esquerda”. Quando perguntara a eles:

− Por que vocês pensam que o ônibus está viajando no sentido para a esquerda?

Eles responderam:

− Porque você não pode ver a porta!

←←←←←←←←←←

Você está se sentindo um ignorante!

Eu também.

Cena urbana 2017*


Millôr Fernandes


(Num mundo vastamente analisado e liberado, um homem e uma mulher se encontram)
  
Ela (Abrindo a porta) – Oh, Bernardo, que surpresa!

Ele – Posso entrar?

Ela – Ora, precisa perguntar? Que bom te ver.

Ele (Sentando) – Não vou tomar muito teu tempo. Era só uma coisa que queria te dizer. Tinha que ser hoje. Mas é coisa breve.

Ela – Foi ótimo você ter vindo. Eu também queria muito falar com você. Não tenho tido jeito, modo, oportunidade.

Ele – Ah, é? Então fala.

Ela – Não, Bernardo, fala você. Você, afinal, veio até aqui pra isso.

Ele – Mas posso escutar também, Luísa. Que foi?

Ela – Não sei como dizer. Sei que o que vou falar vai te magoar profundamente.

Ele – Não precisa arranjar palavras com que se explicar, Luísa. Você quer romper comigo. Não é isso?

Ela – Você já tinha percebido? Ah, meu pobre Bernardo, juro que não queria te fazer sofrer.

Ele – É estranho o mundo, não é mesmo? Estranha a vida! Eu vim aqui exatamente pra romper com você...

Ela – Ah, meu querido. Não precisava dizer isso. Eu te compreendo. Eu te conheço. Ninguém conhece você melhor do que eu. É natural que você esteja querendo me proteger de um golpe como esse – é sempre profundamente doloroso ser rejeitado, por mais que você esteja cansado do outro −,mas, pelo amor de Deus, não finja que está tomando a iniciativa! Por mais que isso fira teu orgulho masculino, o seu machismo natural, a verdade é que sou eu quem está rompendo com você.

Ele – Mas que isso, Luísa? Que bobagem. Uma mulher tão inteligente, tão madura. Eu acho que esse negócio de Liberação aí envenenou vocês todas. Estão todas sentindo uma terrível necessidade de se afirmar, acima do homem, como super-homens. Bobagem!

Ela – Que é isso, Bernardo? Não é nada disso! É uma questão de colocar as coisas em seu lugar. Uma questão pura e simples de prioridades. Fui quem...

Ele – Luísa, você sabe que quem abriu a questão fui eu! Você podia estar querendo romper comigo, mas quem rompeu fui eu. Embora isso não tenha a menor importância, está visto.

Ela – Evidente que não tem a menor importância. É só uma questão de deixar a verdade esclarecida. Sou capaz de repetir as minhas palavras: “Foi ótimo você ter vindo – sei que o que vou te falar vai te magoar profundamente”.

Ele – É verdade. Também me lembro muito bem. Mas por que é que você disse isso? Porque eu, antes, disse que precisava muito falar com você, como, aliás, está demonstrado pelo simples fato de eu vir aqui.

Ela – Mas o fato de você vir aqui e querer falar comigo poderia exprimir até uma vontade de reconciliação. Ah, estamos nos envolvendo numa conversa extremamente infantil, Bernardo, pelo simples fato de que você está magoado.

Ele − Ah, Luísa, pelo amor de Deus! Como é que eu podia me magoar com uma coisa que era exatamente o que eu queria? Eu vim romper com você. Fui eu quem usou primeiro a palavras ROMPER.

Ela – Olha, Bernardo, quer saber de uma coisa: já não me interessa mais saber se você ficou ou não ficou magoado. O que me importa agora é deixar claro que fui eu quem rompeu com você. A palavra romper foi minha.

Ele – Mas que coisa, Luísa! Rompeu coisa nenhuma. Fui eu que rompeu! Fui eu!

Ela – Você, Bernardo? Fui... Ah, querido, estamos sendo inteiramente ridículos! Que discussão mais idiota! (Ri, inocente) Vamos parar com isso. Idiota! Idiota!

Ele – É mesmo. Você tem toda razão. Não tem o menor sentido. (Longa pausa)

Ela – Olha, Bernardo, você vai me perdoar, mas tenho que sair agora. Se você quiser, nos encontramos amanhã de novo pra conversar tudo com mais calma.

Ele – Está bem, Luísa. Você é quem manda. Eu te telefono amanhã de manhã e combinamos alguma coisa. Tchau. Até amanhã.

Ela – Até amanhã. (Beijinhos. Se despedem na porta)

Ele – Coitada, vai ficar esperando esse telefonema a vida inteira.

Ela – Idiota! Amanhã, quando telefonar, mando dizer que não estou.

(Pano rápido)

*****

* O texto foi escrito em 2005.




O escritor mais importante de cada Estado


Texto de Pâmela Carbonari

(Se você tem alguma dúvida de que a literatura é um dos fatores mais importantes para definir a identidade de um povo, esse post é para você – caso esteja convencido disso, continue aqui mesmo assim)

Quando estava na escola, minha professora de Literatura pediu que escolhêssemos um livro do Érico Veríssimo para analisar ao longo do semestre. Ainda era abril e, apesar de já fazer algum frio nesta época do ano no Rio Grande do Sul, o termômetro naquele dia passava dos 25 graus. Lembro de ir à biblioteca em busca do primeiro volume de O Tempo e o Vento suando e poucas páginas depois de começar a leitura, sentir uma leve friagem ao ler as passagens em que Érico narra o vento Minuano cortando as noites na estância da família Terra – “Noite de ventos, noite de mortos”.

Algum tempo depois, essa mesma professora sugeriu que lêssemos Graciliano Ramos. Pedi o livro Vidas Secas a um amigo que me emprestou com a seguinte recomendação: “Até a metade você vai conseguir ler tranquilamente, mas depois é melhor ter uma garrafinha de água junto contigo”. De fato, durante a leitura senti a secura da cachorrinha Baleia e a apatia dos filhos de Fabiano dentro da boca, não deixando uma só gota de saliva descer pela garganta. Só consegui chegar ao fim seguindo o conselho do meu amigo.

Anos mais tarde, antes de visitar a Bahia, decidi que precisava ler Gabriela, Cravo e Canela. Em menos de 50 páginas, já tinha absorvido a cadência do sotaque mesmo sem ouvi-lo, sentia vontade de comer tapioca, acarajé, moqueca e de tomar uma(s) no bar do Nacib como se estivesse na Ilhéus do início do século.

Os livros nos apresentam a lugares que, mesmo quando reais, talvez nunca visitaremos, nos transportam para enredos que não podemos mudar e nos deixam íntimos de personagens cujos sotaques, hábitos, personalidades e aparências são adaptações de alguém, releituras de várias pessoas coladas em um determinado tempo e espaço.

É essa junção de elementos que faz a obra de Jorge Amado ser sinônimo de Bahia e a de Érico Veríssimo de Rio Grande do Sul, é isso que faz a literatura ser um dos mais importantes símbolos para a formação da identidade cultural de um lugar.

Pensando nisso, selecionamos os 27 autores mais representativos de cada estado brasileiro. Nossa seleção se baseou em número de prêmios ganhos, participações em Academia de Letras de suas respectivas federações, cobrança nos vestibulares locais, número de traduções para línguas estrangeiras e, é claro, se o autor é reconhecido por sintetizar a identidade de cada estado − não sendo determinante seu local de nascimento.


Sudeste

– São Paulo: Mário de Andrade (Macunaíma, 1928)
– Rio de Janeiro: Machado de Assis (Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881)
– Minas Gerais: Guimarães Rosa (Grande Sertão Veredas, 1956)
– Espírito Santo: Rubem Braga (50 Crônicas Escolhidas, 1951)

Sul

– Rio Grande do Sul: Érico Veríssimo (O Tempo e o Vento, 1949)
– Santa Catarina: Cruz e Sousa (Broquéis, 1893)
– Paraná: Dalton Trevisan (O Vampiro de Curitiba, 1965)

Centro-Oeste

– Mato Grosso do Sul: Miguel Jorge (Veias e Vinhos, 1981)
– Mato Grosso: Manoel de Barros (Livro sobre Nada, 1996)
– Goiás: Cora Coralina (Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais, 1965)
– Distrito Federal: Renato Russo (Faroeste Caboclo, 1987)

Nordeste

– Paraíba: Ariano Suassuna (O Auto da Compadecida, 1955)
– Pernambuco: Clarice Lispector (A Hora da Estrela, 1977)
– Rio Grande do Norte: Madalena Antunes (Oiteiro – Memórias de uma sinhá-moça, 1958)
– Bahia: Jorge Amado (Gabriela Cravo e Canela, 1958)
– Sergipe: Vladimir Souza Carvalho (Feijão de Cego, 2009)
– Ceará: Rachel de Queiroz (O Quinze, 1930)
– Alagoas: Graciliano Ramos (Vidas Secas, 1938)
– Piauí: Carlos Castello Branco (O Arco de Triunfo, 1959)
– Maranhão: Aluísio Azevedo (O Cortiço, 1890)

Norte

– Pará: Olga Savary (Sumidouro, 1977)
– Amazonas: Milton Hatoum (Dois Irmãos, 2002)
– Rondônia: Otávio Afonso (Cidade Morta, 1980)
– Tocantins: José Concesso (Meu Primeiro Picolé, 2004)
– Acre: Márcio Souza, (Galvez, Imperador do Acre, 1976)
– Amapá: Manoel Bispo Corrêa (Cristais das Horas, 1978)
– Roraima: Nenê Macaggi (Água Parada, 1933)