quinta-feira, 27 de abril de 2017

Histórias de Paraquedistas XXIX


Um perrengue no salto

Uma história de Vítor José Zenatti,
            Pqdt 16.073 – 1967/2 – MS 1609



Embarque de paraquedistas no C-119


Lendo as histórias narrando fatos acontecidos com nossos irmãos e audazes guerreiros alados, entusiasmei-me e segue, mais uma, para ser avaliada para publicação no nosso Almanaque do Grafonsos, para recordar e renovar nossa vibração paraquedista!

Permanecendo 18 anos em atividade contínua no Batalhão Santos Dumont, desde sua criação, muitas histórias aconteceram, tanto em saltos, diurnos e noturnos, nos TIBC, que fiz em Xerém e nos EBC, na Serra de Madureira, posteriores, e que participei como instrutor/monitor, e, obviamente, nas manobras anuais e acampamentos. Esta que segue, fiz parte da mesma. Como diziam os cariocas: foi um “perrengue!” (grande susto).

Por volta de 1970, num salto diurno, apenas para cumprir o plano na ZL dos Afonsos, eu era o segundo homem da porta da esquerda. O salto seria na luz verde! Após o ritual de praxe com os respectivos comandos do MS, de preparar! Levantar! Enganchar! Verificar equipamento! Contar! À porta!, feitos pelo MS, que não me lembro o seu nome, o primeiro homem (Borlani, Pqdt encorpado, de bom tamanho e peso), ao ouvir o “Já!” do MS e recebido o “Já!” do Auxiliar. de MS, com aquele tapinha costumeiro, ao invés de sair para frente e para cima, retirou as duas mãos do lado de fora da fuselagem e recusou a saída!

O pessoal da outra porta continuava a sair. A pressão nas minhas costas dos demais elementos da equipe começou a aumentar e chegou um ponto que não dava mais para segurar, mesmo porque o Auxiliar de MS também gritava: Vai! Vai! Vai...

Ao saltar, contar um mil, dois mil, três mil, quatro mil e depois de verificar o velame, vi que não estava sobre a ZL! Observei os prédios de Marechal Hermes “entortarem”, cães nervosos e pessoas agitadas se deslocando para ver o que acontecia. Sinceramente, minha primeira reação instintiva de sobrevivência foi subir pelas linhas do paraquedas e chegar no C-119, que se distanciava em direção aos Afonsos. Logo a seguir, com as duas mãos nos tirantes, tentei encontrar um local limpo para aterrar. O que via era prédios, casas, ruas e, pior, aquela rede de alta tensão que serpenteava as ruas e margeava a Benedito da Silveira! Não tinha opção. Tirei a força dos tirantes, rezei e entreguei minha alma a Deus! O chão se aproximava e não tinha a menor expectativa onde iria aterrar. Segundos eternos e extraordinariamente estressantes, pois o que poderia vir seria o fim...

Fiz uma aterragem razoável, ileso, num triângulo de terra de aproximadamente 20 a 30 metros quadrados, entre o meio fio de uma rua interna da subsistência da Aeronáutica, o muro que limitava a área militar e uma casa de alta tensão, que era a subestação de força das instalações ali existentes!

Passado o susto inicial, fiz um “giro do horizonte” para me orientar e saber dos demais companheiros, e vi um pqdt em cima da casa de força: era o cabo Severo, do Rancho, e não se machucou também! Foi preciso ajuda dos bombeiros da Base para retirá-lo, tamanho o perigo de vida que corria! Logo chegaram militares da aeronáutica e um suboficial me disse que aquele pqdt teve sorte, porque há menos de duas semanas fora trocado o telhado de telhas por uma laje de concreto daquela subestação de força...

Depois de algum tempo, veio o resgate e voltei para o quartel, tomando conhecimento do que houve e as conseqüências: por incrível que possa parecer, salvo se considerarmos a ajuda do nosso Protetor Alado, além do cabo Severo, outro paraquedista adentrou pelo telhado num banheiro externo de uma casa em Marechal, quebrou a pia e não se feriu com gravidade. O único que precisou ser removido para o hospital foi um pqdt que ficou enganchado em um poste de energia e, ao retornar do pêndulo e esticar o paraquedas que ficou preso, bateu forte com o pé no próprio poste e teve ferimentos de certa gravidade. E foi só!

Estamos aqui de passagem e muitas coisas acontecem e entre as quais, aquelas que precisamos agradecer pela graça de poder continuar na caminhada até o cumprimento da Missão!

Encerrando: a culpa não foi do MS, conforme sindicância realizada!

*****

Observação:

Aterrando na ZL do Campos dos Afonsos, na vertical do ponto,
O T visível à direita da pista

A Zona de Lançamento do Campos dos Afonsos fica no bairro de Marechal Hermes, subúrbio do Rio de Janeiro, um ficando praticamente ao lado do outro. Se um paraquedista atrasar a sua saída do avião, vai aterrar em lugar errado. Veja, abaixo, um lançamento errado no ano de 2016. 


Paraquedista numa rua do bairro


Paraquedas num fio de uma rede de alta tensão



Cuidado



Cuidado ao postar sua felicidade. A inveja tem facebook. (Augusto Branco)

Cuidado para não chamar de inteligentes apenas aqueles que pensam como você. (Ugo Ojetti)

Cuidado com a fúria de um homem paciente. (John Dryden)

Cuidado com o homem que não devolve a bofetada. Ele não a perdoou, nem permitiu que você se perdoasse. (George Bernard Shaw)

Cuidado com a tristeza. Ela é um vício. (Gustave Flaubert)

Cuidado com as pequenas despesas: uma fenda diminuta pode fazer afundar um grande navio. (Benjamim Franklin)

Muito cuidado com os elogios rápidos. Aqueles que, na primeira tarde, são capazes de ver qualidades que não tens, também rapidamente descobrem defeitos que nunca possuíste. (Paulo Coelho)

Cuidado! A vida é pra valer. E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo que é bom, ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu, e assinada embaixo: Deus! e com firma reconhecida. A vida não é de brincadeira, amigo. (Vinicius de Moraes)

Tome cuidado com o que você coloca em seu coração, pois isto, certamente, será seu. (James Arthur Baldwin)

Aquele que luta com monstros deveria tomar cuidado para não se tornar, através disto, um monstro. E se você encara por muito tempo um abismo, o abismo também encara você. (Friedrich Nietzsche)

Cuidado, este não é revolucionário. É um conservador de antigas anarquias. (Jean Cocteau)

Se eu soubesse que ia durar tanto tempo, tinha tido mais cuidado comigo. (George Burns, aos 100 anos)

Cuidado com o homem vulgar. A mulher vulgar. Cuidado com o amor deles. (Charles Bukowski)

Não faça nada que não te deixe em paz consigo mesma; cuidado com o que anda desabafando; Conte até três (tá certo, se precisar, conte mais); antes só do que muito acompanhado; esperar não significa inércia, muito menos desinteresse; renunciar não quer dizer que não ame; abrir mão não quer dizer que não queira;  tempo ensina, mas não cura. (Martha Medeiros)

Moço, cuidado com ela! Há que se ter cautela com esta gente que menstrua... Imagine uma cachoeira às avessas: cada ato que faz, o corpo confessa. Cuidado, moço, às vezes parece erva, parece hera cuidado com essa gente que gera essa gente que se metamorfoseia metade legível, metade sereia. (Elisa Lucinda)

Cuidado com as voltas que o mundo dá. Hoje você lança as palavras, amanhã sente o efeito delas. (Anônimo)

Cuidado com as palavras pronunciadas em discussões e brigas, que revelam sentimentos e pensamentos que na realidade você não pensa e não sente... Pois, minutos depois, quando a raiva passar, você delas não se lembrará mais... Porém aquela pessoa a quem tais palavras foram dirigidas, jamais se esquecerá. (Anônimo)

Cuidado com a carência afetiva, ela pode te fazer enxergar o amor onde ele não existe. (Anônimo)

Cuidado para não esperar de mim aquilo que nunca recebi de você. (Anônimo)

Cuidado! Pessoas mentem, sorrisos enganam e olhares iludem. (Anônimo)

Cuidado com o destino. Ele brinca com as pessoas. (Charão)

Cuidado com o medo, ele adora roubar sonhos. (Anônimo)

Cuidado com o que você compartilha nas redes sociais. (Anônimo)

Cuidado com o que você anda dizendo de mim, minha mulher é advogada... (Anônimo)

Cuidado com os invasores do seu corpo... eles não costumam voltar para ajudar a consertar a desordem. (Padre Fábio de Melo)

Tenha muito cuidado com quem sempre discorda de você. E tenha mais cuidado ainda com que sempre concorda com você. (Lucênio Lopes da Anunciação)

Cuidado com os desequilibrados religiosos, eles podem abalar a sua fé. (Anônimo)




quarta-feira, 26 de abril de 2017

Coisas da polícia de choque



A criação e o fardamento

A Guarda Civil, desde a sua criação, rezava o discurso, deveria se pautar “dentro dos princípios da polícia preventiva, branda, maneirosa e assistencial...”, mas cuidando de reforçar, também, o aspecto da força, declarando “... sem prejuízo de ação firme, quando necessária ela se tornasse.”

A partir de 1938, já em tempo da ditadura, o Estado Novo assumindo sua face autoritária-policialesca, vem exigir uma ampliação das responsabilidades da corporação, preparando-a para a repressão violenta das manifestações de rua contrárias aos interesses do regime. É criado dentro da Guarda um grupo especial que se encarregaria, especificamente, desse trabalho. Ganharia o nome de “Policia de Choque”, e mesmo que, depois, viesse a mudar a denominação oficial, assim seria conhecida, enquanto existiu, pelos porto-alegrenses. Que, aliás, ao contrário das simpatias que manifestavam pela Guarda Civil, detestavam profundamente esse grupo, com o qual tantas vezes se envolveria em episódios violentos. Tinham uniformes diferentes dos demais guardas. Usavam, invariavelmente, a cor cáqui, que também era a cor dos uniformes de verão dos outros guardas. Seu quepe era vermelho; tinham cinturão por cima da bata russa, abotoada até o alto. Alguns o chamavam de “Cardeais”, mas o povo os chamava de “cabeça de tomate” ou “cabeça de pica”.

A batalha perdida do “Choque”

Lá por volta de 1945 e num lugar muito especial: a rua Cabo Rocha (Atual rua professor Freitas de Castro, Bairro azenha). Era um tempo que o “Choque” ainda tinha o “Bagre”, o “Xingu”, o Hiturbes, o Viafone, o fiscal Gamaliel... E foram eles, junto com outros que nunca soubemos os nomes, os personagens da maior briga já travada contra os marítimos (Esses homens eram estivadores, homens fortes acostumados a levantar peso todos os dias no trabalho diário. A lenda diz que a briga foi contra os marinheiros, mas não é verdade). Foi num cabaré, que existiu lá pela metade da rua, o “Gato Preto”. Cabaré já antigo, com uma certa tradição de lugar correto, de boas profissionais e de pouca briga. Tinha até uma freguesia cativa entre o pessoal dos marítimos, já que a casa pertencia a um ex-embarcado. O dono do “Gato Preto” não queria saber de “leões-de-chácara”. Se a coisa engrossava, chamava a polícia e pronto. Pois foi o que aconteceu naquela noite: a coisa engrossou e o dono chamou a polícia. A 2ª Delegacia mandou um guarda civil. Geralmente era o suficiente. O pessoal respeitava a Guarda, mas aquela noite seria uma noite de exceções.O guarda chegou e já saiu sendo desacatado, xingado, enxotado...Azar do guarda. Apanhou porque foi lá no dia errado.

“Chama o Choque!” E foi o que o delegado mandou fazer, tão logo ouviu o relato do guarda. “Eles vão lá e cagam a pau esses sem-vergonhas que não sabem me respeitar o guarda.” Não demorou muito, já se ouviu a sirene do caminhãozinho do “Choque”, fazendo a curva da Azenha, nem parou na 2ª Delegacia – foi direto para o cabaré da Cabo Rocha.

Já desceram dando borrachadas em tudo que se movia ou respirava. Era a famosa “cordialidade” do “Choque”. Pau e pau. Mas então, outra exceção, os marítimos não se intimidaram e partiram para a retribuição das gentilezas. Mais pau e pau. O negócio foi ficando feio, o tempo foi passando, o “Choque” não ganhava, os marítimos se organizavam. Era hora de pedir reforços. E nem podia ser diferente, se não resolvessem a parada no ataque inicial, no primeiro pulsão, perdiam o fôlego e tinham que buscar reforço. O fiscal mandou o motorista buscar reforço. Não demora muito e vem outra leva, ainda que menor, dos homens do “Choque”. Juntam-se a eles os guardas dos setores próximos. Os marítimos vão, aos poucos, cedendo terreno. Começam a recuar. Ainda estão em maior número, mas a diferença é pequena e os homens do “Choque” estão mais bem equipados. Hora de chamar reforço, também. Um carro de praça parte rápido para buscar mais gente no centro. Tinha gente nos bares da Mauá e nos do Mercado, nos bordéis do início da Voluntários, nas dezenas de espeluncas e botecos dali mesmo, nas chatas da doca das Frutas, nos navios ancorados no porto, enfim em todos os lugares para quem soubesse procurar. Em poucos minutos, velhos Chevrolets e Fords, da praça do Mercado vão ficando abarrotados de uma horda truculenta de brigões sedentos pra dar porrada! Juntavam-se estivadores, arrumadores, ajudantes de caminhão, gente que trabalhava na faixa portuária. Freqüentadores de botecos do Mercado, da Voluntários, enfim todo mundo que tinha alguma diferença com o “Choque”. Tinha até um “General” comandando a operação, era o Pacheco, homem do Sindicato dos estivadores e de quem se dizia, a boca pequena, ter vinculações com o Partido Comunista e com a campanha “queremista”. Seja lá como fosse, o Pacheco, do alto de sua imensa barriga, com aquele vozeirão grave que lhe era marca registrada, transmitia, resoluto, as ordens arregimentadoras: “Ligeiro, camaradas, nossos irmãos necessitam de nossa solidariedade. Embarquem todos, não podemos permitir que as forças da repressão massacrem os trabalhadores. Disciplina revolucionária, camaradas. Esmaguem os inimigos do operariado. Embarquem rápido, camaradas!”

O “front” era uma pancadaria generalizada. Há muito já tinha extrapolado os limites do “Gato Preto” e tomava conta de boa parte do meio da rua. Os contendores mantinham-se agrupados e se enfrentava em linha, como falanges macedônicas. A gritaria era infernal. Todos berravam as mais tenebrosas imprecações. Já tinha guarda com o cacetete de borracha partido em dois. Batiam de mão fechada, então. Na realidade, aquela era uma batalha campal organizada. Tinha regras, lutavam mesmo a soco, nenhum tiro havia sido disparado e nem seria até o final.

Aos guardas, juntaram-se as últimas reservas disponíveis no quartel. Agora, se houvesse necessidade de mais reforço, só apanhando os que estavam de serviço nos setores espalhados pela cidade. E isso seria uma desmoralização para os homens do “Choque”. Uma nódoa em sua ilibada reputação. Nada disso, agora era uma questão de honra – lutariam com os recursos disponíveis até o final. Problema era o “vigor da mão proletária”. E que vigor!

E continuaram brigando ao longo de toda a madrugada, sem trégua, sem parada para descanso ou para pedir clemência. Desistiram pouco depois do amanhecer quando não agüentavam mais. Ambas as facções. Cansados, estropiados, todos arrebentados e em frangalhos, com hematomas disseminados por todo o corpo, foram arrefecendo a fúria e a luta foi perdendo o ímpeto naquela longa noite da Cabo Rocha.        

No dia seguinte, na sede do Sindicato, Pacheco afirmava convicto: “Foi a Stalingrado deles. As forças populares souberam honrar a palavra de ordem da Passionara, “no passarán”, e eles não passaram. Vitória do proletariado organizado.”

Pelo visto, o único perdedor foi o dono do “Gato Preto” que teve sua casa completamente destruída. Por muitos meses foi obrigado a manter uma espécie de imposto sobre o “mixê”, a coisa que desagradava muito as “trabalhadoras” da casa. Ele se defendia dizendo aos gritos; “E aí, o que é que vocês querem. A casa tem de ser consertada ou então vai todo mundo trepar nas moitas!” Tinha alguma lógica...


§ § § § §

Livro consultado:
 Os Vigilantes da Ordem,
guarda, cachaça e meretrizes,
de Rejane Penna e Luiz Carlos da Cunha Carneiro.
Editora Fotoletras


Símbolos Maçônicos


Acácia


→ Acácia mimosa, a planta símbolo por excelência da Maçonaria; representa a segurança, a clareza, e também a inocência ou pureza.

Avental


→ Símbolo do trabalho maçônico; branco, e de pele (ou plástico), para os Aprendizes e Companheiros; branco orlado de vermelho ou azul, para os Mestres.

Colunas


→ Símbolos dos limites do mundo criado, da vida e da morte, do elemento masculino e do elemento feminino, do ativo e do passivo.

Compasso


→ Símbolo do espírito, do pensamento nas diversas formas de raciocínio, e também do relativo (círculo) dependente do ponto inicial (absoluto). Os círculos traçados com o compasso representam as Lojas Maçônicas.

Delta


→ Triângulo luminoso, símbolo da força expandindo-se; distingue o Rito Escocês.

Esquadro


→ Resulta da união da linha vertical com a linha horizontal, é o símbolo da retidão e também da ação do Homem sobre a matéria e da ação do Homem sobre si mesmo.

Malhete


→ Pequeno martelo, emblema da vontade ativa, do trabalho e da força material; instrumento de direção, poder e autoridade.

Pavimento em mosaico


→ Chão em xadrez de quadrados pretos e brancos, com que devem ser revestidos os templos; símbolo da diversidade do globo e das raças, unidas pela Maçonaria; símbolo também da oposição dos contrários, bem e mal, espírito e corpo, luz e trevas.

Pedra Bruta


→ Símbolo das imperfeições do espírito que o maçom deve procurar corrigir; e também, da liberdade total do Aprendiz e do maçom em geral.

Templo


→ Símbolo da construção maçônica por excelência, da paz profunda para que tendem todos os maçons.

Três pontos, triângulo


→ Símbolo com várias interpretações, aliás, conciliáveis: luz, trevas e tempo; passado, presente e futuro; sabedoria, força e beleza; nascimento, vida e morte; liberdade, igualdade e fraternidade.


terça-feira, 25 de abril de 2017

Oddone Greco semeou anedotas pela capital



(Oddone Greco – 1919 – 1959)

Texto de Eduardo Veras e Uilson Paiva


Oddone Greco tinha uma característica que o acompanhou por toda a vida: não importava por onde andasse, sempre levava os outros para o mau caminho. Um dos mais irreverentes personagens da história de Porto Alegre, Greco traduziu em passagens hilariantes o espírito de uma época. Histórias que foram reunidas pelo cronista Renato Maciel de Sá Júnior em três volumes do livro O Anedotário da Rua da Praia.

Descendente de uma família tradicional de imigrantes italianos, Greco foi legítimo bon vivant. Seu pai era o próspero Januário Greco, dono do primeiro automóvel a circular pela Capital, em 1906, de prédios e três cinemas, entre eles o Apollo.  Único homem entre cinco filhos, Oddone Greco empregava todo tempo livre – as 24 horas do dia, já que não trabalhava – em gastar a fortuna do pai. “Papai brigava muito para que Oddone trabalhasse, mas ele acabava levando todo mundo no bico”, lembra a irmã Inédia Greco Saraiva, 75 anos,* conhecida como Dona Mimosa. Mais que desfrutar do dinheiro, a verdadeira vocação do boa-vida era mesmo a zombaria, o gracejo, a galhofa. Na Porto Alegre dos anos 30, 40 e 50, poucos escaparam de suas patuscadas – como se dizia na época.

Para semear anedotas pela Capital, Greco não precisava sequer sair de casa, um palacete de 28 peças na Avenida Independência, onde hoje está o Edifício Britânia. Foi da janela de seu quarto que Greco protagonizou uma de suas histórias mais notáveis.

Aproveitando ser franqueada a visita aos campanários da Igreja da Conceição, Greco amarrou um fio de pesca em um dos sinos. Com um bodoque, arremessou a outra ponta do fio, enrolada em uma pedrinha, até o pátio de sua casa, ao lado oposto da rua. A partir de então, os moradores das redondezas passaram a ouvir badaladas dos sinos, nas horas mais improváveis. Criou-se o mistério: por força de quem os sinos dobrariam? Do vento? De uma alma de outro mundo? Um historiador aventou a possibilidade de as badaladas serem a tentativa de comunicação de um índio que ali morrera sob tortura. Um especialista em Código Morse prontificou-se em psicografar os sinais do além. Novenas foram rezadas, despachos foram feitos. Greco assistia a tudo sem se manifestar, até que o fio arrebentou. A verdade só foi confessada a amigos tempos depois.

A poucos metros de casa, no Colégio Rosário, Greco não dava trégua aos professores. Durante um ano letivo seu maior divertimento foi retirar, com canivete e tesourinha, os pompons dos cintos dos padres. Para salvar o filho das ameaças de expulsão, Januário Greco socorria a paróquia do Rosário com polpudas doações. Na última investida contra os pompons Greco foi apanhado e expulso do colégio.

O mais freqüente campo de ação de Greco era a Rua da Praia. Na principal artéria econômica e social da Porto Alegre de então, passou trotes em comerciantes, pregou peças nos amigos e chegou a roubar um bonde. Greco morreu de enfarte em fevereiro de 1959, aos 40 anos, ainda solteiro. Familiares foram avisados na praia por intermédio das rádios. Alguns amigos, pensando se tratar de mais algum de seus trotes, não deram importância à notícia. “Toda uma época desapareceu com ele”, escreveu Renato Maciel de Sá Junior.

Na trilha de um boa-vida irreverente

Oddone Greco fez estripulias no centro da Porto Alegre dos 30, 40 e 50


1. Um casarão de 28 peças na Avenida Independência, quase esquina com a Rua Conceição, serviu de lar para a abastada família Greco. Foi derrubado para dar lugar ao Edifício Britânia, um prédio residencial de 10 andares. A Rua Conceição também sumiu. No local, ergueu-se uma elevada, que desemboca no primeiro (e único) túnel da capital.


Avenida Independência – 1920

2. No Colégio Rosário, o estudante Oddone Greco protagonizou muitas façanhas. Certa noite, para fugir do internato, roubou todos os mosquiteiros do alojamento, amarrou-os uns aos outros e desceu os dois andares que o separavam da calçada.
Na escola, fundada em 1904, estudaram figuras ilustres do Estado, como os senadores Pedro Simon e José Fogaça e os ex-governadores Amaral de Souza e Synval Guazelli.


Colégio Rosário – 1940

3. Na Igreja Nossa Senhora da Conceição, Greco preparou o surpreendente golpe do sino. O templo, construído em 1851, é muito requisitado hoje por casais apaixonados: contabiliza uma média de 180 casamentos por ano.*

*Esse dado é de março de 1992, ano da publicação desta matéria.


Igreja Nossa Senhora da Conceição

4. Na Avenida independência, por onde circulam atualmente 4 mil veículos nos horários de pico, trafegou o primeiro automóvel de passeio surgido em Porto Alegre, um francês De Dion Button, propriedade da família Greco. Na foto abaixo, em 15 de abril de 1906, no banco de trás, entre seus dois irmãos, está o patriarca Januário Greco. O homem ao volante é o único cidadão da época que sabia dirigir em Porto Alegre: um presidiário, “hóspede” da Casa de Correição.


Januário Greco, seu irmão e o único motorista da cidade.

5. Em 1° de abril de 1914, é inaugurado na Avenida Independência, número 18, o Cine Apollo, de Januário Greco (pai de Oddone) e Eduardo Hirtz, entre outros. O cinema, com capacidade para 1554 pessoas na primeira classe e 450 na segunda, foi destruído para dar lugar a um estacionamento.


Cine Apollo – 1927

6. No salão de jogos do Clube do Comércio, na Praça da Alfândega, Oddone apostou altas quantias e chegou a perder o anel de noivado.


O prédio mais alto: Clube do Comércio, defronte à Praça da Alfândega.

7. Na Rua da Praia com Bento Martins, o varão dos Greco encontrou um bonde vazio. Aproveitando-se da distração do motorneiro, do cobrador e fiscal, entretidos em um boteco daquela esquina, Oddone assumiu os controles do carro. Levou o veículo até o fim da linha de Navegantes*e, de lá, voltou para casa de carro de praça.

*O único bonde que passava pela Rua da Praia era o da linha Gasômetro.




(Matéria publicada em 14 de março de 1997, em Zero Hora)



Oddone Greco em 1958


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Um pouco de histórias



Certo deputado foi escolhido secretário da Saúde sem nada entender do assunto. Fato raro.
Conta-se que um assessor entrou em sua sala e, aliviado, informou:
– Secretário, a cortisona chegou!
– Manda entrar, manda entrar – respondeu o outro.


O funcionário anunciou ao presidente da Caixa Econômica Federal do Rio Grande do Sul:
– Doutor, está aí uma comissão de membros de fora, que quer falar com o senhor.
– Pois que guardem os membros e entrem – disse o presidente.


Em seu discurso de inauguração da agência Partenon da caixa Econômica Federal, em 28 de outubro de 1958, o senhor Rubem Smidt afirmou, a certa altura, a propósito de poupança:
“... devemos guardar para as fases incertas do futuro”.
No dia seguinte, o Diário de Notícias publicou:
“... devemos guardar para as fezes incertas do futuro”.


Conta-se que, em determinada altura da Revolução de 30 – que levou Getúlio Vargas ao poder – as tropas governistas, acrescidas da força pública de São Paulo, opuseram firme resistência ao avanço dos batalhões provisórios, organizados no Paraná e Santa Catarina. Sob intensa fuzilaria, as comunicações tornaram-se difíceis, gerando noticias confusas. O comando revolucionário, no entanto, insistia em saber como se desenvolvia as operações.
Afinal, chegou o primeiro comunicado. Dizia.

TOMAMOS AREIAS E EVACUAMOS PEDREIRA.

*Areias e Pedreiras: cidades paulistas da zona do café.


Diz que, em 19 de junho de 1923, durante o combate da Ponte do Ibirapuitã, no Alegrete, as metralhadoras dos chimangos legalistas de Flores da Cunha choviam balas nos maragatos revolucionários do general Honório Lemes.
– Não tem poblema – disse o general. – Se as bala vier por cima, nóis se abaixemo.
– E se vierem por baixo, general?
– Nesse caso, nóis pulemo.
– Mas, e se vierem no meio?
Bueno, aí nóis se quebremo.*

 *Há quem diga que foi: aí nóis se fudemo.


As sondagens do eleitorado revelavam que aquele candidato ao governo do Estado ficara exatamente no zero por cento das estatísticas.
Procurado pela imprensa, comentou seu chefe de campanha;
– Bem, acho que, daqui pra frente, a coisa só deve melhorar,


João Abbott* clinicava em São Gabriel, onde ficara famoso pela competência.
Certa feita, um fazendeiro de Rosário do Sul, ferrenho inimigo político seu, quebrou a perna, logo tomada por gravíssima infecção. Quando o doente entrou em coma, os familiares e amigos decidiram chamar o dr. Abbott, único julgado capaz de evitar-lhe a morte.
Bastante contrariado, o médico deslocou-se até a fazenda e, após permanecer vários dias de vigília à cabeceira do moribundo, conseguiu salvá-lo, só retornando após colocá-lo fora de perigo.
Restabelecido, o fazendeiro mandou telegrama ao dr. Abott, perguntando quais seus honorários profissionais. Respondeu-lhe o médico:
“A mesma importância prometida para me assassinarem.”
Dias depois, o banco avisava a chegada de ordem de pagamento no valor de dez contos de réis...

*João Frederico Abbott (1857-1925): médico e político rio-grandense, republicano e abolicionista, correligionário de Júlio de Castilhos. Em 1904, foi secretário de Estado do governo de Borges de Medeiros.


Em 1948, o deputado estadual Guilherme Mariante, do PTB,* começou a atacar o governo da tribuna, dada a alta dos preços. Os operários, cujo setor ele dizia representar, estavam submetidos a padrão de existência incompatível com a dignidade humana. Um seu opositor do PL (Partido Libertador) pediu aparte e ponderou que aquela questão de preços não era tão fácil de conjugar, pois decorria da lei da oferta e da procura. Ao que o petebista respondeu, peremptório:
– E por que ainda não providenciaram a revogação dessa lei?
Ao outro deputado recomendou, mal contendo o riso:
– É melhor Vossa Excelência ao avançar muito nesse assunto. Pelo que estou lembrado, essa lei é da época do doutor Getúlio...

*O Partido Trabalhista Brasileiro foi fundado por Getúlio Vargas, ditador de 1930 a 1945 e presidente da República eleito em 1950, tendo assumido em 1951 e se suicidou em 24.8.1954.

(De “Um livro de histórias”, de Renato Maciel de Sá Júnior)



*Renato Maciel de Sá Junior nasceu no Rio de janeiro, em 27 de abril de 1941. Mas, segundo ele próprio diz, não é carioca, é gaúcho. Morou em Porto Alegre, onde exercia a profissão de advogado. Apaixonado pelo caso humorístico e pela anedota, Renato preferia se considerar um contador de histórias a um escritor. Renato Maciel de Sá Junior faleceu em 31 de julho de 1992, em Porto Alegre, RS.

Um grande praça


Renato e esposa

Permitam que em nome de Porto Alegre e dos seus amigos, esta coluna chore a morte de Renato Maciel de Sá júnior, sepultado ontem (1.8.1992). Impossível deixar de derramar lágrimas por tal tipo inesquecível. As cidades são feitas de pedra e de traçados, mas são sustentadas pela espessura espiritual de pessoas como Renato, verdadeiros arquitetos de ternura.

Músico, bacharel, escritor, juiz eleitoral, mas, acima de tudo, um grande praça. Conviveu com o câncer durante 12 longos anos, mas sua vida parecia ser nesse período ainda mais produtiva. Respondeu à doença não com o desânimo dos condenados, mas com o sorriso dos venturosos. Sentava-se à maquina não para contar a melancolia de que devera se possuir, mas para legar-nos os Anedotários da Rua da Praia, a rua que a cidade e ele amavam, com as humanidades dela e a sensibilidade dele.

Era um contador de casos, tenho aqui na minha frente o seu Um livro de Histórias, mas antes de tudo foi um agregador, um jeitão simples que fazia amigos por onde fosse, uma alegria de viver transbordante, uma vocação para criar e recriar, para lembrar, um atleta da solidariedade, um lado só de atração pelas pessoas e a curiosidade pelo seu meio, um homem orgulhoso do seu convívio e insaciável pelas manifestações da sua cidade.

A última lembrança que tenho dele foi no bobó de camarão da Lúcia Veríssimo. Identificava e definia todas as serestas que cantávamos, os brilho do olhar e da expressão denotando que as saboreava lá naquele recanto sereno da sua alma musical, agitando a roda de papo com recordações da sua memória prodigiosa.

Sempre que seu nome surgia lembrado por alguém, fazia-se a reverência ao belo sujeito em que ele se constituía. Todos o amavam, todos foram levar a ele ontem no Cemitério São Miguel e Almas o agradecimento pelo calor humano que dele sempre receberam, uma saudade imperecível já se precipitando ao redor do esquife.

Renato e seu Sexteto era o conjunto musical que alegrava os bailes da cidade e do Estado desde 1960, quando fundou-o. Tinha ele, o Maneca, o Sabino Loguércio, o Gilberto Brodt, o Jaime Eduardo Machado, o Benatti, o Luís Fernando Veríssimo como integrantes. Depois cresceram para 10 ou 11, mas ficou ainda o nome, Renato e seu Sexteto. Foi sempre assim a dádiva do Renatinho, não importava os nomes, importava o número de seus amigos.

Procurei ontem após o enterro o Luís Fernando Veríssimo para colocar aqui nesta coluna algumas palavras sobre seu grande companheiro. Ele estava tão abalado que só me pôde me pronunciar uma frase: “Foi sempre um grande e presente amigo.”

(Paulo Sant´Ana, em 2 de agosto de 1992, em Zero Hora)


Meu depoimento:

Quando fiz concurso para professor do Município de Porto Alegre, fui lotado no Centro Municipal de Cultura, onde havia um atelier livre para aulas de pintura e modelagem em cerâmica, uma biblioteca, um teatro, um saguão para exposições de arte e um auditório também para espetáculos múltiplos.

Numa noite, vi entrar no Teatro Renascença uma figura da qual eu já havia lido e gostado muito de todos os seus anedotários, Renato Maciel de Sá Junior. E eu disse isso a ele. Agradeceu-me o comentário e a gentileza, apertou a minha mão e deu um largo e bondoso sorriso. Isso foi, provavelmente, em 1985. Mal sabia eu que ele já estava doente e faleceria sete anos depois, com apenas 51 anos de idade. Realmente, ele foi um grande praça!

Nilo da Silva Moraes


O herói da novela

Corriam os tempos heroicos das radionovelas, audiência absoluta antes do advento da televisão. Os capítulos iam para o ar ao vivo. Ainda não eram usadas gravações.

À massa de ouvintes da Rádio Farroupilha acompanhava o dramático final de uma comovente história de amor e violência. A trama fluía emocionante. O galã, interpretado por Walter Ferreira, finalmente encontrara o odiado vilão, refugiado no último andar de um edifício:

– Ah, canalha, chegou tua hora! Prepara-te para morrer. Neste revólver está a bala que reservei para ti todos estes anos. Toma, miserável, morre!

Naquele exato momento, nos estúdios da Farroupilha, na Duque de Caxias com o Viaduto Borges de Medeiros, o sonoplasta manuseou rapidamente o disco onde as diversas faixas continham toda a variedade de sons e ruídos, como tropel de cavalos, trem andando, badalo de sino, etc. Ao invés do esperado tiro, porém, na transmissão ouviu-se o desconcertante mugido de uma vaca.

Walter consertou rápido:

− E não adianta te esconderes atrás da vaca, miserável!

*****

(Texto do livro “Anedotário da Rua Praia 1”,
de Renato Maciel de Sá Júnior)




As capas dos anedotários: 1, 2, 3,
todos de autoria de Renato Maciel de Sá Júnior.





domingo, 23 de abril de 2017

O apolítico*

*Quem ou o que está fora da política; que não se interessa pela política.


O machão da Internet

O apolítico não se manifesta.
Ele fica em cima do muro.
É um fraco, que não sabe impor sua opinião.
E, por não saber impor nem opinar, é manipulado:
Na sua crença tola e vazia,
No seu casamento dissimulado,
No seu trabalho sem sentido,
Na sua Igreja, como eterno puxa-saco!

Samuel Ranner

“Odeio os indiferentes. Acredito que viver significa tomar partido. Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes. A indiferença é o peso morto da história.”

(Antonio Gramsci - La Città Futura)


O Analfabeto Político

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato
e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política,
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista, pilantra, corrupto
e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

Bertolt Brecht



“Nicole Kidman e Jennifer Aniston são seres apolíticos.
O que preocupa essas jovens atrizes é a maquiagem,
o penteado e o stress com as dietas.”

Shirley MacLaine