sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O Palácio da Intendência



Conforme noticiamos, terminou, a 15 do corrente, a mudança da intendência municipal para o belo palácio que acaba de ser construído, expressamente para aquela repartição, à Praça 15 de Novembro.

Visitamo-lo anteontem. Embora poucos momentos nos tenhamos demorado no magnífico edifício, causou-nos tudo quanto vimos a mais agradável impressão; e supomos mesmo que em todo o Estado não há construção que lhe sobreleve em beleza arquitetônica, nobreza e proporções de linhas, disposição de salas e dependências e condições de higiene, de ar e de luz.

Logo ao transpor o formoso peristilo, admira-se o amplo e alteroso átrio pavimentado a mosaico, e cujo plafond repousa sobre colunas dóricas o qual dá acesso ao suntuoso vestíbulo de onde sobe, em dois corpos laterais, a luxuosa escadaria de mármore branco que vai ter ao sobrado, e sobre o qual se projeta a farta claridade de uma ampla claraboia.

Essa parte da construção, aformoseada, ainda, em volta, por galerias com colunas conjugadas de ordem coríntia, é incontestavelmente soberba e tem mesmo uma certa majestade.

Todas as seções em que se subdivide o serviço intendencial, as do conselho, secretaria, contabilidade, tesouraria, impostos, águas e esgotos, etc.; e as do arquivo, inspetoria de veículos, assistência pública, 1º posto policial, etc., acham-se convenientemente instaladas em salas adaptáveis, por completo, já pelas dimensões, já pela sua organização e mobiliário, ao respectivo regular funcionamento.

Releva, entretanto, destacar aqui o salão destinado às sessões do conselho, o que é um primor.

O assoalho, caprichosamente batido, é um bonito mosaico de madeira lustrada; as paredes apresentam lindíssimo aspecto na sua artística pintura decorativa; e completa o esplendor do conjunto o raro gosto dos lavores do estuque, traçado de filetes dourados que põem num suave destaque as cores claras e esmaecidas das tintas, predominando o rosa e o azul: um mimo!

No rez de chaussée fica o xadrez do 1º posto, espaçoso, claro e bem ventilado, dispondo de latrinas que são a última palavra do invento, para ser mantido o mais completo asseio; e nas mesmas condições são as water closet destinadas ao pessoal da repartição e as reservadas para os funcionários superiores, apenas distinguindo-se das primeiras pela maior confortabilidade e melhor aparência, passando os depósitos de todas ao esgoto, depurados pelo processo de reservatório sanitário.

Para o serviço hidráulico e de iluminação a gás e à eletricidade, todo o encanamento e fios condutores são internos, como se usa em todas as construções modernas.

A não ser os lustres e as arandelas que foram mandadas vir da Europa e que simultaneamente se prestam à iluminação elétrica e a do gás carbônico, intensada por bicos Auer, tudo o quanto há na importante construção é produto de nossa florescente indústria local; e, entre outros trabalhos dignos de nota, a porta principal, toda em finos entalhes, uma custosa escada de caracol que comunica o sobrado às dependências superiores e o alteroso portão de grade que abre para a rua das Flores, fazem honra às acreditadas oficinas dos reputados industrialistas Steigleder Sobrinho, E. Berta e Viúva Hugo.

Essa decidida e justíssima preferência à indústria rio-grandense é mais um relevante atestado de muito amor que à nossa terra dedica o ilustre intendente Dr. Montaury de Aguiar Leitão que, em boa hora, resolveu assentar aqui a sua tenda de trabalho.

Enfim, o palácio da intendência municipal de Porto Alegre é digno de uma grande cidade culta, civilizada e progressista.

(Correio do Povo, de 19/5/1901)


José Montaury, nascido na Província do Rio de Janeiro e formado em engenharia civil, fora para o Rio Grande do Sul trabalhar na Comissão de Terras e Estabelecimento de Imigrantes, órgão ligado ao Ministério da Agricultura. Seguidor da doutrina positivista desde seus tempos de estudante, conheceu em Veranópolis, onde era Inspetor da Comissão, o então Presidente do Estado, Júlio de Castilhos, no ano de 1895.

Comungando do mesmo ideal filosófico, Júlio de Castilhos resolve convidá-lo para se candidatar ao cargo de Intendente de Porto Alegre. Eleito em 1896, Montaury só tomou posse no ano seguinte, impossibilitado que estava de afastar-se de suas funções em Veranópolis. Reeleito por seis vezes, permaneceria no cargo até 1924.

Também em 1895, Júlio de Castilhos foi apresentado a outro adepto da escola filosófica de Auguste Comte, o engenheiro João Antonio Luiz Carrara Colfosco, a quem encarregou de projetar o prédio da Intendência.

O local escolhido para erguer o paço foi o aterro da antiga doca do carvão, às margens do rio Guaíba, no centro da cidade, onde se concentrava a vida econômica e social de Porto Alegre. Ficava situado entre a rua 7 de Setembro (para qual ficou voltada a sua fachada principal); a rua das Flores (que começava a se formar e é a atual Siqueira Campos); a do Comércio (atual Uruguai); e o Mercado Público (ainda não fora aberta a avenida Borges de Medeiros). À sua frente, em um espaço não urbanizado, surgiria a Praça Municipal, hoje Praça Montevidéu.


1895, a antiga Doca do Carvão, ao lado do Mercado Público, pouco tempo antes de ser aterrada para que no local fosse construída a Prefeitura de Porto Alegre.


Praça Montevidéu

A partir da construção do paço Municipal, inaugurado em maio de 1901, a área* começou a ser chamada de praça Municipal. Seu nome foi mudado para praça Montevidéu pelo Ato nº132, de 25/9/1916.

A construção e o ajardinamento de uma elipse verde em frente ao paço Municipal foi obra do Intendente Otávio Rocha, em 1927. Posteriormente, ao ensejo do Centenário da Revolução Farroupilha, ali foi implantado a bela fonte de azulejos, proveniente de Talavera, Espanha, que foi oferecido à cidade pela colônia espanhola.


(Sérgio da Costa Franco, “Porto Alegre: Guia Histórico”)


Posto de Pronto Socorro, anexo, no térreo da Prefeitura.

Nichos com bustos de Deodoro da Fonseca e José Bonifácio, além de medalhões com imagens de Júlio de Castilhos e Floriano Peixoto, compõem o frontispício do Paço. Em 1906 foram colocados os leões de mármore que adornam a entrada principal do prédio, criados por Carlos Fossati.

A decoração interna foi executada entre abril e setembro de 1901. A pintura decorativa ficou a cargo de Ferdinand Schlater. No salão de honra foram colocadas tapeçarias, telas e bustos de personalidades da história brasileira. Em 1904, o saguão do pavimento superior ganhou os vitrais executados por Joseph Wollmann, introdutor dessa arte no Rio Grande do Sul. Novidades tecnológicas como o telefone e a iluminação elétrica foram instaladas no Paço.

Alterações internas e externas foram sendo feitas no prédio com o passar do tempo. O pátio interno, de 100 m², desapareceu para dar lugar a novas dependências e o portão de ferro da rua Siqueira Campos foi retirado.

Com a inauguração em 1948 de um novo edifício na rua Siqueira Campos, localizado imediatamente atrás do Paço, várias repartições foram para lá transferidas.

Em 1973, ano do bicentenário da transformação de Porto Alegre em sede da Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul, o prédio da Prefeitura passa a ser chamado de Paço dos Açorianos.

Homenageava-se, assim, os imigrantes que, trazidos pela Coroa portuguesa para povoar o sul do país por volta da metade do século XVIII, fixaram-se na margem esquerda do Guaíba e, segundo Miguel Ângelo Blasco – que por ali passara entre 1754 e 1755 – formaram “um arroio de casas de palha habitadas de casais das ilhas (de Açores)”, embrião da cidade de Porto Alegre.


Os leões de mármore, colocados em 1906.


Prédio da Intendência com pintura nova


À direita, Salão Nobre e, à esquerda, escadaria de mármore branco.


Imagens do subterrâneo da Prefeitura de Porto Alegre








Mário Cinco Paus, o rábula de Porto Alegre

 ↑
Travessa Mário Cinco Paus, atrás da Prefeitura Nova.

Além de repórter, Mário Cinco Paus também era advogado, ou melhor, rábula: advogado não formado, mas conhecedor do Direito, que recebia autorização para atuar como provisionado. “Com a constituição positivista (de 1891), no início do século 20, ele virou advogado, por ser uma espécie de benfeitor. O Mário tinha uma vida comunitária ativa. Era uma pessoa bem conhecida na cidade”, explica Guimaraens. Outro episódio marcante envolvendo o repórter-rábula se refere a entrada do Brasil na II Guerra Mundial, em 1942. A população de Porto Alegre entrou em fúria e fez um quebra-quebra contra o comércio de imigrantes alemães e italianos − a Alemanha e Itália agora eram inimigas do Brasil. Enquanto isso, a Brigada Militar e o Exército apenas assistiam às cenas de vandalismo. “Um comerciante ia ser linchado pela população e o Mário o defendeu, evitando o linchamento”, relembra Guimaraens.

Mário Cinco Paus circulou por várias publicações. Uma delas foi A Reforma, jornal dirigido por Francisco de Leonardo Truda, que hoje dá nome a uma pequena travessa localizada também no Centro, ligando a Avenida Mauá à Rua Siqueira Campos. Truda foi um dos fundadores do Diário de Notícias, criado em 1925. O jornal que incomodou a concorrência após ser comprado pelo magnata Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, encerraria suas atividades em 1979. Anos depois, acabou homenageado com uma larga avenida de quase dois quilômetros de extensão, na Zona Sul.

Texto do artigo: O jornalismo pelas ruas de Porto Alegre,
por Italo Bertão Filho

O Curioso Perfil

A propósito do assunto foi estabelecida uma curiosa conotação com repórter policial e rábula de sucesso em Porto Alegre do passado – o Mário Cinco Paus. Além do nome pitoresco, era um tipo vistoso, alto, de tez morena achocolatada e nariz aquilino. Tinha uma cabeleira basta que se derramava pela nuca em voltas encaracoladas – “uma cabeleira de poeta” como se dizia na época, e que despontava mesmo com chapéu sempre desabado. E ainda como detalhe bem chamativo, Mário Cinco Paus trazia pendente no braço esquerdo uma bengala grande.

Cruzava as ruas em passadas largas, vigorosas e rápidas, constituindo-se em figura muito popular que mais tarde viria a ser nome de rua* na capital.
     
Certa vez essa interessante figura de destaque na paisagem humana local, assomava na Rua da Praia distribuindo sorrisos e cumprimentos sob um chapéu de abas caídas, e, sobretudo com a indefectível bengala dependurada na curva do cotovelo esquerdo. Na roda de animado papo, um gaiato comentou:

− Lá vem o Mário Sete Paus!

− Não, o nome dele é Mário Cinco Paus – tentou corrigir outro.

− É Sete Paus, sim – sustentou o gozador.

− Ué, e esta, agora!

− Não reparaste que ele usa bengala?...


(Do livro "O Sexo... Como Humor na Medicina",
Dr. Caio Flávio Prates da Silveira)

*Na verdade, Mário Cinco Paus foi homenageado pela cidade com o nome de uma travessa.

*****

O Mário Cinco Paus foi um famoso rábula (advogado não formado, mas apenas provisionado) da cidade de Porto Alegre. Teve destaque nos júris que defendeu e era muito apreciado pela classe jurídica de Porto Alegre. Conta a lenda que esta alcunha, de cinco paus, deriva de sua maestria no popular jogo de pausinho, onde, nos finais da manhã, junto ao restaurante do Chalé da Praça XV de Novembro, costumam se reunir os intelectuais, frequentadores da antiga Livraria do Globo, e os jovens advogados. Eram, invariavelmente, depenados, pelo Dr. Mário, no jogo do palitinho. No governo do Prefeito Loureiro da Silva, foi homenageado esta figura quase folclórica, com um pequenino trecho de rua, com pouco mais de 30 metros, entre as Ruas Uruguai e Avenida Borges de Medeiros, na capital dos gaúchos.

(Garimpeiro Velho, no Yahoo)

O homem que eu invejava

Foi o sempre atento Carlos Urbim quem postou no Face a foto da placa de uma rua de Lisboa, que segundo o talentoso escritor, dá medo de passar. Pudera, o logradouro lisboeta chama-se Rua do Capado.

São coisas assim que atiçam a minha imaginação. Quem seria o pobre sujeito que teve extirpado seu órgão? O que teria feito para merecer esse infortúnio? Deve ter sido algo de magnitude para ganhar uma rua só pra ele. É o tipo da homenagem da qual eu abriria mão, primeiro pelo motivo que deu causa ao tributo – o único órgão que admito perder e já perdi é o apêndice; e depois, como bem disse o nosso Quintana, “um engano em bronze é um engano eterno” – no caso do Capado, um engano em azulejo português, menos mal.

A postagem do Urbim remeteu-me quase de imediato para o nome de um espaço público em Porto Alegre que sempre me intrigou e não poucas vezes foi motivo de piadas de baixa extração. Trata-se da Travessa Mário Cinco Paus! Fica no centro, entre a chamada Prefeitura Nova e um prédio do INSS, ligando o final da avenida Borges de Medeiros ao terminal de ônibus da rua Uruguai. Em tempos idos, já foi um beco, mas recebeu um trato, foi ajardinado e hoje é local de grande circulação.

Isso posto, eis a pergunta que não quer calar: quem foi Mário Cinco Paus, o homem que sempre invejei desde a adolescência, quando só pensava naquilo? Teria mesmo o nosso Mário cinco órgãos genitais? Como funcionariam: em paralelo, se completando, como pistões de um carro, uns subindo outros descendo? Era um homem realizado e de bem com a vida com seu instrumental diferenciado? E as parceiras do bom Mário como reagiam diante de cinco espetáculos do crescimento? E as pobres filhas do Mário, com esse sobrenome invulgar, como devem ter sofrido com brincadeiras de mau gosto, o antigo nome do bulling, nas escolas e outros locais que frequentavam?

Essas indagações, pertinentes e profundas acerca de um personagem da cidade, me acompanharam até os dias de hoje, quando resolvi pesquisar para saber quem foi Mário Cinco Paus. Aí todas as bobagens que imaginei caíram por terra. O Mário Cinco Paus nada mais era do que um rábula, advogado não formado, que viveu na cidade no século passado. Ficou famoso pelos júris que defendeu e era apreciado pela classe jurídica de Porto Alegre. A alcunha que acompanha o sóbrio nome de Mário seria derivada de sua maestria no popular jogo do pausinho, que reunia intelectuais, frequentadores da Livraria do Globo e jovens advogados em animadas rodadas no Chalé da Praça XV. O Dr. Mário costumava limpar seus oponentes no jogo dos palitinhos. No primeiro governo do prefeito Loureiro da Silva (1937 a 1943) esta figura quase folclórica foi homenageada com o pequeno trecho de pouco mais de 30 metros.

A placa de identificação do trecho revela que foi um filantropo, talvez por falta de outros predicados para ser em destacados, além de algo como O Rei do Pausinho ou O Mestre do Palitinho. Convenhamos, não ficaria bem.

E lá se foi minha inveja e meu complexo de inferioridade.

(Do Blog do Flávio Dutra)



quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A origem da fome



Eu procurei entender
Qual a receita da fome,
Quais são seus ingredientes,
A origem do seu nome.
Entender também por que
Falta tanto o de comer,
Se todo mundo é igual.
Chega dar um calafrio,
Saber que o prato vazio,
É o prato principal.

Do que é que ela é feita
Se não tem gosto, nem cor.
Não cheira, nem fede a nada,
E o nada é seu sabor.
Qual o endereço dela,
Se ela está lá na favela,
Ou nas brenhas do sertão.
É companheira da morte,
Mesmo assim não é mais forte
Do que um pedaço de pão!

Que rainha estranha é essa,
Que só reina na miséria,
Que entra em milhões de lares,
Sem sorrir, com a cara séria.
Que provoca dor e medo,
E, sem encostar um dedo,
Causa em nós tantas feridas.
A maior ladra do mundo,
Que nesse exato segundo,
Roubou mais algumas vidas!

Continuei sem saber
Do que é que a fome é feita.
Mas vi que a desigualdade,
Deixa ela satisfeita.
Foi aí que eu percebi,
Por isso que eu não a vi.
Eu olhei pro lado errado,
Ela está em outro canto.
Entendi que a dor e o pranto
Era só seu resultado!

Eu achei seus ingredientes
Na origem da receita,
No egoísmo do homem,
Na partilha que é mal feita!
E mexendo num caldeirão,
Eu vi a corrupção
Cozinhando a tal da fome,
Temperando com vaidade,
Misturando com maldade,
Pro pobre que lhe consome!

Acrescentou na receita
Notas superfaturadas:
1 quilo de desemprego,
30 verbas desviadas,
Rebolou num caldeirão
20 gramas de inflação
E 30 escolas fechadas!

Sendo assim, se a fome é feita
De tudo que é do mal,
É consertando a origem
Que a gente muda o final.
Fiz uma ponte ligeiro,
Se juntar todo dinheiro
Dessa tal corrupção,
Mata fome em todo canto
E ainda sobra outro tanto
Pra saúde e Educação!

(Bráulio Bessa).



Bráulio Bessa Uchoa é um poeta de literatura de cordel, declamador e palestrante brasileiro. Nascido em Alto Santo, no Vale do Jaguaribe, Ceará, ficou famoso após apostar na internet para resgatar a tradicional literatura de cordel. Faz participações no programa Encontro com Fátima Bernardes, na Rede Globo de Televisão. 


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A vacina que salvou o jovem José Meister



É mundialmente conhecido o caso do rapazinho alsaciano de nove anos, José Meister, que, em Julho de 1885 foi mordido catorze vezes por um cão com a doença da raiva. A mãe suplicou a Pasteur que lhe salvasse o filho. Até à data ninguém sobrevivera a estas mordeduras. O cientista esteve hesitante, porque ainda só testara a sua vacina em animais e era um risco enorme experimentá-lo num ser humano. Pasteur disse mesmo ao seu colega de investigação Emílio Roux que estava disposto a servir ele próprio de cobaia para poder testar a reação. Porém surgiu esta emergência e Pasteur passou momentos de angústia até se decidir. E pensou: se o rapaz morre depois de vacinado? Como as hipóteses de sobrevivência sem vacina eram nulas, arriscou. Luís Pasteur era químico e hoje diríamos biólogo, mas não era médico, por isso não podia ser ele a ministrar a vacina sob pena de ser processado. Pediu então ao Dr. Grancher, seu assistente, que o fizesse. Sessenta horas depois de ter sido mordido, José Meister recebeu a primeira de 12 injeções antirraiva, que lhe foram sendo injetadas uma após outra sob apertada vigilância. Família e cientistas aguardaram várias semanas. Por fim o jovem sobreviveu. Este jovem ficou para sempre agradecido a Pasteur e deu mesmo a vida por ele, já vamos saber como e quando.

A repercussão do sucesso da vacina antirrábica foi tal que a Academia das Ciências desenvolveu um projeto para criar uma instituição de investigação (futuro Instituto Pasteur) que foi bem acolhido no estrangeiro, tendo o próprio czar Alexandre III contribuído com cem mil francos. O Instituto foi inaugurado em 1888, no mesmo ano em que Vicent Van Gogh pintava na Provença, a sequência dos «Girassóis».

Pasteur foi admitido como membro da Academia de Medicina, em 1873 e em 1882 na Academia Francesa, prestigiadas instituições.

Em 1940, na 2ª Guerra Mundial, quando as tropas de Hitler invadiram a França, um grupo de militares quis forçar a entrada do Instituto Pasteur – onde repousam, numa cripta, os restos mortais de Pasteur. José Meister era o responsável pela segurança e, ao verificar que não conseguia impedir que os nazistas entrassem, suicidou-se (os cientistas nazistas tinham a paranoia de estudar os cérebros de pessoas consideradas gênios). Mas o cérebro de Pasteur não foi roubado.

Luís Pasteur já entrara na História pela sua descoberta, mas a sua contribuição para a Humanidade foi muito maior. O estudo da fermentação levá-lo-ia a descobrir o porquê dos vitivinicultores, de diversas zonas do seu país, verificarem, com tanta freqüência, que os seus vinhos se transformavam em vinagre, sendo uma enorme perca para a economia francesa. E isto passou a ser particularmente grave a partir de 1860, depois de assinado o tratado comercial entre a França e a Grã-Bretanha, por se verificar que grande percentagem dos vinhos não resistiam à viagem, estragando-se irremediavelmente. Nessa época, a França produzia 50 milhões de hectolitros de vinho por ano. A perda do precioso líquido era uma calamidade. O imperador Napoleão III (sobrinho de Napoleão Bonaparte) pediu a Pasteur que investigasse o porquê da fermentação do vinho e proporcionou-lhe as melhores condições de trabalho, equipando laboratórios para que o grande químico pudesse dedicar-se inteiramente a essa investigação. Foi criado, em 1867 o laboratório de físico-química expressamente para Pasteur, na Escola Normal Superior. Depois de aturados estudos o cientista descobriu que submetendo o vinho a um aquecimento elevado durante alguns segundos, e logo de seguida, a um repentino abaixamento da temperatura a menos de dez graus, matava os germes que alteravam os líquidos. Este sistema foi depois utilizado na cerveja e vinho, daí o termo «pasteurizado» que todos conhecemos.




Minha Casta Dulcineia


Fernando Sabino


Estou numa esquina de Copacabana, são duas horas da madrugada. Espero uma condução que me leve para casa. À porta de um “dancing”, homens conversam, mulheres entram e saem, o porteiro espia sonolento. Outras se esgueiram pela calçada, fazendo a chamada vida fácil.

De súbito a paisagem se perturba. Corre um frêmito no ar, há pânico no rosto das mulheres que fogem. Que aconteceu? De um momento para outro, não se vê mais uma saia pelas ruas − e mesmo os homens se recolheram discretamente à sombra dos edifícios.

− Que aconteceu? − Pergunto a alguém que passa apressado.

É a radiopatrulha: vejo o carro negro surgir da esquina como um deus blindado e vir rodando devagar, enquanto os olhos terríveis da Polícia espreitam aqui e ali. Não se sabe como, sua aparição foi antecedida de um aviso que veio rolando pelas ruas trazido pelo vento, espalhando o medo e possibilitando a fuga.

Eis, porém, que surgem da esquina duas mulheres, desavisadas e tranquilas. Uma é mulata e alta, outra é baixa e tão preta, que só o vestido se destaca dentro da noite − ambas pobres e feias. Veem o inimigo, perdem a cabeça e saem em disparada, cada uma para o seu lado. O carro da polícia acelera, ao encalço da mulata: em dois minutos ela é alcançada...

A outra, trêmula de medo, se encolhe a meu lado como um animal, tentando ocultar-se. O carro faz a volta e vem se aproximando.

− Pelo amor de Deus, moço, diga que está comigo.

Já não há tempo de fugir. A pretinha me olha assustada, pedindo licença para tomar-me o braço, e, assim, protegida, enfrenta o olhar dos policiais. Tomado de surpresa, fico imóvel, e somos como um feliz, ainda que insólito casal de namorados. Compenetro-me, forças secretas dentro de mim endireitam-me o corpo para enfrentar a situação. Ouço a voz de Quixote sussurrar-me que agora, ou vou preso com ela, ou ninguém vai, na verdade, neste instante de heroísmo, unido a um ser humano pelo braço, sinto-me capaz de enfrentar até o Juízo Final, quanto mais a Delegacia de Costumes.

Passado o perigo, a preta retira humildemente o braço do meu, faz um trejeito, agradecendo, e desaparece na escuridão. Eu é que agradeço, minha senhora − é o que pensa aqui o fidalgo. Tomo alegremente o meu lotação e vou para casa com a alma leve, pensando na existência daquelas coisas, como diria o poeta, pelas quais os homens morrem.

*****

(Do livro Quadrante I)


Os vestígios do velho garanhão



Aquele velho Coronel da Guarda Nacional de antigamente tinha muita coisa de Chicuta Campolargo e Tibério Vacariano admiravelmente pintados por Érico Veríssimo na inspiração de tantos tipos humanos espalhados pelo Rio Grande de outrora.

Sim, pelo passado de arbitrariedades e violências no calor de “entreveros” das revoluções; como delegado das zonas conflagradas pela polícia e contrabandistas, e onde campeava um abigeato desenfreado; e como “beleguim façanhudo” que fazia valer a sua “otoridade” nos bochinchos em carreiras, e, mais, na “limpeza” dos meretrícios infestados de maus elementos, contumazes desordeiros, arruaceiros inveterados...

Na longa crônica do Coronel, havia, também, o registro de um machismo safado de insaciável sátiro, inescrupuloso e prepotente no abuso de fêmeas de diferentes naipes e categorias sociais.

Orgulhava-se de ser um garanhão indócil que nunca “repugnava a beldroega”... Um pastor retouçando manadas de éguas e potrancas. Enfim, o mais legítimo “colhudo” como chamam os garanhões na campanha, e até de “cuiúdo”...

Agora, transitava tropegamente pelas ruas. Tendo virado os 85 anos, estava com aparência de muito mais velho, bastante surdo, com achaques respiratórios e urinários, e arrastando os pés.

Com o lombo arqueado ao peso implacável dos anos, apoiava-se em uma bengala que volta e meia brandia acompanhando uma enxurrada de impropérios que nunca lhe eram parcos, embora sem motivação...

Tentava ainda falar grosso em nostalgia de uma autoridade já perdida em pretérito  distante...

Naquele dia, ao sair do consultório médico em revisão clínica, meio afogueado pelo calor de um sol de janeiro, buscou uma mesa do principal bar da praça que carregava seu nome e cuja placa não cansava de ler e sentindo um justificado orgulho.

Passando o lenço pelo rosto suado, vermelho, e algo ofegante pediu alguma coisa para beber.

Alvo de olhares curiosos que lhe davam uma certa faceirice, o velho Coronel como que gozava a doce reminiscência de sua antiga autoridade.

Já achando o garçom um tanto displicente, deu uma batida com a bengala no chão, e alteou a voz meio rouquenha de maneira que chamava mais atenção dos circunstantes.

− Ô sacripanta, vai ou não vai me trazer a bebida que eu pedi?

Alguns segundos após as gargalhadas explodiram e a “otoridade” esboçou um sorriso gajo, vaidoso, inconfundível...

Graças à providencial surdez, o velho garanhão não se deu conta da humilhante, mas espirituosa “tirada” de um gauchão ali presente:

− Mas bah, tchê!... Do “cuiúdo” véio só ficou o relincho!...

*****

(Do livro “O sexo... Como Humor na Medicina”,
do Dr. Caio  Flávio Prates da Silveira)


O Que Restará de Ti


(It rastreatra de Toi)

O que restará de ti
É tudo aquilo que deste
E não o que guardaste
Nos cofres enferrujados.

O que restará de ti
E de teu jardim secreto
É uma flor esquecida,
Jamais fenecida,
E tudo que deste
Nos outros, florescerá,
Pois aquele que perde a vida
Um dia encontrará.

O que restará de ti
É tudo que ofereceste
De braços abertos,
Numa manhã ensolarada,
E tudo que perdeste
Ao longo da jornada,
E tudo que sofreste
Nos outros reviverá,
Pois aquele que perde a vida,
Um dia a encontrará.

O que restará de ti
É uma lágrima caída,
Um sorriso brotado
Nos olhos do coração.
É verdade, o que restará de ti
É o que semeaste, dividiste
Com os que buscam a felicidade,
E tudo que semeaste
Nos outros germinará,
Pois aquele que perde a vida,
Um dia a encontrará.

*****

O Que Restará de Ti é uma livre tradução de autoria de Miguel Falabella do poema francês “It rastreatra de Toi” e foi recitado em homenagem à atriz Márcia Cabrita (1964-2017), no Programa Fantástico (12/11/17).