domingo, 26 de março de 2017

A Estátua do Laçador


Por Ricardo Chaves

Conheça a história da estátua do Laçador

Criada por Antônio Caringi,
a obra foi inaugurada em 20 de setembro de 1958,
tendo sido tombada e considerada patrimônio de Porto Alegre.



Prefeito Leonel Brizola com o escultor Antônio Caringi, em 1958:
Foto: Acervo Família Caringi


No contexto político do Estado Novo (1937-1945), que se caracterizou pelo nacionalismo e pela centralização do poder, Getúlio Vargas (1882-1954) chegou a dizer: “Não temos mais problemas regionais; todos são nacionais, e interessam ao Brasil inteiro”. Com isso, as bandeiras dos Estados chegaram a ser queimadas e os símbolos regionais, assim como os partidos políticos, foram extintos.

É provável que, devido ao seu caráter regional, o projeto do prefeito Loureiro da Silva (1902-1964) de inaugurar, em 1940, uma estátua do artista plástico Marcos Bastos tenha sido inviabilizado. Premiado no Centenário Farroupilha (1935), atualmente, não se tem notícia desse artista, e a sua maquete em gesso, O Bombeador, que representava um gaúcho a cavalo, está desaparecida. Dezoito anos haviam se passado quando, pelas mãos do artista pelotense Antônio Caringi (1905-1981), o ideal de erigir um monumento à figura do gaúcho finalmente se concretizou.



O escultor Caringi e o tradicionalista Paixão Côrtes,
que serviu de modelo para a confecção da estátua:
Foto: acervo da família Caringi.


Inaugurado em 20 de setembro de 1958, O Laçador marcou as comemorações do 123º aniversário da Revolução Farroupilha (1835-1845). De acordo com o saudoso pesquisador Rodrigues Till, com quatro metros e 40 centímetros de altura e pesando, em bronze, 3,8 mil quilos, o monumento teve várias denominações: Bombeador, Boleador e, finalmente, Laçador.

Criado no Rio de Janeiro, no atelier de Caringi, O Laçador esteve exposto no Parque Ibirapuera, no Pavilhão do Rio Grande do Sul, em 1954, durante as festividades do IV Centenário de São Paulo. Depois de ser adquirido pela prefeitura de Porto Alegre, o monumento foi instalado e inaugurado na entrada da Avenida Farrapos. Seu criador, Antônio Caringi, inspirou-se no homem campeiro, tendo sido o seu modelo o tradicionalista João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes, nascido em Livramento no dia 12 de julho de 1927.


Festa de inauguração, em 20 de setembro de 1958.
Foto: reprodução / “Jornal do Dia” de 23 de setembro de 1958:
Acervo Musecom.


Considerado patrimônio da cidade, pela lei complementar nº 279, de 17 de agosto de 1992, O Laçador foi tombado pela Secretaria Municipal da Cultura, de acordo com edital publicado na imprensa em 17 de julho de 2001. Em 1991, por votação popular, o monumento já havia sido eleito símbolo oficial de Porto Alegre, confirmando a expressão Vox populi vox Dei (A voz do povo é a voz de Deus).

Durante a cerimônia de inauguração d'O Laçador, em 20 de setembro de 1958, o prefeito Leonel de Moura Brizola (1922-2004) discursou na Praça do Bombeador, destacando a grandeza do Rio Grande, seu povo e sua tradição. Suas palavras emocionaram a multidão presente. Há consenso de que seu discurso inaugural foi fundamental para alavancar sua campanha para governador do Estado pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). A banda marcial do Colégio Gonzaga, convidada pela prefeitura da Capital, veio de Pelotas para abrilhantar as comemorações da data farroupilha.

Em 11 de março de 2007, o monumento foi transferido para o Sítio do Laçador, localizado em frente ao antigo terminal do Aeroporto Internacional Salgado Filho, a uma distância de 600 metros do seu antigo local. O Laçador encontra-se numa elevação que recebeu a denominação de Coxilha do Laçador. Os custos foram de R$ 1 milhão, e o motivo de sua transferência foi a construção, naquele local, do Viaduto Leonel Brizola. Como símbolo de Porto Alegre, O Laçador segue, ao longo dos anos, recebendo quem chega à nossa cidade. Como um velho amigo, ele abraça a todos com o laço da hospitalidade do nosso Estado, cuja capital, fundada, em 26 de março de 1772, completou 245 anos em 26 de março de 2017.

Parabéns, Porto Alegre!


Colaboração de Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite, pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa.


(Ricardo Chaves em Almanaque Gaúcho de Zero Hora)


sábado, 25 de março de 2017

A Raposa e o Príncipe


Capítulo XXI



E foi então que apareceu a raposa:

‒ Boa dia, disse a raposa.
‒ Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
‒ Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
‒ Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
‒ Sou uma raposa, disse a raposa.
‒ Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
‒ Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. não me cativaram ainda.
‒ Ah! desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

‒ Que quer dizer “cativar”?
‒ Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
‒ Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer “cativar”?
‒ Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
‒ Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer “cativar”?
‒ É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa “criar laços...”
‒ Criar laços?
‒ Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
‒ Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
‒ É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
‒ Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.

A raposa pareceu intrigada:

‒ Num outro planeta?
‒ Sim.
‒ Há caçadores nesse planeta?
‒ Não.
‒ Que bom! E galinhas?
‒ Também não.
‒ Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa voltou à sua ideia.

‒ Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo... 

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:

‒ Por favor... cativa-me! disse ela.
‒ Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
‒ A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
‒ Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
‒ É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...

No dia seguinte o principezinho voltou.

Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
‒ Que é um rito? perguntou o principezinho.
‒ É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!       

Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

‒ Ah! Eu vou chorar.
‒ A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
‒ Quis, disse a raposa.
‒ Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
‒ Vou, disse a raposa.
‒ Então, não sais lucrando nada!
‒ Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou:

‒ Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.

Foi o principezinho rever as rosas:

‒ Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.

E as rosas estavam desapontadas.

‒ Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:

‒ Adeus, disse ele...
‒ Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
‒ O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
‒ Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
‒ Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
‒ Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
‒ Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.


Do livro “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry. 


sexta-feira, 24 de março de 2017

O pandeiro salvo-conduto*




A caminho da Festa da Penha, João da Baiana se viu abordado por um policial de maus bofes. O código penal em vigor, datado 1890, trazia um capítulo inteiro, com seis detalhados artigos, destinados a coibir o chamado “crime de vadiagem”. Segundo a letra da lei, seria declarado vadio todo aquele sem “profissão, ofício ou qualquer mister em que ganhe a vida”. A nova legislação entrara em vigor apenas dois anos após a abolição, quando milhares de negros, recém-libertos de seus senhores, não possuíam a devida qualificação profissional e, por isso, estavam à margem do mercado de trabalho. Os implicados na “Lei da Vadiagem” ficavam sujeitos à prisão por um mês e, findo o prazo, ao sair da cadeia, eram obrigados a firmar o compromisso “de tomar ocupação dentro de quinze dias”. A simples posse de um instrumento de percussão podia ser interpretada com indício de vagabundagem. Como provou possuir emprego fixo, João da Baiana não foi recolhido à delegacia. Mas, para seu desconsolo, teve apreendido o pandeiro de estimação.

Por causa disso, decidiu não acompanhar os amigos em um convescote programado para aqueles dias em Laranjeiras, na mansão do senador Pinheiro Machado. Sem seu pandeiro, não seria ninguém, imaginou João. Nada teria a fazer por lá. Na data acertada, desapareceu. Fez imensa falta, pois, tão logo soube do motivo da ausência, o líder do Partido Republicano Conservador mandou-lhe um recado. Corresse no dia seguinte ao seu gabinete, na sede do Senado, o Solar do Conde dos Arcos. O músico atendeu ao chamado e foi recebido em pleno horário de expediente parlamentar, quando o senador lhe indagou sobre onde poderia mandar encomendar um novo pandeiro para lhe dar de presente.

João da Baiana, radiante, indicou a loja Ao Cavaquinho de Ouro, especializada em instrumentos musicais. O estabelecimento funcionava na rua da Carioca, mas com o Bota-abaixo e a obras de alargamento da via tinha sido transferido para a rua da Alfândega. Diante da informação, o senador rabiscou um bilhete para João da Baiana o entregar no balcão da loja, orientando o vendedor a gravar a mensagem no corpo do melhor pandeiro à venda: “A minha admiração, João da Baiana – Senador Pinheiro Machado”.

Depois desse dia, nenhum meganha se atreveu a confiscar de novo o pandeiro do filho de Tia Perciliana. “Ainda tenho o pandeiro em casa, mas não toco mais”, diria João da Baiana em entrevista, decorridos cerca de setenta anos do episódio. O instrumento, a essa altura, estava com couro gasto, o aro de madeira remendado com esparadrapo e as platinelas oxidadas.

“É uma relíquia, um troféu”, vangloriava-se. O pandeiro de João da Baiana, oferecido por Pinheiro Machado e transformado em uma espécie de salvo-conduto, expressava toda a complexidade da convivência entre as elites sociais e os músicos populares.

*Salvo-conduto é um documento emitido por autoridades de um Estado que permite a seu portador transitar por um determinado território. O trânsito pode ocorrer de forma livre ou sob escolta policial ou militar.

(Do livro “Uma História do Samba – as origens”, de Lira Neto)


Os personagens:


João da Baiana com o pandeiro do senador


Senador gaúcho Pinheiro Machado


Forró malícia



Uma modalidade de música muito comum no Nordeste do Brasil é o forró. O forró malícia é um subproduto desse forró. Ele tem letras de duplo sentido, ou, em alguns casos, tem também a sonoridade maliciosa. O povão adora, pois é uma manifestação genuinamente brasileira para dançar e se divertir.

Abaixo, colocamos uma dessas letras que trata de temas banais, mas se você quiser alterar o seu sentido, vai achar que está cantando (e entendendo) outra coisa.

O quati é um mamífero da ordem Carnivora, da família Procyonidae e do gênero Nasua. O grupo está distribuído desde o Arizona até o norte da Argentina, possuindo três espécies: Nasua nasua, Nasua narica e Nasua nelsoni. Este animal também é conhecido por seu nome popular “Tamanduá Palito”.

P.S. Esta música pode ser escutada na internet, com canções no LP: “Vou pedir o quati”, de Zenilton. 

Jardim Zoológico

 (Zenilton e João Lourenço)



Eu resolvi criar animais do mato,
tenho cobra-grande,
papagaio e pato.
Crio gavião e tenho bem-te-vi,
eu não achei pra comprar,
eu vou pedir o quati.

Vou pedir o quati,
vou pedir o quati,
quem quiser me dar eu quero.
Eu tô pedindo o quati. (bis)

Tenho jaguatirica e tamanduá,
Gogó-da-índia, macaco e gambá.
Comprei asa-branca e também juriti,
já que ninguém tem,
eu vou pedir o quati.

Vou pedir o quati,
vou pedir o quati,
quem quiser me dar eu quero.
Eu tô pedindo o quati.

O Jardim está pronto,
vou inaugurar.
Tô te convidando pra participar.
Falta um animal, que eu não consegui.
Vai ser nesse dia que eu peço o quati.

Vou pedir o quati,
vou pedir o quati,
quem quiser me dar eu quero.
Eu tô pedindo o quati.



Mitos e erros

36 fatos favoritos e falsos



Refutação dos mitos e erros
de concepção mais contagiosos do mudo.

Por David Maccandless


01. Napoleão era baixinho. → Conversa fiada. Com 1,67 m, ele estava um pouco acima da média de altura dos franceses da época.

02. Não nade depois de comer. → Comer não aumenta o risco de cãibra; que faz isso é o álcool. Mas a barriga cheia vai lhe tirar o fôlego.

03. Água salgada ferve mais depressa. → Acrescentar um pouco de sal à água não faz diferença e pode até fazer a fervura demorar mais.

04. Óleo impede macarrão grudado. → Nada disso; só o deixa gorduroso. Mexer impede que ele grude.

05. Cérebro direito e esquerdo. → Não há divisão demarcada entre os talentos de cada hemisfério; o lado esquerdo pode aprender “habilidades do lado direito” e vice-versa.

06. Moedas que caem matam. → A velocidade terminal de uma moedinha é de 50 a 80 Km/h, insuficiente para matar – mas pode machucar.

07. Três reis magos. → Em nenhum lugar da Bíblia afirma-se que eram três.

08. Glutamato = dor de cabeça. → Não há provas científicas, apenas casos isolados envolvendo o glutamato de sódio.

09. Cães suam salivando. → Não. Eles regulam a temperatura ofegando. Na verdade, os cães suam pelas almofadas dos pés.

10. Grande Muralha da China. → Não é visível do espaço. Nenhuma estrutura humana isolada é visível da órbita, mas pode-se ver cidades à noite.

11. Rotação da água. → A descarga do vaso sanitário não gira ao contrário no hemisfério norte. O efeito de Coriolis não altera a água dos vasos sanitários.

12. Einstein péssimo em matemática. → Nada disso. Ele não passou nas provas para entrar numa escola, mas foi muito bem em matemática.

13. Humanos e dinossauros. → Apesar de 41% dos adultos dos EUA acharem que coexistimos, na verdade a diferença foi de 64 milhões de anos.

14. Buracos negros. → Não são “buracos” de verdade, mas objetos densíssimos, com imensa força gravitacional.

15. Só temos cinco sentidos. → Alguns cientistas insistem em 21, entre eles equilíbrio, dor e temperatura.

16. Pessoas desaparecidas. → A polícia não exige 24 horas de espera para aceitar a queixa de que alguém desapareceu.

17. As partes da língua. → Não há seções diferentes da língua para cada sabor: amargo, azedo, salgado, doce e umami (apetitoso/condimentado).

18. Só usamos 10% do cérebro. → A proporção do cérebro “funcionando” a cada momento depende da tarefa, mas em última análise todas as regiões são utilizadas quase todo dia.

19. Bananas dão em árvores. → Na verdade, elas dão em plantas grandes que só parecem árvores.

20. Leite aumenta o catarro. → Não, não aumenta. Não há por que evitar lacticínios durante resfriados.

21. Morcegos são cegos. → Além de enxergar, os morcegos usam ecolocalização. É por isso que são tão incríveis!

22. 7 anos para digerir chiclete. → A base elástica do chiclete é indigerível e passa direto pelo intestino. O que resta é absorvido.

23. Chifres de vikings. → O elmos foram criados por figurinistas do século 19 para uma ópera de Wagner.

24. Cachaça esquenta. → As bebidas alcoólicas só dilatam os vasos sanguíneos perto da pele: criam uma impressão de calor, mas podem baixar a temperatura interna do corpo.

25. Vacinas provocam autismo. → Temores infundados baseados numa pesquisa fraudulenta cuja manipulação já foi comprovada.

26. Não toque em filhotes de passarinhos. → A maioria das aves tem olfato limitado e não abandona filhotes com “cheiro” de gente.

27. Álcool mata neurônios. → Mesmo em alcoólatras e grandes bebedores, os neurônios não morem, apenas sofrem lesões.

28. Dama de ferro. → Nunca foram aparelhos de tortura medieval, e sim simulacros criados no século 18 e exibidos em circos.

29. Calor corporal e cabeça. → Só nos bebês a maior parte do calor se perde pela cabeça (a não ser que a cabeça seja a única parte desprotegida do corpo).

30. Acordar sonâmbulo. → Eles vão ficar confusos, mas só. É mais provável que se machuquem se não forem acordados.

31. Cafeína desidrata. → Não mesmo. O efeito diurético da cafeína é compensado pela água contida na bebida.

32. Raspar engrossa o cabelo. → O cabelo que renasce não é mais grosso, crespo nem escuro; mas parece, porque volta e cresce com a ponta cortada.

33. Peixinhos dourados e 3 segundos de memória. → Embora não seja a criatura mais inteligente, a memória do peixinho dourado dura três meses.

34. O vomitorium. → Não era uma sala usada pelos romanos durante as bacanais, mas a entrada de um estádio.

35. Açúcar = hiperatividade. → Estudos refutaram isso. Crianças que não consomem açúcar também podem ter mau comportamento.

36. Touros odeiam vermelho. → Touros não enxergam cores. Na verdade, eles percebem como ameaça os movimentos da capa do toureiro.

(Em Seleções do Reader´s Digest, março de 2017)


quinta-feira, 23 de março de 2017

Como viveu Maria


João Lóes


Pesquisas históricas e teológicas tentam reconstruir o dia-a-dia da mãe de Jesus. Mas muitos fatos continuam envoltos em mistério,


Maria* é a figura feminina mais reverenciada da história da humanidade. Mas muito pouco se sabe sobre ela. Dois mil anos depois, sua existência continua envolta em mistério. Sabe-se que ela era uma dona-de-casa judia que morava na vila de Nazaré, na Galileia, povoado colonizado pelos romanos. Criava galinhas no fundo do quintal e acordava com o barulho delas, ainda de madrugada, para iniciar suas atividades domésticas. Vivia em condições muito simples. Dormia em uma esteira, num chão de terra batida sobre a palha, numa casa que cheirava a óleo queimado, proveniente de uma lamparina que ela mantinha acesa, acomodada em uma cavidade na parede. Vestia o mesmo traje, independentemente da ocasião: uma túnica de linho, com a qual realizava seus afazeres ou saía para alguma atividade, sem esquecer de colocar o véu, em respeito ao marido. Era uma mãe zelosa e dedicada, que sempre tentou manter o filho próximo de si. Durante a infância de Jesus, gostava que o garoto ajudasse o pai, José, na oficina. Caso não houvesse trabalho, ela recrutava a criança para ajudar nas tarefas domésticas, como fazer farinha de cevada, buscar água na fonte e limpar a casa, que só tinha um cômodo.

Apesar de nunca esquecer que estava criando o filho de Deus, o Messias, nascido para salvar os homens, ela não se intimidava em recriminá-lo. E o fez diversas vezes durante toda a sua vida. Ralhava em público com o menino, principalmente depois que ele desenvolveu o hábito de dar umas escapadas para o templo, a partir dos 12 anos. Mais tarde, quando o rebento já tinha 30 anos, o intimou a providenciar alimento e bebida que haviam acabado durante um casamento, num dos episódios mais conhecidos do cristianismo, o primeiro milagre, das bodas de Caná da Galileia. Também há relatos de discussões entre mãe e filho, quando Jesus era jovem e ainda não havia saído em pregação. Num primeiro momento, ele se levantava e saía, deixando a mãe falando sozinha, mas Maria o chamava aos gritos e ele voltava atrás.

Como esposa, era uma mulher submissa, como todas de sua época. Casou-se aos 12 anos com José, um carpinteiro muito mais velho do que ela. Acordava mais cedo do que ele para fazer seu ritual diário de higiene esfregar rosto e cabelos com óleo e fazer tranças no cabelo ‒, mas fazia de tudo para não incomodá-lo com seu barulho. Quando, finalmente, ele despertava, dobrava a esteira onde ele havia dormido e aguardava, silenciosa, o marido fazer as orações com Jesus, ritual que costumava demorar cerca de 20 minutos. Depois que ele seguia para o trabalho, iniciava uma pesada rotina doméstica – varrer, limpar, cozinhar. Era tudo calculado, para não atrasar a primeira refeição do dia, um pão com legume ou peixe. No almoço, estendia a esteira para que marido e filho se sentassem, mas não se alimentava com eles. Ficava em pé, esperando. Esteve ao lado de José durante toda a vida dele, mas estudiosos presumem que ele tenha morrido bem antes dela e nem tenha presenciado as pregações do filho.

Para tentar reconstruir os passos de Nossa Senhora, pesquisadores buscam informações na Bíblia, em estudos históricos da política, dos costumes regionais, da religiosidade e da vida privada dos judeus, e nos evangelhos apócrifos, que nada mais são do que relatos extra-oficiais da vida dos primeiros cristãos.

Nenhum apócrifo foi dedicado exclusivamente a Maria, mas o de Thiago dá detalhes de sua vida que não constam em nenhum dos textos aceitos pela Igreja Católica como oficiais. Nele, a história da mãe de Jesus é contada desde sua concepção até o parto do futuro Messias, em Belém. Lá também estão os nomes dos pais de Maria, Ana e Joaquim, reconhecidos pela Igreja como informação verídica (tanto que os dois viraram santos). Ficção para uns, realidade para outros, eles pouco ajudam na hora de tentar elucidar algumas fases da vida de Maria. Praticamente nada se sabe sobre a infância dela, por exemplo. Apenas indicações de que pertencia a uma família de classe média, filha única de um casal que já havia perdido as esperanças de ter filhos. Também há indicações de que ela tenha passado grande parte da infância em templos. Era uma menina religiosa e devotada, muito ligada à família.

Apesar do comportamento doce e generoso que ela demonstrou ter desde a infância e que a acompanhou durante toda sua vida, Maria também foi uma mulher atuante e participativa. Quando Jesus, aos 30 anos, decidiu sair em pregação e revelar ao povo que era o filho de Deus, ela continuou muito próxima dele. Costumava dar conselhos e broncas, mas também tratava de estimulá-lo nos momentos mais difíceis, quando ele desanimava, sentia medo ou dor. “Ela acreditava piamente em tudo o que ele falava e queria ajudá-lo em sua missão”, virgem durante toda sua vida. Para isso, apontam trechos nos evangelhos de Lucas e Marcos que falam sobre os irmãos de Jesus, entre outras evidências.

Muitos especialistas também se recusam a acreditar no dogma da concepção imaculada, estabelecido pelo papa Pio IX, em 1854, segundo o qual Nossa Senhora não só se manteve pura como foi concebida assim, tendo ficado livre do pecado original. Terreno pantanoso, onde, de um lado, há os que analisam os fatos a partir da fé, e de outro, os que usam apenas a razão para entender a história.

Unanimidade entre os estudos dos evangelhos canônicos e apócrifos, dos levantamentos históricos e das pesquisas acadêmicas é a percepção simultânea de grandeza e humildade na personalidade de Maria. E é na descrição de seu cotidiano prosaico que reside toda a riqueza dessa figura religiosa e histórica, pois isso rediz a teóloga Lina Boff, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. Era uma mãe na sua plenitude, como todas as outras mulheres do povo. Permaneceu ao lado do filho quando ele agonizou na cruz. E continuou fiel às suas palavras, sem temer as perseguições. Era tão importante e respeitada entre os primeiros cristãos que estavam presentes no dia de Pentecostes, ao lado dos apóstolos, nesta que é considerada oficialmente como a data de início do cristianismo. Não se sabe por quanto tempo Maria viveu, mas há outro dogma estabelecido pela Igreja Católica (papa Pio XII, em 1950), que afirma que seu corpo ascendeu aos céus.

Assim como há mistérios que envolvem a vida de Nossa Senhora, há também muita polêmica. Contrariando o discurso oficial católico, muitos estudiosos garantem que ela teve outros filhos com José e, portanto, não permaneceu força seu vínculo com a cansativa realidade vivida pela maioria de seus devotos. “Maria é uma pessoa que, como nós, não nasceu pronta. Ela aprende e amadurece. E é na humanidade dela que a gente descobre todas as suas qualidades”, resume Afonso Murad, professor de teologia no Instituto Teológico do Estado de São Paulo. Assim, tornou-se um modelo atemporal de qualidades ao alcance dos homens. Independentemente de suas crenças.


* Maria: 15 a.C. ‒ 57 d.C. – segundo pesquisa de alguns historiadores.


(IstoÉ Independente)



Poemas de Maria Alberta Menéres



Havia um peixe no ar,
um papagaio no mar,
uma lâmpada no olhar,
um cogumelo a chorar.

‒ Mãe, em que história seria?

A princesa na floresta
bebia orvalho e cantava,
de sua boca tombando
o que de sonho tombava.

‒ Mãe, em que história eu fugia?

Doze anões e uma antiga
branca de neve, quem sabe?
Havia um gato de botas
onde o meu pé já não cabe.

‒ Mãe, em que história aparecia?

Ah, montanhas de cristal
onde um cavalo espantava
e um espelho que tudo via
mil respostas me não dava.

‒ Mãe, em que história eu dormia?

Os dois irmãos

Eu conheço dois meninos
que em tudo são diferentes.
Se um diz: “Dói-me o nariz!”
o outro diz: “Ai, meus dentes!”

Se um quer brincar em casa,
o outro foge para o monte;
e se este a casa regressa,
já o outro foi para a fonte.

É difícil conviver
com tanta contradição.
Quando um diz: “Oh, que calor!”
“Que frio!” – diz o irmão.

Mas quando a noitinha chega
com suas doces passadas,
pedem à mãe que lhes conte
histórias de Bruxas e Fadas.

E quando o sono esvoaça
por sobre o dia acabado,
dizem “Boa noite, mãe!”
e adormecem lado a lado.


As pedras

As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.
                              
Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como as aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
uma coisa para dizer.


Maria Alberta Rovisco Garcia Menéres de Melo e Castro (Portugal, 1930) nasceu na cidade de Vila Nova de Gaia. É professora, jornalista e escritora. Sua obra inclui poesia, contos, histórias em quadrinhos,  teatro, novelas, e adaptação de clássicos da literatura.

Maria Alberta Meneres, de seu nome completo Maria Alberta Rovisco Garcia Meneres de Melo e Castro nasceu em Vila Nova de Gaia, em 1930.

Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Universidade Clássica de Lisboa. Foi professora do ensino secundário e colaborou em diversas publicações nomeadamente Távola Redonda, Diário de Notícias, Cadernos do Meio-Dia e Diário Popular, tendo neste último sido responsável, durante dois anos, pela secção Iniciação Literária.

A sua primeira obra data de 1952 e intitula-se Intervalo, tendo sido premiada, em 1960, com o seu livro Água-Memória, no Concurso Internacional de Poesia Giacomo Leopardi.

Maria Alberta Meneres tem dedicado grande parte da sua obra à literatura infantil e juvenil e produziu nesta área programas de televisão, sendo em 1975 sido nomeada chefe do departamento de programas infantis e juvenis da RTP.

Ao longo da sua carreira tem recebido inúmeros prêmios nomeadamente o Prêmio de Literatura Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1981. Em colaboração com Ernesto de Melo e Castro, organizou, em 1979, uma Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa.