sábado, 21 de julho de 2018

Versos sem a letra “A”

Virgílio Gomes Nogueira


Estes versos, nos quais não existe a letra “A”, foram compilados por Maria Lucia Bellezi de um antigo almanaque encontrado em uma farmácia do interior paulista.
  
No cume de um belo morro,
meu domicílio erigi...
Cheio de flores silvestres
e ninhos de juriti.

Corre por entre os rochedos
num murmúrio terno e doce
um ribeirinho mimoso
como se espelho ele fosse.

Deus tudo fez de perfeito
(Nele o perfeito consiste)
Criou o mundo e nos deu
todo o bem que nele existe...

Nos centros de movimentos
O viver nos é penoso...
Nos bosques tudo é sossego
Um Éden cheio de gozo.

Logo rompe o sol no céu,
com seu brilho sedutor
e todo o meu domicílio
tem um perfume de flor...

Como é ditoso viver
bem longe do burburinho
entre o perfume de flores,
longe o mundo... sozinho.

Vivendo em belo retiro,
no cume de um belo monte
o nosso espírito sente
como é risonho o horizonte.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

A última esperança

Mentor Neto*



Ninguém sabe o seu nome real.
Conheci pelo apelido do bar, que pegou: Brasílio.
Brasílio é o último brasileiro que ainda tem esperança no Brasil.
Esperança mesmo. Inabalável.
E não é de hoje, vou dar uns exemplos.
Quando Tancredo foi internado, Brasílio garantiu:
– ‘Ces sabem o que é isso? Apendicite. Meu primo teve. Em uma semana está de volta à ativa. − explicando porque tinha comprado uma passagem para Brasília para assistir à posse.
O bar, aliás, é o palanque do Brasílio.
É ali que, nos finais de tarde, ele divide sua esperança infindável no País.
Os amigos, claro, já sabem e se divertem.
Fazem perguntas justamente para provocar.
Como o dia que perguntaram para ele o que achava do período da ditadura militar.
– Olha, a gente tem sempre que ver o lado bom, por exemplo…
Percebem?
Brasílio é assim. Tem esperança no futuro e até no passado!
Tem fé. Não só em Deus, mas nas coisas e nas pessoas.
Nas diretas já, Brasílio dormiu com a cara pintada por duas semanas.
– Tem de apostar, gente. Tem que se comprometer. Senão a vida não muda!
Foi fiscal do Sarney.
Tanto que o gerente do supermercado do bairro proibiu sua entrada, de tão chato que era.
Na época do Collor, quando a Zélia arrancou o dinheiro de todo mundo, ele mandou essa:
– Se precisam de dinheiro, nada mais justo que nós colaborarmos.
Quando a inflação era de quatro dígitos, Brasílio foi visto comprando uma geladeira a prazo.
– É simples: se a gente parar de consumir, aí é que o País para mesmo.
Desemprego, corrupção, segurança não é problema para o Brasílio.
– Sabe o que é isso tudo? Dores do crescimento. Um sinal de que o País está crescendo.
Não importa o assunto, Brasílio sempre tinha uma palavra de otimismo.
De crença num futuro melhor.
No Maracanã, quando estava cinco a um para a Alemanha, ele, na arquibancada, levantou para puxar o coro:
– Vai virar! Vai virar! Vai virar!.
Tomou um copo de urina na nuca.
No dia que Lula afirmou que a crise de 2008 era só uma marolinha, Brasílio comprou ações da Petrobras.
Mas não achem, por isso, que Brasílio é petista ou mesmo de esquerda.
Brasílio nunca teve uma posição política clara.
– Eu voto no candidato que está na frente das pesquisas. Eleição não é jogo. Se o povo aposta, eu aposto também.
Veio o Mensalão e o Petrolão.
Veio a Dilma.
Nada do Brasílio desanimar.
Para ele o importante não eram os problemas.
– Mas gente, não estão investigando? Não estão prendendo? Então, pô. Democracia é isso mesmo. Um processo. Leva tempo, mas a gente chega lá.
Faz um tempão que eu não via o Brasílio.
Essa semana meio desanimado com tanta bandalheira e principalmente com a frase que mais se ouve: “o pior é que não tem em quem votar, é ou não é?”, resolvi passar pelo bar para ouvir o que ele tem a dizer.
Quem sabe, né?
Cheguei lá e encontrei a turma toda reunida, como sempre.
Menos o Brasílio.
Sentei, pedi uma cerveja, esperei uma brecha no papo e perguntei:
– E o Brasílio, hein pessoal? Por onde anda?
– Como assim? Você não sabe o que aconteceu com o Brasílio??? — o Gordo perguntou.
– Nossa… não sei… coisa grave, morreu?
Não tinha morrido.
O Gordo mesmo respondeu.
– Quem dera tivesse morrido. Muito pior. Mudou para a Argentina.
Aí complicou.

(Crônica da coluna Última Palavra, revista IstoÉ, março de 2018)
  
*****

*Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olívia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico.


quinta-feira, 19 de julho de 2018

Epílogo da Revolta da Chibata



João Cândido ficou 18 meses preso na Ilha das Cobras. Os companheiros sobreviventes também amargaram o isolamento. Os presos eram mantidos incomunicáveis. Numa demonstração de humanidade, a Irmandade Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Rio de Janeiro, contratou três dos melhores advogados criminalistas do país para defender os marinheiros encarcerados. Evaristo de Morais, Jerônimo de Carvalho e Caio Monteiro de Barros foram os advogados de defesa de João Cândido e de outros líderes da revolta, entre eles Francisco Dias Martins e Gregório do Nascimento.

Segundo Edmar Morel, no livro A Revolta da Chibata, da lista de 70 marinheiros indiciados pelo código penal da Marinha, restavam apenas dez prisioneiros na Ilha das Cobras. Os outros 60 nomes eram dados como desaparecidos, mortos por insolação ou fuzilados no navio Satélite.

João Cândido assumiu toda a responsabilidade pela revolta da esquadra. O processo teve início em junho de 1912 e foi concluído cinco meses mais tarde. Com destreza, os advogados provaram a inocência do marinheiro e de seus companheiros. Em seu discurso, Evaristo de Morais evocou o caráter humano de João Cândido e sua revolta: “não quero suscitar paixões, mas reconheço a generosidade do proceder de João Cândido. O seu ato foi um ato humano, de justiça (...). Estivemos à sua mercê, e ele nos poupou”.

Para cada acusação, foi apresentada uma defesa, desmontando o circo armado por oficiais para incriminar os marinheiros anistiados e ligá-los à segunda revolta, a do Batalhão Naval. João Cândido, por exemplo, era acusado de ter mudado o Minas Gerais de lugar sem ordens. A mudança, realmente, aconteceu, mas foi para tirar o encouraçado da mira de projéteis vindos da Ilha das Cobras, e foi informada, por rádio, às autoridades. Dias Martins era acusado de agredir oficiais no navio. Testemunhas desmentiram a acusação. O tribunal inocentou os marinheiros. A sentença, tardia, era de que não existia nenhuma prova contra os marujos anistiados, eles tinham sido presos injustamente.

(Do Blog João Cândido – Projeto Memória) 

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O diálogo da chibata

Sebastião Nery


Acima, a foto do marinheiro João Cândido, que comandou o “Minas Gerais” e serviu de Almirante a toda esquadra revoltada.

Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, vulgo Princesa Isabel, recebeu do conselheiro João Alfredo Correia, chefe do governo, a lei que “abolia a escravidão sem indenização” e sancionou, no dia 13 de maio de 1888, uma bela data da história do Brasil.

Era a “Lei Áurea”. Por causa dela, o Papa Leão XIII a condecorou com a Rosa de Ouro, entregue em 28 de setembro de 1888 pelo Núncio Apostólico, com discurso do bispo baiano Dom Macedo Costa.

E a partir de então todo brasileiro passou a abominar a escravidão? Nem todos. Os barões da terra, da cana, do café, por motivos óbvios. Perdiam o trabalho escravo. E os barões da alma pela perpetua malignidade de grande parte do bicho homem, que só os séculos vão curando.

Marinha

Para espanto e repulsa, ainda há muitos que pensam que escravizar era justo. No dia 9 de março de 2008, já 120 anos depois, na “Folha de S. Paulo”, Marcelo Beraba publicou uma nota do comando da Marinha dizendo que a revolta de 1910 (contra espancamentos e mortes de marinheiros nos navios da Marinha) “foi um triste episódio da história, uma rebelião ilegal (sic), sem qualquer amparo moral ou legítimo (sic), que não pode ser considerado como ato de bravura ou de caráter humanitário”.

Dizia a estapafúrdia nota da Marinha que “a reivindicação do fim dos castigos corporais deveria ter sido encaminhada por meio do exercício da argumentação e, sobretudo do diálogo (sic) entre as partes”.

Queriam o “diálogo” do carrasco com a vítima, da chibata com o lombo, do porrete com a cabeça, da guilhotina com o pescoço. Ridículo alegar que não sabiam o que acontecia nos dantescos porões dos navios.

Rui Barbosa

Os fatos já pertencem à historia, os documentos estão ai, nas próprias gavetas da Marinha, para quem quiser rever, conferir, comprovar. É só ler. Rui Barbosa denunciava da tribuna do Senado:

– “Extinguimos a escravidão sobre a raça negra, mantemos, porém, a escravidão da raça branca entre os servidores da Pátria”.

Na Câmara, o alagoano Aureliano Candido Tavares Bastos, meu patrono (dos ex-seminaristas), jornalista no Rio (escrevia “Cartas do Solitário” no “Correio Mercantil”), deputado (o mais jovem da legislatura de 1861), oficial da Secretario da Marinha, “um dos grandes pensadores políticos brasileiros, escritor e publicista de visão” (Enciclopédia Britânica), interpelou na Câmara o ministro da Marinha:

– “E o emprego dos castigos corporais? Não será possível acabar gradualmente com esses castigos lamentáveis e vergonhosos”?

Tortura

Gastão Penalva escritor e antigo oficial da Marinha, contou:

− “Um castigado suportou com bravura mais de cem pancadas, com violação da lei que previa somente 25. Depois, não pôde mais. Atirou-se de chofre no convés chorando como um perdido. Esperneava como animal peado. Estrebuchava, ao uivar, de olhos vidrados para o céu sem nuvens. O severo oficial comandante ordenou:

− “Recolha-o à enfermaria.”

“Embora no segundo dia da República o decreto nº 3 de 16 de novembro de 1889 declarasse abolido o açoite na Armada, havia um mestre nesse desumano sistema de tortura, Alípio, o carrasco do “Minas Gerais”:

− “O bandido apanhava uma corda de linho, atravessava-a de pequenas agulhas de aço, das mais resistentes e, para inchar a corda, punha-a de molho para aparecerem apenas as pontas das agulhas. O comandante, depois do toque de silêncio, lia uma proclamação. Tiravam as algemas das mãos do infeliz e o suspendiam nu da cintura para cima. E Alípio começava a aplicar os golpes. O sangue escorria. O paciente gemia, suplicava, mas o facínora prosseguia carniceiramente o seu mister degradante. Os tambores, batidos com furor, sufocavam os gritos. Muitos oficiais voltavam o rosto para o lado. Todos estavam de luvas e armados de suas espadas. A marinheirada, com repulsa e indignação, murmurava:

– “Isso vai acabar”!

Covardia

E acabou. Era esse o “diálogo” que alguns continuam defendendo. “O marinheiro cearense Marcelino Menezes recebeu 250 chibatadas aos olhos de toda a tripulação, formada no convés do “Minas Gerais”. Em meio ao flagelo, desmaiou, mas o açoite continuou. Era 22 de novembro de 1910. 2.300 marinheiros se rebelaram e assumiram os navios, sob o comando do marinheiro João Cândido:

– “Um marinheiro formidável, escreveu Gilberto Amado, testemunha. Não bombardeou nem teve um gesto de vingança”.

O Congresso interveio, houve anistia. Veio a vingança covarde, “o massacre da Ilha das Cobras, com dezenas de cadáveres de marinheiros e fuzileiros, a morte por asfixia a cal de quase duas dezenas de aprisionados em suas masmorras, e a tragédia do navio “Satélite”: fuzilamentos sumários, das costas de Pernambuco ao Amazonas, de 400 infelizes”.

Edmar Morel

Essa história toda está no livro clássico de Edmar Morel, um dos maiores jornalistas brasileiros de todos os tempos, “A Revolta da Chibata”, cuja 5ª edição, documentada, ampliada com as memórias de João Cândido, foi lançada por seu neto, o brilhante historiador Marco Morel, com prefácio de Evaristo de Moraes Filho, em bela edição da “Paz e Terra”, comemorativa dos 50 anos da primeira, em 1959. Imperdível.

(Artigo publicado em setembro de 2011)

(Do Blog Tribuna da Internet)


João Cândido participou e comandou a Revolta dos Marinheiros do Rio de Janeiro (Revolta da Chibata) no ano de 1910, movimento que trouxe benefícios aos marinheiros, com o fim dos castigos corporais na Marinha, mas que trouxe prejuízos a João Cândido, que foi expulso e renegado, vindo a trabalhar como timoneiro e carregador em algumas embarcações particulares, sendo depois demitido definitivamente de todos os serviços da Marinha por intervenção de alguns oficiais.

O “Almirante Negro”, como João Cândido ficou conhecido, morreu aos 89 anos e teve ao todo 11 filhos ao longo dos três casamentos. Faleceu na cidade de São João do Meriti, no Rio de Janeiro.


Na Praça 15, bem próximo às águas da Baía de Guanabara (foto acima), temos a estátua que homenageia João Cândido, também chamado “O Almirante Negro”, codinome que, até hoje, a Marinha do Brasil não aceita.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Tainha lanhada



Arte: pedro Lobo

João Cândido foi o maior herói brasileiro do século XX. Comandou a revolta dos marinheiros contra a barbárie da oficialidade branca e racista. Alcy Cheuiche acaba de publicar um belo livro sobre o assunto: “João Cândido, O Almirante Negro”. Já no começo, a descrição da cena em que o marujo Marcelino recebe 250 chibatas no lombo é dantesca: “Terminada a leitura do boletim, dois marinheiros tiraram as algemas e a parte superior do uniforme branco de Marcelino. Depois, sem violência, o suspenderam ao pé de carneiro, ferro que se prende à balaustrada do navio. Centenas de olhos acompanharam cada movimento. O sol já brilhava sobre as águas azuladas da baía. Um ruflar de tambores anunciou o início do castigo. Alípio aproximou-se, nu da cintura para cima, um orangotango mais humano que animal. João Cândido tentou atrair seu olhar, mas o chibateiro parecia hipnotizado”.

O carrasco estava vidrado nas costas da sua vítima. Cheuiche prossegue: “Girou o gato de nove caudas sobre a cabeça do marinheiro e aplicou-lhe a primeira chibatada. “Uma!”. Marcelino chegou a perder o fôlego, tamanha a dor que sentiu. Um murmúrio de protesto percorreu a fileira dos marujos, abafados pelo som dos tambores”. A chibata tinha nove tiras de couro. Havia a bordo dos mais modernos navios da Marinha brasileira os chibateiros, profissionais dos castigos corporais. Diz Cheiuche: “Após a centésima chibatada, nos braços do seu anjo da guarda, o marinheiro de segunda classe Marcelino Rodrigues Menezes perdeu completamente a consciência”. O suplício continuou. Até completar 250 lambadas, “dez vezes mais do que permitia a Marinha de Guerra”, limite que nenhum comandante, por mais insensível e cruel, jamais ousava ultrapassar. Batista das Neves o fez. Pagou com a sua vida ao retornar de um elegante jantar à francesa.*

O deputado José Carlos de Carvalho visitou os encouraçados São Paulo e Minas Gerais como negociador. Fez esta descrição: “Mandaram vir à minha presença uma praça que tinha sido castigada com a chibata. Examinei essa praça e trouxe-a comigo para terra, para ser recolhida ao Hospital da Marinha. Sr. Presidente, as costas desse marinheiro assemelhavam-se a uma tainha lanhada para ser salgada”. Esse era o Brasil de 1910. A imprensa, curiosamente, podia ser menos conservadora que a de hoje. Colocou-se ao lado dos insurretos e apelidou João Cândido de “Almirante Negro”. As páginas de livros como os de Edmar Morel, Mário Maestri e Alcy Cheuiche provocam na gente ondas de calor. Impossível não ficar com ódio retrospectivo desses carniceiros engalanados.

João Cândido ouvira a história da revolta dos marinheiros do encouraçado Potemkin. Marinheiros russos foram condenados ao fuzilamento por se recusarem a comer carne podre. O médico do navio, chamado para analisar a carne, protegeu o rosto com um lenço e fez o serviço. Liberou o consumo, infestada de larvas. Os marinheiros recusaram-se a comer. Doze foram condenados. Revoltaram-se. Mataram e jogaram ao mar o médico e o comandante.

Juremir Machado da Silva: juremir@correiodopovo.com.br


*João Batista das Neves, foto acima, estava no jantar oferecido a ele pela oficialidade do cruzador francês Douguay-Trouin, ancorado na baía da Guanabara na noite de 22 de novembro de 1910, quando resolve retornar, na companhia do então 2º tenente na Marinha, Armando Figueira Trompowsky de Almeida mais cedo ao Encouraçado Minas Gerais. Ali encontrou o navio revoltado e, num ato misto de fúria e missão militar, reagiu ferindo um marinheiro e sendo trucidado pelos demais.

Em 21 de Novembro de 1910, capitão-de-mar-e-guerra desde 1904, Batista das Neves foi o comandante do Encouraçado Minas Gerais que ordenou que o marinheiro Marcelino Menezes recebesse a punição de 250 chibatadas por ter ferido um cabo que delatou Marcelino por ele ter trazido cachaça para dentro do navio, o que era proibido a marinheiros. Na época era permitido aos oficiais beberem bebida alcoólica a bordo; aos marinheiros, não. A punição pelo código disciplinar, entretanto era limitada a 25 chibatadas, o que não foi respeitado pelo militar. 

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Fotos raras de escritores brasileiros



Proeminentes intelectuais brasileiros encenam uma jocosa réplica do quadro A lição de anatomia do mestre holandês Rembrandt: na foto, da esquerda para a direita: Olavo Bilac, Leôncio Correia, Henrique Holanda, Pedro Rabelo, o doutor Pederneiras, Álvaro de Azevedo Sobrinho e Plácido Júnior. O autopsiado é Artur Azevedo − possivelmente vítima de indigestão −, sendo o legista, que o opera com o sabre emprestado pelo oficial da ronda, Coelho Neto. Esta fotografia pertencia a Bilac e está autografada pelo Príncipe dos Poetas.



Integrantes da panelinha, criada em 1901 para a realização de festivos ágapes e encontros de escritores e artistas. A fotografia é de um almoço no Hotel Rio Branco (1901), que ficava na rua das Laranjeiras, 192. De pé, da esquerda para a direita, temos: Rodolfo Amoedo, Artur Azevedo, Inglês de Sousa, Olavo Bilac, José Veríssimo, Sousa Bandeira, Filinto de Almeida, Guimarães Passos, Valentim Magalhães, Rodolfo Bernadelli, Rodrigo Octavio, Heitor Peixoto. Sentados, na mesma ordem: João Ribeiro, Machado de Assis, Lúcio de Mendonça e Silva Ramos.


Rui Barbosa, segundo presidente da Academia, lidera uma visita à casa do primeiro presidente, Machado de Assis, à rua Cosme Velho, 18 − hoje demolida − em 9 de outubro de 1910, dois anos após a morte daquele que era chamado de mestre até mesmo por seus colegas. Rui, na foto, é o quatro da direita para a esquerda.


Este é, possivelmente, o mais antigo registro fotográfico, em 1909,de uma sessão pública da Academia Brasileira, realizada, ainda, no Silogeu.




Coração de companheiro


(Fragmento de um texto de Moacyr Scliar)

Machado de Assis tinha um amigo, o poeta Faustino Xavier de Novais, que, a certa altura, começou a apresentar sinais de perturbação mental. De Portugal veio então a irmã de Faustino, Carolina Augusta Xavier de Novais, para supostamente cuida do irmão. Supostamente porque, segundo uma versão, ela teria sido mandada embora pela família depois de um caso amoroso, em que fora seduzida e abandonada. Carolina ficou amiga de Machado, que era quatro anos mais moço do que ela. Conta-se que, numa visita, Machado, a sós com a moça, pegou a mão dela e perguntou-lhe se aceitava-o como esposo. A resposta afirmativa veio firme e decidida, mas não contou com o apoio da família, que não queria ver Carolina casada com um mulato epilético.

Carolina desempenhou um papel importante na vida de Machado, inclusive do ponto de vista literário. Culta, versada em gramática, ela lia os texto dele, corrigia-os, passava-os a limpo. Mais importante: até então Machado tinha sido um escritor romântico, que escrevia bem, mas que não produzira obras marcantes. Por insistência de Carolina, ele muda de estilo, torna-se realista e, como se vê em Memórias Póstumas de Brás Cubas, ultrapassa até mesmo o realismo, inaugurando uma nova fase na ficção brasileira.

Muitos psicanalistas veriam nessa relação um elemento edipiano, Carolina representando para Machado uma figura materna. E isto ficou mais evidente porque não tiveram filhos. Quando ela morreu, Machado desabou; sobreviveu-lhe apenas quatro anos, doente e melancólico. Um poema escrito quando do falecimento dela fala dessa paixão.

Coração de companheiro. Coração de companheira. Desses corações é que são feitas as verdadeiras uniões.

Na foto abaixo, Carolina em 1869, ano em que se casou com Machado de Assis.


Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro,
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Machado de Assis, 1906

Carolina Augusta Xavier de Novais e Joaquim Maria Machado de Assis casaram-se no dia 12 de novembro de 1869 e viveram uma plácida e amorosa vida conjugal durante 35 anos. A morte da esposa, em 1904, deixa Machado abatido e queixoso. Em carta a Joaquim Nabuco, datada de 20 de novembro do mesmo ano, escreve, lamentando-se: "Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo."


Carolina aos 44 anos.