segunda-feira, 26 de junho de 2017

Histórias do Amor no Brasil



Namoro de Escarrinho

No século 16, as práticas amorosas eram cercadas de rígidas regras de conduta. O amor era visto como algo pecaminoso em Portugal e no Brasil. Acreditava-se que amar demais poderia causar doenças e mal-estares. Um escritor da época fez uma lista dos sintomas: “tristezas, suspiros, lágrimas sem motivo, síncopes, opressões, melancolias e raivas”. Até tratados sobre comportamentos eram escritos, como a Carta de Guia de Casados, de 1651. Para vencer essa vigília constante, situações e recursos dos mais variados eram usados a fim de iniciar um relacionamento. Alguns se submetiam a práticas pouco ortodoxas para chamar a atenção de seu objeto de desejo.

Já nos idos de 1700, os enamorados procuravam com frequência as igrejas. As cidades, muito pequenas, dificultavam a privacidade dos casais. Os flertes, então, ocorriam nas missas, um dos únicos eventos a que as mulheres podiam ir. Os rapazes lançavam olhares furtivos, risos e acenos desviando a atenção das moças e incitando a ira dos padres. As procissões e festas religiosas eram propícias para o início dos romances. Como na Quita-Feira Santa, na qual rapazes e moças esperavam o apagar das velas da igreja para se aproximar. No escurinho, trocavam beliscões e pisadelas como forma de afeto.

Para conseguir um bom par valia tudo: as cartas de amor eram recheadas de escritos carinhosos, com “benzinho da minh´alma”. Poemas, mimos e promessas de casamento eram recursos largamente utilizados. Alguns itens curiosos, como acessórios de cozinha, laranja e palmitos, serviam de presentes. Para burlar a vigilância dos pais, recorria-se a moleques de recado que marcavam encontros às escondidas.

Algumas técnicas mais radicais hoje soariam descabidas: feitiçaria, magias e pactos com o demônio não raro aconteciam. Bruxas especialistas nas práticas alcoviteiras eram largamente procuradas. Elas faziam as “cartas de tocar”, papeis escritos contendo o nome da pessoa que seduziam ao simples toque.

Também Deus era útil para se conquistar um par: repetir durante o ato sexual as palavras em latim que o padre dizia na missa teria o efeito de “prender” a pessoa perto de si.

No “namoro de bufarinheiro”, o pretendente agindo como bufarinheiro (mascate), aproveitava as procissões e passava pela janela da moça, distribuindo espertas piscadelas e gestos com as mãos e boca.

Outra prática comum era o “namoro de escarrinho”, no qual o galanteador se colocava sob a janela e começava a fungar, como se estivesse resfriado. Caso a moça respondesse com o mesmo gesto, dava-se início a um ritual pouco higiênico de conquista, regado a tossidas forçadas, narizes assoados e cuspidas no chão. Ninguém proferia uma única palavra.


(Do livro História do Amor no Brasil, de Mary Del Priore)

Em Brasil Almanaque de Cultura Popular,
de Elifas Andreato e João Rocha Rodrigues



domingo, 25 de junho de 2017

Poemas de Cecília Meireles



(7.11.1901 – 9.11.1964)
  
Apresentação

Aqui está minha vida ‒ esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz ‒ esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor ‒ este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança ‒ este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

Cecília Meireles, in “Retrato Natural”, 1949.

Madrugada na aldeia

Madrugada na aldeia nevosa,
com as glicínias escorrendo orvalho,
os figos prateados de orvalho,
as uvas multiplicadas em orvalho,
as últimas uvas miraculosas.
O silêncio está sentado pelos corredores,
encostado às paredes grossas,
de sentinela.
E em cada quarto os cobertores peludos envolvem o sono;
poderosos animais benfazejos, encarnados e negros.
Antes que um sol luarento
dissolva as frias vidraças,
e o calor da cozinha perfume a casa
com a lembrança das árvores ardendo,
a velhinha do leite de cabra desce as pedras da rua
antiqüíssima,
e o pescador oferece aos recém acordados
os translúcidos peixes,
que ainda se movem, procurando o rio.

Cecília Meireles, in “Mar Absoluto e Outros Poemas”.

Voo

Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Voam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos, como negros abutres,
as palavras voam.
Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós,
em redor de nós as palavras voam.
E às vezes pousam.

Cecília Meireles, in “Melhores Poemas”.

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
‒ não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
‒ mais nada.

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
‒ Em que espelho ficou perdida
a minha face?

→ Cecília nasceu no Rio de Janeiro em 1901. Órfã de pai e de mãe, foi educada pela avó materna, que exerceu forte influência sobre a sua formação. Escreveria mais tarde: “Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno. Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano. (…) Vovó era uma criatura extraordinária. Extremamente religiosa, rezava todos os dias. E eu perguntava: ‘Por quem você está rezando?’ ‘Por todas as pessoas que sofrem’. Era assim. Rezava mesmo pelos desconhecidos. A dignidade, a elevação espiritual de minha avó influíram muito na minha maneira de sentir os seres e a vida”.


(Texto de Bula Revista por Carlos William Leite)


Oração da mulher grávida



Para colocar o filho nas mãos de Deus
  
Ó Deus eterno, Pai de infinita bondade, que instituístes o casamento para propagar o gênero humano e povoar o Céu, e destinastes principalmente o nosso sexo para essa tarefa, querendo que nossa fecundidade fosse uma das marcas de vossa benção sobre nós, eu me prosterno, suplicante, diante de Vossa Majestade, que eu adoro.

Eu Vos dou graças pela criança que eu levo, à qual Vós destes o ser. Senhor, estendei a Vossa mão e completai a obra que Vós começastes: que Vossa Providência leve comigo, por meio de uma contínua assistência, a frágil criatura que Vós me confiastes, até a hora de sua chegada ao mundo. Nesse momento, ó Deus de minha vida, assisti-me e sustentai minha fraqueza com Vossa mão poderosa. Recebei então Vós mesmo meu filho e guardai-o até que ele tenha entrado, pelo batismo, no seio da Igreja Vossa Esposa, a fim de que ele Vos pertença pelo duplo título da Criação e da Redenção.

Ó Salvador de minha alma, que durante Vossa vida mortal tanto amastes as crianças e tantas vezes as tomastes nos braços, tomai também a minha, a fim de que tendo a Vós por Pai, e Vos chamando seu Pai, ela santifique o Vosso nome e participe de Vosso Reino. Eu Vo-la consagro de todo o meu coração, ó meu Salvador, e a entrego a Vosso amor.

Vossa justiça submeteu Eva e todas as mulheres que nascem dela a grandes dores; eu aceito, Senhor, todos os sofrimentos que vós me destinais nessa ocasião e Vos suplico humildemente, pela santa e feliz concepção de Vossa Mãe Imaculada, que me sejais benigno no momento de dar à luz meu filho, abençoando a mim e a essa criança que Vós me dareis, bem como concedendo-me o Vosso amor e uma inteira confiança em Vossa bondade.

E Vós, bem-aventurada Virgem, Santíssima Mãe de nosso Salvador, honra e glória de nosso sexo, intercedei junto a Vosso Divino Filho a fim de que ele atenda, em sua misericórdia, a minha humilde oração.

Eu Vo-lo peço, ó mais amável das criaturas, pelo amor virginal que tivestes por José, vosso santo esposo, e pelos méritos infinitos do nascimento de vosso Divino Filho. Ó Santos Anjos que sois encarregados de velar por mim e por meu filho, protegei-nos e conduzi-nos a fim de que, pela vossa assistência, possamos um dia chegar à glória da qual vós já gozais, e louvar convosco nosso Senhor comum, que vive e reina por todos os séculos dos séculos. Amém.

São Francisco de Sales


(Publicado originalmente no blog do Prof. Felipe Aquino)



Oração da mulher moderna



Senhor, ajude-me a nunca desistir de ser mulher.

Coloque um espelho no meio do meu caminho, entre a lavanderia, o supermercado, o sapateiro, o colégio e a locadora. E que, ao me olhar, eu goste do que veja.

Não deixe que eu passe uma semana sem usar um batom, uma bota bem alta ou um jeans bem justo.

Proteja meus cachos do vento e os brincos e anéis dos olhares invejosos.

Nunca deixe faltar, na minha vida, comédias românticas e boas depiladoras.

Deixa que eu feche os registros e as janelas. Mas, por favor, abra algumas portas. Nem que seja a do carro.

Se eu estiver com vontade de chorar, faça com que eu chore um dilúvio.

E que, nesse dia, eu tenha saído de casa sem pintar o olho.

Para cada dia de TPM, dê-me uma vitrine com sapatos lindos.

Já que eu nunca pedi milagres, faça que minhas celulites sejam ao menos “discretinhas”.

Dê-me saúde, tempo livre, silêncio.

Que nunca falte absorvente na minha bolsa...

Dê forças para eu insistir que meus filhos comam salada, digam “por favor” e “obrigado”, limpem a boca no guardanapo, façam as pazes e puxem a descarga.

Cegue meus olhos para as sujeiras nos cantos e os brinquedos no meio da sala ‒ eles vão estar sempre lá, isso eu já vi.

Em dias difíceis, dê-me persistência para seguir na dieta.

Proteja minhas poucas horas de sono e não me julgue mal caso eu não acorde no meio da noite para cobrir meus filhos.

Não deixe que a minha testa fique tão franzida a ponto de parecer uma saia plissada. E eu, uma louca estressada.

Faça com que o sol seja meu personal trainer, meu complexo de vitaminas, meu carregador de bateria, mas quando eu pedir um “diazinho” de chuva, não pergunte por quê.

Para cada batata quente no trabalho, dê-me um café recém-passado.

Entenda quando eu rezo para cancelarem uma reunião, não é gastar reza à toa, pode ter certeza.

No meio de tudo isso, faça com que eu ache tempo para virar namorada de novo, ir ao cinema, jantar fora, beijar na boca, dormir abraçadinha.

Senhor, por pior que seja o meu dia, faça com que ele termine, e eu não...

(Autor desconhecido)

sábado, 24 de junho de 2017

Conto de verão n° 2: Bandeira Branca


Luís Fernando Veríssimo


Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.
Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
Só no terceiro Carnaval se falaram.
‒ Como é teu nome?
‒ Janice. E o teu?
‒ Píndaro.
‒ O quê?!
‒ Píndaro.
‒ Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.

***

Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia.
‒ Ah.
Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou na face, disse “Até o Carnaval que vem” e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
‒ Me dá alguma coisa.
‒ O quê?
‒ Qualquer coisa.
‒ O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.

***

No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que acontecera?
‒ Você vomitou a alma ‒ disse a mãe. Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro dela.
Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube ‒ e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
‒ Sei lá. Bávara tropical ‒ disse ela, rindo.
Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
‒ E aquela bailarina espanhola?
‒ Nem me fala. E o toureiro?
‒ Aposentado.
A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo, alguém disse “Píndaro?!” e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi “pelo menos o meu tirolês era autêntico” e desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo “não vale, você cresceu mais do que eu” e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.

***

Encontram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse “quase não reconheci você sem fantasias”. Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muito menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele lhe dissera fora “preciso te dizer uma coisa”, e ela dissera “no Carnaval que vem, no Carnaval que vem” e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...
‒ O que você ia me dizer, no outro Carnaval? ‒ perguntou ela.
‒ Esqueci ‒ mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil... E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...


(Do livro “Os cem melhores contos brasileiros do século”,
Seleção Italo Moriconi - Objetiva)


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Machado de Assis em foto histórica


Pesquisa identifica Machado de Assis 
em foto histórica sobre abolição


Missa Campal plano geral



Missa Campal - detalhe


Foto histórica ampliada 15 vezes,
revela que Machado de Assis estava próximo da questão abolicionista.

→ A Brasiliana Fotográfica divulgou no último domingo ter descoberto um registro fotográfico inédito de Machado de Assis (1839-1908).

→ O site de fotografias brasileiras do século 19 e do começo do 20 identificou a presença do escritor em uma imagem sobre o fim da escravidão. Em 17 de maio de 1888, quatro dias depois da assinatura da Lei Áurea, uma missa campal foi celebrada em São Cristóvão, no Rio, em homenagem à abolição da escravatura.

→ Cerca de 30 mil pessoas estiveram presentes. A missa foi retratada pelo fotógrafo Antônio Luiz Ferreira. De uma posição um pouco acima do nível do chão, ele fez uma tomada panorâmica que contemplou uma larga extensão do Campo de São Cristóvão. Na imagem se misturaram negros recém-libertos, jornalistas, intelectuais, representantes do império e da igreja. O escritor Lima Barreto, então com sete anos, também esteve na missa. No canto esquerdo, está a princesa Isabel e seu marido, o conde D’Eu.

→ Agora os pesquisadores da Brasiliana Fotográfica notaram a presença de Machado, próximo ao casal real. A fotografia da missa, ainda hoje pouco divulgada, integra a coleção do IMS (Instituto Moreira Salles), instituição que, em parceria com a Biblioteca Nacional, abastece a Brasiliana Fotográfica. A equipe do portal, lançado há um mês, digitalizou a fotografia em alta resolução e se dedicou a examinar os detalhes da cena.

→ O palco em que aparece a princesa Isabel foi ampliado 15 vezes, o que revelou um homem bastante semelhante ao escritor. Segundo o site, especialistas na obra do autor de “Dom Casmurro”, como Eduardo Assis Duarte e Ubiratan Machado, confirmaram tratar-se realmente de Machado.

→ É possível ver apenas uma parte do rosto do escritor, atrás de um senhor de barba branca, não identificado. “A foto é uma representação muito importante do contexto da época, e ainda demonstra que Machado estava próximo da questão abolicionista”, diz Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS. Ao site da Brasiliana Fotográfica, Ubiratan Machado, autor de “Dicionário de Machado de Assis”; e um dos principais estudiosos da documentação machadiana, diz que a presença do escritor na missa era “fato até hoje desconhecido pelos biógrafos”.

→ Machado, contudo, escreveu ao menos duas crônicas sobre a missa, em que satiriza a classe política da época. Nas primeiras décadas do século 20, Machado, mulato bisneto de escravos alforriados, foi criticado por ser omisso em relação à escravidão. Estudos posteriores, no entanto, mostraram que ele retratou com argúcia as contradições sociais do país no século 19, a escravidão entre elas.

→ Desde os anos 1870 Machado escreveu diversas crônicas contra a escravidão na imprensa da época. “Não bato o martelo de que é o Machado, mas realmente parece muito com ele”, diz Valentim Facioli, professor aposentado da USP, dono da editora Nankin e pesquisador de Machado há 50 anos.

→ “Se for realmente ele, é mais uma prova para desqualificar as bobagens de que Machado era indiferente à escravidão. Sempre foi um abolicionista, mas à moda dele, sem militar em grupos ou comícios.” “Parece realmente o Machado daquele período”, diz o inglês John Gledson, outro estudioso do autor.

→ “Me surpreende que ele estivesse tão perto da princesa. Ele não era exatamente membro da elite, embora já fosse famoso na época”.

(Do Blog Focus – Escola de Fotografia)

Princesa Isabel e seus convidados ilustres


Missa Campal – 18 de maio de 1888

→ Dois anos após a publicação da fotografia produzida por Antônio Luiz Ferreira, Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil, realizada no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1888, a Brasiliana Fotográfica a republica com mais uma identificação, dessa vez, do padre baiano José Alves Martins do Loreto (1845 – 1896), redator e sócio proprietário do jornal O Apóstolo. O reconhecimento foi feito pelo leitor Pedro Juarez Pinheiro. Além das identificações iniciais, que incluíram Machado de Assis (1839 – 1908), muitas outras já foram realizadas a partir de indicações feitas pelos leitores desse portal, que aceitaram o desafio de apontar outras pessoas presentes no evento. Mas ainda há muito trabalho pela frente. Novos reconhecimentos são bem-vindos! Na silhueta abaixo, o padre Loreto é o número 21.


01 – Princesa Isabel (1846-1921) – princesa imperial do Brasil e três vezes regente do Império do Brasil. Ficou conhecida como a Redentora por ter assinado a Lei Áurea.

02 – Luis Filipe Maria Fernando Gastão de Orleans, o conde d´Eu (1842-1922) – príncipe do Brasil por seu casamento com a princesa Isabel.

03 – Não identificada.

04 – Possivelmente o Marechal Hermes Ernesto da Fonseca (1824-1891) – político e militar brasileiro, irmão do general Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil, e pai do futuro presidente do Brasil, Hermes Rodrigues da Fonseca.

05 – Machado de Assis (1839-1908) – um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

06 – Possivelmente José de Miranda da Silva Reis, marechal de campo e Barão Miranda Reis (1824-1903) – foi ajudante de campo e camarista do imperador Pedro II e participou da Guerra do Paraguai. Exerceu importantes cargos, dentre eles foi ministro do Superior Tribunal Militar e dirigiu a Escola Superior de Guerra e o Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro.

07 – Possivelmente José do Patrocínio, encoberto por uma lança, (1854-1905) – escritor e jornalista, uma das maiores figuras do movimento abolicionista. Na foto está segurando a mão de seu filho primogênito, que ao fim da missa foi beijado pela princesa Isabel.

08 – Jornalista (?) não identificado.

09 – Possivelmente José Ferreira de Souza Araújo, conhecido como Ferreira Araújo (1848-1900) – um dos mais importantes jornalistas da época, foi diretor da Gazeta de Notícias e sob o pseudônimo Lulu Sênior escreveu as muito populares colunas Macaquinhos no Sótão, Balas de Estalo e Apanhados. Foi o vice-diretor da Comissão Central da Imprensa Fluminense, formada para organizar e programar os festejos em torno da Abolição.

10 – Thomaz José Coelho de Almeida (1838-1895) – ministro da Guerra, integrante do Gabinete de 10 de março de 1888.

11 – Rodrigo Silva (1833-1889) – ministro dos Negócios da Agricultura e interino dos Negócios Estrangeiros, integrante do Gabinete de 10 de março de 1888.

12 – José Fernandes da Costa Pereira Júnior (1833-1899) – ministro do Império, integrante do Gabinete de 10 de março de 1888.

13 – João Alfredo Correia de Oliveira (1835-1919) – presidente do Conselho de Ministros do Gabinete de 10 de março de 1888.

14 – Maria José Velho de Avelar, Baronesa de Muritiba (1851-1932) – dama do Paço e amiga íntima da princesa Isabel.

15 – Maria Amanda de Paranaguá Dória, Baronesa de Loreto (1849-1931) – dama do Paço e amiga íntima da princesa Isabel.

16 – Fernando Mendes de Almeida (1845-1921) – na época, diretor e redator-chefe do Diário de Notícias. Era o segundo secretário da Comissão Central da Imprensa Fluminense, formada para organizar e programar os festejos em torno da Abolição.

17 – Jornalista (?) não identificado.

18 – Jornalista (?) não identificado.

19 – Senador ou deputado (?) não identificado.

20 – Possivelmente Ângelo Agostini (1843-1910) – italiano, um dos primeiros e mais importantes cartunistas do Brasil. Fez uma intensa campanha pela abolição da escravatura. Fundou e colaborou com diversos jornais e revistas, dentre eles a “Revista Illustrada”, que circulou entre 1876 e 1898.

21 – Padre José Alves Martins do Loreto (1845 – 1893), redator e sócio proprietário do jornal “O Apóstolo”.

→ À esquerda da fotografia, estão vários padres diante do altar, que ainda não conseguimos identificar. Dentre eles, segundo a imprensa da época, estariam o celebrante da missa, padre Cassiano Coriolano Collona, capelão do Exército e um dos fundadores da Confederação Abolicionista, criada em 19 de fevereiro de 1888; o padre-mestre Escobar de Araújo, vigário de São Cristóvão; os padres Castelo Branco e Telêmaco de Souza Velho e o padre Loreto, agora identificado.

→ O missal usado na cerimônia, em veludo carmezin, tinha a seguinte inscrição: “13 de maio de 1888 – Esse missal foi o que serviu na missa campal, celebrada em 17 de maio de 1888, no campo de São Cristóvão, em ação de graças pela promulgação da lei que extinguiu a escravidão no Brasil”. O missal e a campainha utilizados foram, assim como a garrafa de vinho Lacryma Christi, doados. Segundo a imprensa da época, formavam as alas do altar as ordens terceiras de São Francisco de Paula, de São Francisco da Penitência e de Nossa Senhora do Carmo, além das irmandades de São Cristóvão e do Rosário com seus galões e candelabros. Estandartes de associações e de escolas podem ser vistas na foto.

→ A importância dos jornais do Rio de Janeiro no processo da Abolição da Escravatura fica evidenciada na missa campal por dois fatos: antes do início da cerimônia, o ministro da Guerra, Thomaz José Coelho de Almeida (identificado na foto – número 10), “ergueu um viva à imprensa nacional”; e, representando a imprensa, o jornalista Fernando Mendes de Almeida (identificado na foto – número 16, vestindo uma toga) ajudou na celebração da missa campal.

→ A missa campal do dia 17 de maio de 1888 foi um dos festejos pela Abolição da Escravatura organizada pela Comissão Central da Imprensa Fluminense. Possivelmente, seus integrantes estão identificados na foto usando uma faixa na qual podemos ler a palavra imprensa.

A presença de Lima Barreto na Missa Campal

→ Apesar de não estar identificado na fotografia de Antonio Luis Ferreira, o escritor e jornalista Afonso Henriques de Lima Barreto (13/05/1881 – 1/11/1922), na época com 7 anos, contou em uma crônica publicada na Gazeta de Tarde, de 4 de maio de 1911, que esteve presente a esse momento histórico, levado por seu pai, João Henriques de Lima Barreto. Escreveu: Houve missa campal no Campo de São Cristóvão. Eu fui também com meu pai; mas pouco me recordo dela, a não ser lembrar-me que, ao assisti-la, me vinha aos olhos a “Primeira Missa”, de Vítor Meireles. Era como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez… A crônica de Lima Barreto foi transcrita no blog do Instituto Moreira Salles.

→ Uma curiosidade: Lima Barreto nasceu justamente no dia em que foi abolida a escravatura no Brasil, 13 de maio de 1881. Seus pais eram filhos de ex-escravizadas.

Abaixo, no lado esquerdo da foto, vemos no altar da celebração, as figuras ilustres presentes nessa Missa Campal, ente elas, Machado de Assis...


“Missa Campal celebrada em ação de graças
pela Abolição da escravatura no Brasil”.
Foto do plano geral de Antonio Luiz Ferreira, 1888.

Lima Barreto e a Missa Campal

Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia. Não é sem emoção que o vejo entrar. Há em minha alma um renovamento; as ambições desabrocham de novo e, de novo, me chegam revoadas de sonhos. Nasci sob o seu signo, a treze, e creio que em sexta-feira; e, por isso, também à emoção que o mês sagrado me traz se misturam recordações da minha meninice.

Agora mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço.

Na minha lembrança desses acontecimentos, o edifício do antigo paço, hoje repartição dos Telégrafos, fica muito alto, um sky-scraper; e lá de uma das janelas eu vejo um homem que acena para o povo.

Não me recordo bem se ele falou e não sou capaz de afirmar se era mes­mo o grande Patrocínio.

Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles mi­lhares de pessoas o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenço, vivas…

Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente festa e harmonia.

Houve missa campal no Campo de São Cristóvão. Eu fui também com meu pai; mas pouco me recordo dela, a não ser lembrar-me que, ao assisti-la, me vinha aos olhos a “Primeira Missa”, de Vítor Meireles. Era como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez… Houve o barulho de bandas de música, de bombas e girândolas, indispensável aos nossos regozijos; e houve também préstitos cívicos. Anjos despedaçando grilhões, alegorias toscas passaram lentamente pelas ruas. Construíram-se estrados para bailes populares; houve desfile de batalhões escolares e eu me lembro que vi a princesa imperial, na porta da atual Prefeitura, cercada de filhos, assistindo àquela fieira de numerosos soldados desfiar devagar. Devia ser de tarde, ao anoitecer.

Ela me parecia loura, muito loura, maternal, com um olhar doce e apie­dado. Nunca mais a vi e o imperador nunca vi, mas me lembro dos seus carros, aqueles enormes carros dourados, puxados por quatro cavalos, com cocheiros montados e um criado à traseira.

Eu tinha então sete anos e o cativeiro não me impressionava. Não lhe imaginava o horror; não conhecia a sua injustiça. Eu me recordo, nunca co­nheci uma pessoa escrava. Criado no Rio de Janeiro, na cidade, onde já os es­cravos rareavam, faltava-me o conhecimento direto da vexatória instituição, para lhe sentir bem os aspectos hediondos.

Era bom saber se a alegria que trouxe à cidade a lei da abolição foi geral pelo país. Havia de ser, porque já tinha entrado na consciência de todos a in­justiça originária da escravidão.

Quando fui para o colégio, um colégio público, à Rua do Resende, a alegria entre a criançada era grande. Nós não sabíamos o alcance da lei, mas a alegria ambiente nos tinha tomado.

A professora, Dona Teresa Pimentel do Amaral, uma senhora muito inteligente, a quem muito deve o meu espírito, creio que nos explicou a significação da coisa; mas com aquele feitio mental de criança, só uma coisa me ficou: livre! livre!

Julgava que podíamos fazer tudo que quiséssemos; que dali em diante não havia mais limitação aos propósitos da nossa fantasia.

Parece que essa convicção era geral na meninada, porquanto um colega meu, depois de um castigo, me disse: “Vou dizer a papai que não quero voltar mais ao colégio. Não somos todos livres?”

Mas como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enleamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis!

Dos jornais e folhetos distribuídos por aquela ocasião, eu me lembro de um pequeno jornal, publicado pelos tipógrafos da Casa Lombaerts. Estava bem-impresso, tinha umas vinhetas elzevirianas, pequenos artigos e sonetos. Desses, dois eram dedicados a José do Patrocínio e o outro à princesa. Eu me lembro, foi a minha primeira emoção poética a leitura dele. Intitulava-se “Princesa e Mãe” e ainda tenho de memória um dos versos:

Houve um tempo, senhora, há muito já passado…

São boas essas recordações; elas têm um perfume de saudade e fazem com que sintamos a eternidade do tempo.

Oh! O tempo! O inflexível tempo, que como o Amor, é também irmão da Morte, vai ceifando aspirações, tirando presunções, trazendo desalentos, e só nos deixa na alma essa saudade do passado às vezes composta de coisas fúteis, cujo relembrar, porém, traz sempre prazer.

Quanta ambição ele não mata! Primeiro são os sonhos de posição: com os dias e as horas e, a pouco e pouco, a gente vai descendo de ministro a ama­nuense; depois são os do Amor ‒ oh! como se desce nesses! Os de saber, de erudição, vão caindo até ficarem reduzidos ao bondoso Larousse. Viagens… Oh! As viagens! Ficamos a fazê-las nos nossos pobres quartos, com auxílio do Baedecker e outros livros complacentes.

Obras, satisfações, glórias, tudo se esvai e se esbate. Pelos trinta anos, a gente que se julgava Shakespeare, está crente que não passa de um “Mal das Vinhas” qualquer; tenazmente, porém, ficamos a viver, esperando, esperan­do… o quê? O imprevisto, o que pode acontecer amanhã ou depois. Espe­rando os milagres do tempo e olhando o céu vazio de Deus ou deuses, mas sempre olhando para ele, como o filósofo Guyau.

Esperando, quem sabe se a sorte grande ou um tesouro oculto no quintal?

E maio volta… Há pelo ar blandícias e afagos; as coisas ligeiras têm mais poesia; os pássaros como que cantam melhor; o verde das encostas é mais ma­cio; um forte flux de vida percorre e anima tudo…

O mês augusto e sagrado pela poesia e pela arte, jungido eternamente à marcha da Terra, volta; e os galhos da nossa alma que tinham sido amputados – os sonhos enchem-se de brotos muito verdes, de um claro e macio verde de pelúcia, reverdecem mais uma vez, para de novo perderem as folhas, secarem, antes mesmo de chegar o tórrido dezembro.

E assim se faz a vida, com desalentos e esperanças, com recordações e saudades, com tolices e coisas sensatas, com baixezas e grandezas, à espera da morte, da doce morte, padroeira dos aflitos e desesperados…

(Do Blog IMS – Instituto Moreira Salles)


Foto rara de Machado de Assis


Foto rara de Machado de Assis presidindo a ABL é encontrada

Pesquisador divulgou imagem do escritor feita em outubro de 1905.
Segundo ele, este é o único registro do autor na função já descoberto.


→ Imagem encontrada por pesquisador que diz ter encontrado o único registro de Machado de Assis (em destaque sob a seta) presidindo uma sessão da ABL, em 31 de outubro de 1905 (Foto: Divulgação)

→ O próprio “descobridor” da foto reconhece que a qualidade “é ingrata”. Mas vale pela raridade: trata-se do único registro já encontrado do escritor Machado de Assis presidindo uma sessão da Academia Brasileira de Letras (ABL), entidade fundada por ele. A imagem (veja acima), que mostra uma reunião de 31 de outubro de 1905, vai ser reproduzida na edição de dezembro na “Revista Brasileira”, publicação trimestral da ABL.

→ O pesquisador independente Felipe Rissato, que encontrou a rara fotografia, explica que ela saiu originalmente na revista “Leitura para Todos” em dezembro daquele ano. Mas jamais foi republicada ou mencionada em qualquer arquivo.

→ “A própria Academia registra como documento iconográfico mais antigo de uma sessão pública a fotografia da sessão realizada em 17 de maio de 1909, já presidida por Rui Barbosa”, diz Rissato em entrevista ao G1 por telefone. De acordo com ele, a nova foto de Machado se torna agora “o registro iconográfico mais antigo de uma sessão da ABL”.

→ Na foto, Machado de Assis aparece entre os acadêmicos Alberto de Oliveira e Silva Ramos. Eles o auxiliavam no andamento da sessão que elegeu Mário de Alencar para ocupar a cadeira nº 21 da ABL, vaga pela morte de José do Patrocínio.

→ Rissato explica como pôde assegurar que é mesmo o autor de “Memórias póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro” na imagem:

→ “A legenda [da revista] auxilia, uma vez que dá a data exata da sessão, sobretudo por ser uma revista contemporânea. Porém, mesmo que muito pouco, é possível divisar a face do bruxo, ensanduichada entre os rostos de Alberto de Oliveira e Silva Ramos”.

→Ele justifica citando que a foto é bem semelhante a outra feita em 1904 (veja abaixo).


Imagem de perfil do escritor Machado de Assis em 1904
(Foto: Divulgação)

→ A imagem de 1905 faz parte de uma pesquisa iconográfica de Machado de Assis feita por Rissato. “O número 89 da 'Revista Brasileira' vai publicar ao todo 38 fotos”, descreve o pesquisador. “Dentre elas, apenas uma é inédita, feita em 1880 pelo fotógrafo Isley Pacheco. E será a primeira vez em que o conjunto estará reunido.”

→ Na edição 87 da “Revista Brasileira”, Rissato já havia divulgado uma crônica até então desconhecida na qual Machado de Assis lamentava a morte de sua mãe (veja abaixo). Intitulado “Lembranças de minha mãe”, o texto foi originalmente publicado em 1860 na revista “Revista Luso-Brasileira” e sem assinatura.

→ “Não era raro o Machado de Assis escrever coisas anônimas e só depois comprovadas”, diz Rissato. “Neste caso, foi porque é um tema tão triste, tão caro a todos nós, a perda da mãe.”

→ Crônica “Lembranças de minha mãe”, publicada anonimamente em 1860 na 'Revista Luso-Brasileira' e republicada em junho de 2016 na 'Revista Brasileira', da ABL; pesquisador abrui autoria a Machado de Assis.

(Do Blog Pop & Arte)

Lembranças de minha mãe*

*1849 – Morre, tuberculosa, Maria Leopoldina Machado de Assis, mãe do escritor.

Minha mãe morreu tão cedo!...

Eu era pequeno, era feliz; porque não conhecia os enganos do mundo, e os pesares da vida; inocente corria entre as campinas, colhia flores e ia derramá-las sobre minha mãe, saltava os regatos que encontrava no meu brincar, corria atrás da borboleta azul, tratava com ela um combate que acabava pela vitória; adormecia sossegado e feliz no meu berço inocente, embalado pelas cantigas e pelos beijos maternos que nas faces recebia; eu dormia o sono da infância era feliz: oh! quem me dera sempre viver assim! Anos depois, quando podia retribuir-lhe as suas carícias; quando mais me era precisa a sua existência, a cruel sorte me a roubou; oh! quanto sofro hoje que isolado do mundo, cansado da vida, não encontro o seu seio para esconder as minhas lágrimas, e nem os seus hinos para adoçar-me as dores.

Uma mãe!... Palavra sublime, que enche o coração de prazer e entusiasmo, que eleva a alma a um viver inocente e belo.

Uma mãe!...único cate que nos ama no mundo, que compreende as nossas dores, que sofre quando sofremos, que chora quando a nossa alma é triste, que se desespera quando choramos, e que morre deixa o mundo de ilusões e prazeres para ir viver no mundo das felicidades. – Dores reais; sofrer sincero.

Oh! como é triste existir sem ter o elo que nos prende à vida, sem os afagos do verdadeiro amor, sem as doçuras da verdadeira afeição. E haverá quem chore uma mãe?

Quem não sinta um vácuo no coração quando uma lágrima se desliza sobre o túmulo de mãe! Quem não sofra muito sem os cuidados desse anjo que o Senhor enviou à terra para ensinar-nos o amor, o dever e a religião?

Oh! eu sou infeliz, muito infeliz...

Aos 9 anos perdi minha mãe, fiquei só no mundo, só como a rola sem ninho! Entre no mundo das ilusões e dos enganos; sofri muito, descri muito. A sociedade egoísta e corrupta fez-me descrer de todas as felicidades, de todo o amor sincero e verdadeiro, de toda a virtude; porque já tinha perdido o único ente que me amava com amor sincero, e a crença que me fazia feliz: fugido do mundo, entreguei-me à solidão e muito chorei, porque não encontrei quem me acalentasse nos braços e mitigasse as minhas dores.

‒ Não tinha mãe!

Como eu sofro!... minha mãe, lá na mansão dos justos, lança a bênção sobre teu filho, pede a Deus pela felicidade do padecente. Eu sem ti, sem o perfume da flor que me fazia feliz e crente, chorarei sempre sem consolação; porque uma mãe perde-se uma vez e nunca mais se encontra.


Este texto, se for mesmo de Machado de Assis, foi escrito em 1860, quando ele tinha apenas 21 anos, talvez a idade justifique a inocência e a ingenuidade do tema.