quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Conversa ao telefone


(Toca o telefone, homem dá um pulo e atende.)


‒ Alô!
‒ É o meu gatinho, não é?
‒ Hummm é você, Peçanha?
‒ Pe-ça-nha? Sou eu, meu boneco...
‒ Claro que reconheci sua voz, Peçanha! O que é que manda, meu velho?
‒ Augusto, você não está ouvindo, tem linha cruzada, o que é que está havendo? Sou eu... Paulette!
‒ Você tem que entender, Peçanha, que...
‒ ...ah, já entendi, a chata da mulher do meu gatinho está aí...
‒ ... era exatamente isso que eu ia dizer!
‒ Ou seja, que a gente não vai mais poder sairzinho por aí, né?
‒ Peçanha, meu caro, a gente tem de adiar esse negócio!
‒ Você quer que eu ligue mais tarde, queridinho?
‒ Não, Peçanha, essas coisas não podem ser feitas assim. Amanhã a gente conversa melhor.
‒ Que pena, eu aqui esperando o meu gatinho com um uisquinho geladinho, olha só o barulho do gelinho no copo...
‒ É, a mercadoria deve ser de primeira mesmo!
‒ Quer que sua gatinha ligue amanhã para o escritório?
‒ Acho melhor você ir até lá, pessoalmente. Amanhã conversamos.
‒ Então um beijíssimo pra você... e um chute nessa chata da sua mulher!

(Desliga o telefone e fala pra mulher.):

‒ Era o Peçanha...
‒ Você já disse. Mas era alguma coisa importante, pelo jeito.
‒ Nem tanto, mas é interessante, uma mercadoria de firma estrangeira que nós vamos vender e ganhar comissão em cima... o Peçanha não faz nada sem me consultar, bacana isso... de vez em quando ele aparece lá no escritório, coitado, e ele mora longe à beça...

(Toca a campainha, ela vai até a porta.)

‒ Boa noite, dona Margarida!
‒ Boa noite... que surpresa!
‒ O Augusto está? Eu ia passando aqui por perto, resolvi dar uma subidinha, faz tempo que não falo com ele... com licença.
‒ Vamos lá para a sala. O Augusto vai adorar essa sua visita!

(Os dois vão pata a sala, a mulher anuncia.):

‒ Augustinho querido... olha só quem veio nos fazer uma surpresa!

(Ele, arregalando os olhos.):

‒ Peçanha!

*****

(Texto de Sérgio Porto para o programa Alô Doçura,
com Eva Wilma e John Herbert)


Historinha dos municípios gaúchos


Foi no dia Três de Maio, quando Dois Irmãos conheceram Três Coroas. O mais novo se chamava Júlio de Castilhos, também conhecido como Capitão. O outro era Carlos Barbosa, fanático pelo Colorado. Havia ainda o avô Getúlio Vargas, um velho cheio de Triunfo. Quanto a elas, uma era Serafina Correa, irradiando Alegria; a outra, Constantina, colecionadora de Esmeralda, e, a terceira, Dona Francisca, uma tia ainda Joia. Tudo parecia Encantado. Meses depois, no dia Sete de Setembro, em meio a um Mato Castelhano, atrás de uma Igrejinha, conhecida pela Cruz Alta e pelo seu Sobradinho, perto de uma Lagoa Vermelha, apesar do insistente Não Me Toque e vai com calma, Nonoai, deram Humaitá e até ficaram Condor. Mas tudo em Segredo. A noite era de Estrela, como uma bola de Cristal. Amanheceram no Travesseiro e, graças ao Bom Jesus e ao Santo Cristo, o final foi Feliz.



(Do Almanaque Gaúcho – O Livro – RBS Publicações)


* As palavras em itálico coloridas, para quem não conhece o Rio Grande do Sul, são nomes de municípios gaúchos. 

De que é feita a mulher



Há uma lenda indiana que explica a verdadeira origem da mulher.

Segundo a lenda, o deus Vulcano (Twashari) da mitologia hindu, ao querer criar a mulher, viu que tinha esgotado na feitura do homem todos os materiais sólidos.

Após meditar profundamente, encontrou a solução, tomado os seguintes elementos:

          O arredondado da lua;
          A curva ondulosa da serpente;
          Os graciosos contorcidos das plantas trepadeiras;
          O ligeiro estremecimento da erva;
          A delicadeza do caniço;
          O aveludado das flores;
          A leveza da pluma;
          O olhar gentil da gama;
          A viveza do raio de sol;
          As lágrimas da nuvem;
          A inconstância do vento;
          A timidez da lebre;
          A vaidade do pavão-real;
          A dureza do diamante;
          A crueldade do tigre;
          A astúcia da raposa;
          O frio da neve;
          A tagarelice do papagaio;
          O arrulho da pomba.
          E, com tudo isso, formou a mulher.

(Do Almanaque Gaúcho – O livro – RBS Publicações)




terça-feira, 30 de agosto de 2016

O olhar ao sedutor...


A carioca way of life

(Uma pequena história contada por Ronaldo Bôscoli)

Na idade de 15, 16 anos, todo garoto tem turma e é meio sacana. A minha turma era muito inspirada, um verdadeiro time de atores e produtores de trotes. Dela faziam parte meu primo, o falecido ator Jardel Filho, Hélio Saboya, que já foi até secretário de Segurança, o também ator Hélio Souto, Abel Gazio e outros mais. Frequentávamos as tenebrosas sessões das quatro do cinema São Luiz (em Copacabana), que eram o terror das senhoras e das moças.

Fazíamos verdadeiras “produções”, porque nossas brincadeiras não eram improvisadas. Muitas vezes, exigiam planejamento e investimento, pelo menos em tempo e trabalho. Dou, como exemplo, uma produção de Jardel Filho. Passava no São Luiz um filme sobre Maria Antonieta, esta interpretada por uma atriz muito popular na época, Norma Shearer. No clímax da história, ela caminhava para a guilhotina, de costas, parava, virava-se para trás, ou seja, na direção do espectador, depois seguia seu caminho para a morte. O clima da cena, naturalmente, era tenso pra burro, ficava aquele silêncio altamente dramático. Pois bem, Jardel foi ver o filme várias vezes e contou o tempo da caminhada da Shearer. Na hora exata, passou a gritar alto e em bom som: “Norma! Olha aqui pra quem te comeu!” A atriz, na tela, parava, virava, olhava de soslaio. O cinema vinha abaixo de tanto que as pessoas riam. Interrompiam a sessão, acendiam as luzes, era uma bagunça total.

(Texto do livro “Eles e Eu – Memórias de Ronaldo Bôscoli)


Norma Shearer, como Maria Antonieta, filme de 1938.

Maria Antonieta (Marie Antoinette, no original em inglês) é um filme norte-americano de 1938, do gênero drama, dirigido por W. S. Van Dyke e estrelado por Norma Shearer e Tyrone Power.

Edith Norma Shearer (Montreal, 10 de agosto de 1902Los Angeles, 12 de junho de 1983) foi uma atriz nascida no Canadá e naturalizada norte-americana. Shearer foi uma das atrizes mais populares do mundo a partir de meados da década de 1920 até sua aposentadoria em 1942. Ganhou um Oscar de melhor atriz em 1930 por The Divorcee (A Divorciada). É considerada a "Rainha da MGM".



segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Pobreza



Humildade

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.

Cora Coralina

Os Pobres

Olavo Bilac

Poema publica em Poesias Infantis

Aí vêm pelos caminhos
Descalços, de pés no chão,
Os pobres que andam sozinhos,
Implorando compaixão.

Vivem sem cama e sem teto,
Na fome e na solidão:
Pedem um pouco de afeto,
Pedem um pouco de pão.

São tímidos? São covardes?
Têm pejo? Têm confusão?
Parai quando os encontrardes,
E dá-lhes a vossa mão!

Guia-lhes os tristes passos!
Dá-lhes, sem hesitação,
O apoio de vossos braços,
Metade de vosso pão!

Não receies que, algum dia,
Vos assalte a ingratidão:
O prêmio está na alegria
Que tereis no coração.

Protegei os desgraçados,
Órfãos de toda a afeição:
E sereis abençoados
Por um pedaço de pão...






O Novo Manifesto


Lima Barreto*


Eu também sou candidato a deputado. Nada mais justo. Primeiro: eu não pretendo fazer coisa alguma pela pátria, pela família, pela humanidade.

Um deputado que quisesse fazer qualquer coisa dessas, ver-se-ia bambo, pois teria, certamente, os duzentos e tantos espíritos dos seus colegas contra ele.

Contra as suas ideias levantar-se-iam duas centenas de pessoas do mais profundo bom senso.

Assim, para poder fazer alguma coisa útil, não farei coi­sa alguma, a não ser receber o subsídio.

Eis aí em que vai consistir o máximo da minha ação parlamentar, caso o preclaro eleitorado sufrague o meu nome nas urnas.

Recebendo os três contos mensais, darei mais conforto à mu­lher e aos filhos, ficando mais generoso nas facadas aos amigos.

Desde que minha mulher e os meus filhos passem melhor de cama, mesa e roupas, a humanidade ganha. Ganha, porque, sendo eles parcelas da humanidade, a sua situação melhorando, essa melhoria reflete sobre o todo de que fazem parte.

Concordarão os nossos leitores e prováveis eleitores, que o meu propósito é lógico e as razões apontadas para justificar a minha candidatura são bastante ponderosas.

De resto, acresce que nada sei da história social, política e intelectual do país; que nada sei da sua geografia; que nada entendo de ciências sociais e próximas, para que o no­bre eleitorado veja bem que vou dar um excelente deputado.

Há ainda um poderoso motivo, que, na minha consciên­cia, pesa para dar este cansado passo de vir solicitar dos meus compatriotas atenção para o meu obscuro nome.

Ando mal vestido e tenho uma grande vocação para elegâncias.

O subsídio, meus senhores, viria dar-me elementos para realizar essa minha velha aspiração de emparelhar-me com a deschanelesca elegância do senhor Carlos Peixoto.

Confesso também que, quando passo pela Rua do Passeio e outras do Catete, alta noite, a minha modesta vaga­bundagem é atraída para certas casas cheias de luzes, com carros e automóveis à porta, janelas com cortinas ricas, de onde jorram gargalhadas femininas, mais ou menos falsas.

Um tal espetáculo é por demais tentador, para a minha imaginação; e, eu desejo ser deputado para gozar esse paraí­so de Maomé sem passar pela algidez da sepultura.

Razões tão ponderosas e justas, creio, até agora, nenhum candidato apresentou, e espero da clarividência dos homens livres e orientados o sufrágio do meu humilde nome, para ocupar uma cadeira de deputado, por qualquer Estado, pro­víncia, ou emirado, porque, nesse ponto, não faço questão alguma.

Às urnas.

Correio da Noite, Rio, 16-1-1915


* Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 - Rio de Janeiro, 1º de novembro de 1922), melhor conhecido como Lima Barreto, foi um jornalista e um dos mais importantes escritores libertários brasileiros.

Novas paródias de um antigo poema

Texto sério

Visita à casa paterna

Luís Guimarães Júnior

Como a ave que volta ao ninho antigo,
depois de um longo e tenebroso inverno,
eu quis também rever o lar paterno,
o meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
o fantasma talvez do amor materno,
tomou-me as mãos — olhou-me grave e terno,
e, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta a sala (oh! se me lembro! e quanto!)
em que da luz noturna à claridade
minhas irmãs e minha Mãe... O pranto

jorrou-me em ondas... Resistir quem há de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
chorava em cada canto uma saudade. 

Luís Guimarães Júnior,
Sonetos e Rimas. 3.a ed., Lisboa,
Clássica, 1914, p. 11.)

Primeira paródia

Visita ao tesouro

Acácio de Xexas

Como um’ave que volta ao ninho antigo,
depois de fazer muito desaforo,
eu quis também rever este Tesouro,
o meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio pérfido e inimigo
(era o espectro do Déficit!), num choro,
por entre ratos e gambás em coro,
tomou-me as mãos, e caminhou comigo.

Aqui, outrora... (oh! se me lembro e quanto!)
houve muito dinheiro acumulado!
E hoje, Papai, nem um vintém... O pranto

jorrou-me em ondas... Meu tesouro amado!
Um compadre comia em cada canto,
comia em cada canto um emboscado

(Idel Becker, comp.
Humor e humorismo: poesia e versos,
e paródias de poemas famosos.
São Paulo. Brasiliense, 1961, p. 309.)
imas. 3.a ed., Lisboa,

Clássica, 1914, p. 11.)

Nota. Acácio de Xexas é o apelido dado, no livro Lira Acaciana (1900), por Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Pedro Tavares Júnior a Alberto Torres, presidente do Estado do Rio. Sendo três os autores da obra, ficamos sem saber quem realmente escreveu a paródia.

Segunda paródia

Visita à casa da sogra

Itamar Siqueira

Como urubu que regressasse ao ninho,
a ver se ainda um bom caminho logra,
eu quis também rever a minha sogra,
o meu primeiro e virginal carinho.

Entrei. Pé ante pé, devagarzinho,
o fantasma, talvez, daquela cobra...
tomou-me as mãos, olhou-me bem, de sobra...
E levou-me para dentro, de mansinho.

Era este quarto, oh! se me lembro, e quanto...
em que, à luz da lua que brilhava,
o pau roncava forte, tanto e tanto,

no costado da gente, sem piedade,
um cacete bem grosso lá no canto...
Minhas costas choraram de saudade...

Fábulas de Jô Soares


A raposa e as uvas


Passava certo dia uma raposa perto de uma videira. Apesar de normalmente nunca se alimentar de uvas, pois se trata de um animal carnívoro e não vegetariano, sua atenção foi chamada pela beleza dos cachos que reluziam ao sol. Fenômeno estranhíssimo, uma vez que, geralmente, toda fruta cultivada é revestida por uma fina camada protetora de inseticida e dificilmente pode refletir a luz solar com tal intensidade. Sendo curiosa e matreira, como toda raposa matreira e curiosa, aproximou-se para melhor observar a videira. Os cachos estavam colocados muito acima de sua cabeça, e o animal (sem insulto) não teve oportunidade de prová-los, mas, sendo grande conhecedor de frutas, bastou-lhe um olhar para perceber que as uvas não estavam maduras.

 Estão verdes ‒ disse a raposa, deixando estupefatos dois coelhos que estavam ali perto e que nunca tinham visto uma raposa falar.

Seu comentário foi ainda mais espantoso, uma vez que as uvas não eram do tipo moscatel e sim pequenininhas e pretas, podendo facilmente ser confundidas, à primeira vista, com jabuticabas. Note-se por este pequeno detalhe o profundo conhecimento que a raposa tinha de uvas, ao afirmar com convicção que apesar de pretas, elas eram verdes. Dito isto, afastou-se daquele local.

Horas depois, passa em frente à mesma videira outra Canis vulpes (nome mais sofisticado do mesmo bicho), mais alta do que a primeira. Sua cabeça alcança os cachos e ela os devora avidamente.

No dia seguinte ao frutífero festim, o pobre bicho acorda com lancinantes dores estomacais. Seu veterinário, chamado imediatamente, diagnostica uma intoxicação provocada por farta ingestão de uvas verdes.

Moral:

Nem todas as raposas são despeitadas.


O lobo e o cordeiro









Um pequeno cordeiro, bem desavisado, bebia água numa bica, calmo e relaxado. Um lobo aparecendo, não se sabe donde, já que numa cidade lobo não se esconde, a fim de devorar o cordeirinho amável, foi logo dizendo num tom desagradável:

‒ Porco, você está pondo a boca na torneira e isso para mim é uma tremenda sujeira. Depois eu estou a fim de beber desta água. Falo isso no duro, sem raiva e sem mágoa.

Foi a vez de o cordeiro acanhado dizer:

‒ Seu lobo, eu não estou pondo a boca pra beber e mesmo que assim fosse, como o senhor pensa, informo que não tenho nenhuma doença.

‒ Pode ser ‒ disse o lobo. ‒ Mas ontem no morro, teu pai disse que eu era um lobo cachorro.

‒ O senhor se enganou ‒ disse o outro assustado. ‒ O meu pai faleceu já no ano passado.

‒ Então foi tua mãe ‒ disse o lobo gritando, e o cordeiro falou quase desculpando:

‒ Eu garanto. Mamãe? É impossível, coitada. Teve enfarte e morreu quando foi tosquiada.

Respondeu o tal lobo sem titubear:

‒ Bom, não interessa! Só sei que vou te jantar!

Pegou o cordeirinho nervoso e aflito, preparou pro jantar e comeu ele frito.

Moral:

Mesmo nas mais agitadas megalópoles, onde às vezes falta água, 
o lobo come o cordeirinho.


domingo, 28 de agosto de 2016

Sítio do Pica-Pau Amarelo


Como era o Sítio do Pica-Pau Amarelo?

Por Nina Rahe



 Ilustras Japs

1) A curiosidade matou a sardinha:

→ Na cozinha, Tia Nastácia preparava várias delícias. Quando os integrantes do Reino das Águas apareceram no sítio, a cozinheira ganhou uma companheira muito enxerida. A Senhorita Sardinha se metia em tudo: provou sal, açúcar e até trepou no fogão para espiar a frigideira de gordura. Pulou dentro dela achando que fosse uma lagoa e acabou frita.

2) Esse gato é um gatuno:

→ Antes de dormir, a família se reunia na sala de jantar, a Tia Nastácia acendia o lampião e alguém contava uma história. Em Reinações de Narizinho, um falso “cinquentaneto” do Gato Félix inventou que tinha nascido na Europa, vindo para a América no navio de Colombo e se naturalizado norte-americano. Demorou, mas Visconde de Sabugosa descobriu as mentiras.

3) Ô de casa!

→ A sala de visitas já recebeu muitos “famosos”. Entre eles, Cinderela, Chapeuzinho Vermelho e Branca de Neve, convocadas para uma festa da Narizinho. Esta última acabou se aborrecendo quando descobriu que um monstro também tinha sido convidado. Quando ele esmurrou a porta, todos se amontoaram para espiar pela janela. Ainda bem que ele não conseguiu entrar!

4) Pegadinha da malandra:

→ Difícil alguém passar pelo sítio e não encontrar Dona Benta sentada na varanda com sua cesta de costura. Mas, em Reinações de Narizinho, a garota levou um susto: encontrou a vovó transformada numa tartaruga. Era uma vingança da Dona Carocha, especialista em histórias, porque a menina havia ajudado a esconder o Pequeno Polegar.

5) Que delícia de Hamlet!

→ A biblioteca foi reformada por Emília quando os outros moradores do sítio viajaram para a Europa, em A Reforma da Natureza. Ela trocou o papel dos livros por trigo e o porco Rabicó acabou devorando as obras completas de Shakespeare. A boneca também cometeu outras ousadias, como colocar as jabuticabas do pomar no pé de abóbora.

6) Decoração literária:

→ A casinha do Visconde de Sabugosa era formada por dois grossos volumes do Dicionário de Morais, na biblioteca. A mesa era um livro chamado O Banquete e a cama era um exemplar da Enciclopédia do Riso e da Galhofa. Mas, depois que Visconde caiu atrás da estante, também em Reinações, passou a dormir numa latinha.

7) Jantar na cama:

→ Narizinho e Emília passaram a dividir um quarto depois que a boneca aprendeu a falar. Elas conversavam até tarde, aguardando que o sono viesse. Certa noite, foram despertadas por uma formiga ruiva batendo à porta. Ela trazia na cabeça uma salva de prata, coberta com guardanapo de papel. Emília espichou os braços para receber o presente: croquetes tostadinhos!



Imaginação sem limites

Para Monteiro Lobato, os arredores do sítio podiam levar a todo tipo de aventura:

1) Prenda a respiração

→ Com águas limpas e pedrinhas roliças de todas as cores, o ribeirão fazia divisa com o pomar e as terras de plantação. Em certos pontos, formavam-se pequenas praias de areia branca. Todos os domingos, Tia Nastácia se metia na água até a cintura para pegar peixes na peneira. O local também era a porta de entrada para o Reino das Águas, comandado pelo Príncipe Escamado.

2) Cada macaco no seu galho:

→ No pomar, cada árvore possuía um dono. A pitangueira era da Emília, as três jabuticabeiras, do Pedrinho, a mangueira de manga-espada, da Narizinho, os pés de mamão, da Tia Nastácia, e até o Visconde tinha um pezinho de romã. Debaixo das folhagens, onde não era permitido estilingue nem bodoque para a passarinhada se sentir à vontade, Narizinho e Pedrinho planejavam grandes aventuras.

3) Sabedoria popular:

→ No fim do pasto, perto da ponte, Tio Barnabé vivia em um rancho coberto de sapé. Negro sabido, com mais de 80 anos, ele entende de mula sem cabeça, lobisomem e de todas as feitiçarias. Foi quem incentivou Pedrinho a capturar um saci, pois aquele que colocasse o diabinho de uma perna dentro de uma garrafa de vidro o teria como escravo para o resto da vida.

4) O jardim de Pedrinho:

→ Todas as férias, Pedrinho enchia a varanda de flores. Houve um verão em que ele preencheu o espaço com pés de “cortina japonesa”, uma trepadeira com fios avermelhados da grossura de um barbante que, quando cresciam, desciam até o chão. O menino também pendurava muitas orquídeas e vasos de avenca miúda, de modo que o lugar estava quase virando um jardim.

5) Um antiquário de plantas:

→ Segundo o livro O Saci, o jardim de Dona Benta era repleto de flores do tempo de sua mocidade, só plantas antigas e fora de moda: esporinhas, damas-entre-verdes, suspiros, orelhas-de-macaco, dois pés de jasmim-do-cabo e outro de jasmim-manga. Narizinho implicava com o cravo-de-defunto, pois achava que tinha cheiro de cemitério.

6) Festa junina:

→ Todos os anos, na véspera do dia de São João, Pedrinho fincava um mastro do santo no terreiro. Ele mesmo cortava o pau no mato, o descascava e pintava com arabescos vermelhos, amarelos e azuis. No topo, colocava a bandeira, na qual pregava com tachinhas um retrato de São João.

7) Nana, nenê, que ela vem te pegar:

→ Numa montanha de pedras nuas e escuras, com arvoredo retorcido brotando das brechas, uma abertura negra indicava a entrada para a caverna onde morava Cuca. Com cara de jacaré e garras nos dedos, a “rainha das coisas feias” era velha como o tempo, devia ter mais de três mil anos de idade, e só dormia uma noite a cada sete anos. Já chegou a sequestrar Narizinho e transformar a menina em uma pedra.

8) Vaca 2.0:

Em A Reforma da Natureza, Emília redefiniu as feições da vaca do sítio. No pasto, Mocha circulava de chifres compridos com bolas de borracha nas pontas e pelo furta-cor. A cauda, no meio das costas, permitia à Mocha espantar as moscas do corpo inteiro; as tetas, metade à esquerda e metade à direita, possibilitavam amamentar e tirar leite ao mesmo tempo.

Uma família estranha, mas feliz.

Na turma, tem até porco casado com boneca de pano.


Dona Benta

→ Com mais de 60 anos, é a mais feliz das vovós. Todos que passam pela estrada próxima ao sítio conseguem vê-la na varanda com uma cestinha de costura e óculos de ouro na ponta do nariz.


Tia Nastácia

→ Cozinheira de mão-cheia, foi quem ajudou Dona Benta a criar Narizinho. Negra de beiços grandes, faz os melhores quitutes e, sem ela, a vida no sítio não teria sabor. É muito medrosa.


Narizinho

→ Neta de Dona Benta, é morena como jambo, gosta muito de pipoca e já sabe fazer bolinhos de polvilho. Está sempre acompanhada de sua boneca Emília e, todas as tardes, vai ao ribeirão dar farelo de pão aos lambaris.


Pedrinho

→ Filho de Antonica e neto de Dona Benta, o menino passa todas as férias no sítio. Vive de lá pra cá com um estilingue nas mãos. Metido a valente, inventou até mesmo de caçar uma onça. 


Emília

→ Boneca de pano desajeitada, com olhos de retrós pretos e sobrancelhas altas, que Tia Nastácia fez para Narizinho. Ela passou a se comunicar depois de tomar uma pílula falante. É espevitada, mandona e interesseira.


Visconde de Sabugosa

→ Na tentativa de convencer Emília de que Rabicó era príncipe, Narizinho e Pedrinho usaram um sabugo de milho para inventar esse personagem, um “rei” que se finge de visconde. Muito inteligente, ele é “pai” de Rabicó.


Marquês de Rabicó

→ Os seis irmãos desse porquinho foram para o forno da Tia Nastácia. Mas ele se deu melhor. Virou marido de Emília depois que Narizinho a convenceu de que ele era um príncipe amaldiçoado por uma fada má

Correio elegante

Personagens tinham vários jeitos de se comunicar à distância.

Carta: Pedrinho enviou uma à avó para que um cavalo o esperasse na estação quando ele chegasse de viagem.

Marimbondo: Foi o mensageiro que trouxe um convite para a turma conhecer o palácio do Reino das Abelhas.

Borboletograma: Para responder à gentileza das abelhas, Narizinho enviou sua própria emissária, escrevendo nas asas de uma borboleta.

Libélula: Serviu de leva e traz para Rabicó, que queria pedir perdão a Narizinho por ter sido covarde em uma situação de perigo.

Peixes escoteiros: Despachados pelo Reino das Águas, traziam uma concha de madrepérola com o pedido de casamento do Príncipe Escamado a Narizinho.


Beija-flor: Convidou a Cinderela, a Branca de Neve e o Pequeno Polegar e outros personagens para a festa na casa de Narizinho.




Livro: O Sítio do Pica-Pau Amarelo
Autor: Monteiro Lobato (1882-1948)
Volumes: 23
Lançamento: 1920-1947
Gênero: Infantil / fantasia

(Do Blog: Mundo Estranho)


Jogo de víspora em família

Paulo Ney


Em Grussahy na temporada de praia do verão os dias são de sol e com raras nuvens e, pode-se contar nos dedos de uma das mãos a incidência de chuva no período.

Cai a noite levando o calor da manhã ensolarada passada na orla da praia e a causticante tarde devido ao sol inclemente. Ao anoitecer o vento nordeste despencava a temperatura e os agasalhos saíam dos armários.

A meninada durante o dia se esfalfava em brincadeiras desde o raiar do sol. Pelas manhãs, no varandão da nossa casa de praia correndo ao redor, balançando nas redes disputando quem atingia as telhas com os pés, perseguindo cabritos pelos arredores, apostando corridas para ver quem primeiro chegava ao mar pela trilha arenosa e muito quente, mergulhando sem cessar nas águas toldadas pela influência da foz do Rio Paraíba, fazendo buracos enormes na beira da praia, pegando tatuís e nadando até os puçás colocados pelos adultos para verificar se lá estavam alguns siris.

Ao chegar do banho de mar participávamos do enchimento das caixas d’água contribuindo, segundo a capacidade de cada um, com vigorosas “bombadas” na pesada roda que acionava o êmbolo de sucção. Com os braços “moídos” íamos para o banho tirando os bolos de areia que trazíamos dentro dos calções e maiôs.

Almoço servido, a voracidade assolava a turminha que “limpava” os pratos freneticamente e, raro não pedirem um farto “bis”. Agora descansar, era a ordem imposta pelos pais.

Um cochilo de um só olho visando o recomeçar das brincadeiras e, com o outro, olhando o relógio antigo da sala esperávamos passar o tempo que nos foi imposto.

Mal dava a hora, agora mais protegidos do sol da tarde com camisas e bonés, lá íamos nós procurando nossas estrelas com as rabiolas de tiras de aniagem e os grossos rolos de barbante para soltá-las no campo. Cada um ajudava o outro segurando a estrela para empiná-la na direção do vento.

Estrelas no céu, paz na terra! Essa atividade tomava toda a tarde até o anoitecer. Novo banho para retirar o suor, limpar os pés pretos de sujeira e, quem se machucou com picos e espinhos ia sentar-se numa cadeira para que fosse aliviado dos estrepes pelos adultos com suas agulhas desinfetadas. Pegava-se também os “bichos de pé”, aqueles das boas cócegas quando se esfregava o pé no lençol ou cobertor. Só quem os teve sabe avaliar!

Jantar servido e o dia quase terminando, mas a turminha queria mais e, para encher o tempo até o sono vir se armava mesas de víspora, termo daquela época hoje mais conhecido como loto ou bingo. Parentes vinham das casas vizinhas a pé ou de camionete para poder trazer uma tia idosa que era fã do jogo.

Sob a luz dos lampiões a querosene que produziam um chiadinho característico na grande mesa da casa sentavam os adultos. A meninada se acomodava em uma mesinha baixa ou no chão. Cada um tinha seu saquinho de moedinhas destinadas ao jogo que, de tão baratinho podia-se dizer, usando um termo da época, que era a “leite de pato”!

Cartelas dispostas, milho para a marcação distribuído, apostas feitas nos seis pires, o “cantador” do jogo enfiava a mão no saco (com as pedrinhas, é claro) e desfiava os números. Os números não eram proferidos pelo numeral matemático, cada um tinha um “apelido” e raros os numerais de 01 a90 que não o tivesse. Desde “começou o jogo”, 01, até o “nas ventas”, 90.

A meninada sabia todos os “apelidos” das pedras! Mal o cantador vociferava, “tripa, fato, fissura e bofe” nós não titubeávamos, marcávamos o 34. Apreciávamos quando cantava esta pedra: “As tetas da Sinhá Justina”. Era uma risadaria só e lascávamos o caroço de milho no 66. E isso se estendia até tarde da noite. Uns saíam porque acabavam as suas moedas, estavam “expilados”, outros por que o sono era mais forte e os derrubava.

Ficávamos cabreiros com a conferência dos nossos prêmios, se o acerto saísse para a grande mesa dos adultos o “sortudo” pegava o pires rapidinho recolhia as moedas e até palmas se ouvia, se o vencedor fosse algum dos pequenos no chão havia uma burocracia danada de conferência, vinha o cantador ver a cartela e, confirmados os números, as moedas do pires eram passadas. Se houvesse erro, o caminho do quarto era indicado e suspenso por dois jogos.

Na rodada final tinha a famosa “bomba” que consistia em preencher todos os números de uma cartela. As apostas eram dobradas, alguns adultos jogavam com mais de uma cartela engrossando desta forma o valor da aposta e as moedas eram colocadas em um só pires.

Esfregávamos as mãos de contentamento ao disputá-la, pois representava muito para nós. Quem ganhasse a “fortuna” poderia comprar uns maços a mais de ingá, tomar uns picolés extras na praia e outras necessidades infantis não contempladas com as mesadas.

Mas, pinoia, toda noite era a mesma coisa. A tia idosa era de uma sorte ímpar. Não deixava para ninguém, só dava ela! A “bomba” lhe pertencia! Saíamos zangados por não ter conseguido o pote do tesouro.

Tempos mais tarde, viemos saber que na rodada final, após saírem várias pedras, quem manipulava o saco com as pedras se colocava estrategicamente atrás da nossa tia e fingindo retirar pedras ia cantando um a um os números faltantes da cartela dela.

Era uma alegria que davam a nossa tia a cada noitada de víspora lhe concedendo a felicidade de se considerar de magnífica sorte no jogo. Ela ia dormir em paz e deliciosamente feliz. Hoje concordamos com a atitude dos nossos parentes, mas na ocasião só faltávamos colocar “fogo pelas ventas”!

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Cantar as pedras de bingo

O jogo de bingo (ou víspora) que acontece nos quatros canto do Brasil, possui um fato interessante, as vezes os números que são sorteados ("cantados" na expressão popular) são ditos de forma que lembre alguma imagem ou trocadilho sonoro ou fato histórico.

1   = Ronco de porco (Onomatopeia do som suíno) ou Inicio do jogo;

5   = Cachorro (referência ao jogo do bicho);

6   = Meia dúzia;

9   = Pingo no pé 9 é ( Uma rima com o n° 9);

10 = Craque de bola (Referência ao número da camiseta de Pelé);

11 = Casa de bronze (rima com o número onze) ou Um atrás do outro (imagem gráfica do n°);

12 = Uma dúzia;

13 = Maria Cristina (esse nome tem 13 letras);

18 = Dos outros (trocadilho sonoro com o número);

20 = Peru de Natal (a imagem do n° 20 lembra um peru de ceia);

22 = Dois patinhos na lagoa (Uma das mais famosas associações com a imagem de um número);

23 = Descendente dele (Referência ao n° 24);

24 = Número feio (O número 24 esta relacionado à homossexualidade, novamente uma referência ao Jogo do Bicho em que o n° 24 é o veado);

25 = Depois dele (Referência ao n° 24);

26 = Holandês (Trocadilho sonoro);

33 = Idade de Cristo ( Cristo morreu com 33 anos);

38 = Justiça de Goiás (referência ao revólver 38 usado para resolver certos problemas...);

44 = Quá-quá-quá ou Bico Largo (Trocadilho sonoro);

51= Uma boa ideia (Referência a um jargão publicitário de uma marca de cachaça);

55 = Dois portugueses numa perna só ou dois cachorros do padre (Esse é o mais misterioso das imagens ou significados, não encontrei ainda o motivo de chamarem assim);

66 = Um tapa atrás da orelha (Trocadilho sonoro);

69 = Um pra cima e outro para baixo ou De qualquer jeito (Referência a imagem do n°);

77 = Duas machadinhas (Referência a imagem do n°);

90 = A velha (Referência a idade avançada).

Variações

1   - Fecha a boca e geme;
7   - É o machado;
8   - Biscoito;
9   - Artilheiro, centroavante;
10 - Galinho de Quintino;
22 - O mascador (referência ao revólver);
24 - Rapazinho alegre;
40 - Panelão sem fundo;
44 - Pezão.

1   - Começou o jogo;
2   - Só um patinho na lagoa;
3   - Porquinhos ou mosqueteiros;
4   - Pernas da mesa;
5   - Aperte o cinto;
6   - Pingo na cabeça;
7   - Anões da Branca de Neve;
8   - Biscoito;
9   - Pingo no pé;
10 - Camisa dele (Pelé);
11 - Um atrás do outro;
12 - Vitamina B12;
13 - Número de sorte (Zagallo);
14 - Dona Florinda;
15 - Debutante;
22 - Dois patinhos na lagoa;
24 - Rapaz alegre;
30 - São minta, saiu 30;
33 - Idade de Cristo ou o médico mandou dizer: diga 33;
40 - A idade da loba;
44 - Quará-quá-quá;
45 - Fim do primeiro tempo;
50 - É penta;
51 - Concorrente da (outra marca de pinga);
58 - Primeira copa;
60 - Para descansar;
62 - Bi-mundial ou segunda copa;
66 - Um tapa na orelha ou "sem sapato";
70 - Até conseguir;
71 - Dona Clotilde
72 - Seu Madruga
75 - Terminou o jogo. Alguns terminam em 75, não em 90

1   - Começou a partida;
2   - Dunga;
3   - Orelha do padre;
4   - A borboleta;
5   - O famoso cachorrinho;
6   - Pingo na pança, o seis que avança;
7   - Cachimbo da velha;
8   - Violão sem braço;
9   - Pingo no pé, nove que é;
10 - O barrigudo;
11 - Dois palitos;
13 - Terezinha de Jesus;
14 - Catrocha pro mato grosso.
15 - O jacarezinho;
16 - O leão ta solto;
17 - O bicho que pula;
18 - O porco palmeirense;
19 - Pavão?
20 - Amigo ouvinte nº 20;
21 - O touro;
22 - Dois patinhos na lagoa;
23 - O bem pertinho;
24 - Esse tem muitas referências;
25 - A vaca o fim do jogo do bicho;
28 - Vem torto que eu endireito;
29 - O famoso São Pedro;
30 - Trinca mais não racha;
32 - O revolvinho;
33 - Idade mais famosa dos tempos;
35 - Triste Chico;
38 - O famoso revolvão;
39 - Trinta e tudo;
40 - Raso quarenta;
43 - Cavalo;
44 - Quaraquacá;
45 - Fim da primeira etapa;
48 - O sanfonão;
49 - Quarenta e tudo;
50 - Raso 50;
51 - Que grande ideia;
55 - Parelha de mula baia;
59 - Cinquenta e tudo;
60 - Agora, meu amigo, você senta;
66 - Duas velhas;
69 - Virando cambota;
70 - O zoio da cabra;
75 - Final do jogo / terminou a partida Boa sorte bom jogo.

No Rio Grande do Sul

1   – Começou o jogo;
2   – Marrequinha;
6   – Pingo na pança, é o seis que avança;
7   – Conta de mentiroso;
10 – Burro és;
11 – Perninhas do maçarico;
13 – Número de azar;
15 – Qunzô, na porta não chegou;
20 – Diabo que te pinte;
22 – Duas marrequinhas que avançam;
33 – Idade de Cristo;
44 – Duas cadeirinhas;
55 – Parelinhas de cinco;
66 – Meia, meia;
69 – Um que vai, outro que vem;
77 – Parelha de martelinhos;
88 – Dois barrigudinhos;
90 – Vovô.

sábado, 27 de agosto de 2016

Provérbios de todos os povos



“Cada vez que um velho morre, é como se uma biblioteca inteira pegasse fogo.”

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“Todo mundo quer conhecer o Paraíso, mas ninguém quer morrer.”

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“Mesmo que você odeie as lebres, precisa reconhecer que elas correm muito rápido.”

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“Se dois cozinheiros cuidam da mesma sopa, ela terminará muito salgada – ou sem sal nenhum.”

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“Aquele que vive dizendo: eu não ligo para isso, irá terminar descobrindo a frase: ah seu eu soubesse...”

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“A vida é como andar de bicicleta, só caímos quando paramos de pedalar.”

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“A História não é feita daquilo que lembramos, mas daquilo que não queremos esquecer.”

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“Só cabrito morto não tem medo de punhal.”

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“Aqueles que não sabem por que amam, são aqueles que realmente sabem amar.”

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“Se você nunca ousou atravessar um rio, não fique rindo daqueles que se molharam tentando.”

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“Não é porque o tigre está magro que nós iremos passar a chamá-lo de gato.”

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“Quando você chutar sem querer uma pedra, a culpa não é dela, mas do seu pé que não sabe onde está pisando.”

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“No momento de nascer, recebemos um passaporte, uma passagem e um visto para visitar o País da Morte.”

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“O cachorro tem quatro patas, mas todas são obrigadas a seguir o mesmo caminho.”

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“Só entendem as bênçãos do Paraíso, aqueles que já conheceram o Inferno.”

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“O avarento guarda todo seu dinheiro para três pessoas que ele detesta: o futuro esposo da sua mulher, o seu genro e sua nora.”

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“Os jovens andam em grupos; os adultos, em dupla e os velhos andam sozinhos.”

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“Procure mudar em você aquilo que você quer mudar no mundo.”

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“Justamente quando eu descobri todas as respostas, mudaram todas as perguntas.”

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“A seta que acerta o alvo é o resultado de cem erros.”

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“De nada adianta correr se estamos na estrada errada.”

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“Tolo é aquele que naufragou seus navios duas vezes e continua culpando o mar.”

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”Diga a verdade e saia correndo!”

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Quando um homem abaixa a cabeça e diz: “Perdi a esperança.” Deus também abaixa a cabeça e diz: “Perdi um homem.”

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“Quem com lobos anda aprende a uivar.”

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“Todo besouro é uma gazela aos olhos da sua mãe.”

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“Quem faz a lei deve observá-la.”

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“Não encontre um defeito, encontre uma solução.”

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“Não comece com um programa, mas com uma ação.”

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“As pessoas que não têm vícios têm muito poucas virtudes.”

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“Escreva os insultos na areia; os elogios, no mármore.”

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“O sábio nada afirma que não possa provar.”

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“A prosperidade revela nossos vícios; a adversidade, nossas virtudes.

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“São os caminhos mais rudes que levam às alturas mais belas.”

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“O homem que sempre diz a verdade está sem medo e sem amigos.”

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“Quem promete com pressa, arrepende-se devagar.”

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“Quem muito nos festeja alguma coisa de nós deseja.”

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“A quem nada deseja nada falta.”

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“A mulher ri quando pode e chora quando quer.”

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“Falar sem pensar é o mesmo que atirar sem mirar.”

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“Você começa a morrer quando deixa de sonhar.”

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“O avarento se diz econômico e o covarde se diz prudente.”

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“O homem superior exige tudo de si mesmo; o homem inferior exige tudo dos outros.”

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“Quem não dá uma profissão a seu filho faz dele um ladrão.”


O Cortiço


Como era a vizinhança do livro “O Cortiço”?

Conheça as principais figuras do clássico de Aluísio Azevedo.

Por Nina Rahe




Ilustra Shiko

1) O amor enlouquece:

→ Jerônimo e sua mulher, Piedade, ficavam no quartinho 35. Sua força e caráter o tornaram respeitado na pedreira onde trabalhava, logo atrás do cortiço. Mas sua vida virou do avesso após ver Rita dançar. Apaixonado, passou a beber pinga, começou a gastar mais do que devia e, no fim, abandonou a esposa e a filha para ficar com a baiana.

2) Vocação para sogra:

→ A viúva Dona Isabel, da casa 15, sacrificou tudo para educar Pombinha e casá-la com João da Costa, um moço do comércio. Assim, esperava reconquistar sua antiga posição social. A mãe só deixou a menina subir ao altar após a primeira menstruação, que demorou a chegar. Mas a união foi curta: Pombinha traiu o marido, foi expulsa de casa e acabou prostituta.

3) Pintou sujeira:

→ Outra história chocante rolou no número 12, onde morava a mulata Marciana. Ela era obcecada em limpar a casa, mas enlouqueceu de vez quando sua bela filha, Florinda, de apenas 15 anos, engravidou de um funcionário da venda de João Romão. Ele não assumiu e a menina fugiu de casa depois de apanhar da mãe. Marciana acabou expulsa do cortiço.

4) O que é que a baiana tem?

→ No número 9 morava Rita Baiana. Bonita e boa de samba, ela era amante do capoeirista Firmo, mas também conquistou o coração do vizinho, o português Jerônimo. Na disputa pelo amor da mulata, Firmo feriu o lusitano com uma navalha. Mas, depois de um tempo, Jerônimo conseguiu se recuperar e matou o rival em uma emboscada.

5) Vizinhos e rivais:

→ Miranda era o antagonista de João Romão. Morava no sobrado ao lado da venda, e aos poucos foi assistindo a seu imóvel ser cercado pelo cortiço. O negociante prezava o status acima de tudo – casou-se com Dona Estela pelo dote e não sabia se era mesmo pai de sua filha, Zulmirinha. Por isso, tinha certa inveja do modo como Romão enriqueceu e de sua relação com Bertoleza.

6) A fogueira da bruxa:

→ Paula era uma cabocla velha conhecida como Bruxa. Em parte, porque era feia, grossa, com olhos desvairados e dentes ameaçadores. Mas também porque era capaz de curar problemas de pele e febres com rezas e bênçãos. Queria incendiar o cortiço e conseguiu na segunda tentativa. João Romão teve que reconstruir o espaço, que se tornou grandioso e aristocrático.

7) O dono do lugar:

→ João Romão começou seu “império” ao herdar a taverna em que trabalhou por 12 anos. Depois, num leilão, adquiriu as terras atrás de sua taverna e ergueu três casinhas. Foi o início do cortiço. Ele usou a grana de Bertoleza para “expandir o negócio” (e também era dono de uma pedreira, atrás do cortiço). Como adorava dar calote, mas sabia cobrar dívidas, enriqueceu ainda mais. Quando quis subir na vida, livrou-se de Bertoleza para tentar casar com Zulmirinha.

8) Eternamente escrava:

→ Para se libertar de seu dono, a escrava Bertoleza passou anos juntando 20 mil réis. Mas foi enganada por seu amante, João Romão: o português lhe deu uma falsa carta de alforria e usou a grana para ampliar a venda. E isso porque a coitada fazia de tudo por ele: trabalhava de manhã até tarde da noite, cuidando da loja e da casa que eles dividiam.


Romance: O Cortiço

Autor: Aluísio Azevedo


(1857-1913)

Lançamento: 1890

Gênero: Romance naturalista


(Do Blog: Mundo Estranho)