sábado, 16 de dezembro de 2017

A Guerrilha do Riso



Capa assinado pelo jornalista uruguaio Rodolfo Porley Corbo, explica a ilustração da capa, em que o sorriso de um humorista contrasta com a carranca de um militar quando o desenho é virado.

Humor de Carlos Nobre:

“Se, como afirmava Darwin, o homem descende do gorila, então não houve evolução alguma. O gorila apenas botou um uniforme.” (Última Hora, 10/7/1963)

“Ah, meus amigos, quando a gente olha o Brasil para 64, fica-se torcendo para que os bombeiros não cheguem muito atrasados.” (Última Hora, 30/12/1963 – o golpe militar foi dado três meses depois)

“Gorilas do Brasil e da Argentina festejam a derrubada do Jango. Bom, se vale a expressão dos argentinos a nosso respeito, os gorilas deles são gorilas mesmo, mas os nossos são apenas macaquitos.” (Última Hora, 27/3/1964)

“O recesso parlamentar de julho foi interrompido pelas cassações. Engraçado, eu pensei que as cassações é que davam o maior recesso ainda.” (Zero Hora, 27/71964)

“Sim, só falta agora alguns governadores telegrafarem ao Castelo Branco solidarizando-se com sua feiura.” (Zero Hora, 7/4/1965)

“Milhares e milhares de pessoas cumpriram seu alistamento eleitoral recentemente na renovação de seus títulos. Agora estão aptas finalmente a não votar.” (Zero Hora, 9/9/1965)

“A nova lei de imprensa é clara: fará com que os jornais falem dos defeitos do governo como se eles fossem defeitos maravilhosos.” (Zero Hora, 17/10/1966)

“Com a nova lei de imprensa os jornais das TVs continuarão em circuito aberto. Os jornalistas é que poderão ser fechados.” (Zero Hora, 24/10/1966)

“Já está autorizado convênio autorizando jornalistas a gozar 20% de desconto no Pronto Socorro Particular. Esse negócio veio em boa hora. Os cassetetes estão cada vez mais aperfeiçoados.” (Zero Hora, 12/11/1966)
“No Rio de Janeiro o DOPS prendeu dois estudantes. Motivo: eles estavam soltos.” (Zero Hora, 12/7/1965)

“A eleição veio em boa hora. Já não há muito deputado aí para ser cassado.” (Zero Hora, 10/10/1966)

“Padres foram presos em Volta Redonda. Que ironia, hein? Justamente em Volta Redonda os padres estão vendo o sol nascer quadrado.” (Zero Hora, 27/11/1967)

“A ONU diz que brasileiro é o povo do mundo formado com a maior mescla de raças. Não duvido: aqui temos pretos, amarelos, brancos e agora já estão começando a aparecer os roxos de tanto apanhar.” (Zero Hora, 6/2/1968)

“Estudantes agora vão fazer plebiscito. Escolherão se preferem cassetete de borracha ou de madeira.” (Zero Hora, 14/4/1968)

“A sorte de muitos estudantes presos é que os presídios não cobram entrada.” (Zero Hora, 27/5/1968)

“O Ministro da Justiça vai publicar o livro branco justamente para desmentir este negócio de torturas. Eis algo que eu acho muito prudente, pois se tratando de um país de analfabetos, imaginem se o livro fosse escrito.” (Folha da Tarde, 5/10/1970)

“Acho uma baita injustiça dizer que até agora não se descobriu muita coisa sobre os chamados esquadrões da morte… E este baita número de cadáveres descobertos todos os dias?” (Folha da Tarde, 10/7/1970)

“Sorte é Jesus Cristo não passar pela Rua da Praia, senão pode ir em cana como cabeludo subversivo.” (Folha da Tarde, 23/1/1971)

“Conselho para perfeita liberdade de expressão na democracia. 1 – Não pense. 2 – Se pensar, não fale. 3 – Se por acaso alguém descobrir seu pensamento, desminta logo. 4 – Se o pensamento aparecer publicado, pelo amor de Deus, diga que é apócrifo. 5. Se não acreditarem prepare um baita desmentido. 6 – Se mesmo assim não adiantar, refugie-se na Embaixada do Senegal.” (Folha da Tarde, 20/7/1973)

“Ao receber a notícia de que as eleições continuariam indiretas, o MDB se declara perplexo. Besteira do MDB. Onde já se viu ficar perplexo com as coisas que acontecem neste país, né? Vai ficar perplexo a vida inteira.” (Folha da Tarde, 5/5/1972)

“Leio no jornal que o resultado da eleição para as prefeitura sairá oito dias depois. Por isso é que o resultado da eleição para governador é melhor. O resultado sai uma porção de dias antes.” (Zero Hora, 2/1/1976)

“A transmissão do ballet ‘A Morte do Cisne’ foi proibida pela censura. Aliás, a censura nem sabia que o cisne tava doente.” (Zero Hora, 3/4/1976)

“Ontem saiu nesta coluna que anteontem foi o dia da liberdade de imprensa. Em seguida todo mundo me cumprimentou. Foi a maior piada que eu escrevi até hoje.” (Zero Hora, 4/4/1976)

“Leio que a greve de 200 presos políticos agora é nacional. Isto não é nada. Precisa ver a fome sem greve de milhões que não tão nem presos.” (Zero Hora, 6/5/1978)

“Dizem que o AI-5 vai cair. Então sai de baixo, porque durão como ele é, se cair na cabeça de alguém mata na hora.” (Zero Hora, 14/11/1977)

“Com tudo o que o Figueiredo anda dizendo fica difícil ser humorista neste país com a concorrência cada vez mais forte.” (Zero Hora, 17/6/1978)
“Se os democratas deste país estão loucos para que prendam os terroristas que enviam cartas e pacotes explosivos pelo correio, imaginem os carteiros.” (Zero Hora, 30/8/1980)

“No ABC paulista Lula foi em cana. Em Ouro Preto 50 estudantes também. Não tô entendendo bem esta abertura. Vai ver que sou burro mesmo.” (Zero Hora, 22/4/1980)

“Delfim diz que não é o culpado pela inflação. Claro que não. Todo mundo sabe que o culpado pela inflação sou eu.” (Zero Hora, 16/1/1981)

“Dom Urbano Algayer espera a confirmação das eleições de 1982. Padre é assim mesmo: quase sempre acredita em milagre.” (Zero Hora, 30/12/1981)

“Nunca concordei que houvesse no Brasil uma maioria silenciosa. Para mim o que houve foi uma maioria silenciada.” (Zero Hora, 16/7/1982)

“E se não tiver eleições no Brasil? Ué, nada de mais. O país volta à normalidade.” (Zero Hora, 3/8/1982)

“Quando se diz que alguns povos não estão preparados para a democracia, quer dizer que estão preparados para a ditadura?” (Zero Hora, 18/10/1982)

“Pichar um muro a favor das diretas é fácil. É só correr o risco.” (Zero Hora, 8/7/1984)

“Eleições só em 1988, mas até lá, dada a incapacidade de governar este país, já devemos ter devolvido ele aos índios.” (Zero Hora, 18/4/1984)

“No regime da baioneta calada, a imprensa também tem que calar a boca.” (Zero Hora, 24/4/1984)

“O general Ludwig votando no Clube Militar: ‘Gostei de votar, já nem lembro quando foi a última vez’. Nós também, general. Aliás, brasileiro precisaria ter uma memória de elefante para se lembrar de uma coisa dessas.” (Zero Hora, 19/5/1984)

“Junto meu desejo ao do Presidente Figueiredo. Também tô contando os dias para que este governo acabe logo.” (Zero Hora, 8/8/1984)

“A preocupação agora no Brasil é que, além da democracia, voltem a funcionar também os intestinos do Tancredo.” (Zero Hora, 27/3/1985)


O Leão


Dalton Trevisan


A menina conduz-me diante do leão, esquecido por um circo de passagem. Velho e doente, não está preso em grades de ferro. Foi solto no gramado e a tela fina de arame é escarmento ao rei dos animais. Não mais que um caco de leão: pernas reumáticas, a juba emaranhada e sem brilho. Os olhos globulosos fecham-se cansados − sobre o focinho contei nove ou dez moscas, que ele não tinha ânimo de espantar. Das grandes narinas escorriam gotas e pensei, por um momento, que fossem lágrimas.

Observei em volta: todos adultos, sem contar a menina. Apenas para nós o leão conserva o seu antigo prestígio − as crianças ao redor dos macaquinhos. Um dos presentes explica que o bicho tem as pernas entrevadas, a vida inteira na minúscula jaula. Derreado, não pode sustentar-se em pé.

Chega-se um piá e, desafiando com olhar selvagem o leão, atira-lhe um punhado de cascas de amendoim. O rei sopra pelas narinas, ainda é um leão: faz estremecer a grama a seus pés. Simula ignorar a provocação e mastiga com dificuldade, no canto da boca, um pedaço de carne. Um de nós protesta que deviam servir-lhe a carne em pedacinhos.

− Ele não tem dente?

− Tem sim, não vê? Não tem é força de morder.

Continua o moleque a jogar amendoim na cara devastada do leão. Ele nos olha e um brilho de compreensão nos faz baixar a cabeça: é conhecido o travo amargoso de derrota. Está velho, artrítico, não se aguenta das pernas, mas é um leão. De repente, sacudindo a juba, põe-se a mastigar o capim. Ora, leão come verde! Lança-lhe o guri uma pedra: acertou no olho lacrimoso e doeu.

 O leão abriu a bocarra de poucos dentes amarelos, não era um bocejo. Entre caretas de dor elevou-se aos poucos nas pernas tortas. Sem sair do lugar, ficou de pé. Escancarou penosamente os beiços moles e negros, ouviu-se a rouca buzina de fordeco antigo.

Por um instante o rugido manteve suspensos os macaquinhos e fez bater mais depressa o coração da menina. O leão trovejou seis ou setes urros. Exausto, deixou-se cair de lado e fechou os olhos para sempre.

(Do livro O vampiro de Curitiba)


O matuto mineiro



Neste mundo há muita gente finória, sagaz e manhosa; porém, não creio que ninguém leve vantagem neste ponto ao campônio dos sertões de Minas. O tabaréu mineiro, com os seus ares simplórios e ingênuos, é uma criatura capaz de engazopar até o Fígaro de Beaumarchais.

Ele, porém, é inimbrulhável, invencível em finura, e quem se meter a embahilo com ardis e ciladas, pode contar com o arrependimento.

Note-se que o matuto de Minas é homem honrado e cumpridor da sua palavra, quando trata com gente que faz o mesmo. Porém, desde que desconfie do cristão, ai meu Deus! Quebra o corpo manhosamente e põe-se em guarda, como quem diz aos seus botões: Então vosmecê está coidando que eu sou algum pateta?

O seu semblante nada demonstra; continua a sorrir com ares inocentes, pitando o seu cigarro. E a cada léria ou balela que o outro pretende impingir-lhe, o matuto responde com um gesto de hipócrita credulidade:

− Apois, hein? Ora veja vosmecê!

Quando se pensa que o roceiro está cantado, ele sai-se com uma refinada astúcia, lenta e maduramente combinada, que nos deixa de orelha em pé e queixo caído.

Lembro-me de uma partida que se deu com um caipira lá para as bandas de Paracatu.

Como todo mineiro da gema, este não era lá muito amigo dos progressos e não gostava da estrada de ferro.

Tendo-se construído uma ferrovia em sua província, o homem torceu-lhe o nariz e protestou jamais embarcar em semelhante trapizonga. E durante muitos anos continuou a viajar no seu burrico, pelas suas estradinhas, fazendo o meio dia para comer á beira d’água o seu tutu com torresmos, armando a rede em dois pés de árvores, quentando fogo e contando anedotas do tempo de quorenta e dois.

O agente de uma estação férrea procurava seduzi-lo e catequizá-lo, demonstrando-lhe em como a viagem pelo trem era mais rápida, barata e cômoda.

Porém, o matuto não se convencia.

Um dia, contudo, tem urgência de chegar a certa cidade e vê que a cavalo não o poderia fazer. Vai à estação e pergunta quanto custa o bilhete. O agente regojiza-se.

− Ora, até que afinal convenceu-se, hein?

− Não, senhor; eu quero saber quanto custa o bilhete para um burro...

− Para um burro?!

− Sim, seu compadre.

O agente consulta a tabela e diz:

− Treze mil e trezentos.

− Então, dê-me um.

Vendido o bilhete, o muar foi metido dentro do vagão próprio, e o dono também entrou, na ocasião em que o comboio se punha em movimento.

− Então − grita o agente − o senhor não salta?

− Não, senhor, eu também vou.

− Como assim? Não comprou bilhete!

O matuto meteu o pé no estribo, montou no animal e gritou muito ancho, quando o carro já saía fora da estação.

− Eu vou a cavalo!

*****

Notas biográficas

Urbano Duarte (Lençóis, BA, 31/12/1855 - Rio de Janeiro, 10/02/1902)

O major Urbano Duarte cursou a Escola Militar e foi professor da Escola de Tática. Jornalista e publicista, criticou, como Joaquim José da França Júnior, os costumes sestros e tipos da sociedade fluminense: o cronista foi um fino observador e contou o que observou com bastante naturalidade e chiste. E também, como França Júnior, foi autor dramático.

Urbano Duarte pertenceu à Academia Brasileira de Letras, cadeira França Júnior.

(Em Eugênio Werneck. Antologia brasileira; coletânea em prosa e verso de escritores nacionais.
15ª ed. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1932)



A História de uma Quadrinha



José Montaury

Como a dizer que em nossos dias a nova geração não esquece o passado, certo jovem solicitou-me explicações sobre a seguinte quadrinha, encontrada, ao acaso, num alfarrábio:

Vai o Hermes pra a Alemanha
Com o Mendes de Morais,
Saem desaforos dos Postos,
Só tu, Montaury, não sais...

Bem que contristado com esse desafio à minha idade, vou atender ao insólito pedido, se a tanto me ajudar a memória.

Decorria tranquilo e promissor o ano de 1908.

Governava Porto Alegre, como Prefeito - Intendente naquela época - o engenheiro José Montaury, exercendo o cargo desde os primórdios da República, estava indicado à nova reeleição.

Por sobre a indiferença popular, alguns órgãos da imprensa sustentavam forte campanha contra a continuidade do edil. Um deles registrando fatos diários, publicava, em todas as suas edições, uma quadra com este estribilho: “Só tu, Montaury, não sais...”

Uma noite, alguns estudantes - boêmios inocentes - foram levados ao posto, repartição da polícia municipal. Aí, o Major Lousada, homem muito baixo e gordo, com fama de bondoso, e subprefeito (também eterno), repreendeu-os, em termos de baixo calão, para, de imediato, mandá-los embora, generosamente.

Eis os “desaforos” saídos dos Postos.

A esse tempo, o Marechal Hermes da Fonseca, ministro da Guerra, convidado pelo kaiser para assistir às grandes manobras do Exército Imperial, partia para a Alemanha, acompanhado do general Luís Mendes de Morais, brilhante figura de nossas forças armadas.

Destarte, temos o motivo dos dois primeiros versos.

E fica, assim, contada a história de uma quadrinha...

Convém registrar, aos demais, que decorrido alguns meses, o doutor José Montaury saiu... reeleito, e só muitos anos depois “perdeu” o cargo, por efeito da reforma constitucional de 1923.

(Viriato Dutra – no Almanaque do Correio do Povo de 1974)

Abreviaturas de termos médicos


aids

avc

amp

cmv

cp

dm

dp

ecg

fc

hbp

hdl


im

iv

les

ldl


mapa


MMR

MIC

PA

PAM

PSA

PSAT

PSAL

RM

SN

SS

TC

US

VLDL

sÍndrome da imunodeficência adquirida

acidente vascular cerebral

ampola (injeção)

citomegavÍrus

comprimido

diabete melito

dor no peito

eletrocardiograma

frequÊncia cardÍaca

hiperplasia benigna da próstata

lipoproteína de alta densidade (colesterol bom)

injeção intramuscular

injeção na veia

lúpus eritematoso sistêmico

lipoproteína de baixa densidade (colesterol ruim)

monitorAÇÃO AMBULATOIAL DA PRESSÃO ARTERIAL

SARAMPO, CAXUMBA, RUBÉOLA

MÉTODO DE IDENTIFICAÇÃO E ANTIBIOGRAMA

PRESSÃO ARTERIAL

PRESSÃO ARTERAL MÉDIA

ANTIGÊNICO PROSTÁTICO ESPECÍFICO

PSA TOTAL

PSA LIVRE

RESSONâNCIA MAGNÉTICA

TOMAR SE NECESSÁRIO

SURDEZ SÚBITA

TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA

ULTRA-SOM

LIPOPROTEÍNAS DE MUITO BAIXA DENSIDADE (COLESTEROL)

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Magia e gentileza

Gilberto Jasper*

“É óbvio que se devem enaltecer os bons exemplos.
Mas ser solidário deveria ser o “normal”.


Obrigado”, “por favor”, “desculpe”, “por gentileza”, “com licença”. Muitos vão lembrar do apelido dado a esse conjunto de expressões. Eram as “palavrinhas mágicas”, título que pais e mães repetiam à exaustão para que os filhos fossem pessoas minimamente educadas.

Como tantos outros hábitos “dos velhos tempos”, essa é uma mania que saiu de moda. A falta de respeito às normas básicas de convivência transformou o mundo numa selva. Em qualquer ambiente deparamos com trogloditas que atropelam interlocutores, principalmente se estes ousarem ter opinião contrária.

Gentileza gera gentileza.” A filosofia criada por José Datrino – conhecido no Rio de Janeiro como Profeta Gentileza – deveria inspirar mais pessoas, ser alçada a conteúdo curricular. O que mais me incomoda é que o festival de avanços tecnológicos cada vez mais frenéticos é consoante com a falta de respeito entre seres humanos. Ser moderno é ser egoísta, egocêntrico, exibicionista, adepto da cultura do descartável.

Todos os dias, quando percorro as ruas de Porto Alegre, observo a total falta de sintonia entre as conquistas da contemporaneidade responsáveis por tantas facilidades. A incapacidade de lidar com nossos semelhantes é inversamente proporcional aos confortos que temos, como ar-condicionado, controle remoto, internet, elevador/escada rolante, celular, veículos velozes.

Chegamos ao cúmulo de que exemplos de dignidade humana se transformam – em fração de segundos – em manchete nacional através das onipresentes redes sociais. Um homem que encontra uma carteira com muito dinheiro e procura o dono para devolver a quantia vira herói. Socorrer um transeunte que passa mal na rua é ato de bravura.

É óbvio que se deve enaltecer os bons exemplos. Mas ser solidário deveria ser o “normal”, não a exceção. Como repito diariamente aos meus filhos, o mundo ideal é muito distante do mundo real. Mas é necessário manter a esperança – e trabalhar – por dias melhores. Isso começa no microcosmo de cada um. Na família, no trabalho, no condomínio, no trânsito.

As “palavrinhas mágicas” preconizadas por pais zelosos de outrora deveriam ser dogmas. Uma legião de professores, indiferentes às péssimas condições de trabalho, professa essa filosofia. Lutam de forma desigual, mesmo sem a parceria de pais dos alunos. Fazem como o beija-flor que, no pequeno bico pontiagudo, levava poucas gotas d’água para debelar o incêndio da floresta. Ridicularizado, respondeu:

– Faço o possível!

Se mais pessoas fizessem o possível para adotar gestos obsequiosos, talvez as “palavrinhas mágicas” voltassem à moda para se tornar realidade. E a gentileza iria prosperar.

*****

*Consultor de Comunicação

(Texto transcrito do Correio do Povo, dezembro de 2017)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Os Sete Pecados Capitais Globalizados



O orgulho – que é a soberba, ostentação, vanglória, presunção. A globalização do orgulho está no mau uso do poder, nas atitudes de dominação, de intolerância, de discriminação, de prepotência. É a onipotência da economia intencional, cujo rosto mais concreto é a exclusão, a miséria e a superprodução para uma minoria. Hoje o orgulho tem seu rosto mais visível nas guerras e na violência.

A avareza - que é a ganância do ter, a ambição. A globalização da avareza é o jogo do mercado, o consumismo mundial com a depredação do meio-ambiente, as manobras dos países ricos, mais a corrupção. A concentração da renda, a competição, o lucro são formas globalizadas da avareza.

A gula. Sua globalização se expressa no consumismo e no desperdício. O narcotráfico, o alcoolismo, são também expressões globalizadas da gula ao lado da miséria galopante e das novas pobrezas que surgem. As multinacionais e o mercado se encarregam de globalizar a gula, impondo necessidades desnecessárias e aguçando o desejo do consumo.

A luxúria, ou seja, a permissividade, o hedonismo, a exasperação do prazer, a Aids, a pornografia agora na internet, a pedofilia, o turismo sexual, a prostituição, agora estão globalizados, endeusados, liberados e mesmo assim a humanidade não alcançou a felicidade esperada.

A Ira. Sua globalização é a violência e agressividade, especialmente o terrorismo e as guerras. Ira hoje é “cultura da morte”, violência urbana, armas nucleares. Há no mundo uma multidão de refugiados, prófugos, órfãos, viúvas, encarcerados políticos. São 150 milhões os migrantes das guerras no mundo.

A inveja. Uma vez globalizada se manifesta na concorrência, na competição e nos lobbys, na formação de cartéis, nas empresas multinacionais, na fome de sucesso, no exibicionismo, no supérfluo, nas rivalidades, nas calúnias, difamações. Inveja é infelicidade diante da felicidade do outro, ou, felicidade pela infelicidade alheia.

A preguiça. Sua globalização está na apatia, na acomodação, na mediocridade, na facilidade. No túmulo de Gandhi estão escritos os sete pecados sociais da humanidade moderna: “política sem princípios; riqueza sem trabalho; prazer sem consciência; conhecimento sem caráter; economia sem ética, ciência sem humanidade; religião sem sacrifício”.

A superação dos vícios capitais globalizados acontecerá pela força da educação e da evangelização, até que seja globalizada a solidariedade.
  
Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Londrina-PR.

Os Sete Pecados Sociais Mortais,

de Mahatma Gandhi (1869 – 1948):


1. Política sem princípio;

2. Riqueza sem trabalho;

3. Comércio sem moralidade;

4. Prazer sem consciência;

5. Conhecimento sem caráter;

6. Ciência sem humanidade;

7. Devoção sem sacrifício.
  
Os sete pecados sociais

1. Fazer modificação genética;

2. Poluir o meio ambiente;

3. Causar injustiça social;

4. Causar pobreza;

5. Tornar-se extremamente rico;

6. Consumo e tráfico de drogas;

7. Violar os direitos fundamentais da natureza humana.

Sete pecados da Internet

1. Negligência. “Cuide para que um bom antispam, um antivírus e um firewall (ferramenta que controla o fluxo de informações que entram e saem de cada computador pertencente à rede) estejam devidamente ativados”.

2. Indiscrição. “Nunca, contra nenhum argumento, informe suas senhas para quem quer que seja, sob pena de se arrepender amargamente depois que invadirem seus arquivos mais estratégicos ou sua conta bancária. O mesmo cuidado vale para os dados pessoais, como RG e CPF”.

3. Ociosidade. “Nada de ficar zanzando de um site para outro sem ter certeza de que se trata de ambiente seguro. Abrir spams, fotos e vídeos anexados à mensagem de e-mail também pode levar à completa destruição dos dados por conta de vírus”.
4. Oportunismo. “Lances de sorte, crédito fácil... Nunca participe de sorteios ou acesse link de ofertas tentadoras, já que na quase totalidade das vezes se trata de armadilhas para roubar dados e identidades. Certifique-se de que seus colaboradores adotem o mesmo comportamento”.

5. Curiosidade. “Quando a curiosidade não está ladeada pelo bom senso, algumas pessoas cedem à tentação de abrir mensagens que trazem cenas inéditas de filmes, reportagens, fotos de acidentes etc. Por trás de todo esse ‘serviço de informação’, há uma quadrilha pronta para explorar as fraquezas dos outros e carregar programas de invasão que se instalam de forma sorrateira no computador para depois roubar senhas e dados confidenciais”.

6. Infantilidade. “Neste sentido, o termo infantil se refere àquela pessoa desatenta que não presta atenção aos e-mails que recebe, que não desconfia quando o e-mail de um ‘suposto’ conhecido começa a enviar seguidamente fototorpedos, cartões ou charges. Há mecanismos que se apropriam da sua lista de endereços para enviar vírus aos seus conhecidos. Cuidado”.

7. Desperdício. “Por melhor que esteja a saúde financeira de uma empresa, ninguém deve desperdiçar dinheiro. Por isso, é importante sempre seguir regras e orientações do próprio banco nas movimentações on line. Como é do interesse de todos, os bancos costumam deixar lembretes e advertências na página de abertura dos sites para que seus correntistas se previnam contra os mais recentes golpes”.

Fonte: Adriano Filadoro é consultor de TI e diretor de tecnologia da On Line Brasil (www.onlinebrasil.com.br)

Os sete pecados das empresas de gestão de recursos

1. Fazer previsões (Orgulho): estudos mostram que a grande maioria das pessoas (economistas e gestores de fundos incluídos) não consegue fazer previsões corretas, seja sobre o preço de ações, lucro das empresas ou qualquer outra variável econômica. Mas o orgulho leva quase todo gestor a crer que é melhor do que seus concorrentes e que as suas previsões serão acertadas. Dizia Lao Tzu, poeta do século VI A.C.: “Aqueles que têm conhecimento não fazem previsões. Aqueles que fazem previsões não têm conhecimento”.

2. A ilusão do conhecimento (Gula): para bater o mercado, os gestores de fundos têm a tendência de acreditar que quanto mais informação melhor. Porém, a literatura de psicologia mostra que existem limites cognitivos em nossa capacidade de processar informação e que, além de níveis realmente baixos de informação, a decisão que tomamos tende a ser a mesma, independentemente da quantidade adicional de informação. Ou seja, o importante é o uso que se dá à informação.

3. Encontros com empresas (Luxúria): os gestores dão uma importância significativa às visitas às empresas e aos encontros com a diretoria. Existem 5 barreiras psicológicas que pesam contra esse hábito: (I) mais informação não é necessariamente melhor; (II) os diretores das empresas possuem as mesmas ilusões cognitivas que nós e cometem erros significativos ao projetar o futuro de suas empresas; (III) nossa tendência é usar essas reuniões somente para confirmar o que já acreditamos; (IV) temos uma tendência inata a obedecer a figuras de autoridade, ou seja, é difícil discordar de suas opiniões e (V) as pessoas têm uma grande dificuldade em diferenciar quem está falando a verdade.

4. Acreditar que você pode ser mais esperto que todos (Inveja): no mercado financeiro, todos não podem estar certos, afinal é preciso dois lados para uma negociação acontecer. Porém, como já vimos, a grande maioria se acha melhor do que a média. Montier fez um experimento à semelhança do “beauty contest” proposto pelo economista inglês Keynes, no qual o objetivo era acertar qual seria o número médio (entre 1 e 100) escolhido por todos os participantes do jogo. Na prática, Keynes considerava isso parecido com o mercado financeiro, no qual cada investidor tenta antecipar o que os demais vão fazer. Nesse experimento, apenas 3 de 1000 participantes acertaram.

5. Horizonte de investimento muito curto e excesso de operações (Avareza): o fato dos ativos financeiros serem negociados todos os dias não quer dizer que os gestores devam fazer o mesmo. Por exemplo, no caso das ações negociadas na bolsa de Nova York, um estudo mostra que, nas décadas de 50 e 60, os investidores mantinham suas posições em ações por 7 anos, na média. Esse número caiu abaixo de 1 ano recentemente. Em um horizonte tão curto é difícil argumentar que a ação vai sempre refletir os fundamentos de longo prazo da empresa.

6. Acreditar em tudo que lê (Preguiça): todos nos gostamos de uma boa história. O objetivo dos corretores é contar a melhor história possível para convencer seus clientes a comprar aquela “ação do momento” ou o último IPO. Você deve pensar que só pessoas físicas são iludidas por uma história bem contada, mas, na realidade, os gestores de fundos também são grandes vítimas. Até as histórias mais ridículas são suficientes.

7. Decisões em grupo (Ira): existe uma crença de que grupos tomam decisões melhores do que indivíduos. No mundo ideal, o grupo se encontra, troca ideias e chega a conclusões sensatas. A premissa é de que os membros do grupo são capazes de contrabalancear os preconceitos de cada um. Infelizmente, os psicólogos sociais passaram os últimos 30 anos mostrando que as decisões em grupo estão entre as piores. Ao invés de contrabalancear os preconceitos, os grupos tendem a ampliá-los, ao reduzir a diversidade de opiniões e aumentar a confiança dos membros, mesmo na ausência de melhora na qualidade das decisões.

André Delben Silva é responsável pela gestão na Advisor Asset Management.

7 Virtudes Opostas

Orgulho ou soberba    Þ Humildade

Avareza                      Þ Generosidade

Inveja                         Þ Caridade

Ira                               Þ Mansidão

Luxúria                       Þ Castidade

Gula                            Þ Temperança

Preguiça                      Þ Diligência

Sete pecados capitais que matam o erotismo:



1. Ser amigo demais e esquecer de seduzir.

2. Deixar a iniciativa sempre para o outro.

3. Ser criativo só no trabalho ou com os filhos.

4. Exagerar na dose da fantasia sexual.

5. Relaxar com o cuidado com a aparência, mesmo em casa.

6. Abusar da intimidade e esquecer da privacidade.

7. Abandonar o romantismo e a paquera mútua.



Fulanos & seus Beltranos



Fulano de tal e o nome genérico que se dá a alguém incerto e não sabido. Fulanos somos todos nós, ou cada um de nós. A palavra original é hebraica: fuluni e significa “um, dentre muitos”. O primeiro dos fulanos aparece já no Velho Testamento: “Fulano, vem assentar-te aqui” (Livro de Ruth, 4:1). Os árabes modificaram a grafia para Fulan, os espanhóis adotaram o Fulán no século XVI. E foi daí que veio o português Fulano. Mas cada país do mundo tem seus próprios fulanos, com nome e sobrenome. O nosso Zé Ninguém, ou Zé Povinho, ou Zé da Silva. Aqui estão os seus ilustres colegas.

África do Sul → Piet Pompies

Alemanha Hans → Mustermann

América Latina → Juan Perez

Austrália → Fred Nerk

Áustria → Hans Maier

Bósnia → Marko Markovic

Brasil → Zé da Silva

Bulgária → Ivan Ivanov

Canadá → John Jones

Chile → Perico de Los Palotes

Croácia → Pero Peric

Estônia → Jaan Taam

Estados Unidos → John Doe

Finlândia → Matti Meikalainem

França → Jean Dupont

Hungria → Pista Jóska

Índia → Aira Gaira

Islândia → Jon Jonsson

Inglaterra → Joe Bloggs

Itália → Pinco Pallino

Japão → Taro Yamada

Lituânia → Vardenis Pavardenis

Noruega → Ola Nordmann

Polônia → Jan Kowalski

Romênia → Ion Popescu

Suíça → Herr Schweizer


Caricaturas Juca Pato de J. Carlos






O Ébrio



Vicente Celestino no filme O Ébrio

Recitativo:

(Falado)

Nasci artista. Fui cantor. Ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo, até chegar aos píncaros da glória. Durante a minha trajetória artística tive vários amores. Todas elas juravam-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor. Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor. Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legítima esposa. Um dia, quando eu cantava A Força do Destino, ela fugiu com outro, deixando-me uma carta, e na carta um adeus. Não pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de seu eu: a minha filha. Uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar. Voltei novamente a cantar, mas só por amor à minha filha. Eduquei-a, fez-se moça, bonita... E uma noite, quando eu cantava ainda mais uma vez A Força do Destino, Deus levou a minha filha para nunca mais voltar. Daí pra cá eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa. Até que acabei por levar uma vaia cantando em pleno picadeiro de um circo. Nunca mais fui nada. Nada, não! Hoje, porque bebo a fim de esquecer a minha desventura, chamam-me ébrio. Ébrio...

 O ébrio
  
Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer
Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou.
Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer,
Não tenho lar e nem parentes, tudo terminou.
Só nas tabernas é que encontro meu abrigo,
cada colega de infortúnio é um grande amigo,
Que embora tenham como eu seus sofrimentos
Me aconselham e aliviam meus tormentos.
Já fui feliz e recebido com nobreza até,
Nadava em ouro e tinha alcova de cetim,
E a cada passo um grande amigo que depunha fé
E nos parentes... confiava, sim!
E hoje ao ver-me na miséria tudo vejo então,
O falso lar que amava e que a chorar deixei,
Cada parente, cada amigo, era um ladrão,
Me abandonaram e roubaram o que amei.
Falsos amigos, eu vos peço, imploro a chorar,
Quando eu morrer, à minha campa nenhuma inscrição,
Deixai que os vermes pouco a pouco venham terminar
Este ébrio triste e este triste coração.
Quero somente que na campa em que eu repousar,
Os ébrios loucos como eu venham depositar
Os seus segredos ao meu derradeiro abrigo
E suas lágrimas de dor ao peito amigo.


O problema inédito

Malba Tahan


Ao amanhecer, saímos da casa de No-Êlin e fomos para o mercado comprar algo para comer. Beremiz ao andar pela cidade, foi conquistando olhares de pessoas que ficavam encantadas com suas habilidades matemáticas e, com isso, conseguira arrecadar algumas medalhas de ouro. Ao passarmos numa viela, um mercador interpelou Beremiz, dizendo que lhe recompensaria bem caso resolvesse um mistério que há dois anos torturava o seu espírito, o que de imediato Beremiz aceitou o desafio em troca da recompensa e, pediu ao mercador que narrasse o fato. Disse então o senhor:

- Emprestei, certa vez, a quantia de 100 dinares, sendo 50 a um xeique de Medina e outros 50 a um judeu do Cairo. O medinense pagou a dívida em quatro parcelas, do seguinte modo: 20, 15, 10 e 5, da seguinte maneira:

Pagou 20 ficou devendo 30
Pagou 15 ficou devendo 15
Pagou 10 ficou devendo 5
Pagou 5 ficou devendo 0
Soma 50 = Soma 50

Repare, meu amigo, que tanto a soma das quantias pagas, como a dos saldos devedores, são iguais a 50.

O judeu cairota pagou, igualmente, os 50 dinares em quatro prestações, do seguinte modo:

Pagou 20 ficou devendo 30
Pagou 18 ficou devendo 12
Pagou 3 ficou devendo 9
Pagou 9 ficou devendo 0
Soma 50 Soma 51

Convém observar, agora, que a primeira soma é 50 (como no caso anterior), ao passo que a outra dá um total de 51.

Não sei explicar essa diferença de 1 que se observa na segunda forma de pagamento. Bem sei que não fui prejudicado (pois recebi o total da dívida), mas como justificar o fato de ser a segunda soma igual a 51 e não 50?

− Meu amigo − esclareceu Beremiz − isso se explica com poucas palavras. Nas contas de pagamento, os saldos devedores não têm relação alguma com o total da dívida. Admitamos que uma dívida de 50 fosse paga em três prestações: a primeira de 10, a segunda de 5 e a terceira de 35. Eis a conta, com os saldos:

Pagou 10 ficou devendo 40
Pagou 5 ficou devendo 35
Pagou 35 ficou devendo 0
Soma 50 Soma 75

Nesse exemplo, a primeira soma é ainda 50, ao passo que a soma dos saldos é, como se vê, 75; podia ser 80, 90, 100, 260, 800 ou um número qualquer. Só por acaso dará exatamente 50 (como no caso do xeique) ou 51 (como no caso do judeu).

O mercador alegrou-se por ter entendido a explicação dada por Beremiz e cumpriu o prometido, oferecendo ao calculista uma quantidade de medalhas de ouro equivalente ao preço que ele, mercador, havia oferecido para que Beremiz resolvesse o problema.

Com a quantidade de medalhas de ouro que Beremiz havia arrecadado, fomos para o deserto a fim de comprarmos alguns camelos, para tentar revender no mercado.

Chegando lá, ele parou dois comerciantes. O primeiro disse que venderia 10 camelos por 120 medalhas, com um desconto de 10%. O segundo comerciante, disse que venderia 10 camelos por 160 medalhas, com um desconto de 30%. Qual das duas propostas era a mais vantajosa para Beremiz?

Logo falei, a segunda me parece mais vantajosa, mas Beremiz preferiu fazer seus cálculos:

10% de 120 = 12
120 − 12 = 108 (primeiro comerciante)

30% de 160 = 48
160 − 48 = 112 (segundo comerciante)

Portanto, a primeira proposta era mais vantajosa.

O dia da libertação



Em 27 de janeiro de 1945, os soviéticos libertaram Auschwitz, o maior e mais terrível campo de extermínio do regime de Hitler. Em suas câmaras de gás e crematórios, foram mortas pelo menos um milhão de pessoas. No auge do Holocausto, em 1944, eram assassinadas seis mil pessoas por dia. Auschwitz tornou-se sinônimo do genocídio contra os judeus, ciganos (manuche e rom) e outros tantos grupos perseguidos pelos nazistas.

As tropas soviéticas chegaram a Auschwitz, hoje Polônia, na tarde de 27 de janeiro de 1945, um sábado. A forte resistência dos soldados alemães causou um saldo de 231 mortos entre os soviéticos. Oito mil prisioneiros foram libertados, a maioria em situação deplorável devido ao martírio que enfrentaram.

“Na chegada ao campo de concentração, um médico e um comandante questionavam a idade e o estado de saúde dos prisioneiros que chegavam”, contou Anita Lasker, uma das sobreviventes. Depois disso, as pessoas eram encaminhadas para a esquerda ou para a direita, ou seja, para os aposentos ou direto para o crematório. Quem alegasse qualquer problema estava, na realidade, assinando sua sentença de morte.


 Câmaras de gás e crematórios

Bildunterschrift: Großansicht des Bildes mit der Bildunterschrift: Prisioneiros no campo de concentração de Buchenwald, no Leste da Alemanha. Auschwitz-Birkenau foi criado em 1940, a cerca de 60 quilômetros da cidade polonesa Cracóvia. Concebido inicialmente como centro para prisioneiros políticos, o complexo foi ampliado em 1941. Um ano mais tarde, a SS (Schutzstaffel) instituiu as câmaras de gás com o altamente tóxico Zyklon B. Usada em princípio para combater ratos e desinfetar navios, quando em contato com o ar a substância desenvolve gases que matam em questão de minutos. Os corpos eram incinerados em enormes crematórios.

Um dos médicos que decidiam quem iria para a câmara de gás era Josef Mengele. Segundo Lasker, ele se ocupava com pesquisas: “Levavam mulheres para o Bloco 10 em Auschwitz. Lá, elas eram esterilizadas, isto é, se faziam com elas experiências como se costuma fazer com porquinhos da Índia. Além disso, faziam experiências com gêmeos: quase lhes arrancavam a língua, abriam o nariz, coisas deste tipo...”


 Trabalhar até cair

Os que sobrevivessem eram obrigados a trabalhos forçados. A empresa IG Farben, por exemplo, abriu um centro de produção em Auschwitz-Monowitz. Em sua volta, instalaram-se outras firmas, como a Krupp. Ali, expectativa de vida dos trabalhadores era de três meses, explica a sobrevivente.

 “A cada semana era feita uma triagem”, relata a sobrevivente Charlotte Grunow. “As pessoas tinham de ficar paradas durante várias horas diante de seus blocos. Aí chegava Mengele, o médico da SS. Com um simples gesto, ele determinava o fim de uma vida com que não simpatizasse.”

 Marcha da morte

Bildunterschrift: Grupo de crianças presas em AuschwitzPara apagar os vestígios do Holocausto antes da chegada do Exército Vermelho, a SS implodiu as câmaras de gás em 1944 e evacuou a maioria dos prisioneiros. Charlotte Grunow e Anita Lasker foram levadas para o campo de concentração de Bergen-Belsen, onde os britânicos as libertaram em abril de 1945. Outros 65 mil que haviam ficado em Auschwitz já podiam ouvir os tiros dos soldados soviéticos quando, a 18 de janeiro, receberam da SS a ordem para a retirada.

“Fomos literalmente escorraçados”, lembra Pavel Kohn, de Praga. “Sob os olhos da SS e dos soldados alemães, tivemos de deixar o campo de concentração para marchar dia e noite numa direção desconhecida. Quem não estivesse em condições de continuar caminhando, era executado a tiros”, conta. Milhares de corpos ficaram ao longo da rota da morte. Para eles, a libertação chegou muito tarde.

Birgit Görtz


Auschwitz


“Pela primeira vez, então, nos damos conta de que a nossa linguagem não tem palavras para expressar essa ofensa, essa aniquilação do ser humano”.

Primo Levi


Auschwitz-Birkenau é o nome de um grupo de campos de concentração localizados no sul da Polônia, símbolos do Holocausto perpretado pelo nazismo. A partir de 1940 o governo alemão comandado por Adolf Hitler construiu vários campos de concentração e um campo de extermínio nesta área, então na Polônia ocupada. Houve três campos principais e trinta e nove campos auxiliares.

Os campos localizavam-se no território dos municípios de Auschwitz e Birkenau, versões em língua alemã para os nomes polacos de Oświęcim e Brzezinka, respectivamente. Esta área dista cerca de sessenta quilômetros da cidade de Cracóvia, capital da região da Pequena Polônia.


O músico de Auschwitz

Affonso Romano de Sant'Anna

Em Jerusalém,
encontrei um homem
que tocava violino em Auschwitz.
Tocava numa orquestra
acompanhando os que iam morrer
no fogo crematório.

Hoje é engenheiro,
ilumina cidades do mundo inteiro,
inclusive os muros da Cidade Santa.

Não lhe perguntei que música tocava.
No seu braço o número - 121097, de prisioneiro.
Não lhe perguntei que música tocava.
Perguntei-lhe se ainda tocava.
Sim, ele tocava.

Cantiga de Viver

H. Dobal

Sozinho na cama
um homem espera sua hora.
A inesperada hora de tantos.
A vida é uma cantiga triste
mais triste e à-toa que a das andorinhas
— Las oscuras golondrinas
tão mal vivida
tão mal ferida
tão mal cumprida.
A vida é uma cantiga alegre:
o primeiro sorriso de cada filho
e todos os microamores
que inutilizam
a vitória da morte.