segunda-feira, 28 de julho de 2014

Nas ruas de Porto Alegre

Mário Ramos

Porto Alegre, tuas ruas têm infinitas histórias
E, em todas tuas rotas, vejo o poeta e a poesia;
O escrito e o escrevente, descrito nesta memória
Como o revoar das pombas, das torres da Reitoria...

Quem me dera se eu fosse um filho do Veríssimo,
Ou um neto do Quintana, bem que eu poderia ser,
Para dar-te, Porto Alegre, um verso muito ilustríssimo
E neles ilustrados as tuas ruas, em teu lindo amanhecer...

Eu bem que poderia ser mais um ipê da Redenção
E, num domingo de Bric, desfolhar-me na Bonifácio
Anunciando o outono, no final de mais um verão,
Enfeitando de flores as linhas deste meu prefácio...

E de lá iria com o vento, ou, quem sabe, ele eu seria
E assim eu correria pelo Guaíba, do Gasômetro a Ipanema
E assim atravessaria os morros da Glória até a Serraria
E, em Porto Alegre eu me esparramaria, como um simples poema...

E minhas palavras chegariam até o Moinhos de Vento
E passeariam pela Goethe até findar-se na Mariante
E esboçariam, em palavras, este meu grande sentimento
Depositadas em rimas, como uma flor lapidada em diamante...

Porto Alegre, quem me dera se tuas ruas falassem
E no adentrar da noite, suas histórias pudesse me contar.
Falar-me-ia dos passos na madrugada, como se cantassem
As Pegadas de Bebeto Alves, nas ondas sonoras soltas no ar...

Há em mim um pouco do Menino Deus, andando pela Getúlio,
Há, também, um pouco do Punk, desfilando pela Osvaldo,
Há todo aquele frio do vento na Andradas nas manhãs de julho
E o caminho da Farrapos, do centro até o São Geraldo...

Porto Alegre, lá me vou pela Borges seguindo ao Beira-Rio
Ou, quem sabe, pela Azenha até o Olímpico Monumental.
O vermelho e o azul equilibrando-se ao teu meio-fio
Em nestas tuas sendas, a história de um outro Gre-Nal...

Nas tuas esquinas, meninos vendem o Correio e a Zero Hora,
Trazem as notícias do que foi ontem, mas não preveem o futuro.
Ah, Porto Alegre, os meus passos eu firmo em ti agora
E observo na Mauá, o detalhe de um artista pintado no muro...

Ah, Porto Alegre, em tuas ruas um povo que luta e protesta:
Os caras pintadas, colonos sem terra, professores e suas sinetas...
Também há comemoração, trilegal tuas ruas sempre abertas
Magia simples, casas antigas, venezianas nas venetas...

Porto Alegre, quem me dera morrer, e, assim, virar poeira
Esparramando-me pelas solas dos sapatos, nas noites sem lua.
Assim estaria nos seus caminhos planos, até em suas ladeiras
E me eternizaria, feliz, nos ladrilhos de tuas ruas...



Uma história verdadeira que parece mentira



O sujeito era caixeiro-viajante, viajava a cavalo, tinha a companhia de uma mula onde levava as tralhas a serem vendidas e tinha negócios em todo o Rio Grande. Ficava sempre um ou dois dias em cada cidade. Mas tinha um vício: era chegado em mulher. Em cada cidade em que se hospedava, tinha uma namorada.

Certa vez, em Bossoroca*, em noite de folga, ele foi a um CTG* para dançar e, se possível, conseguir uma namorada. Já noite alta, sob os efeitos de goles de canha*, se amarrou numa pinguancha* e se tocou pruns matos no fundo do galpão de danças.

Chegando lá, depois de beijos e amassos, resolveram partir para os finalmentes. Vestido segurado no peito e bombacha arriada, já perto do bem-bom começar, ele percebeu que não tinha preservativo na guaiaca*, e resolveu improvisar. Pegou um lenço, enrolou no seu trabuco* sexual e foi com tudo...

Depois de certo tempo, cinco anos para ser mais exato, ele volta a Bossoroca e resolve encontrar novamente a moça de uma só noite de amor. Deixa as malas no hotel e se toca pra casa da mulher. Chegando lá, um menino de uns cinco anos corre em direção dele, gritando “Papai! Papai!”.

O cara, atônito, pergunta ao garoto:

- Como é o teu nome, meu filho?

- O meu nome é Fernando, mas na família todos me chamam de “coadinho”.


*****

* Bossoroca: Município da região Noroeste do Rio Grande do Sul.

* CTG: Centro de Tradições Gaúchas, lugar onde se cultuam as tradições do Rio Grande do Sul.

* Canha: o mesmo que cachaça, cana.

* Pinguancha: Caboclinha de vida fácil, china, chinoca. Variação: pinquancha e piguancha.

* Guaiaca: Cinto largo de couro ou camurça, provido de bolsinhos para guardar dinheiro ou objetos miúdos.

* Trabuco: Revólver.

Consultas: “Dicionário Gaúcho” de Alberto Juvenal de Oliveira


Nada mais bonito que um casal admirando-se



(Para as mulheres, o que gostaríamos de ouvir)

Não vejo o amor sem a admiração.
Admirar é desejar ser igual estando junto.
Admirar-se. Admirar a gentileza do homem jurando por Deus.
Admirar sua lealdade com os amigos.
Admirar seu jeito esforçado de assumir as contas.
Admirar seu cuidado treinado com os idosos, cedendo assentos e lugares nas frases.
Admirar os princípios herdados dos pais.
Admirar sua masculinidade em sobrecarregar no abraço.
Admirar seu riso infantil, sua ingenuidade no tropeço.
Admirar sua vivacidade em brincar.
Admirar, admirar-se.
Admirar a conversa que tem com o filho sobre quem cuida de Deus.
Admirar seu temperamento sereno em noites de chuva.
Admirar sua inquietude para sair com o sol.
Admirar sua concentração numa música nova.
Admirar inclusive quando ele amarra os sapatos, debruçado como a água nas escadas.
Admirar seu nervosismo nas provas, nos concursos, nos exames do trabalho.
Admirar sua letra com ânsias de terminar.
Admirar sua falta de jeito em dançar, compensada pela alegria de estar contigo.
Admirar seu modo de transar, sua fixação por poltronas.
Admirar quando ele interdita o dia para arrumar aparelhos quebrados.
Admirar o perfeccionismo que o impede de ser totalmente seu.
Admirar quando ele dorme no meio do filme e finge que assistia.
Admirar suas mentiras encabuladas.
Admirar, admirar-se.
Admirar sua disposição em ser mais velho no medo e ser mais novo no aniversário.
Admirar suas meias sem par na gaveta, suas fotos esquecidas de datas, seus recados de telefone faltando números.
Admirar sua capacidade em desmemoriar compromissos.
Admirar ao circular o sabão nos seios como se fosse uma vidraça.
Admirar seu talento em provocar amizades no trem ou na rua, pouco preocupado em se preservar.
Admirar quando urra desaforos no estádio, logo ele tão civilizado, tão cordato na família. Admirar quando chora e não se enxerga lágrimas, um choro de soluços, recalcado.
Admirar sua vocação para pegar a joaninha da gola e a pôr novamente na grama.
Admirar como disfarça que perdeu um botão abrindo as mangas ou o zíper quebrado colocando a camisa para fora.
Admirar suas palavras de amor, incompreensíveis, mas terrivelmente musicais, e dizer “não entendi”, para escutar outra vez.
Admirar suas calças apertadas, justas como minhas pernas nas dele na cama.
Admirar sua respiração pesarosa com o luto.
Admirar sua caça de baratas voadoras pela sala e perceber que ele tem mais pavor do que eu. Admirar quando gosta de um livro e me conta tudo como se eu nunca fosse ler.
Admirar quando fica bêbado e se enrola no cobertor do meu casaco, desculpando-se por aquilo que ainda não fez.
Admirar seus roubos nos tabuleiros de criança.
Admirar sua dificuldade em se livrar dos pijamas gastos.
Admirar sua barba por fazer em minhas coxas. Admirar quando me busca antes de pedir.

Pode-se admirar um homem sem amá-lo. Mas não amar um homem sem admirá-lo.


Fabrício Carpinejar no livro “Canalha!” - Crônicas



Versos satíricos do Barão de Itararé



Getúlio por Fraga

Contra o Estado Novo

Passa uma moça elegante
Com sapato de pelica;
Outra passa de turbante,
Tudo passa... e o Vargas fica.

Passa o poeta apressado,
Procura rimas para “ica”
Passa toda a Academia,
Tudo passa... e o Vargas fica.

Zizinho passa a Ademir,
Passa Afonsinho a Pirica
E Jaime passa a Domingos,
Tudo passa... e o Vargas fica.


Desespero

- Minha amada -uma pérola sem jaça -
já declarou, perante o mundo inteiro,
que se casará (ai! que desgraça!)
com um homem de juízo e de dinheiro.

- O que será de mim? Por mais que faça
o fado ingrato quer me ver solteiro.
Sinto fugir-me o sonho alvissareiro
de me casar e perpetuar a raça.

- Juízo? - Bem sei não tenho, que estou louco,
pela ingrata, que me enche de feitiço,
com o estranho fulgor dos olhos místicos.

Dinheiro? - Trinta contos... É bem pouco...
Não chegam para nada... e além disso
os meus contos são contos... humorísticos...


Em O Maneco, Apporelly publicou um longo poema intitulado “Regimento feminino”, em que mobilizava para a guerra mundial um corpo militar formado exclusivamente por mulheres.

Devem formar casadas e donzelas
Ficando, apenas, poucas reservadas,
As mulheres loquazes, tagarelas,
Levarão baionetas, bem “caladas”.

As sogras formarão como “dragões”,
Mas sem nenhum direito a ter dragonas,
Devem formar ao lado dos “canhões”,
Com todas as senhoras querentonas.

Essas que brigam com o namorado
Pelo gostinho de fazer as pazes,
Essas não servem porque são capazes
De querer fazer paz em separado.



Como era esquerdista ferrenho, era constantemente perseguido pela repressão política. Acabou sendo preso inúmeras vezes. Numa dessas, o delegado então perguntou:
- Seu Aporely, o senhor sabe por que está sendo preso?
- Sei sim, por não seguir os conselhos da minha mãe.
Ante a surpresa do homem, ele continuou:
- É a que mamãe sempre me dizia para não tomar cafezinho, não era bom para a saúde, ela sempre me dizia. Razão tinha ela, veja o senhor. Era exatamente isso que eu estava fazendo quando o seu pessoal entrou no café e me prendeu.


Na escola, o professor de português, Oswaldo Vergara, pediu-lhe a conjugação de um verbo qualquer no tempo mais que perfeito. O menino Torelly levantou-se e respondeu: “O burro vergara ao peso da carga.”
Apesar da acidez da brincadeira, o mestre aprovou o aluno.

A morte do Barão

Uma chuvinha fina e intermitente caía na tarde do dia 27 de novembro de 1971, domingo, no Rio de Janeiro, quando baixava à sepultura no Cemitério São João Batista o humorista Aparício Torelly, o “Barão de Itararé”, vítima de coma diabético.

A morte do fundador de “A Manha”, de 76 anos, fora descoberta pelo amigo da família José Daiuto ao visitá-lo em seu apartamento, naquela manhã.

No velório estavam apenas alguns poucos amigos jornalistas como João Mesple, Armando D’Almeida, Otávio Malta e José Daylton, além de parentes e dois de seus três filhos Arly e Ari. O terceiro, Amy, do segundo casamento, morando em Salvador, na Bahia, não conseguiu chegar a tempo para o sepultamento.

O enterro havia sido providenciado por seus amigos Gumercindo Cabral, Armando D’Almeida e Edmar Morel, através da Associação Brasileira de Imprensa, da qual o Barão de Itararé havia sido conselheiro.

Durante o velório o pequeno grupo recordou muitas das suas histórias e frases que acabariam entrando para o folclore nacional.

Quando todos os participantes da cerimônia fúnebre haviam se afastado, alguém acendeu uma vela em seu túmulo.

Identificando depois como um corretor de imóveis, disse que não chegava a conhecer pessoalmente o Barão: “Eu apenas o conhecia de longe. Mas nunca deixei de ler nada dele. Era uma dessas pessoas que tinha amigos, mesmo sem os conhecer”, explicou.

Com seu falecimento se encerrava um ciclo importante no jornalismo satírico brasileiro, ainda hoje relembrado com um sorriso pelos mais velhos e com admiração pelas novas gerações.




Sabedoria judaica



Sir Moses Haim Montefiore (1784-1885), o banqueiro judeu britânico, filantropo, defensor determinado dos direitos humanos e o xerife de Londres, esteve uma vez sentado num jantar ao lado de uma personalidade importante e antissemita, que lhe contou que acabara de voltar do Japão onde “eles não tem nem porcos, nem judeus”.

Montefiore respondeu instantaneamente:

 Nestas circunstâncias, o senhor e eu deveríamos ir lá para que eles possam ter uma amostra de cada um.

Sabedoria judaica em 50 provérbios

01. Quem lida com mel, sempre tem chance de uma lambida.

02. Modéstia em excesso não deixa de ser meia vaidade.

03. Quem não presta para si, não presta para os outros.

04. Não te preocupes com o amanhã quando ainda tens o hoje para te preocupar.

05. De que vale uma boa cabeça, se duas pernas não a sustentam?

06. Falsos amigos são como aves de arribação: fogem no inverno.

07. O medo da desgraça é bem pior que a própria desgraça.

08. Para o ignorante, a velhice é o inverno; para o sábio, é a estação da colheita.

09. Um remendo feio é ainda mais útil que um buraco lindo.

10. Mais vale a pior das pazes que o melhor das guerras.

11. O passo do asno corresponde ao tanto de cevada que lhe dás.

12. É mais fácil enfrentar a desgraça bem alimentado do que com fome.

13. Guia o teu cavalo com aveia, e não com o chicote.

14. Boas notícias se ouvem de longe.

15. De longe podes enganar os outros, de perto só a ti mesmo.

16. Se tens fama de madrugador, podes dormir até tarde.

17. As orações sobem, as bênçãos descem.

18. No alfaiate sempre encontras um fio de linha.

19. A vida não passa de um sonho, mas cuidado para não acordar.

20. Sorte do ignorante é ele não saber que não sabe.

21. Isso te ajudará tanto quanto ventosas a um cadáver.

22. O bom mentiroso precisa de uma boa memória.

23. A verdade é tão pesada que poucos a suportam.

24. Se fabricas freios para teus animais, com maior razão para teus impulsos.

25. Na casa de banhos, todos somos iguais.

26. Quem engana o peixe não é o pescador nem a vara, mas a minhoca.

27. No fundo do espelho tens o teu melhor amigo.

28. Amizade que não foi testada não é amizade nem nada.

29. Quando o sábio erra, erra prá valer.

30. Uma montanha não pode encontrar outra. Um homem a outro, sim.

31. Não há homem que não tenha sua loucura.

32. A vida sempre termina em lágrimas.

33. O mentiroso repete tanto suas mentiras, que ele próprio acaba acreditando.

34. A mulher é como veludo: quem não gosta de acariciar?

35. A mãe, com seu manto, acaba encobrindo até os defeitos dos filhos.

36. A tolice é uma planta que cresce sem que se precise regar.

37. A palavra é como a flecha: ambas têm pressa de chegar.

38. Uma só mentira é apenas uma mentira; duas, são duas mentiras; mas três, aí já se trata de política!

39. Quem olha coisas altas deve segurar o chapéu.

40. Uma boa dor de dentes faz esquecer qualquer dor de cabeça.

41. Quando as coisas melhoram é porque, de fato, estão piorando.

42. Quem está por baixo, pelo menos está livre de cair.

43. O sábio sabe o que diz. O tolo diz o que sabe.

44. Os sapatos da criança pobre crescem com seus pés.

45. Tudo é bom, mas a sua hora.

46. O asno se conhece pelas orelhas. O tolo, pela língua.

47. Com o coração cheio, os olhos transbordam.

48. Antes um pé torto que uma cabeça torta.

49. Coisas boas são lembradas, as más são sentidas.

50. O homem é o que é, não o que foi.



Machadianas



Era uma vez uma choupana

Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona – um triste molambo de mulher – chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Sendo quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela.
- É minha, sim, meu senhor, é tudo que eu possuía neste mundo.
- Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?

O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias. Bom padre Chagas! – Chamava-se. Chagas. - padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos anos essa ideia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz  render o mal dos outros; não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade – a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo ideias consoladoras. Bom padre Chagas!

(Quincas Borba)

Pensamentos avulsos

“Em política não se perdoa nem se esquece nada.

“O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado.”

“(...) não é a verdade que vence, é a convicção.”

“A impunidade é colchão dos tempos; dormem-se aí sonos deliciosos.”

“O modo de compensar uma janela fechada é abrir outra
a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência.”

“Crê em ti, mas nem sempre duvides dos outros.”

Machado sentimental

Não há como a paixão do amor para
fazer original o que é comum,
e novo o que morre de velho.

Cada qual sabe amar a seu modo;
o modo pouco importa:
o essencial é que saiba amar.

Este mundo é dos namorados.

Como morreram os apóstolos de Cristo

Última Ceia, reprodução da tela de por Leonardo da Vinci exposta no refeitório do Mosteiro da Nossa Senhora da Graça, em Milão, Itália. Da esquerda para a direita, segundo o autor, tem-se: Bartolomeu, Tiago e André; Judas (mais a frente), Pedro e João; Cristo, ao centro; Tomé, Tiago (o Jovem) e Filipe; Mateus, Tadeu e Simão.



ANDRÉ

Foi discípulo de João Batista, de quem ouviu a seguinte afirmação sobre Jesus: “Eis aqui o Cordeiro de Deus”. André comunicou as boas notícias ao seu irmão Simão Pedro: “Achamos o Messias” (João 1.35-42; Mateus 10.2). O lugar do seu martírio foi em Acássia (província romana que, com a Macedônia, formava a Grécia). Diz a tradição que ele foi amarrado a uma cruz em forma de X (não foi pregado) para que seu sofrimento se prolongasse.

BARTOLOMEU

Tem sido identificado com Natanael. Natural de Caná de Galileia. Recebeu de Jesus uma palavra edificante: “Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo” (Mateus 10.3; João 1.45-47) Exerceu seu ministério na Anatólia, Etiópia, Armênia, Índia e Mesopotâmia, pregando e ensinando. Foi esfolado vivo e crucificado de cabeça para baixo. Outros dizem que teria sido esfolado vivo até a morte, recebendo o golpe final de decapitação.

FILIPE

Natural de Betsaida, cidade de André e Pedro. Um dos primeiros a ser chamado por Jesus, a quem trouxe seu amigo Natanael (João 1.43-46). Diz-se que pregou na Frigia e morreu como mártir em Hierápolis.

JOÃO

O apóstolo que recebeu de Jesus a missão de cuidar de Maria. “O discípulo que Jesus amava” (João 13.23). Pescador, filho de Zebedeu (Mateus 4.21 O único que permaneceu perto da cruz (João 19.26-27). O primeiro a crer na ressurreição de Cristo (João 20.1-10). A tradição relata que João residiu na região de Éfeso, onde fundou várias igrejas. Na ilha de Patmos, no mar Egeu, para onde foi desterrado, teve as visões referidas no Apocalipse (Apocalipse 1.9). Após sua libertação teria retornado a Éfeso. Teve morte natural com idade de 100 anos.

JUDAS TADEU

Foi quem, na última ceia, perguntou a Jesus: “Senhor, por que te manifestarás a nós e não ao mundo?” (João 14:22-23). Nada se sabe da vida de Judas Tadeu depois da ascensão de Jesus. Diz à tradição que pregou o Evangelho na Mesopotâmia, Edessa, Arábia, Síria e também na Pérsia, onde foi martirizado juntamente com Simão, o Zelote.

JUDAS ISCARIOTES

Filho de Simão, traiu a Jesus por trinta peças de prata, enforcando-se em seguida. (Mateus 26:14-16; 27:3-5).

MATEUS

Filho de Alfeu, e também chamado de Levi. Cobrador de impostos nos domínios de Herodes Antipas, em Cafarnaum (Marcos 2.14; Mateus 9.9-13; 10.3; Atos 1.13). Percorreu a Judeia, Etiópia e Pérsia, pregando e ensinando. Há várias versões sobre a sua morte. Teria morrido como mártir na Etiópia.

MATIAS

Escolhido para substituir Judas Iscariotes (Atos 1.15-26). Diz-se que exerceu seu ministério na Judéia e Macedônia. Teria sido martirizado na Etiópia.

PAULO – Turquia

Israelita da tribo de Benjamim (Filipenses 3.5). Natural de Tarso, na Cilícia (hoje Turquia). Nome romano de Saulo, o Apóstolo dos Gentios. De perseguidor de cristãos, passou a pregador do evangelho e perseguido. Realizou três grandes viagens missionárias e fundou várias igrejas. Segundo a tradição, decapitado em Roma, nos tempos de Nero, no ano 67 ou 70 (Atos 8.3; 13.9; 23.6; 13-20).

PEDRO

Pescador, natural de Betsaida. Confessou que Jesus era “o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mateus 16.16). Foi testemunha da Transfiguração (Mateus 17.1-4). Seu primeiro sermão foi no dia de Pentecostes. Segunda a tradição, sua crucifixão verificou-se entre os anos 64 e 67, em Roma, por ordem de Nero. Pediu para ser crucificado de cabeça para baixo, por achar-se indigno de morrer na mesma posição de Cristo.

SIMÃO, o Zelote

Dos seus atos como apóstolo nada se sabe. Está incluído na lista dos doze, em Mateus 10.4, Marcos 3.18, Lucas 6.15 e Atos 1.13. Julga-se que morreu crucificado.

TIAGO, o maior

Filho de Zebedeu, irmão do também apóstolo João. Natural de Betsaida da Galileia, pescador (Mateus 4.21; 10.2). Por ordem de Herodes Agripa, foi preso e decapitado em Jerusalém, entre os anos 42 e 44.

TIAGO, o menor

Filho de Alfeu (Mateus 10.3). Missionário na Palestina e no Egito. Segundo a tradição, martirizado provavelmente no ano 62.

TOMÉ

Só acreditou na ressurreição de Jesus depois que viu as marcas da crucificação (João 20.25). Segundo a tradição, sua obra de evangelização se estendeu à Pérsia (Pártia) e Índia. Consta que seu martírio se deu por ordem do rei de Milapura, na cidade indiana de Madras, no ano 53 da era cristã.

Resumo

Simão chamado Pedro, o príncipe dos apóstolos; André, o primeiro Pescador de Homens, irmão de Pedro; João, o apóstolo bem-amado; Tiago, o Maior, irmão de João; Filipe, o místico helenista; Bartolomeu, o viajante; Tomé, o ascético; Mateus ou Levi, o publicano; Tiago, o Menor; Judas Tadeu, o primo de Jesus; Simão, o Zelota ou o Cananeu.

Oração de Guerra




No cadáver de um soldado, na frente de Ebro*, foi encontrado um diário. Nele estava escrito a lápis uma oração de guerra, como lhe chama o autor. É, como verá o leitor, um rasgo magnífico do ímpeto juvenil, primorosamente expresso em forma literária:


“Oh! Deus, Senhor dos que dominam, Guia Supremo, que tens nas mãos o fio da vida e da morte, escuta a minha oração de guerra.

Faze, Senhor, que minha alma não vacile no combate e meu corpo não sinta o tremor do medo.

Faze que o sibilo agudo dos projéteis alegre meu coração.

Faze que a sede e a fome, o cansaço e a fadiga não os sintam minha carne e meus ossos.

Faze que minha alma, Senhor, esteja firme e pronta ao sacrifício e à dor.

Que não recue, nem sequer com a imaginação do primeiro posto no combate da guarda mais dura na trincheira, da missão mais difícil, para que meu tiro seja certeiro.

Põe destreza na minha mão, para que meu tiro seja certeiro.

Põe caridade no meu coração, para que meu tiro seja sem ódio.

Que deseje morrer e viver a um só tempo. Morrer como os teus santos apóstolos, como tens velhos profetas para chegar a Ti.

Peço-Te, Senhor, que a penitência encarne em meu corpo e saiba sofrer com sorriso nos lábios, como sofriam os teus mártires.

Concede-me, ó Rei das Vitórias, o perdão da minha soberba. Quisera ser o soldado mais valente da minha Pátria.

Perdoa o meu orgulho, Senhor. Peço-Te, pela minha guarda constante no amanhecer rosado de cada dia.

Rogo-Te pôr em minhas horas de vida, o fuzil e o ouvido atentos aos ruídos misteriosos da noite.

Por minha jornada de sede, de fome, de fadiga e de dor.

Se alcanço isto, Senhor, já meu sangue pode correr com júbilo pelos campos de minha Pátria e minha alma pode subir e gozar no templo de tua eternidade.”


(Em “Pára-quedista – publicação Oficial do Núcleo da Divisão Aeroterrestre – Ano II - N° 1)
Teria sido compilado pelo Sgt Duílio caldeira?



Observação: a foto acima, a morte de um soldado legalista,
de Robert Capa, é a mais conhecida foto da Guerra Civil Espanhola.


* Ebro: O rio Ebro é um dos maiores rios da Espanha e da Península Ibérica. Nasce em Fontibre, na Cordilheira Cantábrica (Cantábria), e percorre Miranda do Ebro, Logroño, Saragoça, Flix, Tortosa, Amposta e acaba num delta a desaguar no mar das Baleares (parte do mar Mediterrâneo), na província de Tarragona. Texto provável achado na Guera Civial Espanhola (Conflito bélico deflagrado após um fracassado golpe de estado de um setor do exército contra o governo legal e democrático da Segunda República Espanhola. A guerra civil teve início após um pronunciamento dos militares rebeldes, entre 17 e 18 de julho de 1936, e terminou em 1° de abril de 1939, com a vitória dos militares e a instauração de um regime ditatorial de caráter fascista, liderado pelo general Francisco Franco.


O homem sábio


O homem sábio é sóbrio. O homem sábio tem a serenidade presente nas suas decisões, nas suas condutas, nas suas expressões. O homem sábio não se perturba nos imprevistos porque os imprevistos não surpreendem o homem sábio... O homem sábio contorna as armadilhas da vida, compreende que viver é enfrentar as mudanças dos caminhos, que os caminhos são feitos com retas, com curvas com desvios estreitos e está preparado para subir e descer com naturalidade no transcurso das trajetórias de sua jornada.

O homem sábio é ponderado. Não julga pelas aparências, busca os conteúdos. A ninguém condena pelas paixões, nem as absolve por submissões. O homem sábio é um exemplo de tolerância para com os fracos, os ignorantes, os néscios e vaidosos, mas sabe ser uma fortaleza para combater a mentira, a deslealdade, as injustiças e o mal.

O homem sábio tem natural liderança, se comunica com todos sem ser prepotente, nem arrogante, nem soberbo. Sabe ouvir com atenção os tormentos dos outros e compartilha alegremente as alegrias para os demais.

O homem sábio não busca o poder. Não tem ambições egoísticas de comando e nem busca glórias em suas atividades, pois sabe, sempre que for escolhido para liderar, é por sua capacitação, pelo seu preparo, pela confiança dos seus liderados, porque ele aprendeu a dividir suas responsabilidades entre os mais capacitados, sem se desvincular das cobranças dos resultados dos temas delegados.

O homem sábio tem bom humor e é  capaz de rir de si mesmo, sorrir para pessoas estranhas, achar graça das situações que são cômicas. É solidário com quem se equivoca, comete um erro, ou, simplesmente, se atrapalha inadvertidamente diante de alguma situação, pois o homem sábio entende que os erros fazem parte também da condição  humana.

O homem sábio tem docilidade na sua voz, nos seus gestos e nas suas expressões diante dos demais, porque o homem sábio aprendeu que os gritos e gesticulações e as apelações de quem bate no próprio peito são instrumentos de defesa dos agressivos e pouco esclarecidos e que o convencimento alheio é obtido mediante argumentos e bons exemplos.

O homem sábio é carinhoso para com as mulheres e crianças, procurando sempre ser atencioso e dedicado para com os velhos, porque sabe que a fonte de toda a ternura é preciosa diante da pureza e da simplicidade da vida.

O homem sábio tem sempre no seu coração o sentimento de amor por si mesmo, pelos semelhantes, pelos animais e pela Natureza, pois compreende que todos fazem parte da engenhosidade da vida, da harmonia que existe em todos os elementos que se consubstanciam no Universo e sabe, por ser sábio, que há mistérios indecifráveis que merecem respeitosas considerações.

O homem sábio envelhece com a naturalidade do jovem, sem temer as fragilidades da velhice, mantendo-se preparado para deixar com seus sucessores os legados adquiridos durante a  vida, e tem a certeza de que a morte não encerra a sua passagem pela vida, pois permanecerá sempre vivo na memória de seus afetos, nas obras que construiu e nos exemplos de sua caminhada.

Transmito, com meu abraço, em homenagem a tantos homens e mulheres realmente sábias que se mantêm sempre presentes em nossas vidas.

Nicolau Lütz




Ponte de Pedra

A ponte de pedra, que foi conservada no Largo dos Açorianos, constitui testemunho importante de uma época da história de Porto Alegre, quando o riacho (atual arroio Dilúvio) ali passava. A ponte foi mandada construir pelo Conde Caxias, em 01/03/1846. A ponte começou a ser utilizada em março de 1848. Um século mais tarde, a obra ficou ociosa em virtude da canalização do riacho; não obstante, sabiamente, a municipalidade preservou a ponte, sobre um espelho de água.

Transformada em monumento urbano e testemunha do passado, o monumento de pedra foi tombado pelo município em 1979 e ganhou um espelho d'água sob os seus três pilares em arco, embora o nível da água tenha sido estabelecido bastante alto, acima dos seus pilares que usualmente ficavam à vista. Seu aspecto atual é o mesmo quando sob uma condição de enchente.

Temos, abaixo, três gravuras de  três artistas gaúchos: Libindo Ferras, 1929; Xico, sobre uma foto antiga, e a última não há registro do nome do artista.








quinta-feira, 24 de julho de 2014

Essas mulheres...



Cena rápida. Conversa entre mulher e marido:


Mulher:
- Amor, você quer me fazer feliz?
Marido:
- Sim, sempre!
Mulher:
- Então me beija em três lugares diferentes!
Marido:
- Claro! Onde, meu bem?
Mulher:
- Em Miami, Paris e Veneza...


Um homem assistia a um jogo futebol pela TV, mas mudava de canal a toda hora: de esporte para um filme pornô que mostrava um casal em plena ação.
- Não sei se assisto ao filme, ou se vejo o jogo, disse para a mulher.
- Pelo amor de Deus, assista ao filme, ela respondeu.
- Futebol você já sabe jogar...


A esposa se despede do marido que vai ficar 90 dias no exterior.
- Não se esqueça de me mandar notícias todas as semanas, meu amor!
- Você prefere por carta ou telegrama?
- Por cheque!


A mulher olha-se no espelho e diz ao marido:
- Estou tão feia, gorda e acabada! Preciso de um elogio...
E o marido responde:
- Sua visão está ótima!


O sujeito estava andando pela rua quando viu um casal brigando.
A moça correu em sua direção e gritou:
- Me ajude, meu marido já me jogou duas pedras.


O sujeito conseguiu segurar o homem nervoso e perguntou:
- Meu amigo, por que você jogou duas pedras na sua mulher?
- Porque a primeira eu errei! Respondeu o maridão.


A esmola da felicidade



Machado de Assis


- Deus lhe acrescente, minha senhora devota! - exclamou o irmão das almas ao ver a nota cair em cima de dois níqueis de tostão e alguns vinténs antigos -. Deus lhe dê todas as felicidades do céu e da terra, e as almas do purgatório peçam a Maria Santíssima que recomende a senhora dona a seu bendito filho!
                   
Quando a sorte ri, toda a natureza ri também, e o coração ri como tudo o mais. Tal foi a explicação que, por outras palavras menos especulativas, deu o irmão das almas aos dois mil-réis. A suspeita de ser a nota falsa não chegou a tomar pé no cérebro deste: foi alucinação rápida. Compreendeu que as damas eram felizes, e, tendo o uso de pensar alto, disse piscando o olho, enquanto elas entravam no carro:

Aquelas duas viram passarinho verde, com certeza.

Sem rodeios, supôs que as duas senhoras vinham de alguma aventura amorosa, e deduziu isto de três fatos, que sou obrigado a enfileirar aqui para não deixar este homem sob a suspeita de caluniador gratuito. O primeiro foi a alegria delas, o segundo, o valor da esmola, o terceiro, o carro que as esperava a um canto, como se elas quisessem esconder do cocheiro o ponto dos namorados. Não concluas tu que ele tivesse sido cocheiro algum dia, e andasse a conduzir moças antes de servir às almas. Também não creias que fosse outrora rico e adúltero, aberto de mãos, quando vinha de dizer adeus às suas amigas. Ni cet excès d´honneur, ni cette indignité. Era um pobre-diabo sem mais ofício que a devoção. Demais, não teria tido tempo; contava apenas vinte e sete anos.          
Cumprimentou as senhoras, quando o carro passou. Depois ficou a olhar para a nota tão fresca, tão valiosa, nota que almas nunca viram sair das mãos dele. Foi subindo a rua de São José. Já não tinha ânimo de pedir; a nota fazia-se ouro, e a ideia de ser falsa voltou-lhe ao cérebro, e agora mais frequente, até que se lhe pegou por alguns instantes. Se fosse falsa... “Para a missa das almas!”, gemeu à porta de uma quitanda e deram-lhe um vintém - um vintém sujo e triste, ao pé da nota tão novinha que parecia sair do prelo. Seguia-se um corredor de sobrado. Entrou, subiu, pediu, deram-lhe dois vinténs, o dobro da outra moeda no valor e no azinhavre.

E a nota sempre limpa, uns dois mil-réis que pareciam vinte. Não, não era falsa. No corredor pegou dela, mirou-a bem; era verdadeira. De repente, ouviu abrir a cancela em cima, e uns passos rápidos. Ele, mais rápido, amarrotou a nota e meteu-a na algibeira das calças; ficaram só os vinténs azinhavrados e tristes, o óbolo da viúva. Saiu, foi à primeira oficina, à primeira loja, ao primeiro corredor, pedindo longa e lastimosamente:

- Para a missa das almas!

Na igreja, ao tirar a opa, depois de entregar a bacia ao sacristão, ouviu uma voz débil como de almas remotas que lhe perguntavam se os dois mil-réis... Os dois mil-réis, dizia outra voz menos débil, eram naturalmente dele, que, em primeiro lugar, também tinha alma, e, em segundo lugar, não recebera nunca tão grande esmola. Quem quer dar tanto vai à igreja ou compra uma vela, não põe assim uma nota na bacia das esmolas pequenas.

Se minto, não é de intenção. Em verdade, as palavras não saíram assim articuladas e claras, nem as débeis, nem as menos débeis; todas faziam uma zoeira aos ouvidos da consciência. Traduzi-as em língua falada, a fim de ser entendido das pessoas que me leem; não sei como se poderia transcrever para o papel um rumor surdo e outro menos surdo, um atrás de outro e todos confusos para o fim, até que o segundo ficou só: “não tirou a nota a ninguém... a dona é que a pôs na bacia por sua mão... também ele era alma...” À porta da sacristia que dava para a rua, ao deixar cair o reposteiro azul-escuro debruado de amarelo, não ouviu mais nada. Viu um mendigo que lhe estendia o chapéu roto e sebento, meteu vagarosamente a mão no bolso do colete, também roto, e aventou uma moedinha de cobre que deitou ao chapéu do mendigo, rápido, às escondidas, como quer o Evangelho. Eram dois vinténs; ficavam-lhe mil novecentos e noventa e oito réis. E o mendigo, como ele saísse depressa, mandou-lhe atrás estas palavras de agradecimento, parecidas com as suas:

Deus lhe acrescente, meu senhor, e lhe dê...

(Esaú e Jacó)


Oito exemplos de Abraão Lincoln



Þ Ter uma meta e persistir em sua obtenção.

Na metade de 1862, as forças do sul atacavam violentamente. Os jornais e os políticos do norte chamavam o governo de incompetente. O número de voluntários para o Exército caiu. Os abolicionistas estavam cada vez mais frustrados. Apesar de todos os revezes, Lincoln persistiu.

Þ Manter o equilíbrio emocional e compostura.

Ao longo da guerra, Lincoln enfrentou a morte de um filho de 11 anos, sua depressão e a de sua mulher, sem reagir de maneira que comprometesse seu objetivo amplo

Þ Ter paciência e refletir antes de agir.

Irritado com o general que deixou seu inimigo escapar, Lincoln escreveu uma carta dura, mas jamais a enviou. Comunicações instantâneas disponíveis 24 horas por dia muitas vezes só agravam a turbulência. “Como percebeu Lincoln, a primeira ação que ocorre a alguém nem sempre é a mais sábia.”

Þ Escutar atentamente argumentos dos outros.

Embora decidido a proclamar a emancipação, Lincoln aceitou o conselho de seu secretário de Estado para esperar por uma vitória, a fim de que não parecesse “uma medida desesperada de um governo exausto.”

Þ Considerar todos os lados da questão.

Lincoln procurava conselhos e informações com grande número de pessoas, entre as quais muitas que não concordavam com ele.

Þ Ser flexível quando necessário.

Embora contrário à escravidão, Lincoln considerava prioridade a União. Em meados de 1862, porém, sentiu que havia chegado “ao fim da linha quanto ao plano de operações que vínhamos seguindo, jogado nossa última cartada e devíamos mudar de tática ou perder o jogo”. Mudar de marcha sem abandonar seu objetivo é uma lição importante

Þ Comunicar-se com todos os interessados.

Lincoln visitava os campos de batalha para conversar com os soldados e reservava horários para receber cidadãos comuns

Þ Não agir levando em conta interesses pessoais.

Sua responsabilidade é servir todas as pessoas. Lincoln sabia que o sucesso é melhor quando compartilhado.


Tradução de Paulo Migliacci – Folha de São Paulo


Um gatuno



Chegaram ao Largo da Carioca, apearam-se e despediram-se; ela entrou pela Rua Gonçalves Dias, ele enfiou pela da Carioca. No meio desta, Aires encontrou um magote de gente parada, logo depois andando em direção ao largo. Aires quis arrepiar caminho, não de medo, mas de horror. Tinha horror à multidão. Viu que a gente era pouca, cinqüenta ou sessenta pessoas, e ouviu que bradava contra a prisão de um homem. Entrou num corredor, à espera que o magote passasse. Duas praças de polícia traziam o preso pelo braço. De quando em quando, este resistia, e então era preciso arrastá-lo ou forçá-lo por outro método. Tratava-se, ao que parece, do furto de uma carteira.

- Não furtei nada! - bradava o preso detendo o passo. É falso! Larguem-me! Sou um cidadão livre! Protesto! protesto!

- Siga para a estação!

- Não sigo!

- Não siga! - bradava a gente anônima. - Não siga! Não siga!

Uma das praças quis convencer a multidão que era verdade, que o sujeito furtara uma carteira, e o desassossego pareceu minorar um pouco; mas, indo à praça a andar com a outra e o preso, - cada uma pegando-lhe um dos braços, a multidão recomeçou a bradar contra a violência. O preso sentiu-se animado, e ora lastimoso, ora agressivo, convidava a defesa. Foi então que a outra praça desembainhou a espada para fazer um claro. A gente voou, não airosamente, como a andorinha ou a pomba, em busca do ninho ou do alimento, voou de atropelo, pula aqui, pula ali, pula acolá, para todos os lados. A espada entrou na bainha, e o preso seguiu com as praças. Mas logo os peitos tomaram vingança das pernas, e um clamor ingente, largo, desafrontando, encheu a rua e a alma do preso. A multidão fez-se outra vez compacta e caminhou para a estação policial. Aires seguiu caminho.

A vozeria morreu pouco a pouco, e Aires entrou na Secretaria do Império. Não achou o ministro, parece, ou a conferência foi curta. Certo é que, saindo à praça, encontrou partes do magote que tornavam comentando a prisão e o ladrão. Não diziam ladrão, mas gatuno, fiando que era mais doce, e tanto bradavam há pouco contra a ação das praças, como riam agora das lástimas do preso.

- Ora o sujeito!

Mas então?... perguntarás tu. Aires não perguntou nada. Ao cabo, havia um fundo de justiça naquela manifestação dupla e contraditória; foi o que ele pensou. Depois, imaginou que a grita da multidão protestante era filha de um velho instinto de resistência à autoridade. Advertiu que o homem, uma vez criado, desobedeceu logo ao Criador, que aliás lhe dera um paraíso para viver; mas não há paraíso que valha o gosto da oposição. Que o homem se acostume às leis, vá; que incline o colo à força e ao bel-prazer, vá também; é o que se dá com a planta, quando sopra o vento. Mas que abençoe a força e cumpra as leis sempre, sempre, sempre, é violar a liberdade primitiva, a liberdade do velho Adão.

Ia assim cogitando o conselheiro Aires.

Não lhe atribuam todas essas ideias. Pensava assim, como se falasse alto, à mesa ou na sala de alguém. Era um processo de crítica mansa e delicada, tão convencida em aparência, que algum ouvinte, à cata de idéias, acabava por lhe apanhar uma ou duas... ia a descer pela Rua Sete de Setembro, quando a lembrança da vozeria trouxe a de outra, maior e mais remota.


Esaú e Jacó – Machado de Assis

Canto do Rio em sol




Guanabara, seio, braço
de a-mar:
em teu nome, a sigla rara
dos tempos do verbo mar.
Os que te amamos sentimos
e não sabemos cantar:
o que é sombra do Silvestre
sol da Urca
dengue flamingo
mitos da Tijuca de Alencar.
Guanabara, saia clara
estufando em redondel:
que é carne, que é terra e alísio
em teu crisol?
Nunca vi terra tão gente
nem gente tão florival.
Teu frêmito é teu encanto
(sem decreto) capital.
Agora, que te fitamos
nos olhos,
e que neles pressentimos
o ser telúrico, essencial,
agora sim és Estado
de graça, condado real.

Rio, nome sussurrante,
Rio que te vais passando
a mar de estórias e sonhos
e em teu constante janeiro
corres pela nossa vida
como sangue, como seiva
- não são imagens exangues
como perfume na fronha
... como pupila do gato
risca o topázio no escuro.
Rio-tato-
-vista-gosto-risco-vertigem
Rio-antúrio

Rio das quatro lagoas
de quatro túneis irmãos
Rio em ã
Maracanã
Sacopenapã
Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho
de amorzinho
benzinho
dá-se um jeitinho
do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda
como quem do alto do Morro Cara de Cão
chama pelos tamoios errantes em suas pirogas
Rio, milhão de coisas
luminosardentissuavimariposas:
como te explicar à luz da Constituição?
Irajá Pavuna Ilha do Gato
- emudeceram as aldeias gentílicas?
A Festa das Canoas dispersou-se?
Junto ao Paço já não se ouve o sino de São José
pastoreando os fiéis da várzea?
Soou o toque do Aragão sobre a cidade?
Não não não não não não não

Rio, mágico, dás uma cabriola,
teu desenho no ar é nítido como os primeiros grafismos,
teu acordar, um feixe de zínias na correnteza esperta do tempo
o tempo que humaniza e jovializa as cidades.
Rio novo a cada menino que nasce
a cada casamento
a cada namorado
que te descobre enquanto rio-rindo.
assistes ao pobre fluir dos homens e de suas glórias pré-fabricadas. 


Carlos Drummond de Andrade



A força de um bloco popular: “Simpatia é quase amor”


Dia 2 de fevereiro de 2013, saio da praia de Ipanema e enfrento a multidão da foto acima, que desfila pela avenida Vieira Souto, numa manifestação contagiante da alegria dos foliões. O bloco carnavalesco Simpatia é quase amor arrasta quase cem mil jovens, todos moradores de todos os cantos da cidade, provando que sempre haverá uma renovação na vontade de se divertir de toda uma cidade, que, apesar de tudo, continua sendo a Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil...

Nilo da Silva Moraes


A redação gaudéria

A professora Vera achou que os alunos já estavam bem grandinhos e os mandou fazer uma redação sobre o tema: Sexo ou assunto relacionado.

No dia seguinte, cada aluno leu a sua redação: A da Mariazinha era sobre métodos contraceptivos. A do Gerson falava da masturbação. A Analúcia escreveu sobre rituais sexuais antigos etc... (blá, blá...).

E chegou a vez do Joãozinho:

- Então, Joãozinho, você fez a redação que eu pedi?

- Fiz sim, professora!

- Então, leia sua redação!

E o Joãozinho começou a ler tom bem alto:

- Era uma vez, no Alegrete, há muitos e muitos anos. No relógio da igreja batiam 18 horas. Nuvens de poeira arrastavam-se pela cidade semideserta. O Sol já ofuscava o horizonte e tingia as nuvens de tons avermelhados. De súbito, recortou-se a silhueta de um cavaleiro. Lentamente, este se foi aproximando da cidade e, ao chegar à entrada, desmontou do seu cavalo. O silêncio pesado foi perturbado pelo tilintar das esporas.O cavaleiro chamava-se: Guaraniaçu Boy. Vestia-se todo de preto, à exceção do lenço vermelho que trazia ao pescoço e da fivela de prata que segurava os dois revólveres na cintura. O cavalo, companheiro de muitas andanças, dirigiu-se hesitante para uma poça d’água... Pum! O velho cavalo caiu morto com um buraco na testa. O cheiro da pólvora vinha do revólver que já tinha voltado para o coldre de Guaraniaçu Boy, que não gostava de cavalos desobedientes! Guaraniaçu Boy dirigiu-se, então, para o bolicho (bar). Quando estava subindo os três degraus, um mendigo, que ali estava, tocou na perna de Guaraniaçu Boy e pediu uma esmola... Pum! Pum! O esmoleiro esvaiu-se em sangue: Guaraniaçu Boy não gostava que lhe tocassem! Entrou no bolicho, foi até o balcão e pediu uma cerveja. O homem do bolicho serviu-lhe a cerveja. Guaraniaçu Boy provou e fez uma careta. Pum! Pum! Pum! Guaraniaçu Boy não gostava de cervejas mornas e detestava homens de bolicho relapsos. Os outros cavaleiros, que ali estavam, olharam surpresos para Malaquias. Pum! Pum! Pum! Pum!... Ninguém conseguiu reagir Guaraniaçu Boy era rápido no gatilho: não gostava de ser o centro das atenções! Saiu do bolicho... Deslocou-se até o outro lado da cidade para comprar um cavalo. Comprou o cavalo e, quando pagou, o vendedor enganou-se no troco. Pum! Pum! Pum!... Guaraniaçu Boy não gostava que o enganassem no troco! Montou no novo cavalo e saiu da cidade. Mais uma vez a sua silhueta recortou-se no horizonte, desta vez com o sol já quase recolhido. Todos aqueles mortos no chão. Até o silêncio era pesado. Fim...

Joãozinho sentou-se. A turma estava petrificada! A professora, chocada pergunta:

- Mas... Mas... Joãozinho... O que esta composição tem a ver com sexo?

oãozinho, com as mãos nos bolsos, responde:

- O Guaraniaçu Boy era foda!!!


(Autor desconhecido)