sábado, 30 de setembro de 2017

Credo!


Mário Corso


Creio no Google todo-poderoso,
criador de todas as realidades.
Assim como Facebook, seu filho bastardo.
Nosso senhor terreno.
Que foi concebido pensando na fama.
Pelo enorme poder da nossa vaidade.
Venha a nós o teu reino digital.
Agradecemos aos likes que nos tens enviado,
assim como não nos deixas cair em esquecimento.

Creio no Instagram.
E no santo Twiter.
Na comunhão dos aplicativos.
Na remissão das senhas esquecidas.
Na ressurreição do Orkut.
Ave Internet, cheia de graça, os hackers são convosco.

Maldita sois vós entre os bitcoins,
assim como maldito é o fruto de vosso ventre: os spams e os vírus.
Perdoai nossas involuntárias fake news,
assim como perdoamos que não curtiu nossas fotos.
Benditos sejam os filtros e o santo photoshop,
por corrigir as imperfeições das nossas selfies.
Sem elas, não contornamos a solidão.
Benditos sejam os fones de ouvidos,
que graça ao Sportify nos isolam das trombetas do juízo final.
Ore por nós para o wi-fi ser livre e não perdermos o sinal.
Ora pro nobis para não sermos bloqueados.
WhatsApp de todos os santos,
pelo amor de todos os anjos, serafins e querubins,
não permitais que nos adicionem a mais um grupo.

Santo iPhone que estás no céu tecnológico,
poupa-nos de ficar sem bateria.
Não nos deixes cair na tentação de postar
enquanto estamos bêbados,
como cuidaremos dos nossos amigos
para não fazerem a mesma besteira.

Santo Tinder, defensor dos solitários infelizes, rogai por nós.
Acendei no próximo o fogo que nos falta.
Encaminhai esperança para essa carcaça sem vida.
Santo Waze, protetor de todos os perdidos,
oriente nosso caminho nesse mundo de trevas.
Devolva a luz para esses pobres pecadores sem rumo e sem fé.
Santo anjo do senhor, nosso zeloso guardador.
Livrai-nos de ser rachados na Internet.
Amém!

(Em Zero Hora, 30 de setembro de 2017)

Humor do Porta dos Fundos


Quanto tempo dura um político com princípios? Quantos meses, dias ou horas morando em Brasília são necessários para você começar a desviar dinheiro? E se você não desviar, o que acontece? Sofre Bullying? Queríamos fazer um esquete que falasse dos problemas que a honestidade pode gerar numa sociedade em que a corrupção é a norma. Falando assim, parece um vídeo muito chato. E talvez tivesse ficado, se não fosse pelos dois atores brilhantes (Fábio Porchat e Marcos Veras) e pela direção impecável (Ian SBF). Leia e tire suas próprias conclusões.

Ah, e superávit não é um super-herói. É o contrário de déficit. Ou seja: quando sobra dinheiro.

Superávit

Roteiro de Gregório Duvivier


(Escritório de Valdo, deputado federal. Entra Laércio, outro deputado.)

Laércio – Oi, valdo.

Valdo   – Opa, Laércio, tudo bem?

Laércio – Queria falar comigo, né?

Valdo   – Senta aí. É o seguinte: tem um dinheiro aí que você não pegou.

Laércio – Que dinheiro?

Valdo   – Um dinheiro que a gente pega.

Laércio – A gente pega?

Valdo   – Os deputados.

Laércio – Vocês pegam, né?

Valdo   – A gente pega, tá? Você pega... a gente pega.

Laércio – Não! Eu não pego nada.

Valdo   – (rindo) – Ah, não pega nada! (volta a ficar sério) É justamente por isso que eu estou aqui agora para falar com você. Porque você não pega nada.

Laércio – Então você me chamou aqui para falar do fato de vocês estarem roubando?

Valdo   – Não! Eu te chamei aqui para te atentar pro fato de que você não está (faz sinal de aspas no ar) pegando esse dinheiro. E se você não pegar esse dinheiro, vai sobrar um dinheiro. E se sobrar um dinheiro, as pessoas vão estar perguntando por que é que está sobrando esse dinheiro. (fala rapidinho) E se as pessoas ficarem perguntando, a gente vai ter que parar de pegar esse dinheiro.

Laércio – E por que vocês não param de pegar esse dinheiro?

Valdo   – Vocês, não. A gente.

Laércio – A gente, não! Eu não pego nada.

Valdo   – Você pega, sim. Na verdade, eu pego pra você. Eu pego a minha parte, e a sua eu tô depositando num banco. Num fundo excelente, renda fixa, você já é personnalité, tem cartão platinum e o caralho! Se quiser, pode viajar com milha no final do ano pra Paris!

Laércio – Valdo, pode deixar! Eu não quero esse dinheiro.

Valdo   – Mas é um valor pequeno!

Laércio – Mais uma razão. Eu não vou sujar a minha imagem, o meu nome, por causa de uma mixaria, de um valor pequeno.

Valdo   – Então, você tocou em ponto legal! Se o problema é valor, a gente pode chegar na cifra que você quiser. (pega calculadora e entrega a Laércio) Coloca um valor aqui...

Laércio – Não vou. Não tô aqui pra isso, não.

Valdo   – Laércio... Eu tô aqui pra te ajudar. T^p aqui pra te ajudar a me ajudar!

Laércio – Valdo, sabe quem eu quero ajudar?

Valdo   – Quem?

Laércio – O povo brasileiro...

Valdo   (irritado) – Não fode, Laércio! Não fode!

Laércio – Doa esse dinheiro pra saúde, pra educação, pra alguma coisa que vá fazer bem ao povo.

Valdo   – Laércio, não dá! É isso que você não tá entendendo. O Brasil recolhe dinheiro demais de imposto. O dinheiro tá pulando! Se a gente não pegar esse dinheiro, o Brasil se explode!

Laércio – Arte? Cultura? É isso! Você pega esse dinheiro e investe em arte e cultura. Essa é a melhor forma...

Valdo   – O que você quer é ver mais filme nacional?  É isso que você quer? Ir ao cinema pra assistir Os Vingadores e tá passando Federal na sala? Se você me disser agora que quer ver mais filme nacional, eu abro um edital agora pra você... (pega o telefone) Bianca, retoma Paulínia. (desliga)

Laércio – Não, não. Não é isso, não, tô legal.

Valdo   – É melhor pro país, Laércio! O que você quer? Mais classe C pegando avião? Já viu como é que está o aeroporto? A rodoviária que é esse aeroporto! Uma gente feia, uma gente que não tinha que tá pegando nem ônibus. O teu caseiro entrando no Facebook... É isso que você quer? Você quer curtir a foto da mulher do seu caseiro de maiô na praia, no piscinão de Ramos? É isso que você quer?

Laércio – Não. Eu não quero!

Valdo   – Porque parece que é isso que você quer!

Laércio – Ta bom, tá. Então...

Valdo   – É um bem pro país! Pro Brasil! Pro meu, pro teu, pro nosso!

(Laércio respira fundo.)

Laércio ‒ Você falou que eu vou ser cliente Personnalité?

Valdo   – Com esse fundo DI, é uma forma arrojada de você pensar no futuro, pensar lá na frente. (pega telefone) Bianca? Traz o DI pro Laércio.

Laércio – Pergunta se rende mais que a poupança?

Valdo   – Bianca, rende mais que a poupança?

(desliga e diz para Laércio)

Valdo   – Rende!

*****

(Do livro "Porta dos Fundos", Editora Sextante)

Obs. O vídeo com esse texto está na internet.


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O batizado da vaca


Chico Anysio


O lugar era tão bonito, o clima tão bom, as flores tão rosas e as vacas tão bovinas, que o chefe da família achou que valeria a pena comprar ali uma fazenda.

Consultou a família que, de pronto, foi contra. Isto colaborou demais para que o chefe da família entrasse, imediatamente, em conversações com o proprietário de uma, que se queria desfazer da fazenda, por achar que ela estava num lugar que não era lá essas coisas, o clima era idiota, as flores não fugiam daquela variedade: rosas, rosas, rosas, e as vacas, coitadas, eram simplesmente bovinas — numa total falta de imaginação. Vá-se querer que as vacas tenham isso!

O negócio foi fechado por um dinheiro grande, e a família tomou posse da propriedade dois dias depois, data que coincidia com a véspera do fim das férias.

A fazenda ficava num vale e era separada em duas partes por um córrego como o que só corre na infância dos escritores. Tinha matas e vacas, rosas e charcos, galinhas e caseiros.

‒ Uma idiotice, comprar essa fazenda ‒ vaticinou a esposa, numa contrariedade de quem faz doze pontos.

‒ Comprar terra sempre é bom negócio ­vibrou o chefe da família, puxando o ar, a encher o peito com um cheiro de estrume que vinha do estábulo. ‒ Olhe em volta. Até onde a vista alcança, tudo é nosso. Está vendo o abacateiro? É nosso; Aquele caqui-chocolate? É nosso. A carreira de jabuticabeiras? Nossa. O mato, a casa, a cocheira, o estábulo, o caminho, tudo é nosso. Esse céu, que cobre a fazenda, é o único pedaço de céu que é nosso, porque o da cidade é do governo. Aqui, mandamos nós, porque aqui tudo é nosso!

‒ Pra quê? ‒ sintetizou a mulher, numa pergunta de esposa.

‒ Ora ‒ explicou admiravelmente o chefe da família ‒, para ser nosso. Nossa terra, nosso chão, nosso cantinho, nossas rosas! ‒ e pegou numa, furando o dedo.

Durante o curativo no dedo magoado um dos trabalhadores da fazenda aproximou-se com uma notícia muito importante: a fazenda acabava de crescer de valor pelo nascimento de uma bezerrinha.

Viu? ‒ comentou, vitorioso, o chefe da família, batendo nas costas da esposa, de modo a fazê-la cuspir a primeira jabuticaba que tentava comer. ‒ Nasceu uma vaquinha!

A notícia correu para os demais da família ao mesmo tempo em que, para os pais, corriam os filhos, estes, sim, felizes, ao saber do nascimento da novilha.

‒ É menino ou menina? ‒ perguntou um menino que, de tão longos cabelos, nem se sabia se era menino ou menina.

‒ Não é assim que se fala, menino ‒ esclareceu o pai. ‒ A pergunta é: bezerra ou bezerro? É uma bezerrinha.

‒ Vamos ver? Vamos ver? gritavam os filhos a sugestão lógica das crianças que nunca viram vaca a não ser nos desenhos das latas de leite em pó.

Foram. A vaca não deixou que se aproximassem da cria, que ficou sendo observada a distância pela família encantada e pelo caseiro indiferente e até um pouco irritado por haver uma vaca a mais no seu mundo.

‒ Quem é o pai? ‒ perguntou a moça mais taluda.

‒ Um boi desses ‒ errou o pai.

‒ Um touro! ‒ corrigiu o caseiro, sabedor ele de que o boi é um touro que já era; boi é um touro que perdeu os documentos.

‒ Pois é ‒ emendou o pai na mesma veemência ‒, um tourão danado desses. Olha a carinha dela. Os olhinhos ainda estão fechados.

‒ Vamos batizar! ‒ gritou um menino.

‒ Boa ideia ‒ concordou o chefe da família. ‒ Quem vai escolher o nome?

‒ Eu. Eu. Eu. Eu ‒ disseram, um a cada vez, os quatro filhos do casal.

E começou a discussão sobre o nome a ser posto na recém-nascida que, indiferente a tudo, mamava na mãe, provando, assim, que ela (a mãe) não era tão vaca quanto julgavam.

‒ Aretha Franklin!

‒ Janis Joplin.

‒ Jimi Hendrix ‒ sugeriu o mais velho ‒, porque, até que me provem o contrário, essa vaquinha é touro; deixa levantar que vocês vão ver.

‒ É fêmea, que o caseiro viu ‒ afirmou o pai, voltando-se para o caseiro, na indagação do que já afirmara: ‒ O senhor não viu?

‒ Vi. É fêmea.

E tome de gritar nome: Califórnia, Disneylândia, Erva Maldita, Otorrinolaringologia... Havia os nomes sugeridos a sério e os de gozação. Todos os que citei eram os a sério. Finalmente, o bom senso ajudou a solucionar o impasse. Foi a esposa quem sugeriu o nome que lhe pareceu o mais indicado para a novilhazinha que mamava no seio vaquerno: Long Island.

‒ Desculpe ‒ desculpou-se o caseiro por não entender.

‒ Long Island ‒ repetiu a mulher com uma naturalidade de quem fala “mococa”.

‒ A senhora podia escrever? ‒ pediu o caseiro, confessando-se incapaz de decorar aquilo.

Arranjaram uma pequena tábua onde, com um prego, o chefe de família escreveu: LONG ISLAND, tabuazinha que, com o auxílio de um arame, ficou presa no pescoço da novilha para que ninguém, na fazenda, esquecesse que aquela jovem bovina atendia pelo nome de Long Island, nome que fica muito bem para parque de diversões, mas que não é dos mais adequados para quem cara de Mimosa, Formosa, Maravilha ou Vaquinha ‒ modo, inclusive, que melhor ajuda o reconhecimento da peça.
Acabadas as férias, a família voltou à sua poluição metropolitana e só pôde retornar à fazenda dois anos depois.

Tudo continuava como dantes, com exceção de uma coisinha em pior estado, uma das quais o geral.

‒ Caseiro! ‒ chamou o chefe de família, que não sabia que o caseiro tinha nome: José Caseiro da Silva.

‒ Pronto, doutor ‒ obedeceu o caseiro meia hora depois, com a presteza de um favor bancários.

‒ Como vai a novilha?

‒ Está uma vaca! ‒ elogiou o caseiro de um modo que soou ofensa aos ouvidos da família.

‒ Já dá leite? ‒ perguntou um dos filhos.

‒ Dá, né? respondeu o caseiro estranhando a pergunta, pelo fato de saber (ele é acostumado, porque vive ali) que as vacas não dão outra coisa senão leite.

‒ Pois eu quero beber um copo de leite da novilha ‒ ordenou a esposa do chefe, madrinha de batismo da vaquinha.

E o caseiro, sem que a família ouvisse, comandou a um seu auxiliar que tirasse um pouco de leite da vaca “Tabuleta”.

Bar Bip-Bip


Um reduto do samba carioca em Copacabana

 Por Erika Azevedo


Foto Folha de S. Paulo

Menor dos grandes redutos do samba do Rio de Janeiro, o Bar Bip-Bip é um clássico de Copacabana. Patrimônio Cultural Carioca, foi inaugurado em 1968 e se transformou em um tradicional ponto de encontro de músicos da velha e da nova geração. Nomes como Milton Nascimento, Moacyr Luz e Beth Carvalho costumam dar uma palinha por lá, na mais completa informalidade.

Aberto diariamente, somente aos sábados o Bip-Bip não tem música ao vivo. E a programação é sempre gratuita. As rodas de samba acontecem às quintas, sextas e domingos e costumam ser concorridas. O chorinho toma conta às segundas e terças, enquanto a quarta-feira é dia de bossa nova.

Dentro do bar, pequeno e estreito, os músicos ocupam praticamente todas as mesas e cadeiras, mas ninguém se incomoda: aqui, a música é a grande estrela. O estalar de dedos no lugar da salva de palmas ao final das canções, para não incomodar a vizinhança residencial, é outra marca registrada do Bip-Bip. E essas são apenas algumas das muitas particularidades do lugar.

O Bip – para os íntimos – conta com um sistema de atendimento peculiar. A cerveja, sempre geladíssima, fica numa geladeira no fundo do bar. Pra conseguir uma, basta ir lá pegar. A vibe self-service também vale pros petiscos. Quer uma porção de bolinhos de bacalhau? É só pegar e esquentar no forno. Sentado numa mesinha na porta do bar, o dono, Alfredinho, vai anotando o nome dos clientes e o que foi consumido. No fim da noite, é só acertar as contas.

Aliás, Alfredinho (sentado acima, à direita) é uma atração à parte. Suas broncas são lendárias. Se o burburinho do público do lado de fora ficar mais alto que a música, não tem errada: Alfredinho vai levantar e dar um sonoro esporro. Nada pessoal. No Bip-Bip, a música é sempre prioridade. E que assim seja.

 Bar Bip-Bip

Onde fica: Rua Almirante Gonçalves, 50, Copacabana, Rio de Janeiro
Telefone: (21) 2267-9696
Horário: Segunda a Domingo 19h-00h
Estação Próxima do Metrô: Cantagalo

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

As quase tragédias da TV



Encarando o lutador

Num antigo programa de televisão, Sérgio Malandro desafia um lutador, que ele nunca viu na vida, a se defrontar com ele. Ele dizia: “Falam que o Tigre (nome do lutador) é o bom, eu quero ver é ele me enfrentar para ver o que é bom pra tosse, pois comigo o buraco é mais embaixo.” O programa continuava. E volta e meia vinha um novo desafio de Malandro: “Esse Tigre não é de nada, ele só bom pra negas dele, se ele é realmente bom vem aqui me encarar.”

No final do programa, Sérgio está lançando um novo desafio para o lutador, quando um cara forte e alto bate nas suas costas; “Eu sou o lutador Tigre, vai querer me encarar?”. Malandro tenta desconversar, que não era bem isso que ele tinha falado... Quando um senhor, na primeira fila do auditório, (o programa era ao vivo) falou ao lutador: “Você não vai bater no garoto de jeito nenhum!” Sérgio Malandro se aproxima do senhor e cochicha no seu ouvido: “Fica tranquilo que aqui está tudo armado.. tá tudo armado.” O senhor, que não pegou bem o espírito da coisa, grita para todo mundo ouvir: "Se ele está armado, eu também estou..." e puxa da cintura uma pistola 44. Acabou o programa.

(Contado na TV por Wilton Franco)

O revólver

Um outro engano do contrarregra quase teve consequências funestas. No programa Clube dos morcegos, havia uma cena em que o ator Roberto Duval apontava uma arma para Alberto Perez, o qual, ao reagir, era baleado por Duval.

O ensaio transcorria normalmente, mas Duval errou o texto eu (João Lorêdo) peguei o revólver, mas achei que estava pesado demais para ser a arma de cena. De fato, era um revólver de verdade, e carregado. Souza, o contrarregra, para não atrasar o ensaio, e sabendo que isso acontecesse levaria uma bronca, pediu no revólver do segurança da Urca, porque o da Casa Teatral ainda não havia chegado.

Quase uma tragédia. Se Duval não tivesse errado o texto e eu não interrompesse o ensaio pedindo a ele que refizesse a cena, provavelmente ele teria matado Alberto Perez, que, ao perceber o que estava acontecendo, desmaiou de medo e precisou tomar vários copos de água com açúcar.

(Do livro Era uma vez... a televisão, de João Lorêdo)

No auditório...

Aquele político famoso vai assistir à inauguração do auditório de uma rádio numa pequena cidade do interior. O espetáculo começa com um recital de um pianista muito conhecido. Tentando evitar um vexame, o político vira-se para o seu assessor e pergunta:

Você entende de música?

- Um pouco - responde o assessor.

- O que é que esse cara está tocando?

- Piano!

Não pegou bem o espírito da coisa....

Uma senhora liga para uma emissora de rádio para responder a uma pergunta do locutor. 

- Como a senhora se chama? 

- O meu nome é Marli. 

- Muito bem. E quantos anos a senhora têm? 

- Eu tenho sessenta. 

- Que maravilha! Pronta para responder? 

- Pode perguntar!

- Dona Marli. Há um país que tem duas sílabas no nome e uma delas é uma coisa muito boa de se comer. A senhora sabe que país é esse?

- Sei, sim. É Cuba. 

O locutor ficou mudo por alguns segundos e arrematou:

- Dona Marli! A senhora vai levar o prêmio pela criatividade, mas aqui na minha ficha estava escrito Japão...


Direitos dos passageiros



Como cobrar das empresas aéreas

1) Documentos:

→ Guarde todos os documentos que possam comprovar tempo de atraso de voo.

→ Comprovante de gastos extras com telefone, alimentação ou transporte para pedir reembolso.

2) Reclamações:

→ Procure a própria companhia.

→ Postos da ANAC nos aeroportos para formalizar a queixa.

→ Faça reclamação por escrito, em duas cópias.

→ Guardar uma da vias protocoladas.

→ Inclua na reclamação o número do voo, companhia aérea, nomes das pessoas que possam testemunhar a favor e tempo do voo.

3) Cautela:

→ Aja com muita calma.

→ Atitudes intempestivas, como invadir a pista, agredir um empregado da companhia aérea ou danificar as instalações e equipamentos do aeroporto, são passíveis de prisão e de processo judicial.

4) Voos cancelados:

→ Exija uma alternativa, como outro voo ou o reembolso imediato do valor pago com a compra da passagem.

5) Bagagem:

→ Se a empresa perder sua bagagem, ou se ela for danificada, reclame ainda no aeroporto, por escrito, no balcão da empresa.

→ Poderá pedir reembolso de gastos com roupas e produtos de higiene pessoal.

→ Deverá ser indenizado se, em 30 dias, a mala não for devolvida.

6) Justiça:

→ Poderá processar a companhia aérea se sentir lesado.

→ Poderá entrar com processo por demais danos materiais e/ou morais, mesmo que tenha recebido o valor da passagem.

→ Prazo de um ano para recorrer à Justiça, a partir da data do voo em que houve o problema.

→ Pode-se ingressar no Juizado Especial Cível (para pedir indenizações em valores de até 40 salários mínimos), ou na Justiça Comum, para reclamar valores maiores.


(Fonte: Pro Teste. Procon-SP)


Hospital



Doente da Santa Casa...
Que sina, que desgraceira:
De segunda a sexta-feira,
É cutucado, apalpado,
É cheirado, revirado,
Quase liquidificado
Por estudante tarado
Que junta na cabeceira.

Tiram sangue, botam sangue,
Exames de raio X,
Agulha grossa na veia,
Tacam sonda no nariz,
Martelada no joelho,
Peteleco na barriga,
Cada exame desgraçado
Pra descobrir uma lombriga.

− Diz “trinta e três”.
− Trinta e três.
− Mais uma vez.
− Trinta e três.
E a todos que vão pedindo,
Vai o infeliz repetindo:
− Trinta e três, trinta e três,
E diz quatro, cinco, seis,
Setenta, noventa e seis.

Doente da Santa Casa...
Que resistência brutal!
Seu braço é mais picotado
Que bilhete da central;
Seu fígado é mais apalpado
Que broto no carnaval;
Seu pulmão é mais ouvido
Que o Hino Nacional.

E se ele cai na besteira
De ter uma doença rara,
Dessas que nem catedrático
Diagnostica de cara,
Aí mesmo é que o infeliz
Sofre pra burro, não para:

Vem aluno, vem doutor,
Vem catedrático, reitor,
Levam o homem pro Congresso,
Doença pouco comum,
Na Santa Casa, é um sucesso.

E todo remédio novo,
Antes de ser dado ao povo,
O laboratório não esquece:
Manda a mostra pro doente
Pra ver o que é que acontece.

Se o caso é de abrir barriga,
Às vezes sai até briga.
Mas no fim tudo se ajeita:
Um que abre, outro que fecha
E o terceiro, que enfia a mecha.

Doente da Santa Casa...
Que alegria ele tem
Quando a enfermeira anuncia:
− O doutor hoje não vem.


(Texto de Max Nunes – humorista e médico cardiologista)



Idolatria


Sérgio Faraco


Eu olhava para a estrada e tinha a impressão de que jamais na vida chegaríamos a Nhuporã. Que pedaço brabo. O camaleão se esfregava no chassi e o pai praguejava:

 ‒ Caminho do diabo!

Nosso Chevrolet era um trinta e oito de carroceria verde-oliva e cabina da mesma cor, só um nadinha mais escura. No para-choque havia uma frase sobre amor de mãe e em cima da cabina uma placa onde o pai anunciava que fazia carreto na cidade, fora dela e ele garantia, de boca, que até fora do estado, pois o Chevrolet não se acanhava nas estradas desse mundo de Deus.

Mas o caminho era do diabo, ele mesmo tinha dito. A pouco mais de légua de Nhuporã o caminhão derrapou, deu um solavanco e tombou de ré na valeta. O pai acelerou, a cabina estremeceu. Ouvíamos os estalos da lataria e o gemido das correntes no barro e na água, mas o caminhão não saiu do lugar. Ele deu um murro no guidom.

‒ Puta merda.

Quis abrir a porta, ela trancou no barranco.

‒ Abre a tua.

A minha também trancava e ele se arreliou:

‒ Como é, ô Moleza!

Empurrou-a com violência.

‒ Me traz aquelas pedras. E vê se arranca um feixe de alecrim, anda.

Agachou-se junto às rodas e começou a fuçar, jogando grandes porções de barro para os lados. Mal ele tirava, novas porções vinham abaixo, afogando as rodas. Com a testa molhada, escavava sem parar, suspirando, praguejando, merda isso e merda aquilo, e de vez em quando, com raiva, mostrava o punho para o caminhão.

O pai era alto, forte, tinha o cabelo preto e o bigode espesso. Não era raro ele ficar mais de mês em viagem e nem assim a gente se esquecia da cara dele, por causa do nariz, chato como o de um lutador. Bastava lembrar o nariz e o resto se desenhava no pensamento.

‒ Vamos com essas pedras!

Por que falava assim comigo, tão danado? As pedras, eu as sentia dentro do peito, inamovíveis.

‒ Não posso, estão enterradas.

‒ Ah, Moleza.

Meteu as mãos na terra e as arrancou uma a uma. Carreguei-as até o caminhão, enquanto ele se embrenhava no capinzal para pegar o alecrim.

‒ Pai, pai, o caminhão tá afundando!

A cabeça dele apareceu entre as ervas.

‒ Não vê que é a água que tá subindo, ô pedaço de mula?

E riu. Ficava bonito quando ria, os dentes bem parelhos e branquinhos.

‒ Tá com fome?

‒ Não.

‒ Vem cá.

Tirou do bolso uma fatia de pão.

‒ Toma.

‒ Não quero.

‒ Toma logo, anda.

‒ E tu?

‒ Eu o quê? Come isso.

Trinquei o pão endurecido. Estava bom e minha boca se encheu de saliva.

‒ Acho que não vamos conseguir nada por hoje. De manhãzinha passa a patrola do DAER, eles puxam a gente.

Atirou a erva longe e entrou na cabina.

‒ Ô Moleza, vamos tomar um chimarrão?

Fiz que sim. Ao me aproximar, ele me jogou sua japona.

‒ Veste isso, vai esfriar.

A japona me dava nos joelhos e ele riu de novo, mostrando os dentes.

‒ Que bela figura.

A cara dele era tão boa e tão amiga que eu tinha uma vontade enorme de me atirar nos seus braços, de lhe dar um beijo. Mas receava que dissesse: como é, Moleza, tá ficando dengoso?

Então aguentei firme ali no barro, com as abas da japona me batendo nas pernas, até que ele me chamou outra vez:

‒ Como é, vens ou não?

Aí eu fui.

*****

(Do livro “Os cem melhores contos brasileiros do século”,
seleção de Ítalo Moriconi – Objetiva)

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A Fita Rosa



Um homem atraente, meia idade,  vestido com um smoking impecável, entrou em um bar e se sentou. Antes de fazer o pedido não deixou de perceber que um grupo de homens mais jovens, que bebiam em uma mesa perto da sua, riam dele. Somente quando se lembrou da pequena fita rosa que levava na lapela de seu blazer, foi que se deu conta que se tratava de uma gozação. O homem não deu maior importância, mas os insistentes risos na mesa vizinha começaram a incomodá-lo. Olhou a um dos homens diretamente nos olhos, levou o dedo até a lapela e apontou a fita: “Isto?” Com este gesto todos os homens da mesa riram abertamente. O homem ao qual dirigiu o olhar lhe disse:

- Desculpe amigo, mas estávamos comentando como está bonito com esta fitinha rosa no blazer azul.

Com toda calma, o homem fez um gesto para o gozador convidando-o a se aproximar e sentar com ele à sua mesa. Ainda que estivesse bastante incomodado, o homem mais jovem se aproximou e sentou-se. O homem mais velho, com uma voz muito calma, lhe disse:

- Uso esta fita para chamar atenção sobre o câncer da mama. Eu uso em honra à minha mãe.

- Sinto muito, amigo, ela morreu de câncer da mama?

- Não. Ela está sadia e muito bem. Mas seus seios me alimentaram quando eu era um bebê e foram abrigo quando tive medo ou me senti só em minha infância. Estou muito agradecido aos seios de minha mãe e por sua saúde.

- Entendo, respondeu o outro, não muito convencido.

- Também uso esta fita para honrar à minha mulher, continuou dizendo o homem. 

- E ela também está bem?

- Claro que sim. Seus seios foram fonte de amor. Com eles alimentou a nossa bela filha de 23 anos. Estou muito grato pelos seios de minha mulher e por sua saúde.

- Já sei. Suponho que também usa a fita para honrar a sua filha.

- Não. É muito tarde para isto. Minha filha morreu de câncer da mama faz um mês. Ela pensou que era muito jovem para ter câncer, assim quando acidentalmente notou uma pequena protuberância, a ignorou. Ela pensou que, como não a incomodava, nem doía, não havia com que se preocupar.

Comovido e envergonhado o estranho disse:

- Sinto muito, senhor.

- Portanto, também em memória de minha filha uso esta fitinha com muito orgulho. Isto me dá oportunidade de falar com os outros. Quando voltar para a sua casa fale com a sua esposa, suas filhas, sua mãe, suas irmãs, suas amigas. Tome..., o homem buscou no bolso e entregou ao outro uma pequena fita rosa. Ele a pegou, olhou-a, lentamente levantou a cabeça e lhe disse:

- Poderia me ajudar a colocá-la?

Incentive às mulheres que você gosta a praticar regularmente o autoexame das mamas e a fazer uma mamografia uma vez ao ano. Por favor, envie esta mensagem a todas as mulheres a quem estime e aos homens que tenha contato, para lembrá-los sobre a importância do autoexame da mama.

(Autor desconhecido)

Uma vela não perde sua luz por compartilhar sua luz com outra.
Por favor, não deixe que esta vela se apague!


Pintura Fim de Romance


Por Luciara Ribeiro


A obra apresentada na primeira série, corresponde a uma pintura de paisagem do início do século XX, especificamente de 1912, essa é uma obra que se assemelha aos modos da pintura acadêmica dos artistas formados pela Escola de Belas Artes, no Rio de Janeiro, durante a segunda metade do século XIX e inicio do XX. O estilo mencionado está vinculado à ideia de retomada dos modelos clássicos de representação da natureza, sobretudo o greco-romano, como se pode observar na obra de Antonio Parreiras.

É necessário frisar que, o período de transição entre o final do século XIX e inicio do século XX, ficou caracterizado tanto por obras que seguem o modelo clássico, quanto obras que usam o moderno, que rompem com o que determinava a academia.

Na tela de Parreiras titulada “Fim de Romance”*, podemos notar a influência acadêmica tanto no modo de pintar quanto no tema escolhido, uma paisagem de interior. O espaço da obra nos determina o tipo de ambiente e o local em que se passa à narrativa representada, um meio rural reconhecido pela estrada sem revestimento asfáltico, a falta de movimentação no local, quase deserto, pela vegetação rasteira e pelas vestimentas típicas de habitantes desses locais. 

A observação da pintura nos possibilita concluir que uma viagem a cavalo foi interrompida, anúncio de um suicídio. Um homem vestido ao estilo gaúcho, circunstância sugestiva de o personagem ter sofrido alguma decepção amorosa que lhe removeu por completa a vontade de viver. No primeiro plano da pintura, encontra-se um corpo masculino adulto estendido na estrada, como se esse estivesse sido jogado. Seus membros superiores e inferiores encontram-se afastados e a alguns centímetros do seu lado direito há um chapéu, que possivelmente tenha caído da sua cabeça durante a queda e rolado, ou esse, pode ter sido levado pelo vento e parou por alguns instantes no local. O corpo do personagem representado não possui movimentos, o que demonstra ser um corpo morto, em sua mão direita há uma arma de fogo, esse a segura sem nenhuma força com uma expressão facial serena e tranquila, como em um sono profundo.

Há um tímido sangue escorrendo de sua cabeça, possivelmente é esse o lugar onde a bala da arma penetrou ao atirar, já suas vestes estão intactas e sem nenhum vestígio de sangue, como se observa na sua camisa de mangas longas em tom rosa claro, sobre ela na altura do pescoço há um lenço azulado e, a altura de sua cintura, observamos outro lenço, esse maior que o anterior, amarrado em volta do seu corpo e sua calça cinza que fica a mostra apenas da altura dos joelhos para cima, o restante de calça encontra-se no interior do cano alto de sua bota marrom-bege.

Ao lado do corpo estendido, em um segundo plano, há um cavalo de pelagem marrom que carrega sobre seu “lombo” uma cela, seu pescoço inclina-se ao corpo, sua boca cheira-o como um cão, que fareja.

O terceiro plano é identificado pela representação do céu e um clima um pouco nebuloso, com uma mistura de nuvens cinzentas com outras mais claras é um céu azulado, mas que se aproximado ao violeta.

A sombra dos personagens foi definida pelo pintor através de pincelas suaves para o lado direito e as cores usadas na composição são em sua maioria frias, é evidente não haver na tela o uso predominantes de cores “puras”, ou melhor, percebemos a preocupação de Parreiras em misturar as tintas no ato de pintar e tentar aproximá-las dos tons encontrado em uma natureza real.

Podemos identificar as linhas de composição da tela, em que a linha do horizonte divide o quadro em uma fração de aproximadamente três quartos, distinguindo céu e solo, a ilusão de perspectiva é dada por uma linha inclinada que concentra o seu ponto de fuga no final da estrada, seu sentido determina a essa forma e direção a essa. O corpo estendido é dado por uma linha também inclinada que cruza a linha de perspectiva e é paralela a linha do horizonte, o pescoço do cavalo possui uma linha inclinada do seu topo até o corpo do morto.

Fim de Romance foi uma das últimas telas pintadas por Antonio Parreiras, que morreu em 1937, ela é sem duvida uma obra instigante que nos memoriza a vida e obra desse grande mestre brasileiro.

*****


Antônio Parreiras, fotografia

* Obra de Antônio Parreiras, Niterói, RJ, 1860; Niterói, RJ, 1937 – pintada em 1912, óleo sobre tela 97 X 185 cm. Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil – transferência da Secretária do Interior, 1915.


Antônio Parreiras, autorretrato

Nem a morte separou Caymmi e Stella Maris



Stella e Dorival jovens

Estavas desprevenida / E por acaso eu também / E como o acaso é importante, querida / De nossas vidas a vida / Fez um brinquedo também. Como na composição Nem Eu, o acaso cumpriu seu papel na vida do autor, Dorival Caymmi. Apresentou-lhe à Stella Tostes no auditório da Rádio Nacional, no Rio de Janeiro. O baiano foi assistir a um programa de calouros, e a jovem mineira subiu ao palco para cantar Último Desejo, de Noel Rosa. “Virei mármore na cadeira”, contou Dorival décadas depois, ainda apaixonado.

Encantado pela loira esbelta, não trocou palavra com ela. Mas só sossegou depois que a conheceu. Quando foram apresentados, a moça já havia sido batizada com o nome artístico Stella Maris – nada mais apropriado para ser enamorada do “amante do mar”. Casaram-se no dia do 26° aniversário dele. Stella tinha 18 anos.

Bem, não se pode dizer que depois disso Caymmi tenha, enfim, sossegado. A atriz Tônia Carreiro comentou: “O mulherio ficava louco com ele, Stella sofria, mas ele não largava aquela Stella de jeito nenhum.” A verdade é que o casal sempre se completou, dizem os amigos e filhos. Ele vivia no mundo da lua e do mar; ela tinha os pés no chão.

Depois de uma vida de 68 anos juntos, nem a morte foi capaz de separá-los. Em 2008 Stella estava internada no hospital. Já quase curada, entrou em coma. Ninguém disse nada a Dorival. O compositor de 94 anos desconfiou, porém, da piora da esposa e “entrou numa melancolia, desistiu de comer, desistiu de tudo”, contou na época a filha Nana. Acabou falecendo. Menos de duas semanas depois, foi a vez de Stella.


Dorival Caymmi: O mar e o tempo, de Stella Caymmi
Editora 34, 2002.


João Gilberto uniu a turma da bossa nova



João Gilberto por Leo Martins

Festa na casa da família Menescal, Rio de Janeiro, 1957. Champanhe e rodas de bate-papo rolam na sala quando se ouve a campainha. Pensando tratar-se de mais um convidado, o jovem Roberto Menescal, então com 19 anos, atende a porta. Depara-se com um completo desconhecido: “Você tem um violão aí? Podíamos tocar alguma coisa.” O rapaz ficou sem reação, e o sujeito completou: “Eu sou João Gilberto. Quem me deu seu endereço foi seu professor de violão.”

Menescal, então um violonista promissor, já tinha ouvido falar do baiano “meio louco, genial, afinadíssimo”. Convidou-o para o quarto do fundo. Postado num canto, João empunhou o instrumento e fez soar os primeiros acordes. Até que soltou a voz: É amor / hô-bá-lá-lá...

O dono da casa ficou em estado de êxtase. Achou espetacular a maneira como a mão direita passeava pelas cordas. E a capacidade vocal, então? A voz soava como instrumento de alta precisão, ao mesmo tempo em que o canto surgia suave, natural, quase falado. Sem os pais perceberem, pegou João pelo braço e levou-o para conhecer Ronaldo Bôscoli, um de seus parceiros musicais. Mais apresentações, agora com a inclusão de Bim-Bom. Outro jovem boquiaberto. Segundo Ruy Castro em Chega de Saudade, o grupo varou a madrugada e parte do dia seguinte de casa em casa. Ninguém dormiu.

Naquele momento começava a se formar o que seria conhecida como “a turma bossa nova”, todos seguidores desse novo mestre. Um ano depois, com a gravação do LP Chega de Saudade, era a vez de o mundo todo conhecer a genialidade de João Gilberto.

Chega de Saudade – A história e as histórias da bossa nova,
de Ruy Castro – Companhia das Letras, 1990.


Textos de livros de Mário Quintana


Mário Quintana por Santiago

Textos do livro de poemas “Sapato Florido”, de Mário Quintana

O Susto

Isto foi há muito tempo, na infância provinciana do autor, quando havia serões em família.
Juquinha estava lendo, em voz alta, A Confederação dos Tamoios.
Tarararararará, tarararararará,
Tarararararará, tarararararará,
Lá pelas tanta, Gabriela deu o estrilo:
- Mas não tem rima!
Sensação. Ninguém parava de não acreditar. Juquinha, desamparado, lê às pressas os finais dos últimos versos... quérulo... branco... tuba... inane... vaga... infinitamente...
Meu Deus! Como poderia ser aquilo?!
- A rima deve estar no meio, - diz, sentencioso, o major Pitaluga.
E todos suspiraram, agradecidos,

Filó

O negrinho Filó era um artista no pente. Naquele velho pente envolto em papel de seda, tirava tudo, de ouvido, desde a Canção do Soldado até La donna è móbile. A gente ficava escutando, com orgulho e inveja. Pois nenhum de nós conseguia tocar pente. Dava-nos cócegas e, como dizia a Gabriela, “a gente se agachava a sirri que não parava mais”. Quando ele morreu, foi logo declarando a sua qualidade para São Pedro: “Musgo!” E São Pedro lhe deu uma gaitinha de boca. Uma linda gaitinha de boca. E até hoje ele vive explicando que não há nada como o pente... Mas o Céu é tão perfeito que na sua Filarmônica não existem instrumentos de emergência: uma pente lá, é um pente mesmo.

Dos Velhos Hábitos

Metia-nos um medo! Era um retrato avoengo, um velho juiz dos velhos tempos, sobrecenho feroz, barba de passa-piolho. De nada ria... Creio que já nascera juiz. Mas piscava o olho quando a criadinha punha-se a esfregar vagarosamente o assoalho, a criadinha de saia arregaçadas e joelhos roliços e juntinhos... e que aliás nunca bispou coíssima nenhuma.

Viver

Vovô ganhou mais um dia. Sentado na copa, de pijama e chinelos, enrola o primeiro cigarro e espera o gostoso café com leite.
Lili, matinal como um passarinho, também espera o café com leite.
Tal e qual vovô.
Pois só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia a dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos...

Fatalidade

Em todos os velórios há sempre uma senhora gorda que, em determinado momento, suspira e diz:
- Coitado! Descansou...

Exegese

- Mas que quer dizer esse poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.
- E que quer dizer uma nuvem? - retruquei triunfante.
- Uma nuvem? - diz ela. - Uma nuvem umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo...

Texto do livro de poemas “Espelho Mágico”, de Mário Quintana

Do Estilo

Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.

Das Belas Frases

Frases felizes... Frase encantadas...
Ó festa dos ouvidos!
Sempre há tolices muito bem ornadas...
Como há pacóvios bem vestidos.

Do Mal e do Bem

Todos têm seu encanto: os santos e os corruptos.
Não há coisa, na vida, inteiramente má.
Tu dizes que a verdade produz frutos...
Já viste as flores que mentira dá?

Da Indulgência

Não perturbes a paz da tua vida,
Acolhe a todos igualmente bem.
A indulgência é a maneira mais polida
De desprezar alguém.

Das Ilusões

Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.
Com ele ia subindo a ladeira da vida.
E, no entretanto, após cada ilusão perdida...
Que extraordinária sensação de alívio!

Da Mediocridade

Nossa alma incapaz e pequenina,
Mais complacência que irrisão merece.
Se ninguém é tão bom quanto imagina,
Também não é tão mau como parece.

Do Pranto

Não tentes consolar o desgraçado
Que chora amargamente a sorte má.
Se o tirares por fim do seu estado,
Que outra consolação lhe restará?

Da Felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz.

Da Discrição

Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Cartola, no moinho do mundo



Você vai pela rua, distraído ou preocupado, não importa. Vai a determinado lugar para fazer qualquer coisa que está escrita em sua agenda. Nem é preciso que tenha agenda. Você tem um destino qualquer, e a rua é só a passagem entre sua casa e a pessoa que vai procurar. De repente estaca. Estaca e fica ouvindo.

Eu fiz o ninho.
Te ensinei o bom caminho.
Mas quando a mulher não tem brio,
é malhar em ferro frio.

Aí você fica parado, escutando até o fim o som que vem da loja de discos, onde alguém se lembrou de reviver o velho samba de Cartola; Na Floresta (música de Sílvio Caldas).

Esse Cartola! Desta vez, está desiludido e zangado, mas em geral a atitude dele é de franco romantismo, e tudo se resume num título: Sei Sentir. Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando. Assim, quando ele nos anuncia: “Tenho um novo amor”, é como se desse a senha pela renovação geral da vida, a germinação de outras flores no eterno jardim. O sol nascerá, com a garantia de Cartola. E com o sol, a incessante primavera.

A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois convivem civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

Em Tempos Idos, o divino Cartola, como o qualificou Lúcio Rangel, faz o histórico poético da evolução do samba, que se processou, aliás, com a sua participação eficiente:

Com a mesma roupagem
que saiu daqui
exibiu-se para a Duquesa de Kent
no Itamaraty.

Pode-se dizer que esta foi também a caminhada de Cartola. Nascido no Catete, sua grande experiência humana se desenvolveu no Morro da Mangueira, mas hoje ele é aceito como valor cultural brasileiro, representativo do que há de melhor e mais autêntico na música popular. Ao gravar o seu samba Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), o maestro Leopold Stockowski não lhe fez nenhum favor: reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes de nossa população. Coisa que contagiou a ilustre Duquesa.

* * *

Mas então eu fiquei parado, ouvindo a filosofia céptica do Mestre Cartola, na voz de Sílvio Caldas. Já não me lembrava o compromisso que tinha de cumprir, que compromisso? Na floresta, o homem fizera um ninho de amor, e a mulher não soubera corresponder à sua dedicação. Inutilmente ele a amara e orientara, mulher sem brio não tem jeito não. Cartola devia estar muito ferido para dizer coisas tão amargas. Hoje não está. Forma um par feliz com Zica, e às vezes a televisão vai até a casa deles, mostra o casal tranqüilo, Cartola discorrendo com modéstia e sabedoria sobre coisas da vida. “O mundo é um moinho...” O moleiro não é ele, Angenor, nem eu, nem qualquer um de nós, igualmente moídos no eterno girar da roda, trigo ou milho que se deixa pulverizar. Alguns, como Cartola, são trigo de qualidade especial. Servem de alimento constante. A gente fica sentindo e pensamenteando sempre o gosto dessa comida. O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada. O som calou-se, e “fui à vida”, como ele gosta de dizer, isto é, à obrigação daquele dia. Mas levava uma companhia, uma amizade de espírito, o jeito de Cartola botar em lirismo a sua vida, os seus amores, o seu sentimento do mundo, esse moinho, e da poesia, essa iluminação.

Carlos Drummond de Andrade

Jornal do Brasil - 27/11/1980


A crônica acima não está em qualquer livro de Drummond. É um tributo ao compositor mangueirense Angenor de Oliveira, o Cartola (1908-1980), e tem uma história curiosa. Foi publicada no Jornal do Brasil em 27/11/1980, três dias antes da morte do criador de “As Rosas Não Falam”.

Ao saber que Cartola estava doente, Drummond decidiu escrever-lhe uma homenagem. “Em seus derradeiros momentos de lucidez, em sua cama no hospital, Cartola ainda pôde lê-la, transformando-a em sua última felicidade”, conta o jornalista e pesquisador musical Arley Pereira, autor do livro Cartola – 90 Anos.