sábado, 31 de maio de 2014

Menino do Rio, vida, paixão e morte



Por Valério Meinel

No começo dos anos 70, com pouco mais de 15 anos de idade, José Artur Machado, o Petit*, era o símbolo da geração de jovens bronzeados, surfistas da praia de Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro, que usavam parafina para tornar as pranchas menos escorregadias e dourar os cabelos compridos. Coisas da moda. Livre, solto, sem outro compromisso com a vida senão viver e viver intensamente. Petit foi imortalizado pelo cantor Caetano Veloso, que se inspirou em sua imagem e, em 1979, compôs Menino do Rio, clássico da música popular brasileira na voz de Baby Consuelo.

Mas, na madrugada de 29 de agosto de 1987, na garupa da moto de um amigo ocasional, sem destino, rasgando uma dolorosa noite interior à procura de si mesmo, encontro que só se tornara possível com o brilho do pó, Petit sofreu um acidente. A violenta pancada da cabeça contra o asfalto o deixou em coma por 40 dias. Sobreviveu, mas com o lado direito do corpo, rosto e boca paralisados. Sequelas que não superou. Uma pessoa comum talvez conseguisse driblar o drama, mas não o “talentoso Petit”, como a ele se referem os amigos. Nessas condições, a vida se tornara insuportável para o Petit que as mulheres - todas as mulheres - chamavam de mel. Mais que um homem de pele dourada, loiro, 1,80 metros e físico forte, ele era uma criança indefesa, os olhos perigosamente verdes.

Quase dois anos depois, na tarde de 7 de março de 1989, aos 32 anos, Petit, que não conseguira se tornar adulto, eterno menino do Rio, matou-se. Trancou-se do mundo e bateu a porta: enforcou-se com a faixa do quimono de jiu-jitsu, o nó preso pelo lado de fora do alto da porta fechada do apartamento. Petit foi encontrado como na música de Caetano: calção, corpo aberto no espaço.

Menino do Rio

Caetano Veloso

Menino do Rio,
Calor que provoca arrepio,
Dragão tatuado no braço,
Calção corpo aberto no espaço,
Coração.
De eterno flerte.
Adoro ver-te!
Menino vadio,
Tensão flutuante do Rio.
Eu canto pra Deus proteger-te...

(bis)

O Hawaí seja aqui
Tudo o que sonhares,
Todos os lugares,
As ondas dos mares,
Pois quando eu te vejo
Eu desejo o teu desejo...





Rico de Souza e Petit, este com o dragão tatuado no braço...

Petit, o fim de uma ilusão

Na tarde de 7 de março de 1989, Tide estava com sua mulher, Maria Teresa, em casa, um apartamento na rua Gomes Carneiro, no Arpoador, quando o telefone tocou. "Tide", perguntou uma voz de homem, que em seguida se identificou: “É o Valtinho. Por que não vem com a Maria tomar uma vodka aqui em casa?” ”Agora?” “Por quê? Tá ocupado?”, insistiu Valtinho. “Tudo bem. Estamos indo.” Tomar uma vodka na casa do Petit e do irmão Valtinho era programa antigo. Tide foi com Maria. O hábito era subir pelo elevador de serviço, porque ele se abria em frente à porta da cozinha do apartamento dos amigos. Mas naquela tarde, Tide não sabe dizer o motivo, subiram pelo elevador social. Quando desembarcaram no andar, em frente à entrada social do apartamento, repararam que no alto da porta fechada havia um grande nó feito com tecido grosso, que na hora não identificaram. “Coisa esquisita...”, comentou Maria. Tide não deu importância: “Deve ser brincadeira do Felipe”, respondeu, referindo-se ao garoto de 10 anos, filho do Valtinho. “Vai ver amarrou um alvo atrás da porta para lançar dardos.” Não voltaram ao assunto e entraram no apartamento pela porta ao lado, a porta da cozinha, sempre aberta. Encontraram Valtinho e seu Machado. Dona Lola havia saído com o neto, Felipe, para pequenas compras. Trocaram algumas palavras na cozinha e Tide perguntou: “Cadê a vodka?” “Tá no bar, vou pegar”, respondeu Valtinho, saindo pela porta da cozinha, que levava para o interior do apartamento. O bar ficava na sala. E de lá veio um grito medonho e palavras de desespero. “Não! Não! Não! Pelo amor de Deus!” Tide, Maria e seu Machado correram à sala. Petit estava morto. Suicidou-se por enforcamento. Deu um grosso nó na faixa do quimono de jiu-jitsu, jogou-o por cima da porta da entrada social e prendeu-o, fechando a porta. Amarrou a outra ponta em volta do pescoço e pôs fim ao sofrimento de viver. Valtinho e o pai desamarraram o nó e fizeram descer o corpo. Tentaram a respiração boca a boca, mas ele já estava morto. Seu Machado quis se jogar pela janela e foi seguro por Tide. Nesse momento, chegaram dona Lola e o neto Felipe, que Maria tirou rapidamente da sala. Alguém telefonou para o pronto-socorro. Tide e a mulher desceram com Felipe. Chegou a ambulância e o médico apenas atestou o óbito. Vieram a polícia e o rabecão. Parado com Teresa e Felipe na esquina, Tide olhou em torno e não reconheceu as ruas, a praça. Aquele lugar não podia ser Ipanema.

* * * * * 

P.S. Em qualquer trabalho de pesquisa, basta um erro, uma imprecisão na última linha, para que o leitor duvide da exatidão de tudo que leu antes.

"Se tiver críticas, diga a mim; se tiver elogios, diga a todos."


Petit e amigos surfistas

A foto acima está no Aquário do Rio de Janeiro.



Retiro




- Amor?
- Hum.
- Neste Carnaval, faremos um retiro.
- Que ótimo, Roberval! Para onde iremos?
- Irei
- Quê?
- Vou sozinho. Quer dizer, com uns amigos do escritório.
- Ah, é?
- Não precisa fazer essa cara desconfiada. É retiro mesmo. Sério. Seríssimo. Meditação e coisa e tal.
- Aham.
- Acredite em mim.
- E por que sem famílias?
- Queremos ficar isolados, sabe como é. Nós, o vazio, o silêncio, a finitude da vida, etc.
- Mas já não ficam isolados a semana toda, naquele cubículo que vocês chamam de escritório.
- É diferente. Poderemos relaxar. E pensar. O mundo anda desse jeito, violento, porque ninguém para pra pensar. E queremos visitar o nosso eu interior.
- Um vai visitar o eu interior do outro? E o meu, como é que fica? Nem no Carnaval?
- Ô, Juraci! Que apelação!
- Tá. Posso arrumar a tua mala, pelo menos?
- Não se preocupe, meu amor. Eu já arrumei.
- Humhum.
- Que foi? Que cara é essa?
- É que já dei uma espiada na tua mala.
- Juraci!
- Vi a máscara. E não me diz que é pra retiro!
- Aiai. Tá, meu amor. Eu confesso. Não sei se você vai entender, mas confesso.
- Confessa o quê?
- Sou black bloc.
- Hein?
- Black bloc. Desculpe, mas sou. E vou protestar conta a Copa. Eu não queria te preocupar, sabe. Tanta violência, gente presa, quebra-quebra, esse horror. Parece a ditadura, lembra?
- Ô.
- Então. A situação do país, essa corrupção, esse...
- Roberval!
- Hum.
- Black bloc usa máscara de colombina?


(Texto de Oscar Bessi Filho, no Correio do Povo)


A crise e o vendedor de cachorros-quentes



Um homem vivia à beira de uma estrada e vendia cachorros-quentes. Não tinha rádio, não tinha televisão e nem lia jornais, mas produzia e vendia os melhores cachorros-quentes da região.

Preocupava-se com a divulgação do seu negócio e colocava cartazes pela estrada, oferecia o seu produto em voz alta e o povo comprava e gostava.

As vendas foram aumentando e, cada vez mais, ele comprava o melhor pão e as melhores salsichas. Foi necessário também adquirir um fogão maior para atender a grande quantidade de fregueses.

O negócio prosperava… Os seus cachorros-quentes eram os melhores!

Com o dinheiro que ganhou conseguiu pagar uma boa escola ao filho. O garoto cresceu e foi estudar Economia numa das melhores Faculdades do país.

Finalmente, o filho já formado, voltou para casa, notou que o pai continuava com a vida de sempre, vendendo cachorros-quentes feitos com os melhores ingredientes e gastando dinheiro em cartazes, e teve uma séria conversa com o pai:

– Pai, o senhor não ouve rádio? Não vê televisão? Não lê os jornais? Há uma grande crise no mundo. A situação do nosso País é crítica. Há que economizar!

Depois de ouvir as considerações do filho Doutor, o pai pensou: “Bem, se o meu filho que estudou Economia na melhor Faculdade, lê jornais, assina a revista Veja, assiste toda a noite ao jornal da Globo na televisão e lê as mensagens do facebook, acha isso, então só pode ter razão!”.

Com medo da crise, o pai procurou um fornecedor de pão mais barato (e, é claro, pior). Começou a comprar salsichas mais baratas (que eram, também, piores). Para economizar, deixou de mandar fazer cartazes para colocar na estrada. Abatido pela notícia da crise já não oferecia o seu produto em voz alta.

Tomadas essas ‘providências’, as vendas começaram a cair e foram caindo, caindo até chegarem a níveis insuportáveis.

O negócio de cachorros-quentes do homem, que antes gerava recursos… faliu.

O pai, triste, disse ao filho:

– Estavas certo, filho, nós estamos no meio de uma grande crise com esse governo que está aí, o negócio só volta a dar certo com alguém da oposição ou  a volta de alguém que nos governe com mão de ferro...

E comentou com os amigos, orgulhoso:

– Bendita a hora em que pus o meu filho a estudar Economia, ele é que me avisou da crise…


*****

Fonte: A história acima foi narrada pelo ministro Ernane Galvêas em palestra proferida a 23.06.81, na Escola Superior de Guerra, com “algumas adaptações...”.

   
Essa história em muito se assemelha ao momento atual em que vivemos no Brasil, onde somos diariamente inundados com notícias do atual estado da economia do nosso país, da pior forma possível. Essas informações, repetidas diariamente na grande mídia brasileira, começam a formar um consenso de que tudo está mal. Mas isso é um alarmismo que, repetido várias vezes, se torna verdade e só tende a piorar as coisas. Pense nisso...


Humor VIP-2


Mário Goulart


Um blefe que não deu certo, segundo Peter Gammond no Manual do blefador.
Deus perguntou a Caim onde andava seu irmão. Caim, que acabara de matar Abel, usou uma das técnicas preferidas dos blefadores, de responder uma pergunta com outra.
- Porventura sou eu guardião de meu irmão?
Era uma boa resposta, mas não funcionou. Gammond:
“Mesmo o mais experimentado dos blefadores não pode esperar sair-se bem quando se defronta com uma Onisciência.”


A cor era sua obsessão, confessou o pintor Claude Monet ao Georges Clemenceau:
- A tal ponto que um dia, encontrando-se ao leito de morte de uma mulher que era muito querida minha, me dei conta de que estava prestando atenção na têmpora dela e automaticamente analisando a sucessão de cores apropriadamente matizadas que a morte estava impondo em sua face sem movimento.


Paulo Hecker Filho escreveu uma crítica sobre o livro do poeta Carlos Nejar:
“Isto não é poesia.”
Carlos Nejar escreveu a resposta ao crítico Paulo Hecker:
“Isto não é crítica.”


O técnico Osvaldo Brandão reclamou de Garrincha de sua desatenção às preleções que antecediam as partidas. Garrincha:
- Chefe é só levantar a cabeça que a gente vê tudo. E aí a gente dá um jeito.


Mário Quintana contava que num congresso em Florianópolis havia 600 poetas novos. Perguntaram-lhe que fazer para melhorar a poesia do Brasil. Ele:
- Não publicar.


Perguntaram a Louis Armstrong o que era jazz.
- Jazz? Se você precisa perguntar, então não vai saber nunca...


Ernani Ssó comentou a Guerra dos Farrapos:
“O Rio Grande do Sul tem um orgulho muito estranho. Comemora até guerra que perdeu.”


Opinião, Marilyn Monroe tinha:
- Eu tenho uma ótima cabeça. Não há nada dentro dela, é claro, mas é uma ótima cabeça.


O consumidor de vinho, haxixe e ópio Charles Baudelaire avisou:
- É inútil que tratador de gado tome a droga. Sonhará apenas com pastos e bois.


Para a atriz brasileira Eva Wilma, sua hora tinha afinal chegado:
- Fechei a fábrica de filhos e abri o parque de diversões.


Segundo o escritor gaúcho Armando Coelho Borges, uma cigana leu sua mão:
- Tens futuro.
E ensinou como:
- Basta que registres o copyright deste pseudônimo: Luís Fernando Veríssimo.


É do próprio fundador, Amador Aguiar, o apelido dado ao então insignificante Bradesco em 1943.
“Banco Brasileiro dos Dez Contos, se há.”


O sábio da efelogia



Malba Tahan

Durante a última excursão que fiz a Marrocos, encontrei um dos tipos mais curiosos que tenho visto em minha vida.

Conheci-o casualmente, no velho hotel de Yazid El-Kedim, em Marrakech. Era um homem alto, magro, de barbas pretas e olhos escuros; vestia sempre pesadíssimo casaco de astracã, com esquisita gola de peles que lhe chegava até às orelhas. Falava pouco; quando conversava casualmente com os outros hóspedes, não fazia a menor referência à sua vida ou ao seu passado. Deixava, porém, de vez em quando, escapar observações eruditas, denotadoras de grande e extraordinário saber.

Além do nome - Vladimir Kolievich - pouco mais se conhecia dele. Entre os viajantes que se achavam em “El-Kedim”, constava que o misterioso cavalheiro era um antigo e notável professor da Universidade de Riga, que vivia foragido por ter tomado parte numa revolução contra o governo da Letônia.

Uma noite, como de costume estávamos reunidos na sala de jantar, quando uma jovem escritora russa, Sônia Baliakine, que se entretinha com a leitura de um romance, me perguntou:

- Sabe o senhor onde fica o rio Falgu?

- O quê? Rio Falgu?

Ao cabo de alguns momentos de baldada pesquisa nos escaninhos da memória, fui obrigado a confessar a minha ignorância, lamentável nesse ponto. Nunca tinha ouvido falar em semelhante rio, apesar de ter feito um curso completo e distinto na Universidade de Moscou.

Com surpresa de todos, o misterioso Vladimir Kolievich, que fumava em silêncio a um canto, veio esclarecer a dúvida da encantadora excursionista russa:

- O Rio Falgu fica nas proximidades da cidade de Gaya, na Índia. Para os budistas, o Falgu é um rio sagrado, pois foi junto a ele que Buda, fundador da grande religião, recebeu a inspiração de Deus.

Diante da admiração geral dos hóspedes, aquele cavalheiro, habitualmente taciturno e concentrado, continuou:

- É muito curioso o rio Falgu. O seu leito apresenta-se coberto de areia; parece eternamente seco, árido, como um deserto. O viajante que dele se aproxima não vê água nem ouve o menor rumor do líquido. Cavando-se, porém, alguns palmos na areia, encontra-se um lençol de água pura e límpida.

Com a simplicidade e clareza peculiares aos grandes sábios, passou a contar-nos coisas curiosas, não só da Índia, como de várias outras partes do mundo. Falou-nos minuciosamente das “filazenes”, espécie de cadeiras em que se assentam, quando viajam, os habitantes de Madagáscar.

- Que grande talento! Que invejável cultura científica! - segredou, a meu lado, um missionário católico, sinceramente admirado.

A formosa Sônia afirmou que encontrara referências ao rio Falgu exatamente no livro que estava lendo, uma obra de Otávio Feuillet.

- Ah! Feuillet, o célebre romancista francês! - atalhou ainda o erudito cavalheiro do astracã. - Otávio Feuillet nasceu em 1821 e morreu em 1890. As suas obras, de um romantismo um pouco exagerado, são notáveis pela finura das observações e pela concisão e brilho do estilo.

Durante algum tempo, prendeu a atenção de todos, discorrendo sobre Otávio Feuillet, sobre a França e sobre os escritores franceses. Ao referir-se aos romances realistas, citou as obras de Gustavo Flaubert: “Salambô”, “Madame Bovary”, “Educação Sentimental”...

- Não se limita a conhecer a Geografia - acrescentou, a meia-voz, o velho missionário. - Sabe também literatura a fundo!

Realmente. A precisão com que o erudito Vladimir citava datas e nomes, e a segurança com que expunha os diversos assuntos, não deixavam dúvida alguma sobre a extensão de seu considerável saber.

Nesse momento, começava uma forte ventania. As janelas e portas batem com violência. Alguns excursionistas que se achavam na sala mostraram-se assustados.

- Não tenham medo - acudiu, bondoso, o extraordinário Kolievich. - Não há motivo para temores ou receios. Faye, o grande astrônomo, que estudou a teoria dos ciclones...

Discorreu longamente sobre a obra de Faye, e depois passou a falar, com grande loquacidade, dos ciclones, avalanches, erupções e todos os flagelos da natureza. Senti-me seriamente intrigado. Quem seria, afinal, aquele homem tão sábio, de rara e copiosa erudição, que se deixava ficar modesto, incógnito, como simples aventureiro, numa velha e monótona cidade marroquina?

No dia seguinte, ao regressar de fatigante excursão aos jardins de El-Menara, encontrei-o casualmente, sozinho, no pátio da linda mesquita de Kasb. Não me contive e fui ter com ele.

- O senhor maravilhou-nos ontem com o seu saber - confessei, respeitoso. - Não podíamos imaginar, com franqueza, que fosse um homem de tão grande cultura. Na sua academia, com certeza...

- Qual, meu amigo! - obtemperou ele, amável, batendo-me no ombro. - Não me considere um sábio, um acadêmico ou um professor. Eu pouco sei, ou melhor, nada sei. Não reparou nas palavras de que tratei? Falgu, filazenes, Feuillet, França, Flaubert, Faye, flagelo. Começam todas pela letra F. Eu só sei falar sobre palavras que começam pela letra F.

Fiquei ainda mais admirado. Qual seria a razão de tão curiosa extravagância no saber?

- Eu lhe explico - acudiu com bom humor o estranho viajante. - Sou natural de Petrogrado e vivo do comércio do fumo. Estive, porém, por motivos políticos, durante dez anos nas prisões da Sibéria. O condenado que me havia precedido, na cela em que me puseram, deixou-me como herança os restos de uma velha enciclopédia francesa. Eu conhecia um pouco esse idioma, e como não tivesse em que me ocupar, li e reli centenas de vezes as páginas que possuía. Eram todas da letra F. Ao final, fiquei sabendo muita coisa; tudo, porém sem sair da letra F: fá, fabagela, fabela, fabiana, fabordão.

Achei curiosa aquela conclusão da original história do inteligente Kolievich, o negociante de fumo. Ele era precisamente o contrário do famoso e venerado rio Falgu, da Índia. Parecia possuir uma corrente enorme, profunda e tumultuosa de saber; entretanto, sua erudição, que nos causara tanto assombro, não ia além dos vários capítulos decorados da letra F de uma velha enciclopédia.

Era, inquestionavelmente, o homem que mais conhecia a ciência que ele próprio denominara “efelogia”.

*****

(Malba Tahan, Seleções - Os melhores contos – Conquista, Rio, 1963)


Júlio César de Melo e Sousa (Rio de Janeiro, 6 de maio de 1895 - Recife, 18 de junho de 1974), mais conhecido pelo heterônimo de Malba Tahan, foi um escritor e matemático brasileiro. Através de seus romances foi um dos maiores divulgadores da matemática no Brasil.


Manual - Como evitar ser roubado



          
Bandido quer segurança. Quanto mais incerto, arriscado for um furto ou assalto, menos chance ele tem de acontecer. Veja abaixo dicas que deixam você menos atrativo aos criminosos.


01. “Oi Vizinho”

Tenha contato com seus vizinhos. Se eles sabem que você está viajando, por exemplo, podem reparar em alguma movimentação estranha na casa e avisar a polícia.

02. Sem adesivo

Evite aqueles que dão pistas de sua rotina. Saber que você mora num bairro bom, vai numa balada da moda ou viaja bastante pode ser o incentivo que o criminosos precisa.

03. Muro aberto

Muros altos e fechados favorecem os bandidos – uma vez dentro da casa, eles não podem ser vistos. Portões com grades ou muros vazados são mais recomendados.

04. Sem embicar

De frente para a garagem, você tem pouca margem de manobra. Se possível pare no sentido do tráfego mesmo e só entre depois que o portão estiver aberto. (Sempre de olho nos retrovisores do carro e nos passantes da rua).

05. Leve a chave

Se morar em prédio com portaria, nunca deixe cópias da chave. Se houver um assalto e o funcionário for rendido, o bandido terá acesso livre ao seu apartamento.

06. Sem bolsa

Bolsa no banco do carona é convite, e escondê-la sob o banco já está manjado. O conselho simples e prático e criar hábito de guardá-lo no porta-malas mesmo

07. Sem parar


Não pare se algo atingiu seu carro e você não estiver em local seguro. É golpe muito comum jogar objetos que obriguem o motorista a parar e se expor

08. “Oi, cobrador”

Ao entrar em um ônibus quase vazio, sente-se ao lado do motorista ou do cobrador. Isolado no fundo do veículo, você fica mais exposto a possíveis ocorrências.

09. Saque dentro

Muitos assaltos na rua acontecem na saída do banco. Prefira agências que fiquem dentro de centros comerciais. Se puder, também evite fazer saques em caixas eletrônicos à noite.

10. Sem celular

Vítimas distraídas são as mais fáceis. A maioria dos roubos de celular ocorre quando se atende o celular na rua ou no carro com vidro aberto.

11. Vai atender?

Se usar o celular for mesmo um caso de urgência, não faça isso no meio da rua, por favor. Qualquer estabelecimento é um local mais recomendado.

12. Na dianteira

Ao andar na rua, deixe o seu celular no bolso da frente – se possível, a carteira também. Deixando seus pertences no bolso de trás, você facilita a ação de mãos-leves.


(Revista Super Interessante – novembro de 2013)




sexta-feira, 30 de maio de 2014

Perguntas ingênuas, respostas imbecis



Em quantas partes se divide a cabeça de um homem?

R.: Depende do tamanho da 'paulada' que ele levar.

Qual a diferença entre o cobrador e o pedreiro?

R.: Na vida do cobrador é tudo passageiro. Na do pedreiro é tudo concreto.

Qual a diferença entre o malandro e a vesícula?

R.: O malandro joga sinuca; a vesícula, bilhar.

O que são dois pontos azuis no canil?

R.: Pit Blue e Bluedog.

A fita crepe e a fita isolante brigaram, quem venceu?

R.: A fita isolante, porque ela é faixa preta.

Por que nenhum caminhoneiro gosta da mãe?

R.: Porque vem escrito atrás: mãe tenha distância.

Qual é a maravilhosa invenção que torna possível ver através das paredes?

R.: A janela.

Por que o elefante não pode tirar a carteira de motorista?

R.: Porque ele pode dar uma trombada.

O que é uma temporada?

R.: Uma briga de japonês.

O cara entrou numa loja de lingerie e comprou três sutiãs. Qual o nome do filme?

R.: Os três patetas.

O que dá um cruzamento de um galo com uma cobra?

R.: Um pintinho comprido.

Qual é o molho que rebola?

R.: Molho vina-Gretchen.

O que um vaga-lume disse para o outro?

R.: Empurra aí que a bateria acabou.

O que acontece no casamento de um dentista e uma manicura?

R.: Eles lutam com unhas e dentes para sobrevivência da família.

 Qual é o tipo que calçado que está sempre com defeito?

R.: O tamanco.

Por que a manicura pediu divórcio?

R.: Porque o marido era unha de fome.

Qual é a melhor maneira de conversar com o lobisomem?

R.: Por telefone.

O que é o que é quanto maior a mulher mais gosta?
R.: Vaga no estacionamento.

O que é um pontinho vermelho pulando na feira?

R.: Um caqui pererê.

Qual é a doença tratada com sopa de tamanduá?

R.: Formigamento.

O que o jardim falou para a roseira?

R.: Estou gramado por você.

Uma mãe aflita ao telefone dizia para o médico:

- Doutor, meu filho engoliu um isqueiro, o que eu faço?

- Vai usando o fósforo que eu já estou chegando.


A arte de negar o fiado

Por Luís Celso Jr.


Quem está acostumado com o mundo boêmio, andando de bar em bar, sabe que para pedir fiado é preciso ter uma grande dose de cara-de-pau. Mas negar, então, é uma arte. Em cada boteco pé-sujo há pelo menos uma frase dizendo que vender bebidas para quem não paga na hora é proibido. E pelo tanto que negam, os pedidos para “pendurar” devem ser muitos. Interessante é ver a criatividade do povo quando o assunto é o mais sério do boteco: dinheiro. Confira abaixo uma seleção de frases e versos de “alerta”, do tipo espanta mau pagador.

“Fiado é igual barba, se não cortar, cresce.”

“Fiado só para maiores de 90 anos acompanhados dos pais.”

“In god we trust, all the others pay in cash.”

“Fiado? Só em dia de feriado, que o boteco está fechado.”

Para não haver transtorno, aqui neste barracão, só vendo fiado a corno, filho da puta e ladrão.

“Promoção! Peça fiado e ganhe um não!”

“Botequim do Serafim. Não é permitido entrar bêbado. Sair sim.”

“O tio que vendia fiado saiu."”

“Mulher bonita não paga, mas também não leva.”

“Em terra de pobre, quem vende fiado é rei.”

“Fiado só a partir de 2099.”

“Leve fiado e ganhe de brinde: a minha sogra.”

A polícia procura suspeito por ter pedido fiado, então não seja o próximo!

Freguês educado não cospe no chão, não pede fiado e não diz palavrão.

“60 num bar, 70 sair 100 pagar, aí mando a polícia 20 buscar.”

“O fiado é muito procurado, mas aqui não será encontrado.”

“Fiado só se faz a um bom amigo, e o bom amigo nunca pede fiado.”

“Eu tenho vergonha de lhe dizer não, por isso não peça fiado.”

Não passe sem parar, não pare sem entrar, não entre sem comprar, não compre sem pagar.”

Nota de Falecimento

“Faleceu, hoje, neste estabelecimento comercial, vítima de derrame financeiro, Dona Conta. Deixa viúvo o Senhor Fiado e os filhos De Graça, Grátis, Pago Depois, Pinduraí e Anota pra mim. A família, inconsolável, pede que não mandem flores, mas dinheiro.”

Quadrinhas

“Para servi-lo aqui estou,
trabalho e não sou folgado,
de amigo, parente e doutor
foi cortado o nosso fiado.

O fiado me dá pena
e a pena me dá cuidado,
me vejo livre da pena
não lhe vendendo fiado.

Caldo de galinha é canja,
conversa não é valentia
tudo com dinheiro se arranja
nesta casa não se fia.”

Se vem por bem,
entre esta casa é sua,
mas se me pedir fiado
não entre, fique na rua.

“Deus inventou o homem,
a mulher inventou o pecado.
Deus inventou o dinheiro,
o Diabo inventou o fiado!”




Pseudônimos


Um pseudônimo (do grego antigo ψευδώνυμος, composto de ψευδο- "pseudo" e ὄνομα "nome", ou seja, "nome falso") é um nome fictício usado por um indivíduo como alternativa ao seu nome legal. Normalmente é um nome inventado por um escritor, um poeta, um jornalista ou artistas que não queira ou não possa assinar suas próprias obras. Sob o aspecto jurídico, o pseudônimo é tutelado pela lei quando tenha adquirido a mesma importância no nome oficial, nas mesmas modalidades que defendem o direito ao nome

→ Tomás Antônio Gonzaga, sob o pseudônimo Critilo, criticava impiedosamente o então governador da capitania de Minas Gerais, Luís da Cunha Meneses.

 José de Alencar escrevia uma coluna no jornal Correio Mercantil chamada "Ao correr da Pena". Assumiu as funções de gerente e redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro e assinava uma coluna com o pseudônimo IG.

 Entre 1944 e 1947, o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues escreveu novelas de folhetim com o nome de Suzana Flag.

 Patrícia Galvão, a Pagu, foi a musa do modernismo brasileiro. Usando o pseudônimo King Shelter, Pagu escreveu nove contos, todos publicados na revista Detective, entre julho e dezembro de 1944. A autora, que foi casada com Oswald de Andrade, escreveu um romance em 1933, com o pseudônimo Mara Lobo.

 Inspirado no personagem satírico Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, Sérgio Porto criou Stanislaw Ponte Preta quando trabalhava no Diário Carioca, no início dos anos 50.

 Millôr Fernandes já usou o pseudônimo Emanuel Vão Gogo; Alfredo Ribeiro, Tutty Vasques; e Mário Prata, Francisco Abbiatti.

 No início de sua carreira, Carlos Drummond de Andrade se identificava como Antônio Crispim. Quando fazia críticas de cinema, ele usava os nomes Mickey ou Gato Félix.

 Com o suicídio de Mário Venâncio, em fevereiro de 1906, o "Echo" deixa de circular. Graciliano Ramos publica na revista carioca "O Malho" sonetos sob o pseudônimo de Feliciano de Olivença.

 Quando escreveu a novela “A Ponte dos Suspiros”, Dias Gomes adotou pseudônimo de Stela Calderón.

 Que em 1972, Chico Buarque de Holanda, para driblar a censura,  utilizou o pseudônimo de Julinho da Adelaide para compor as seguintes músicas: “Acorda, amor”, “Jorge Maravilha” e “Milagre Brasileiro”.

 Que o poeta português Fernando Pessoa utilizou os seguintes heterônimos: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro.

 Paulo Barreto (João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (pseudônimo literário: João do Rio), jornalista, cronista, contista e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 5 de agosto de 1881, e faleceu na mesma cidade em 23 de junho de 1921. Eleito em 7 de maio de 1910 para a Cadeira n. 26, na sucessão de Guimarães Passos, foi recebido em 12 de agosto de 1910, pelo acadêmico Coelho Neto.



quinta-feira, 29 de maio de 2014

O crime da Lagoa dos Barros


A lenda da noiva da Lagoa


Na madrugada de 17 para 18 de agosto de 1940, a adolescente Maria Luiza Häussler deixou o baile na tradicional Sociedade Germânia acompanhada do namorado, o impetuoso jovem Heinz Werner Schmeling. Ambos eram apaixonados, mas o romance encontrava resistência da família da jovem. Heinz chegara a ensaiar uma cena no clube após encontrar a namorada conversando com outro rapaz. O jovem Schmeling seria encontrado em um bar no bairro Belém Velho, ferido com um tiro. Maria Luíza não seria mais vista com vida, seu corpo já estava submerso na Lagoa dos Barros, onde só seria encontrado na madrugada do dia 20. O impacto do crime passional envolvendo dois jovens da rica comunidade alemã da cidade ganharia as manchetes por anos.



O crime na imprensa da época

“Não era possível contemplar aquela figurinha linda de mulher, com a face serena e os braços apertados num abraço amplo e gélido, sem sofrer a mais dolorosa impressão de dor, participando intensamente do drama terrível que a infeliz terá representado nos últimos instantes de vida”.

(Diário de Notícias – 22 de agosto de 1940)

A versão de Heinz


*Acima, Hanz, grafia errada, como saiu seu nome na imprensa da época.

Heinz conta que Maria Luiza era sua namorada há três anos, mesmo com a oposição da família dela. Os dois haviam simulado um rompimento, para aliviar a pressão sobre a garota. A princípio, ele não iria ao baile da Sociedade Germânia, mas decidiu tirar a limpo se ela estava saindo com outro rapaz. No baile, fizeram as pazes e, por volta das três horas da manhã, saíram para conversar melhor.

Ele diz, ainda, ao delegado, no seu primeiro interrogatório, no Hospital Alemão:

 Não atirei! Quando sentamos (no automóvel), vi o revólver na mão de Lisinka. Ela deve ter pegado no porta-luvas. Então, sem mais nem menos, ela disparou! Senti um impacto no peito. Logo depois, ouvi outro tiro. Ela caiu no banco e eu desmaiei. Quando recobrei os sentidos, constatei que ela estava morta.

(...)

 Fiquei desesperado, perdi a noção de tudo e me veio a ideia de ocultar o corpo. – Eu não sabia o que estava fazendo... Havia algumas cordas no porta-malas. Decidi amarrar o corpo em algumas pedras e colocar na lagoa.

A descoberta do corpo

Na lagoa, Abílio (um morador local) anda em círculos. Perto da canoa, Fioravante (pescador local) tropeça e quase perde o equilíbrio.

 Tem alguma coisa aqui! – ele grita, atraindo a atenção de todos.

O pescador esfrega os pés no chão e sente algo macio. Baixa o braço e começa a tatear.

 Acho que é ela! Venham depressa!

Dois policiais entram na lagoa de roupa e tudo.

 Pega as pernas – ordena o inspetor Simão Giordano.

 Cuidado, muito cuidado para que não se perca nenhuma pista  orienta o delegado Gadret.

 Tem umas pedras amarradas nos pés, chefe – diz o inspetor Giordano.

São necessários quatro homens para trazer o corpo à margem com toda a cautela. Entre os policiais, se estabelece uma sensação de regozijo que, no entanto, logo vai se desfazer diante da visão do cadáver.

Paulo Koetz  (repórter do Correio do Povo) agacha-se para enxergar melhor. Maria Luiza é pequena, menor do que ele esperava; bonita, tem rosto tranquilo, mas o que chama a atenção é a posição dos braços, unidos nas pontas como se tivesse abraçado alguém antes de morrer.

(...)

Santos Vidarte (Correio do Povo) e o fotógrafo do Diário de Notícias batem chapas do corpo de todos os ângulos. No rápido exame realizado na margem da lagoa, o delegado Gadret encontra um ferimento a bala à altura do seio esquerdo. A moça estava descalça. O pescoço e as pernas estão amarrados a pedras por um fio de arame. Entre as pedras, o delegado encontra um tijolo com um monograma impresso com as letras JD.

O cadáver de Maria Luiza é coberto com um lenço.

Epílogo

A condenação de Heinz Werner Schmeling foi ratificada pelo juiz Coriolano Albuquerque, que ampliou a pena (de 10 anos e seus meses) para 12 anos, no dia 29 de março de 1944. Heinz foi libertado em 1946, após cumprir metade da pena. Mudou-se para o Rio de Janeiro, em companhia da mãe, Friedel, do padrasto Hans Freiherr e do irmão Gert Joachim. Os quatro abriram a empresa Freiherr & Cia, com sede na Avenida Rio Branco, destinada à “fabricação e exploração comercial de desincrustantes para caldeiras e máquinas a vapor, e comércio em geral de artigos correlatos”. Heinz faleceu em São Paulo, na década de 1980, sem jamais ter se casado ou se interessado por outras mulheres.

(Do livro “A Dama da Lagoa”, de Rafael Guimaraens)
Editora Libretos


A capa do livro é a foto do corpo de Maria Luiza (Lisinka),
amarrado com tijolos, quando foi retirado da lagoa.

*Sempre fiquei intrigado com a foto da capa desse livro, pois nunca tinha visto um cadáver tão sereno e conservado de uma pessoa. No brique que há no bairro Ipanema, em Porto Alegre, falei com o autor do livro citado acima, Rafael Guimaraens, e ele me disse que foto foi tirada dos arquivos do Correio do Povo; portanto ela é real e autêntica.

Fotos dos acontecimentos:


O corpo de Maria Luiza


O carro de Heinz


O local onde foi deixado o corpo



O crime na imprensa e em livro...

E a Lenda...

...E a moça que, segundo o laudo do IML morreu virgem e nunca foi noiva, passou, com seu vestido branco nupcial, a assombrar os caminhoneiros que trafegam, pela freeway, ao lado da Lagoa dos Barros, em Tramandaí, no Rio Grande do Sul...