terça-feira, 20 de maio de 2014

Caso Kliemann

A História de uma Tragédia


Euclydes Kliemann, sendo acossado pela imprensa

(Foto usada na capa do livro)

Acabei de ler, em dois dias, a história de um caso que aconteceu no inverno de 1962, que abalou a sociedade porto-alegrense. Uma jovem esposa de um deputado estadual, Margit Kliemann, fora brutalmente morta dentro de sua casa no bairro Moinhos de Vento. Eu era jovem e acompanhei tudo lendo, principalmente, o jornal Última Hora e as suas manchetes sensacionalistas.

Para mim, para a polícia e para a opinião pública em geral, o assassino fora o marido: o deputado eleito por Santa Cruz do Sul, Euclydes Kliemann.

Agora, lendo o livro, 48 anos após a tragédia, percebo que as coisas não foram bem assim como foram mostradas naquele fatídico ano de 1962. Para as filhas do casal Kliemann, já havia um suspeito dentro da própria família, um sobrinho que o deputado descartou energicamente. Para ele, Kliemann, que era para a polícia o principal suspeito de ter matada a sua esposa, ele não admitia que o filho (drogado e ladrão) da sua irmã pudesse ter matada a sua própria tia.

Fatos retiradas do livro do jornalista Celito de Grandi*

* (1942-2014)


Acima, a família Kliemann

Tudo começou a mudar, no entanto, naquele início de agosto, logo depois do discurso inacabado de Kliemann, quando a polícia prende e mantém detido, durante dois dias de interrogatório, sob rigoroso sigilo, Luiz Fernando Kurth, sobrinho do deputado, filho de Julita Kliemann Kurth, irmã de Euclydes.

Até então, em nenhum momento havia surgido publicamente o nome de Luiz Fernando.

Convém retroceder um pouco no tempo até o sepultamento de Margit Kliemann, em Santa Cruz do Sul. Naquela noite, quando Euclydes conversou com as filhas sobre a morte da mãe, pedindo-lhes que tivessem confiança nele, a mais jovem das meninas (eram três irmãs), Cristina, na espontaneidade de seus anos, fez uma pergunta. Ela havia observado muitas vezes a mãe acalmar a cariciar o sobrinho, quando ele surgia impaciente ou desassossegado, por culpa das drogas e das advertências que lhe fazia Euclydes, a pedido da irmã Julita.

E Cristina indagou ao pai, de chofre:

- Mas não foi o Luiz Fernando?

E meu pai se transformou. Ficou outra pessoa e disse, irritado e ríspido:

- De jeito nenhum fale outra vez neste assunto. O Luiz Fernando está fora de cogitação, ele é da família, ele é primo de vocês, é filho da minha irmã. Nunca mais abra a boca para dizer isso.

E eu pensei: então é ele mesmo. Mais tarde, passei a considerar que meu pai se sacrificou para salvar a aparência do meu primo, e não dar este desgosto à minha tia

Vamos, agora, avançar no tempo. O deputado Euclydes Kliemann está morto. Fora assassinado dentro do estúdio de uma rádio de Santa Cruz do Sul por um vereador da cidade. Uma hora antes, Kliemann (do PSD) havia feito um discurso violento contra seus inimigos políticos, que o atacavam naquilo mais lhe doía: ser suspeito da morte da própria esposa no dia em que fariam aniversário de casamento. Depois, seria a vez do discurso do vereador Karan Menezes (do PTB) refutando as acusações do deputado, que estava em outra sala. Karan o ataca violentamente, Kliemann, furioso, dirige-se ao estúdio e é atingido com um tiro no pulmão, morrendo minutos depois em um hospital da cidade.

Voltemos ao livro de Celito de Grandi:

Depois de ter assediado outra mulher da família, Luiz Fernando Kurth, o sobrinho de Euclydes, ele reagiu com violência à reportagem publicada pelo Coojornal, em novembro de 1976, na qual ele é classificado como viciado em drogas e ladrão de carros.

Foi atrás de Cristina e Suzana (primas) e as ameaçou.

Cristina deparou-se com ele quando atendeu a porta de seu apartamento, através da pequena janela de vidro. Ficou estupefata ao ouvi-lo:

- Só quero te dizer uma coisa. Matei a mãe de vocês e ainda vou pegar mais uma.

           ...

Luiz Fernando, logo depois, foi para o Rio de Janeiro, lá teve um confronto com a polícia e recebeu vários tiros. Até que, em 15 de fevereiro de 1981, morreu em Porto Alegre, baleado na cabeça, em circunstâncias nunca esclarecidas. Chegou a ser levado ao Hospital Cristo Redentor, mas não sobreviveu. Está sepultado no Cemitério São José.

Adendo Final:

Os jornais da época estavam quase todos falidos. Queriam sensacionalismo para vender mais. Sérgio Jockymann criou uma falsa personagem: “A Dama de Vermelho” para dar mais mistério ao caso. Até o delegado do caso intimou, pela imprensa, a falsa dama de vermelho.

Um delgado de polícia só tinha um suspeito e acreditava ser ele o assassino: Euclydes Kliemann, apesar de nunca encontrar nenhuma pista, e só hipóteses para incriminá-lo.

Havia manchas de sangue por quase toda a casa e dezenas impressões digitais, que o delegado nunca quis apurar.

No dia do crime, antes da polícia chegar ao local, havia dezenas de políticos, amigos da família e jornalistas na cena do crime. Quem cobriu as pernas de Dª Margit foi o governador da época: Leonel Brizola.

Pelo crime ninguém nunca foi punido nem se sabe, com certeza, quem foi o assassino.


A capa do livro


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