quinta-feira, 22 de maio de 2014

Canção no tempo



Quinze estrofes que selam a união dos letristas com os bambas da música popular brasileira

Como selecionar as 15 estrofes da música popular brasileira? É missão complicada e polêmica. Mas há que respeitar a regra do jogo. Ou não tem jogo. Entre os versos que ficaram de fora posso lembrar, por exemplo, os de Assis Valente (Em vez de tomar chá com torrada/ele bebeu Parati), de Ataulfo Alves (Quero morrer numa batucada de bamba/na cadência bonita do samba), de Mario Lago (Covarde sei que me podem chamar/porque não calo no peito essa dor/atire a primeira pedra ai, ai, ai/aquele que não sofreu por amor), de Aldir Blanc (E a ponta de um torturante band-aid no calcanhar/Eu hoje me embriagando de uísque com guaraná), de Jorge Faraj (A deusa da minha rua/tem os olhos onde a lua costuma se embriagar) ou de Abel Silva (Nada do que quero me suprime/do que por não saber inda não quis).

São versos marcantes, que emocionam toda vez que os ouvimos bem cantados. No entanto, é lendo as letras nos encartes dos discos brasileiros que se pode avaliá-las melhor e entender por que dão ao povo a sensação de co-autoria. Alguns versos chegam a ser confundidos com ditos da sabedoria popular, como Nem tudo que reluz é ouro/nem tudo que balança cai (na marchinha "Pode Ser Que não Seja", de Braguinha e Antônio Almeida) ou Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima (em "Volta por cima", de Paulo Vanzolini).

Na pesquisa, deparei com letras como a de "Águas de Março" ou a de "Samba de uma Nota só", tão integradas como um todo à canção que não é possível isolar apenas um verso. Isto posto, chegamos aos 15 escolhidos. Ouçam, ou melhor, leiam.

Como se na desordem do armário embutido/
meu paletó enlaça teu vestido/
e o meu sapato inda pisa no teu”

Chico Buarque, em “Eu Te Amo”, 1980

Seria bem mais fácil escolher 15 versos de Chico e dar por terminada a questão. Alguém reclamaria? Herói nacional (segundo Tom Jobim), Chico é fecundo, femininamente sedutor, inteligentemente simples, popularmente culto, ilimitadamente criativo. "Retrato em Branco e Preto", "A Rita", "Quem Te Viu, Quem Te Vê", "Construção", "Atrás da Porta", "Tatuagem", "O Que Será", "Trocando em Miúdos", "Vai Passar", "Injuriado"... Em qualquer período e em qualquer direção. Chico não poderia deixar de ter pelo menos dois entre os melhores versos do século.

“Te perdoo porque choras/
quando eu choro de rir/
te perdoo por te trair”

Chico Buarque, em “Mil Perdões”, 1983

“O Rio de Janeiro continua lindo/
o Rio de Janeiro continua sendo/
o Rio de janeiro, fevereiro e março”

Gilberto Gil, em "Aquele Abraço", 1969

Gil e Caymmi são os dois artistas mais completos da música brasileira. Gil é um mestre nos achados sonoros. Além disso, sua obra é repleta de toques surpreendentes, de uma variedade imensa, e ele está sempre à vontade. Neste samba, os versos, mesmo que só declamados, têm o ritmo sincopado de um tamborim.

“Acho que a chuva ajuda a gente a se ver/
venha, veja, deixa, beija, seja o que Deus quiser/
a gente se embala, se embola, se embola só para na porta da igreja/
a gente se olha, se beija, se molha de chuva, suor e cerveja”

Caetano Veloso, em “Chuva, Suor e Cerveja”, 1972


Na capacidade de jogo lúdico com as palavras, Caetano é imbatível. Maneja com impressionante inventividade a rítmica, a prosódia e combinações tais que cria uma forma de homofonias toda pessoal. Usando essa articulação verbal/musical, Caetano pinta um quadro de folia neste frevo empolgante.

“Queixo-me às rosas/mas que bobagem, as rosas não falam/
simplesmente as rosas exalam/
o perfume que roubam de ti”

Cartola, em “As Rosas não Falam”, 1976

A delicadeza dos versos de Cartola, latente num de seus três sambas preferidos em torno da flor de sua Mangueira, é encantadora. Com uma simplicidade estonteante, Cartola oferece ensinamentos de sabedoria nos seus sambas lindos e elegantes.

“Com a corda mi do meu cavaquinho/
fiz uma aliança pra ela/
prova de carinho”

Adoniran Barbosa, em "Prova de Carinho", 
de Adoniran e Hervé Cordovil, 1960

Observador aguçado, tendo quase sempre a cidade de São Paulo como pano de fundo para seus sambas, nosso estimado colega da TV Record tinha a invejável sensibilidade de um artista de circo. Enquanto alguns de seus versos são como diálogos de uma cena de rua, outros refletem uma marcante maneira de o brasileiro demonstrar sua ternura.

“Vista assim do alto/
mais parece um céu no chão”

    Hermínio Bello de Carvalho, em “Sei lá Mangueira”, 
de Hermínio e Paulinho da Viola, 1968.

A sensação de ver a cidade do morro, tão corriqueira para seus moradores, é um panorama quase inacessível para quem vive na cidade. Essa descrição do morro da Mangueira, captada com invejável inspiração pelo poeta Hermínio, descerra a cortina com uma metáfora digna de Neruda.

“Foi um rio que passou em minha vida/
e o meu coração se deixou levar”

Paulinho da Viola, em “Foi um Rio Que Passou em Minha Vida”, 
1970

A cena do desfile das escolas, e principalmente o momento inesquecível em que nasce a paixão do torcedor, não poderia ser melhor imaginada. É a homenagem à sua Portela, de Paulinho, o sambista maior do Brasil.

“Hoje eu quero paz de criança dormindo/
quero abandono de flores se abrindo/
para enfeitar a noite do meu bem/
quero a alegria de um barco voltando/
quero ternura de mãos se encontrando/
para enfeitar a noite do meu bem”

Dolores Duran, em “A Noite do Meu Bem”, 1959

Primeira mulher a participar do escrete dos autores de letra e música, Dolores personifica a essência do samba-canção dos anos 50, a música das mesas de bar nas rodas de boemia, centradas no Rio de Janeiro. Extravasando romantismo por todos os poros, ela atinge com doçura o coração dos namorados com suas imagens sedutoras.

“A felicidade é como gota de orvalho numa pétala de flor/
brilha tranquila, depois de leve, oscila/e cai como uma lágrima de amor”

Vinicius de Moraes, em “A Felicidade”, 
de Vinicius e Tom Jobim, 1959

Vinicius foi o poeta de uma geração que dele se serviu para conquistas amorosas decisivas. Foi uma geração que se identificou inteiramente com seus conceitos realistas sobre o amor. E, mais ainda, Vinicius foi quem deu status aos letristas da música popular do Brasil.

“Tu pisavas nos astros distraída”

Orestes Barbosa, em “Chão de Estrelas”, de Orestes e Silvio Caldas, 1937

Citado como o preferido de Manuel Bandeira, este verso é parte da letra que retrata um momento de saudade profunda e dolorida da mulher que se foi. A cena da lua furando o telhado de zinco para criar esse tapete de estrelas no chão do barraco é perfeita para um filme cult p&b.


Tire o seu sorriso do caminho/
que eu quero passar com a minha dor”

Guilherme de Brito, em “A Flor e o Espinho”, 
de Guilherme de Brito, Nelson Cavaquinho e Alcides Caminha*, 1957

Os versos iniciais deste clássico, celebrados pelo renomado cronista carioca Sérgio Porto, são geralmente atribuídos a Nelson Cavaquinho, um dos maiores mestres do samba. Contudo, nas parcerias de ambos, Guilherme de Brito era o letrista, portanto o autor destes versos de um lirismo angustiado, característico de sua obra.

Quem não gosta de samba bom sujeito não é/
é ruim da cabeça ou doente do pé”

Dorival Caymmi, em “Samba da Minha Terra”, 1940

Caymmi faz canções tão perfeitas que parecem criadas pela tradição popular. Como se poderá sintetizar melhor aquilo que o sambista tem vontade de dizer sobre o samba? Na franqueza destes versos tem-se a sensação de que o assunto está esgotado e não se fala mais nisso.

“Quem acha vive se perdendo”

Noel Rosa, em “Feitio de Oração”, de Noel e Vadico, 1933

Este samba também tem outro verso notável, Batuque é um privilégio/ninguém aprende samba no colégio, evidenciando a descomunal fertilidade de um dos mais admirados compositores brasileiros de todos os tempos. A obra de Noel, criada em menos de dez anos de atividade, é de tal qualidade que daria para extrair facilmente vários outros exemplos preciosos para esta lista. Sem receio de injustiça.

“Quando o verde dos teus oios/
se espaiá na prantação”

Humberto Teixeira, em “Asa Branca”, 
de Humberto e Luiz Gonzaga, 1947

A saga dos nordestinos foi resumida em apenas dois versos memoráveis em que o anseio do sertanejo pela cor verde se concentra nos olhos da amada. Humberto teve o mérito de dar vestimenta de canção a um tema folclórico, a pedido de Luiz Gonzaga, o maior herói da música nordestina.

* Alcides Caminha é o autor dos desenhos de livrinhos de sacanagem, onde criou o personagem Carlos Zéfiro.


Por Zuza Homem de Mello

Enciclopédia viva da música brasileira, é coautor, com Jairo Severiano,
do livro “A Canção no Tempo”, volumes I e II, da Editora 34


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