sábado, 30 de agosto de 2014

Histórias de Paraquedistas V


Salto noturno


Foto de site da Brigada de Infantaria Paraquedista

Leia a narrativa do Sargento Amacyl Pereira da Cunha



Ly Adorno e Amacyl - anos 50 na Colina Longa

No dia 5 de abril de 1963, eu estava à janela do meu apartamento, em Marechal Hermes, por volta das 19 horas, quando ouvi o barulho dos motores do avião C-82 e, poucos segundos depois, avistei a aeronave que se dirigia para a ZL (Zona de Lançamentos) dos Afonsos; era mais um salto noturno.

Quanto a isso nada havia de extraordinário, porque esses saltos são comuns, pois quase que diariamente são realizados, e eu costumo a assisti-los, como disse, do meu apartamento. Acontece que nesse dia (5 de abril de 1963), havia algo diferente naquele ato, e eu sentia como que uma força estranha a chamar-me à atenção para o que se passava..., foi então que liguei os fatos; realmente, aquele salto não era de rotina, pois, algumas horas antes, o nosso saudoso companheiro Sargento Nicolau havia falecido, vítima de acidente de salto. Então eu compreendi o porquê daquele meu estado de espírito, e fui como que tomado por uma onda de emoção e dúvida. A dúvida que pairava no meu espírito naquele momento era saber por que aqueles bravos soldados do ar estariam saltando? – Seria em homenagem ao heroico Sgt. Nicolau – que morrera horas antes lutando contra as forças (invencíveis) do destino, ou seria simplesmente de protesto e desprezo à traiçoeira morte, a qual havia ceifado a vida de um de seus companheiros? Confesso que naquele momento não consegui resposta a estas perguntas, e a dúvida continuou (e ainda continua) a martelar-me o cérebro...

Por que saltariam eles? Porém de uma coisa tive absoluta certeza: naquele momento tratava-se de uma luta titânica entre os arrojados paraquedistas e a maldita morte, e esta (a morte) fora fragorosamente derrotada e, como que acovardada e trêmula, numa correria louca, fugiu para bem longe, desaparecendo na imensidão da noite.

VENCERA A MÍSTICA DOS PARAQUEDISTAS!


§ § § § §

Observação: Quando havia um acidente com morte de um paraquedista, no mesmo dia e a qualquer hora do dia, todos eram convocados para saltar, demonstrando, com isso, que não temiam a morte, que a morte não os venceriam. Pelos menos era assim até os anos 60...

Nilo da Silva Moraes


Assim nasceu a independência

          


Embora o país tenha começado a romper os grilhões coloniais no instante em que D.João VI abriu os portos "às nações amigas", em janeiro de 1808, os fatos que antecederam a independência do Brasil estão diretamente ligados à Revolução Liberal do Porto, que eclodiu em agosto de 1820.

Portugal era então governado pelo marechal inglês Beresford, que expulsara os franceses do país. Indignados com a situação - e com o fato de custearem a permanência de D.João VI no Brasil -, os revoltosos se aproveitaram da ida de Beresford ao Rio para deflagrar o movimento. Além de forçar D.João VI a retornar a Portugal a junta provisória que assumiu o controle do país decidiu reconvocar as Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, que, noutros tempos, eram reunidas em épocas de crise. E foi graças à intransigência das Cortes que os fatos se precipitaram, não deixando aos brasileiros outra opção que não a luta pela independência. Como Portugal não tinha uma  Constituição,  D.João VI  foi  forçado a jurar uma nova, que se baseava na Constituição espanhola de 1812.

Pelas novas regras do jogo, o Brasil - que, desde 1808, ocupava uma posição de supremacia no império português - perdia seus privilégios e teria de voltar a se submeter inteiramente ao governo da metrópole. Mas o novo regime, representativo, permitiria a participação brasileira no governo de Lisboa. O problema era que, de acordo com as novas leis, as colônias eram sub-representadas e as eleições, indiretas. Assim sendo, das 181 cadeiras das Cortes, apenas 72 poderiam ser ocupadas por deputados brasileiros - e, entre esses, havia os que eram francamente favoráveis à metrópole. Apesar dessas vantagens, as Cortes sequer esperaram que todos os representantes do Brasil chegassem a Lisboa para, em 7 de março de 1821 - com somente 46 dos 72 brasileiros presentes no plenário -, votar a emenda que simplesmente dissolvia o reino do Brasil.

Na verdade, não era difícil perceber que o propósito básico das Cortes era "recolonizar" o Brasil. Em sessões tensas e tumultuadas, com os deputados quase trocando sopapos, as Cortes decidiram que o Brasil não apenas deixaria de ser um reino unido a Portugal como também o vice-reinado, com sede no Rio de Janeiro, não seria restabelecido. Em vez de possuir um governo central, o Brasil seria dividido em províncias autônomas, cujos governadores (militares) seriam nomeados pelas próprias Cortes.

Foram eliminadas também todas as agências, repartições públicas e tribunais de justiça estabelecidos depois de 1807. Além disso, estavam sumariamente demitidos todos os juízes, advogados, escreventes e burocratas que ocupavam esses postos. E, como se não bastasse, as Cortes exigiam o retorno imediato a Lisboa do príncipe regente já que, na opinião dos deputados, não tendo mais o Brasil um governo central, a presença de D. Pedro no Rio passava a ser figurativa. Mas as Cortes decidiram também que não havia lugar para D.Pedro em Portugal: o príncipe deveria fazer, incognitamente, "uma viagem pela Inglaterra, França e Espanha para aprofundar sua educação, de modo a, algum dia, poder ocupar condignamente o trono lusitano".

Uma declaração de guerra não teria efeito maior: enquanto o Brasil se preparava para entrar no século 19, as Cortes propunham um retorno ao século 17. Embora as determinações fossem absurdas e injustas, D.Pedro estava decidido a cumpri-las. Afinal, as tropas portuguesas estacionadas no Rio e os comerciantes lusitanos residentes no país assim o exigiam. Mas, então, em janeiro de 1822, o príncipe recebeu uma petição escrita por José Bonifácio e assinada por toda a junta provincial de São Paulo. Era um documento poderoso, que clamava que o príncipe desafiasse as Cortes e permanecesse no Brasil. O texto, comovente, emocionou D.Pedro - e mudou o rumo da história do Brasil.


Eduardo Bueno/Zero Hora/Agência RBS


Hino à gaúcha



Paulo César Pereio (foto acima) nunca estudou música, nem tocou qualquer instrumento, mas é um dos autores do Hino da Legalidade. O ator era um jovem militante comunista nos idos de 1961. Durante as duas semanas de mobilização popular em defesa da posse de Jango, Pereio perdeu a conta do número de pessoas que ajudou a cadastrar nos Centros de Resistência e no Teatro de Equipe, que havia sido criado com objetivo de profissionalizar o teatro gaúcho, mas logo se transformou em centro de discussão dos intelectuais e artistas.


“Um dia, Hamilton Chaves (Esses moços, pobres moços), na foto acima, assessor de imprensa do Piratini, chegou no Equipe e disse: “Queremos um hino”, lembra Pereio. “Na hora não tinha nenhum músico por lá, peguei a Marselhesa, o hino da França, mudei um pouco o ritmo, e a Lara de Lemos, poetisa que mora hoje em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, pôs a letra”. Com seu vozeirão inconfundível, Pereio saiu direto do Equipe para um estúdio na Rua da Praia e gravou três acetatos com o hino. Depois da posse de Jango, a palavra legalidade foi trocada por lealdade, mas os três acetatos originais foram queimados, segundo Pereio. “Não havia mais interesse em lembrar a Legalidade, a Constituição já havia sido burlada.”


P.S. A campanha pela Legalidade foi o último grande acontecimento histórico revolucionário feito no Brasil, quando um governador civil (Leonel Brizola), o povo e o 3° Exército impedem um golpe militar.



Brizola no porão do Palácio Piratini


Hino da Legalidade


Avante brasileiros, de pé,
Unidos pela liberdade.
Marchemos todos juntos
Com a bandeira que prega a lealdade.

Protesta contra os tiranos,
Te recusa à traição
Que um povo só é bem grande
Se for livre sua Nação.

(Lara de Lemos – Paulo César Pereio)


Notas

A primeira versão sofreu duas mudanças: os gaúchos do original viraram brasileiros – afinal, era preciso empossar o presidente do país, não de um estado apenas. E a palavra legalidade foi trocada por lealdade.

O Hino da Legalidade foi gravado a toque de caixa em acetato confiscados nas Lojas Mesbla, com um coral improvisado pelo elenco do próprio Equipe.

A letra acima, que foi extraída de uma gravação, possui mais duas versões, com pequenas alterações, conforme o livro “1961 que as armas não falem”, de Paulo Markun e Duda Hamilton, e a publicação Veja Rio Grande do Sul, de agosto de 1991.

No site do PDT, colocam também o nome Demóstenes Gonsalez como mais um dos co-autores do Hino da legalidade.

No hino, o coral canta Se recusa à traição, mas no verso anterior canta Protesta contra o tirano (tu), portanto há um erro de concordância verbal.


Carta de Bento Gonçalves




Carta de Bento Gonçalves ao Regente padre Diogo Antônio Feijó

(Responsável pela administração do Brasil na menoridade de D. Pedro II)


(Bento Gonçalves da Silva: 1788 – 1849)


Porto Alegre, 20 de setembro de 1835.

Senhor: em nome do povo da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, depus o Presidente Braga e entreguei o governo ao substituto legal doutor Marciano Ribeiro. E em nome do Rio Grande eu lhe digo que, nesta Província extrema, afastada dos corrilhos e conveniências da Corte, dos rodapés e salamaleques, não toleramos imposições humilhantes nem insultos de qualquer espécie. O pampeiro destas paragens tempera o sangue rio-grandense de modo diferente de certa gente que por aí há.

Nós, rio-grandenses, preferimos a morte no campo áspero da batalha às humilhações nas salas blandiciosas do Paço do Rio de Janeiro. O Rio Grande é a sentinela do Brasil que olha vigilante para o Rio da Prata.  Merece, pois, mais consideração e respeito. Não pode nem deve ser oprimido por déspotas de fancaria. Exigimos que o governo imperial nos dê um presidente de nossa confiança, que olhe pelos nossos interesses, pelo nosso progresso, pela nossa dignidade, ou nos separaremos do centro e, com espada na mão, saberemos morrer com honra ou viver em liberdade.

É preciso que V. Excia. saiba, Senhor Regente, que é obra difícil, senão impossível, escravizar o Rio Grande, impondo-lhe governadores despóticos e tirânicos.  Em nome do Rio Grande, como brasileiro, eu lhe digo, Senhor Regente, reflita bem antes de responder, porque de sua resposta depende talvez o sossego do Brasil. Dela resultará a satisfação dos justos desejos de um punhado de brasileiro que defendeu contra a voracidade espanhola uma nesga fecunda de Pátria; e dela também poderá resultar uma luta sangrenta, a ruína da Província, ou formação de um novo estado dentro do Brasil.


Carta extraída do livro “Os Varões Assinalados”, 
de Tabajara Ruas. Editora L&PM


Histórias de Paraquedistas IV


Dois poemas de paraquedistas


O Temor

3° Sargento Nicolau Radiuz*


*Pqdt 3127 do 1957/3 - MS 834

Data de nascimento 23/11/1937, faleceu em 5/04/1963, em acidente de paraquedas.

Nota: Estes versos foram encontrados entre os objetos deixados  pelo Sgt Nicolauem seu armário, após o acidente que o vitimou.

Roncam os motores e a aeronave estremece.
O medo em mim aparece,
mas eu o domino, heroicamente...

Tem demora, tremo um pouco,
pois sei que a coisa é de louco!

Tal aventura é para um audaz vigoroso...
Rezo um credo... Jamais fui religioso...
Mas hoje sou?! Que destino caprichoso!

Nas horas amargas peço a proteção divina,
pois no espaço a luz do sol me ilumina...

Depois que tudo ocorreu,
chegando ao solo não me lembro de Deus.
Sim, porque Ele sempre me protegeu.
Hoje, Ele ainda me atendeu...

Fatalidade

Sargento Jader do Monte Ferreira*


*Pqdt 4907 do 1958/5 - MS 1013 


(Poema feito em homenagem à morte do Sgt Nicolau)

Era um dia festivo
da Unidade-Padrão.
Pairava no olhar altivo
de quem olhava o avião.

Um homem lutava...
Ao mesmo tempo em que a sorte
ao seu velame rasgava
lhe causando assim a morte.

Um companheiro sem igual.
Destemido, lutador e forte.
Um vibrador sem rival,
sem medo da morte...

Assim morreu Nicolau...
Vi sua luta pela vida.
Vi seu reserva, subindo, enrolando.
Mais tarde vi a ferida
da fatalidade nossa alma enlutando.

Deus Nosso Pai Eterno,
Tu que és o Rei da Terra,
Que nos livra do inferno
e dos maus que a vida encerra,

Livra-nos, também, da imperfeição,
sustentando ou inflando nossos paraquedas
ou amolecendo o chão.



Raciocínios mentais




Não vale pensar no...


01.    Þ Pense num número de 1 a 10.

02.    Þ Multiplique esse número por 9.

                 (Ex. 9 X 6 = 54)

03.    Þ Some os dois algarismos dessa multiplicação.

            (Ex. 54 = 5+4 = 9)

04.    Þ Desse total diminua 5.

            (Ex. 9 – 5 = 4)

05.    Þ Cada número achado vai corresponder a uma letra.

            (Ex. 1=A, 2=B, 3=C, 4=D, 5=E, etc)

06.    Þ Pense num país que comece com essa letra.

07.    Þ Agora, pense na quinta letra desse país.

08.    Þ Finalmente, pense num animal cujo nome comece com essa letra.

09.    Þ Pensou? Pensou bem?

10.    Þ Continue pensando...

11.    Þ Agora leia no fim desta página.




















(Não vale pensar no macaco.)




Raciocínio mental

Vou dar a você uma série de palavras, para dê o seu antônimo, isto é, o sentido contrário da palavra.

Ex. gordo – magro.

 alto - .................................

 feio - .................................

 forte - ...............................

 Claro - .............................

 Branco - ..........................

 Verde - .............................



(Leia observação no fim desta página.)










(Se na última palavra você respondeu amarelo, você é um patriota, mas não entende nada de antônimo, pois o certo seria: maduro.)


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

História do Hino da Independência do Brasil



D. Pedro I

O Hino da Independência do Brasil foi criado logo após o 7 de setembro e, ao ser composto, não tinha esse nome. Nem sua música era a mesma que hoje é cantada nas comemorações da Semana da Pátria. No começo do século XIX, o artista, político e livreiro Evaristo da Veiga escreveu os versos de um poema que intitulou “Hino Constitucional Brasiliense”.

Em pouco tempo, os versos ganharam fama entre a nobreza brasileira e foram musicados pelo amestro Marcos Antônio da Fonseca Portugal.

Aluno do maestro, Dom Pedro I, quando era príncipe regente, manifestava um grande entusiasmo pelo ramo da música e, após a proclamação da Independência do, decidiu compor uma nova melodia para a letra musicada por Portugal.

Com essa modificação, foi oficializada o “Hino da Independência do Brasil”. O feito do governante acabou ganhando tanto destaque que, durante alguns anos, Dom Pedro I foi dado como autor exclusivo da letra e da música do hino.

Depois da abdicação do imperador, em 1831, o “Hino da Independência do Brasil” acabou perdendo prestígio na condição de símbolo nacional. E ficou mais de um século parado no tempo, não sendo executado em solenidades oficiais.

No ano de 1922, data que marcava a comemoração do centenário da Independência, o hino foi novamente executado com a melodia criada pelo maestro Portugal.

Somente na década de 1930, graças à ação do ministro Gustavo Capanema, que o “Hino da Independência do Brasil” foi finalmente regulamentado em sua forma e autoria. Contando com a ajuda do amestro Heitor Villa-Lobos, a melodia composta por Dom Pedro I foi dada como a única a ser utilizada na execução do hino.

Do jornal O Sul, 7 de setembro de 2013




Hino da Independência do Brasil

Letra: Evaristo Ferreira da Veiga
Música: D. Pedro I

Já podeis da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil;
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil,
Já raiou a liberdade,
Já raiou a liberdade,
No horizonte do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá temor servil
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil;
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil.

Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil,
Houve mão mais poderosa,
Zombou deles o Brasil;
Houve mão mais poderosa,
Houve mão mais poderosa,
Zombou deles o Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá temor servil
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil;
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil.

Não temais ímpias falanges
Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil;
Vossos peitos, vossos braços,
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá temor servil
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil;
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil.

Parabéns, ó brasileiros!
Já, com garbo juvenil,
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil;
Do universo entre as nações,
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.



Pátria Minha



Vinicius de Moraes


A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este aviograma:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."


Texto extraído do livro “Vinicius de Moraes”.

Poesia Completa e Prosa, Editora Nova Aguilar

- Rio de Janeiro, 1998, pág. 383.


Revolta da Chibata

Depoimento de João Cândido ao jornalista Edmar Morel:

          "Pensamos no dia 15 de novembro. Acontece que caiu forte temporal sobre a parada militar e o desfile naval. A marujada ficou cansada e muitos rapazes tiveram permissão para ir à terra. Ficou combinado, então, que a revolta seria entre 24 e 25. Mas o castigo de 250 chibatadas no Marcelino Rodrigues precipitou tudo. O Comitê Geral resolveu, por unanimidade, deflagrar o movimento no dia 22. O sinal seria a chamada da corneta das 22 horas. O "Minas Gerais", por ser muito grande, tinha todos os toques de comando repetidos na proa e popa. Naquela noite, o clarim não pediria silêncio, e, sim, combate. Cada um assumiu o seu posto e os oficiais de há muito já estavam presos em seus camarotes. Não houve afobação. Cada canhão ficou guarnecido por cinco marujos, com ordem de atirar para matar contra todo aquele que tentasse impedir o levante. Às 22h50min, quando cessou a luta no convés, mandei disparar um tiro de canhão, sinal combinado para chamar à fala os navios comprometidos. Quem primeiro respondeu foi o "São Paulo", seguido do "Bahia". O "Deodoro", a princípio, ficou mudo. Ordenei que todos os holofotes iluminassem o Arsenal da Marinha, as praias e as fortalezas. Expedi um rádio para o Catete, informando que a Esquadra estava levantada para acabar com os castigos corporais". 


Edmar Morel. A Revolta da Chibata.

          Ultimato enviado pelos rebeldes a Hermes da Fonseca, 
presidente da República:






      "Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá, e até então não nos chegou, rompemos o negro véu, que nos cobria aos olhos do patriótico e enganado povo. Achando-se todos os navios em nosso poder, tendo a seu bordo prisioneiros todos os oficiais, os quais tem sido os causadores da Marinha Brasileira não ser grandiosa, porque durante vinte anos de República ainda não foi bastante para tratar-nos como cidadãos fardados em defesa da Pátria, mandamos esta honrada mensagem para que V. Excia. faça aos Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facilita, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira; bem assim como: retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir a Nação Brasileira. Reformar o Código Imoral e Vergonhoso que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos semelhantes; aumentar o nosso soldo pelos últimos planos do ilustre Senador José Carlos de Carvalho, educar os marinheiros que não têm competência para vestir a orgulhosa farda, mandar pôr em vigor a tabela de serviço diário que a acompanha. Tem V. Excia o prazo de doze (12) horas, para mandar-nos a resposta satisfatória, sob pena de ver a pátria aniquilada. Bordo do Encouraçado "São Paulo" em 22 de novembro de 1910. Nota - não poderá ser interrompida a ida e a volta do mensageiro. [assinado] Marinheiros" 

Edmar Morel. A Revolta da Chibata [respeitada a grafia original].


          Oswald de Andrade descreve a rebelião dos marinheiros 
e fala sobre seu desfecho:

     "Acordei em meio duma maravilhosa aurora de verão. A baía esplendia com seus morros e enseadas. Seriam talvez quatro horas da manhã. E vi imediatamente na baía, frente a mim, navios de guerra, todos de aço, que se dirigiam em fila para a saída do porto. Reconheci o encouraçado Minas Gerais que abria a marcha. Seguiam-no o São Paulo e mais outro. E todos ostentavam, numa verga do mastro dianteiro, uma pequenina bandeira triangular vermelha. Eu estava diante da revolução. Seria toda revolução uma aurora? [...] de repente vi acender-se um ponto no costado do Minas e um estrondo ecoou perto de mim, acordando a cidade. Novo ponto de fogo, novo estrondo. Um estilhaço de granada bateu perto, num poste da Light. [...] Era terrível o segundo que mediava entre o ponto aceso no canhão e o estrondo do disparo. Meus olhos faziam linha reta com a boca-de-fogo que atirava. Naquele minuto-século, esperava me ver soterrado, pois parecia ser eu a própria mira do bombardeio. [...] Era contra a chibata e a carne podre que se levantavam os soldados do mar. O seu chefe, o negro João Cândido, imediatamente guindado ao posto de almirante, tinha se revelado um hábil condutor de navios. Quando mais tarde assisti à exibição do filme soviético Encouraçado Potemkim, vi como se ligavam às mesmas reivindicações os marujos russos e brasileiros. [...] A revolta de 1910 teve o mais infame dos desfechos. Foi solenemente votada pelo Congresso a anistia aos rebeldes, mas uma vez entregues e presos, foram eles quase todos massacrados e mortos. Escapou o Almirante João Cândido e quando, na década de 30, o jornalista Aporelli [Aparício Torelli, o Barão de Itararé] tentou publicar uma crônica do feito, foi miseravelmente assaltado por oficiais da nossa Marinha de Guerra que o deixaram nu e surrado numa rua de Copacabana."


Oswald de Andrade: 

“Um homem sem profissão - Sob as ordens de mamãe”.


Batalhão Sagrado



Luís Alves de Lima e Silva
(Duque de Caxias)

Alcy Cheuiche*

No dia 7 de abril de 1831, o Imperador D.Pedro I foi obrigado a abdicar e abandonar o Brasil. Por essa razão, até hoje recordamos essa data em algumas ruas e naquele lindo teatro de Pelotas. Dizem que o ex-Imperador mal olhou para trás quando sua nau deixou o Rio de Janeiro. Na sua cabeça já estava estabelecido o plano de retomar o trono de Portugal e uni-lo outra vez ao Brasil. De fato, depois de muitas peripécias, chegou a ser coroado D.Pedro IV, mas não tardou a morrer. Ficou em Lisboa uma estátua sua, que todos os brasileiros estranham quando a veem pela primeira vez. Desde crianças tínhamos aprendido a reconhecê-lo pelo rosto sem barbas e ali está ele barbudo como D.Pedro II.

Este coitado tinha apenas cinco anos naquele 7 de abril de 1831 e quase por um milagre conseguiu ascender ao trono. E o artífice maior desse feito, hoje a história reconhece, foi Luiz Alves de Lima e Silva, seu professor de esgrima desde os sete anos de idade. Major naquela época, reconhecido como um dos mais brilhantes oficiais do Exército Brasileiro, o futuro Duque de Caxias apegou-se ao menino e jurou-lhe fidelidade para toda a vida. D. Pedro II, que recebeu a maioridade com apenas quatorze anos para que pudesse reinar, também transferiu para Caxias muito de seu afeto filial. E devemos à coroa de D.Pedro II e à espada de Caxias a incrível unidade territorial brasileira. Inclusive a recuperação do Rio Grande do Sul, cuja perda era praticamente aceita pela regência até 1840. Tudo isso que acabo de contar, salvo talvez o fato de que Caxias foi professor de esgrima do Imperador menino, é do conhecimento da maioria dos brasileiros mais cultos. Mas o que poucos sabem é o fato de que Caxias, nos dias que antecederam o golpe contra D. Pedro I, colocou-se a seu lado para defendê-lo. Seu argumento, inclusive contra o pai, General Francisco de Lima e Silva, futuro Regente do Império, foi o de que o Brasil cairia em um vazio de poder no momento em que D. Pedro I deixasse o país.

E foi o que realmente aconteceu, principalmente no Rio de Janeiro. Contam os cronistas da época, que era tal o número de desertores das Forças Armadas, que a polícia não tinha condições de combatê-los e os criminosos tomaram conta da capital. As famílias ficavam trancadas em suas casas, enquanto ladrões, assassinos e estupradores percorriam impunemente as ruas praticando os crimes mais hediondos. E foi então que o Major Luiz Alves de Lima e Silva resolveu reagir.

Quase todas as noites, durante alguns meses, o futuro Patrono do Exército percorreu as ruas do Rio de Janeiro no comando de um grupo de oficiais dispostos a enfrentar os criminosos. Usando as espadas para escorraçar os ladrões e armas de fogo para matar os assassinos à solta, conseguiram os integrantes desse grupo de voluntários a façanha de devolver a paz às ruas do Rio de Janeiro. E pareceu ao povo tão incrível aquele feito, que os cariocas chamavam o grupo de militares pelo nome de Batalhão Sagrado.

Penso nisso quando o Rio de Janeiro está outra vez nas mãos dos bandidos, desta vez melhor armados e até mancomunados com uma parte da polícia, e alguns consideram que o Exército, a Marinha e a Aeronáutica não devem tomar parte ativa nessa guerra civil. É claro que não se deve mandar às ruas conscritos de dezoito anos que estão apenas em treinamento militar. Mas tropas profissionais, como as que se encontram no Haiti com a mesma finalidade, podem e devem servir a Pátria em qualquer trincheira. Se Caxias fosse major e tivesse trinta anos, seguramente assumiria o comando deste novo Batalhão Sagrado.

*Escritor do Rio Grande do Sul


Retrato infiel



De acordo com historiadores, a famosa pintura “O Grito do Ipiranga”, de Pedro Américo, retrata a Independência do Brasil de um jeito muito mais bonito do que foi na realidade.

Conforme eles, existem evidências de que o quadro concluído em 1888 (66 anos depois da Independência ser proclamada), em Florença, na Itália, não teria retratado o que realmente aconteceu. E os erros seriam os seguintes:

Cavalos:

Dom Pedro I não estava utilizando cavalos. Na época, em viagens longas, se utilizavam jumentos e mulas.

Comitiva numerosa:

No máximo 14 soldados acompanhavam Dom Pedro I na viagem de São Paulo para o Rio.

Roupas:

Nem Dom Pedro I nem ninguém que o acompanhava estariam vestindo uniformes de gala.

Casa do grito:

O primeiro registro da casa que aparecia no fundo da pintura é de 1884, (exatos 62 após o grito da Independência).

Geografia:

O riacho do Ipiranga foi pintado por Américo no lugar errado.

Intruso:

O pintor da tela se autorretratou na obra, apesar de ter nascido muitos anos após a proclamação da Independência do Brasil.

Incidente de percurso:

O príncipe regente foi retratado com semblante de vitória, mas na verdade, estava sentindo fortes dores. Ele estaria com uma diarreia, o que, para muitos historiadores, foi causada pelo cansaço da longa viagem.



terça-feira, 26 de agosto de 2014

Anúncio de João Alves



Carlos Drummond de Andrade

Figura o anúncio no jornal que o amigo me mandou, e está assim redigido:

À procura de uma besta

A partir de 6 de outubro do ano cadente,  sumiu-me uma besta vermelho-escura com os seguintes característicos:  calçada e ferrada de todos os membros  locomotores, um pequeno quisto na base da orelha direita  e crina dividida em duas seções em conseqüência  de um golpe,  cuja  extensão pode alcançar de 4  a 6 centímetros, produzido por jumento.
Essa besta, muito domiciliada nas cercanias deste comércio, é muito mansa e de boa sela, e tudo me induz ao cálculo de que foi roubada, assim que hão sido falhas todas as indagações.
Quem, pois, prendê-la em qualquer parte e a fizer entregue aqui ou pelo menos notícia exata ministrar, será razoavelmente remunerado.

Itambé do Mato Dentro, 19 de novembro de 1899.

(a) João Alves Júnior


55 anos depois, prezado João Alves Júnior, tua besta vermelho-escura, mesma que tenha aparecido, já é pó no pó. E tu mesmo, se não estou enganado, repousas suavemente no pequeno cemitério do Itambé. Mas teu anúncio continua modelo no gênero, senão para ser imitado, ao menos como objeto de admiração literária.

Reparo antes de tudo na limpeza de tua linguagem. Não escreveste apressado e toscamente, como seria de esperar de tua condição rural. Pressa, não a tiveste, pois o animal desapareceu a 6 de outubro, e só a 19 de novembro recorreste à Cidade de Itabira. Antes, procedeste a indagações. Falharam. Formulaste depois o raciocínio: houve roubo. Só então pegaste da pena, e traçaste um belo e nítido retrato da besta.

Não disseste que todos os cascos estavam ferrados; preferiste dizê-lo “de todos os seus membros locomotores”.  Nem esqueceste esse pequeno quisto na orelha e essa divisão da crina em duas seções, que teu zelo naturalista e histórico atribuiu com segurança a um jumento.

Por ser “muito domiciliada nas cercanias deste comércio”, isto é, do povoado e sua feirinha semanal, inferiste que não teria fugido, mas antes foi roubada. Contudo, não o afirmas em tom peremptório: “tudo me induz a esse cálculo”.  Revelas a prudência mineira que não avança (ou não avançava) aquilo que não seja a evidência mesma. É cálculo, raciocínio, operação mental e desapaixonada como qualquer outra, e não denúncia formal.

Finalmente - deixando de lado outras excelências de tua prosa útil - a declaração positiva: quem a apreender ou pelo menos “notícia exata ministrar”, será “razoavelmente remunerado”. Não prometeste recompensa tentadora; não fazes praça de generosidade ou largueza; acenas com o razoável, com a justa medida das coisas, que deve prevalecer mesmo no caso de bestas perdidas e entregues.

Já é muito tarde para sairmos à procura de tua besta, meu caro João Alves do Itambé; entretanto essa criação volta a existir, porque soubeste descrevê-la com decoro e propriedade, num dia remoto, e o jornal a guardou e alguém hoje a descobre, e muitos outros são informados da ocorrência. Se lesses os anúncios de objetos e animais perdidos, na imprensa de hoje, ficarias triste. Já não há essa precisão de termos e essa graça no dizer, nem essa moderação nem essa atitude crítica. Não há, sobretudo, esse amor às tarefas bem feita, que se pode manifestar até mesmo num anúncio de besta sumida.