segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Causos do Rolando Boldrin



Gervásio e o sino

O caboclo Gervásio, lá dos fundões do interior de São Paulo, é um tipo amalandrado. Trabalha duro na roça, ama a mulher, mas gosta de tomar a marvada no fim do dia. A comadre é que não gosta muito das bebedeiras do marido, mas toda vez ele vai dando um jeito de dobrar a coitada. Teve um dia que Gervásio foi saindo, pé ante pé, rumo ao bar mais perto de casa. A mulher já foi logo avisando:

Mulher:

– Ocê vai, Gervásio, mas meia-noite eu fecho a porta.

Gervásio:

– Pode confiar, docinho. Antes da meia-noite eu tô aqui!

Ele se foi. Só que emenda conversa com um, conta um causo de pescador pra outro, o tempo foi indo. Quando viu, já era tarde demais. O sujeito vai pra casa, chega perto da porta devagar e, quando vai bater, o sino da igreja toca uma vez. E dá-lhe aquele barulho imponente que só igreja do interior tem, que ecoa nas montanhas lá longe. Ele arrisca bater na porta mesmo assim.

Mulher:

– Eu não falei que ocê não entrava depois da meia noite? Já é uma da manhã, seu bebum.

Gervásio:

– É nada, mulher… Bateu 10 horas agorinha mesmo...

Mulher:

– Que nada, homem! O sino bateu uma vez só, não ouviu?

Gervásio:

– E ocê queria que ele batesse o “0” como?

Podia estar bêbado, mas Gervásio era malandro que só vendo.

O dia em que o matuto Zé Laurentino tornou- se “quipa”.

Aquele caboclo, o Zé Laurentino, de tão matuto, nunca tinha visto ou assistido pela tal da televisão um jogo de “fitibó”. Mas um dia, eis que passando por um campo de várzea, desses de arrancar toco mesmo, não só ele entra em contato com o “tar”, como, além de tudo, e na marra, o “coroné”, dono da fazenda, do campo, da bola e do apito, escala o dito cujo pra jogar. E de goleiro – ou de “quipa”, como se diz por lá.

E lá vai ele para o gol, defendendo a redonda pra lá e pra cá, caindo toda a hora de boca na poeira. De repente... um pênalti! Todos explicaram pra ele como é a coisa, e que a bola não poderia entrar de jeito nenhum. Quem tomou posição foi o Zé Tombo, apelido que lhe foi dado por derrubar vários “gorquipa” no chão com seus chutes poderosos. E a bola partiu, mas partiu pra valer mesmo, e... Bom, deixa o Zé Laurentino arrematar em versos o que sucedeu:

E quando eu fui pegá a bola,
Me atrapaiei, meu patrão.
Passô pru entre meus braço.
Bateu numa região,
Que foi batendo, eu caindo,
Espulinhando no chão.
Daquele dia pra cá,
nem mode ganhá dinhêro,
Num jogo mais de golêro,
Nem cum chuva, nem cum sór
Nem aqui, nem no deserto,
Nunca mais passo nem perto
Dum campo de futibór.



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