segunda-feira, 19 de maio de 2014

Dicas para não ser assaltado por alguém que já foi assaltado:



Texto de Nilo da Silva Moraes

Obs: Procurei colocar neste texto, através de um fato desagradável que aconteceu comigo: o roubo de meu carro com uma arma apontada para a minha cabeça, e perceber que o erro, na verdade, foi meu. Estar dentro do carro, numa rua até um pouco movimentada, esperando alguém. Percebi que a mancada foi minha. Eu achava que isso só acontecia com os outros. Hoje, sei que pode acontecer a qualquer um, basta estar em qualquer lugar, dando mole, que é justamente o que bandido quer: a distração de alguém. E aí que o assalto acontece...

Com comentários de um carioca especialista em assaltos.

Clarival Vilaça


01.  Você pode nunca ter sido assaltado, mas, com certeza, infelizmente, um dia será.

Comentário: → A não ser que siga as dicas do autor do texto...

02.  Você, quando lê jornais, imagina que isso só acontece com os outros. Não! Isso pode acontecer com qualquer um, é só você estar no lugar errado, na hora errada, que é hora certa para o bandido. O tempo mínimo que você for utilizar, é muito tempo para o meliante.

Comentário: → Eu estava no lugar errado. O estacionamento da Associação Fluminense de Reabilitação é local sobejamente conhecido pelos assaltos e roubos de carros. Como ia demorar muito pouco, não acionei o alarme, apenas as travas das portas.

03.  O ladrão sai para a rua antenado, esperando uma oportunidade. Ele não precisa andar muito, há centenas de descuidados nas ruas (como eu).

Comentário: → Meu filho vinha distraído pela nossa rua, falando ao celular, quando foi assaltado por dois homens numa moto. Felizmente o prejuízo dele foi apenas o celular, porque ele arriscou a vida enfiando a mão na sua mochila, que já estava nas mãos dos bandidos e retirou sua carteira com todos os documentos. Como o homem estava armado, deu uma coronhada no meu filho, este saiu correndo, levando a carteira e poderia ter sido alvejado facilmente pelas costas. A mochila dele foi encontrada por uma senhora que ligou para Globo (o telefone do Projac estava na mochila), onde ele trabalha e, de lá, ligaram pra mim. Do que tinha na mochila tudo foi salvo: roupa de agente de segurança, crachá, tênis e a mochila em si.

04.  Quando o ladrão o enxerga, mesmo que você o tenha enxergado antes, ele não vacila um instante. Em segundos ele já está na porta do seu carro.

Comentário: → Ele está pronto. Nós não. Ele sabe o que vai fazer a seguir, nós não temos ideia. Nossas ações vão depender dele.

05.  Se for à noite, ele já chega encostando o revólver na sua cabeça; se for durante o dia, como no meu caso, para não dar na vista, ele abre, discretamente, a camisa e lhe mostra a arma, quase sempre já engatilhada.

Comentário: → Em qualquer situação, reagir é o pior a fazer.

06.  Não adianta dialogar com o bandido e chorar as mágoas: estou pagando as prestações deste carro, minha mãezinha está doente, estou desempregado... O ladrão não tem alma e nem tem coração. Roubar é o seu meio de vida. Drogar-se é a sua única diversão.

Comentário: → Não se lamente. Ele já ouviu tudo isso e se você agir assim, vai se mostrar mais débil do que realmente é. Ele usará isso para amedrontá-lo mais ainda.

07.  O cara ao meu lado, durante todo tempo, deu mole, queria mais era pegar a chave do carro. Eu poderia tentar pegar, na sua cintura, a sua arma, mas sempre há um outro cuidando a outra porta. Esse está preparado para atirar (no assalto havia dois). Cada um cuida de uma porta do carro.

Comentário: → Nunca reagir. Nada vale uma vida. Um age e outro dá cobertura. E só podemos atuar contra um de cada vez. Vamos perder.

08.  O meu primeiro pensamento foi “dancei”, como pode isso estar acontecendo comigo. Pensei em pegar a minha carteira, mais pelos documentos, no porta-luvas. Isso será sempre um erro. O ladrão pensará que você irá pegar uma arma e, certamente, vai atirar na suas costas ou na sua cabeça.

Comentário: → Nunca deixe seus documentos no porta-luvas. Ele fica muito longe de onde você está. Os meus ficam na porta, ou até no bolso. O mesmo com o celular. Se não está recarregando, fica no bolso. Os documentos, ficando na porta, há uma chance de jogá-los, na rua, ao sair. E os pegar depois.

09.  Você hesita em entregar o seu carro, afinal, ele é um patrimônio que lhe custou caro. Não faça isso, isso só irá irritar mais o bandido, que sabe que se alguém estiver vendo o assalto e, armado, tentará interferir no que está ocorrendo. Demorei, por isso levei um soco violento na cara.

Comentário: → Não se demore muito, mas não seja muito ágil. Ganhe tempo desde que não esteja se arriscando e se puder, demonstre medo para justificar seus movimentos lentos. Pode ser que algo aconteça nesse ínterim.

10.  Em muitos casos o ladrão já chega gritando: “perdeu, playboy”. E, realmente é verdade. Você perdeu, porque deu mole, porque foi descuidado!

Comentário: → Verdade cristalina e imutável. Mas não concordo que você tenha sido “descuidado”. Você é um cidadão de bem, não tem que ficar atento, ou pelo menos, não teria que ficar num mundo perfeito.

11.  Nunca ande com documentos originais na carteira. O trabalho que terei para refazê-los será muito demorado. Ande com estritamente necessário: uma cópia do RG e a carteira de motorista, só isso e pouco dinheiro.

Comentário: → Há gente que anda com cópias de tudo. Bobagem. Leve apenas o que você pode precisar. Tem gente que anda com o título de eleitor, que vai usar dentro de quatro anos.

12.  Saia do carro imediatamente, se você demorar e ficar com eles, terá que dar o seu cartão de banco, dar a sua senha e, no caso de um tiroteio, a polícia manda bala em todo mundo. Além do mais, o ladrão corre muito e não respeita nenhum sinal de trânsito. A chance de ocorrer um acidente com você dentro do carro é muito grande.

Comentário: → Certo. E mais, diga ao assaltante tudo que está fazendo ou que vai fazer, dê a ele a segurança para que ele não o alveje acidentalmente. Lembre-se de que para abrir a porta, suas mãos somem de vista e é importante que o ladrão saiba que isso se deve ao fato de que você está acionando a maçaneta interna para abrir a porta. Uma alternativa é deixar que ele abra a porta por fora.

13.  Não adianta alguém tentar lhe ajudar, emprestando o seu celular para você ligar para a polícia. Você não se lembra da placa, nem da cor do carro. Você está em choque. Vá direto à polícia fazer um BO; telefone para o SPC e entre num site da Polícia Rodoviária Federal.

Comentário: → Quando levaram meu carro eu respirei fundo, analisei a situação e fiz as ligações necessárias. No meu acidente com a moto, aproximei-me da "vítima", procurei avaliar seu estado enquanto ligava para a ambulância. Completada a chamada, pedi a presença deles e informei que conhecia os procedimentos e que manteria a vítima deitada (o rapaz enquanto isso se levantara para ver o estrago da moto). Em seguida, calmo, liguei para a polícia. Mas é claro que foi apenas um acidente. Não havia armas envolvidas.

14.  Infelizmente, as chances de você recuperar o seu carro são mínimas. Há casos do ladrão tentar vender seu carro para você. Pode acontecer de você perder, além do seu carro, o seu dinheiro.

Comentário: → As chances de recuperar seu carro são nulas.

15.  Doravante, se você tiver que esperar alguém, feche a porta do carro e fique longe dele. Só entre nele, se as pessoas que caminham pela rua estiverem numa distância razoável de você.

Comentário: Certíssimo. Se saio e deixo alguém no carro, levo meus documentos e a chave. Azar de quem ficou no carro, sem ar condicionado ligado.

16.  Os ladrões parecem como qualquer pessoa: não usam máscaras, andam de bermudas. São jovens parecendo estudantes em férias. Desconfie de todo mundo. Na rua onde estacionei, havia um guardador para cuidar os carros, que só apareceu minutos depois, lamentado o acontecido.

Comentário: → Corretíssimo. São pessoas perfeitamente confiáveis a uma vista desarmada, como a nossa.

17.  O número de assaltos será cada vez maior. Faça seguro total do carro. Trancas só ajudam se o carro estiver estacionado. Os ladrões querem você no volante do carro.

Comentário: → Meus dois carros e o carro do meu filho têm seguro total. É uma tranquilidade. Comprei o outro carro numa quarta-feira e nesse mesmo dia, à noite, fiz o seguro, por telefone, ou seja, comprei na quarta e na quinta já estava segurado.

18.  Uma coisa boa para se colocar no veículo e não custa muito, é um dispositivo que corta a corrente elétrica do carro. O ladrão pede que você saia e lhe entregue o carro. Você sai, ele entra, anda uns 100 metros e o dispositivo corta a corrente do caro ele não anda mais.

19.  Se você sair vivo, já estará no lucro, pois você não está lidando com seres humanos normais. Eles, quase sempre, estão drogados e a vida humana para eles não vale nada.

Comentário: → Há um visível desvio de personalidade, que faz com que o ladrão nos veja como "alemão", pessoa estranha e agressiva ao seu meio. Vêem-nos exatamente como o leão vê a gazela, sem emoção.

O pior é que, depois que tudo passou, você só fica pensando: se tivesse reagido de outra forma, se ligasse o carro e tivesse me mandado. Sei que, por ser dia claro e a rua estar com um pouco movimento, talvez, eu digo, talvez, o ladrão não atirasse. Mas isso eu nunca terei certeza.

Comentário: → Eu agiria da mesma forma. Quem leu entendeu a explicação dada por um expert sobre isso. Sua arrancada com o carro provocaria o disparo, a gatilhada com os três dedos da coronha da arma puxam a arma para a esquerda e o disparo vai encontrar sua cabeça, que está indo para frente junto com o carro. Você estará morto.

20.  A primeira coisa que pensei: espero que isso nunca aconteça com meus amigos, por isso estou dando essas dicas. Espero que vocês nunca passem pelo que eu passei. Vou comprar um carro novo e fazer tudo o que eu não fiz com o que perdi. O drama nos ensina muito.

Comentário: → Ninguém está livre e todos vão continuar achando que com eles isso não vai acontecer.

21.  E pior de tudo, é que o ladrão é um merda, a arma é que o faz poderoso.

Comentário: → São fracos e covardes. O sentimento de poder transmitido pela posse da arma é o que  há de mais perigoso.

22.  E a segunda pior coisa: Está muito fácil ser roubado. Não há policiamento ostensivo nas ruas. Viatura passa de meia em meia hora. As pessoas veem você sendo assaltado, mas passam batido. Está todo mundo desarmado e com medo nas ruas.

Comentário: → Não existe interesse em inibir o crime.

23.  Um amigo meu, veterano da Polícia Civil, perguntou que idade aparentava o bandido. Eu disse a ele que devia ter uns 30 anos. Meu amigo disse: “Pô, esse cara é velho no crime, geralmente eles morrem muito cedo”.

Comentário: → Verdade. Morrem cedo e de morte violenta.

24.  Esse bandido deve roubar um carro por dia. Imagine num ano quantas chances ele terá de alguém, armado e experiente, dar-lhe um tiro na cara.

Comentário: → Drogados, eles nem se preocupam com isso.

25.  Mesmo que eu tome mil precauções, faça seguro, faça tudo que puder fazer para evitar um novo roubo, ele, certamente, acontecerá de novo, mas vou tomar muito mais cuidado.

Comentário: → Digamos que "poderá" acontecer. Não é fato consumado.

26.  Aprendi uma nova teoria, que eu achava política e humanisticamente incorreta: “Bandido bom é bandido morto!”, mas não é justo pensar assim, não faz bem para ninguém.

Comentário: → E por que pensamos assim? Porque não existe uma política de ressocialização do preso. Ele entra mau e sai pior dos nossos presídios.

27.  A Polícia registra a sua ocorrência sem nada de especial. Ela é banal, é um das mil que ocorrem por dia. Ser roubado é normal, faz parte da vida. Ela, a polícia, não fará nada, o destino incerto do ladrão é será a única justiça que será feita.

Comentário: → A polícia não moverá uma palha para achar seu carro. Se o achar, serão os policiais os primeiros a "depená-lo".

28.  Leia este texto e o divulgue. Será a única alegria que terei em saber que ele poderá ser útil a qualquer pessoa para não passar pelo que passei. Para mim, um carro é apenas um carro, mas para muitos um carro é o seu único e valioso patrimônio.

Comentário: → Suas informações certamente serão úteis a todos que têm carro ou que pretendam ter um. Eu agradeço.

29. Não compre e não ande com carro que chame muito a atenção. Leia as estatísticas dos carros mais roubados. Ostentar, hoje em dia, é pedir para ser roubado.

30. Quando for se despedir de amigos ou parentes defronte a sua casa, não se demore com conversas desnecessárias. Devem entrar no carro e ir logo embora.

Nilo da Silva Moraes & Clarival Vilaça

P.S. As mulheres (e os homens também) deveriam andar com carros com películas (insulfilm) para não dar na vista que estão desacompanhadas. E, quando voltarem para casa, devem olhar sempre pelo retrovisor para perceber se estão sendo seguidas. Se notarem que algum motociclista ou carro as seguem, procurar uma viatura ou posto policial e comunicar imediatamente a sua desconfiança.

P.S. Um tipo de assalto que está se tornando muito comum: você, na madrugada, para num sinal (semáforo), um carro bate, de leve, na traseira do seu carro, você sai para ver o que aconteceu, e, aí, o outro "motorista" encosta-lhe uma arma na cara...

P.S. Se você for um empresário,  ao dirigir-se a um banco e retirar uma quantia razoável de dinheiro, os seus cuidados devem ser redobrados. Muito cuidado ao ir até o seu carro, olhar sempre pelo retrovisor para ver se não está sendo seguido por motoqueiro com caroneiro e de capacete. 

30. Continue vivendo a sua vida normalmente, mas com mais cuidado, nunca duvide que um assalto nunca acontecerá com você, e, mesmo que levem seu carro e não a sua vida, você irá viver muitos anos; o bandido, acho que  não...

Observação final 1: Os vidros de um carro não impedem um tiro de revólver; essa proteção só acontece no cinema, na vida real isso é impossível.

Observação final 2: Não espere que a polícia vá protegê-lo, ela tem muitas coisas em uma cidade para se preocupar, você é a sua segurança, você é o único que pode cuidar de si e da sua família. Pense nisso!

Observação final 3: Desconfie, desconfie sempre, pois a desconfiança pode ser a diferença entre ter uma vida sem assaltos e ser assaltado. O mundo mudou, as chances profissionais são para poucos. Um jovem com uma faca ou um revólver, mais um colega com uma moto podem conseguir coisas que um cidadão comum consegue com muito trabalho. Pense nisso!

Observação final 4: Dica importante de uma mulher cuidadosa:

"Eu sempre carrego uma bolsa velha visível no banco diateiro do meu carro. Nela há documentos antigos, sem nehum valor, um celular defasado e uma quantidade mínima de dinheiro. A minha bolsa verdadeira está embaixo do banco ou no porta-malas. Em caso de assalto numa sinaleira, entrego essa bolsa, pois sei que o asssaltate só vai verificar seu roubo muitos quateirões adiante. Até lá estou muito longe..."


As três luzes de segurança

Um instrutor de tiro de Porto Alegre dava o seguinte conselho aos seus alunos:

– Vocês devem sair de casa tendo o cuidado das cores de luz de um semáforo: ao dirigir um carro pela cidade, a família pode estar em luz verde, sabendo que pode andar sob uma luz que dá segurança; o pai de família, o condutor do veículo cuidando para que nada aconteça sob os efeitos de uma luz vermelha, que é quando acontece uma abordagem de desconhecidos na rua. E condutor deve estar sempre como se o semáforo estivesse em amarelo. A cor do cuidado moderado, mas sempre de olho no inesperado, que é quando as coisas ruins acontecem.

E como o assalto acontece?

→ Cada ser humano, se não tiver um caráter bem formado e com algo de ruim no seu passado, ao ver uma oportunidade, ele não a desperdiça. Muitos assaltos acontecem porque o meliante viu uma oportunidade para praticá-lo. Uma moça frágil num veiculo sem película, tarde da noite, sozinha ou acompanhada de outra moça, frágil, como ela, num semáforo, sem olhar para os lados, sempre será uma presa fácil aos bandidos. Quando nada de ruim acontece conosco, nós nos descuidamos um pouco, julgando nunca nada vai nos acontecer.

→ A cidade cresce desordenadamente, não há controle de natalidade, uma juventude altamente consumista e sem perspectiva profissional, centenas de alunos evadidos das escolas. Drogados aumentando a cada dia, uma juventude que quer tudo de novo que há no mercado: tênis, boné, celular de última geração, tatuagem e baladas com muitas bebidas.

→ Em cada rua, em cada esquina, em cada ônibus, lotação, paradas de ônibus, há sempre um incauto, desligado, com fones de ouvido curtindo o seu sonzinho. Ele ou ela será uma vítima em potencial. Sem falar nas pessoas idosas de andar trôpego, com sacolas ou pacotes nas mãos, no caminho de marginais que circulam, inocentemente, cruzando conosco diariamente, é aí que o assalto acontece...

E Por que há tantas mortes nos assaltos?

Quinta-feira (25.08.2016), 17h30min, na Rua Ari Marinho, bem próximo à esquina com a movimentada Eduardo Chartier, no bairro Higienópolis, zona norte de Porto Alegre, uma mãe, acompanhada pela filha adolescente, dentro de um Honda Fit, aguarda o outro filho, que está por sair da escola. Sem que ela perceba, um homem aproxima-se da janela e, com uma arma, exige que ela entregue o celular. Sem reagir, Cristine Fonseca Fagundes, 44 anos, foi baleada na cabeça e tornou-se a 25ª vítima de latrocínio (roubo com morte) na Capital dos gaúchos.

‒ Deu para escutar ele (criminoso) gritando: "passa o celular, passa o celular" e, logo depois, deu para ouvir o tiro ‒ descreveu uma pessoa que estava próxima ao local e pediu para não ser identificada.

Segundo a Brigada Militar, ela foi abordada por um homem armado após um arrastão, teria se assustado com a ação e acelerado o carro onde estava. Em seguida, foi baleada e morreu dentro do carro.

*****

“Um jovem com uma arma na mão, em Porto Alegre, pode fazer o que quiser. (...) Então, ele se enche de confiança, ele toma o que bem entender, a qualquer hora, de quem quer que seja, ele é o senhor dos destinos das outras pessoas, ele decide se uma mãe de 44 anos deve ou não viver. Ele é maior do que o Estado, porque o Estado não apenas é omisso: o Estado avisou que será omisso.”

David Coimbra em Zero Hora


→ O primeiro contato com a vítima é sempre verbal. O assaltante pede, de maneira ríspida, alguma coisa de valor que está com o assaltado. Este, por pertencer a uma classe social superior a do meliante, e por nunca ter passado por isso, reluta e tenta sobrepor seu ponto de vista para o bandido. E este, quase sempre tenso e, talvez, drogado e armado, com o tempo correndo contra ele, atira, pois esta é a sua lei, este é o seu momento, este seu modo de sobreviver.

→ Mas estão ocorrendo mortes inesperadas. Vítimas que não reagem estão sendo baleadas. O carro luxuoso, a beleza da mulher assaltada, seu status social, tudo isso ofende o bandido. A riqueza da vítima, seu mundo, suas roupas, seus objetos pessoais representam algo que o meliante nunca obterá. Ele nunca deveria ter nascido, foi mal educado, aluno relapso, vagabundo e desinteressado em vencer na vida. Julga que o mundo lhe deve algo que ele nunca lutou para conseguir.

→ Com a mão na arma, quase sempre sem manutenção, um cara cheio de rancor e ódio, apressado e estressado; uma vítima que custa a entender o que está ocorrendo, tentando dialogar onde não há mínima chance de convencimento, pois são dois mundos completamente diferentes, que o acaso reuniu num momento de descuido da vítima. A fatalidade vai tirar a vida de uma pessoa comum, que, desgraçadamente, encontrou-se na mira de um bandido com um revólver na mão. 



E como se forma um marginal?

1° Ele, quase sempre, nasceu por falta de planejamento familiar. Não foi esperado, é apenas mais um numa família que não tinha condição afetiva, financeira, moral e religiosa para educá-lo num mundo cada vez mais competitivo.

2° Não foi devidamente educado para a vida. Nunca teve ambição, propósito profissional e foi mal educado por seus pais, que também nunca tiveram educação.

3° Tudo que quis na vida conseguiu, apesar das dificuldades financeiras de seus pais, com facilidade. Quando quis tênis, teve tênis; quando quis um boné novo, teve o boné. No Natal, implorou e conseguiu um telefone celular. Fez tatuagens berrantes em seu corpo, tudo com a aprovação dos pais.

4° Na escola foi sempre um péssimo aluno: faltou, foi reprovado muitas vezes. Culpava a escola e seus professores. Dormia tarde da noite, acordava quase ao meio-dia. Nunca foi religioso, como seus pais. Dengoso, inseguro, mimado, querendo, mais tarde, ter tudo que achava que a vida devia lhe dar.

5° Mais tarde, quase adulto, vai andar em más companhias. Terá seguido um líder negativo. Vai experimentar drogas leves que algum “amigo” vai lhe oferecer. Um desses “amigos” vai lhe propor um trabalho leve, ficar na campana para um assalto leve, coisa boba, sem importância. Ele vai, vai ganhar uns trocados no mole, e vai perceber que é muito fácil conseguir dinheiro de otários, que somos nós, cidadãos de bem.

6° Em casa, ninguém estranha de como alguém, como seu filho, tem dinheiro, roupas novas e não estuda nem trabalha.

7° Depois, já usando drogas mais pesadas, já armado com seu primeiro revólver, vai ter sonhos mais altos. Com uma companheira, do mesmo meio marginal dele, vai querer ter mais dinheiro e vai, também, ter filhos como seus pais o tiveram.

8° Drogado, nervoso, com o dedo no gatilho de uma arma sem manutenção, vai praticar um assalto,  e, julgando que a vítima vai reagir, pratica seu primeiro assassinato.

9° Se ele um dia for preso, nada vai mudar na sua vida. Mesmo que tenha uma pena reduzida, vai se tornar mais um albergado, praticando assaltos de dia e dormindo numa prisão-albergue à noite.

10° Ele, que começou roubando celulares de trabalhadores em paradas de ônibus, depois roubando operários que ainda sonham em ser cidadãos comuns, em coletivos da madrugada. Foi roubar carros, que é mais fácil, para trocar por drogas, que rendem muito mais.

Até que um dia, ele, levemente drogado, estressado e auto-suficiente, vai para mais um ato meliante de sua vida. Num bar, ou restaurante, ou lotação, sem muito cuidado, pois ele já fez isso dezenas de vezes, no fundo do bar ou do lotação, alguém armado, precavido, vai atirar nele. Vai morrer de bobeira. Marginal não se aposenta, não sai do crime, não se recupera. Ele tem vida curta, pois a única que coisa fez em toda a sua pequena estada neste mundo, foi apropriar-se de coisas que nunca lutou decentemente para consegui-las. Seu filho, provavelmente, irá seguir pelo mesmo caminho...

P.S. Dei aulas, durante muitos anos, em uma escola pública de Porto Alegre. No diurno de 90 alunos, 90 iam até o final do ano. No noturno, com alunos mais velhos e desempregados, de 90 alunos, 30 iam até o final do ano. A maioria desistia por coisas banais: desinteresse, falta de ambição, vontade de ficar em casa sem fazer nada. Seriam presas fáceis para a marginalidade.

P.S. Aprenda lendo jornais, o que acontece com qualquer pessoa: assalto, sequestro, morte, também poderá (ou não) acontecer com você. Os cuidados que a pessoa assaltada não teve, você pode estar, neste momento, fazendo o mesmo. Esperar alguém no carro se divertido no celular ou escutando música é sempre um erro que poderá ser fatal. Pense nisso.


Texto de Nilo da Silva Moraes

Adendo de um expert:

Nunca se amesquinhe. Se achar que dá, reaja imediatamente. Se achar que não, aguarde uma oportunidade, mas nunca pense como animal de presa e sim como animal caçador, que no momento está ameaçado.

O não reagir não lhe garantirá a vida. Mesmo saindo vivo, tendo se acovardado, você se sentirá castrado. Quando se convence um povo a não reagir, em face de qualquer ameaça, este povo estará pronto a ser dominado.

Minha dica: ande armado e atento. O assaltante tem também algo a perder: a vida, igual a nós. A diferença é que somos paraquedistas. Creio que todos nós, já alguma vez, saltamos pensando que íamos nos dar mal, e fomos em frente assim mesmo.

Tenho certeza que você pensou em reagir. O que o deteve foi a propaganda para acovardar o nosso povo. Pense nisto.

Cel Gélio Fregapani

(Que já foi Secretário de Segurança Pública no Acre)


Caro amigo: você apenas fez o que vivem insistindo, que é a atitude correta: não reagir. Além disso, claro, já tinham convencido a quase totalidade de nós a andarmos desarmados, o que diminui muito as nossas chances. Claro, ninguém sabe que resultado haveria em caso de reação, mas não se pode saber, por antecedência, o resultado da não reação. Pode-se até terminar queimado dentro do porta-malas.

Certa vez (em 1990) fui Secretário de Segurança em Roraima e incentivei a reação. Houve meia dúzia de reações, inclusive dos transeuntes, com duas mortes (de bandidos), e nenhum assalto mais ocorreu até eu sair.

O que incentiva a 95% dos assaltantes é a certeza da não reação. Sei que, com o problema do tráfico, a situação está diferente, mas pelo menos em 50% dos assaltos de rua, a arma do bandido não funciona; ou é de plástico, ou sem munição, ou tão ruim que só serve para assustar.

Você, talvez saiba que fui o campeão das Forças Armadas de tiro rápido. Com esta credencial, afirmo ao amigo que o tiro dado com rapidez, sem anos de treino técnico, sai para a esquerda e para baixo, por ação dos três dedos da empunhadura (experimente com tiro em seco na frente do espelho), e o tiro em ação sempre é instantâneo. Com o alvo (nós) em movimento para a direita do bandido é quase impossível acertar. O único caso em que desaconselho é arrancar com o carro, pois o efeito que descrevi fará com que o tiro saia exatamente onde o motorista vai estar: uns 50 cm à frente.

Amigo Nilo, esqueça este aborrecimento. Prepare-se para a próxima; se não houver, sairemos no lucro. Havendo, sou mais você.

Gélio Fregapani



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