quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O futebol de Sandro Moreyra


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A cada quatro anos, desde 1986, eu busco na estante dos meus livros prediletos um dos melhores sobre futebol: “Histórias de Sandro Moreyra”. São registros que mais parecem dribles geniais de Garrincha ou de Pelé tal a forma como Moreyra trata as palavras que vão formando frases e passagens hilárias do nosso maior esporte. Uma pena que o livro esteja esgotado e só é encontrado como "usado, mas em bom estado de conservação", na Internet. Sua melhor crônica é exatamente a que abre o livro e que narra o comportamento da torcida Canarinho numa tourada, em Sevilha, durante uma folga da Seleção Brasileira no Mundial da Espanha, em 1982. Os brasileiros avacalharam o maior espetáculo popular dos espanhóis (hoje o futebol já está quase com a mesma popularidade) quando torceram em massa e com coral debochado para o touro. O toureiro, ao entrar na arena, “ovacionado pelo público local que lhe atirava flores, leques e mantilhas”, não esperava que um torcedor brasileiro, “como suprema homenagem, lhe jogasse o pé direito de uma surrada e malcheirosa conga”. O touro foi recebido “em vigorosos aplausos das arquibancadas repletas de brasileiros e, quando o picador, no seu cavalo, cravou-lhe uma pontuda lança fazendo jorrar um sangue grosso e vermelho em seu pelo preto, uma tremenda vaia explodiu de mistura com gritos compassados de filho da puta e de pilhas de rádio atiradas em sua direção”. Depois, foi a vez do “moço das bandarilhas, com suas calças justas e seu bolero dourado que, ao dar aquela corridinha de bailarino, foi acompanhado com os gritos ritmados de bicha, bicha, bicha”. O toureiro, “ao som festivo de clarins, caminhando a passos firmes, com sua longa capa vermelha, cumprindo o ritual, primeiro dirigiu-se à tribuna de honra e, depois, com a mesma pompa, voltou-se para o público e, em galante reverência, curvou-se numa saudação fidalga”. Sandro Moreyra registrou assim o minuto seguinte: “Ainda estava curvado (o toureiro) quando das arquibancadas estourou uma gritaria bem brasileira, forte e cadenciada: "Um, dois, três, quatro, cinco, mil, eu quero que o toureiro vá pra puta que o pariu!”. Os espanhóis, boquiabertos, se interrogavam: “Los tipos son locos?” E termina Moreyra: “... o touro mantinha um ar embevecido. Jamais, qualquer de seus antepassados recebera tamanha solidariedade. Comovido, ele olhava cheio de gratidão para os canarinhos brasileiros. E tão encantado estava que nem viu quando o matador friamente e com imensa espada matou-o na primeira estocada. Morreu feliz, certamente, por saber que na alma daqueles canarinhos brasileiros havia piedade por ele e repulsa por seu carrasco”.

Vexame na Suíça (1)

Em 1954, o Brasil foi eliminado pela Hungria, na Copa da Suíça, perdendo de 4 x 2. Houve muito tumulto ao final da partida e, mesmo durante o jogo, com as expulsões de Nilton Santos e Humberto. Quando terminou, o craque Zibor, ponteiro húngaro, foi cumprimentar Maurinho e recebeu uma cuspida no rosto. Houve agressões de ambas as partes e o técnico Zezé Moreira deu com uma chuteira na cabeça do ministro dos Esportes da Hungria. O jornalista Paulo Planet Buarque derrubou com uma rasteira um bem-comportado guarda suíço. Mario Vianna, juiz brasileiro da Fifa, disse numa rádio que todos os juízes da entidade eram "uma cambada de ladrões". Foi expulso da organização. Mesmo tentando substituir o termo “ladrões” por “fariseus”.

Vexame na Suíça (2)

Sandro Moreyra conta: “Torcedores no Rio de Janeiro, insuflados contra a Fifa, marcharam para apedrejar a embaixada Suíça, mas, por um lamentável equívoco, quebraram as vidraças da Embaixada da Suécia. O Itamaraty apresentou suas desculpas, mas não pagou os vidros quebrados. Tudo isso aconteceu no dia 19 de junho de 1954. Um dia de cão para o futebol brasileiro”.

Vexame na Suíça (3)

Jaime de Carvalho, criador da Charanga Rubro-Negra, acompanhou a Seleção na Suíça. Na estreia do Brasil, Jaime distribuiu, entre a torcida, os rojões de três tiros com que saudava o Flamengo no Maracanã. Os suíços não entenderam aqueles tiros potentes no estádio. “Guardas apitavam, sirenes tocavam e a fumaceira dos foguetes tornava ainda mais dramática a situação. No dia seguinte, a Fifa enviou à delegação brasileira um ofício enérgico com uma ameaça terrível: se o Brasil repetir o bombardeio de ontem, será para sempre eliminado das Copas do Mundo.”

Na Suécia

O rei Gustavo apertava a mão de Didi na solenidade de entrega da Jules Rimet ao Brasil, que vencera a Copa de 1958. O fotógrafo Jáder Neves perdeu a foto e pediu: “Mister king, repete o cumprimento!”. O dentista da Seleção, Mário Trigo, abraçou o rei pela cintura pedindo que o soberano concordasse: “Diga, ''seu'' king, já viu time mais porreta?”.

No Vaticano

O time da Portuguesa dos Desportos (SP) foi recebido pelo Papa, no final dos anos 50. Toda a delegação ouviu palavras amáveis de Sua Santidade e, na saída da sala de audiências, o massagista Bené abalou os severos e silenciosos salões do Vaticano com o eco de seus tremendos berros: “E ao Papa, nada? Então como é que é? É big, é big, é hora, é hora, ra-tim-bum!”.

No México

Em 1970, o fotógrafo Manuel Ferreira, ao desembarcar no Aeroporto, foi inquirido por agente da aduana: “Por favor señor, nombre y apellido”. Resposta rápida: “Meu nome é Manoel, mas o pessoal me chama de Cebola”.

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Sandro Moreyra (1918 - 29 de agosto de 1987) foi um jornalista e cronista esportivo brasileiro. Filho do poeta e jornalista Álvaro Moreyra e de Eugênia Moreyra, uma das primeiras feministas brasileiras, começou em 1946, no jornal Tribuna Popular, veículo do Partido Comunista Brasileiro. Depois, passou pelo Diário da Noite, até chegar ao Jornal do Brasil, em 1958. Em 1981, começou a escrever uma coluna no jornal e na revista Placar com histórias curiosas sobre personagens do futebol brasileiro, que fizeram dele uma das figuras mais queridas da imprensa. A coluna durou cinco anos, até sua morte, e o sucesso deu origem a seu único livro publicado, “Histórias do Sandro Moreyra”. 

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