quinta-feira, 30 de julho de 2015

Humor de Raul Solnado


Texto que Raul Solnado escreveu
e que foi colocado sábado junto à sua urna.

Raul Augusto Almeida Solnado (Lisboa, 19 de Outubro de 1929 - Lisboa, 8 de Agosto de 2009) foi um humorista, apresentador de televisão e ator português.É pai de Alexandra Solnado, José Renato Solnado e de Mikkel Solnado, além da atriz Joana Solnado.
       

Um vazio no tempo

“Numa das últimas vezes que estive na Expo de Lisboa descobri estranhamente uma pequena sala completamente despojada, apenas com meia dúzia de bancos corridos. Nada mais tinha. Não existia qualquer sinal religioso e por essa razão pensei que aquele espaço se tratava dum templo grandioso.

Quase como um espanto senti uma sensação que nunca sentira antes e de repente uma enorme vontade de rezar não sei a quê ou a quem. Fechei os olhos, apertei as mãos, entrelacei os dedos e comecei a sentir uma emoção rara, um silêncio absoluto e tudo o que pensava só podia ser trazido por um Deus que ali deveria viver e que me ia envolvendo no meu corpo adormecido. O meu pensamento aquietou-se naquele pasmo deslumbrante, naquela serenidade, naquela paz.

Quando os meus olhos se abriram, aquele meu Deus tinha desaparecido em qualquer canto que só ele conhece, um canto que nunca ninguém conheceu e quando saí daquela porta corri para a beira do Tejo para dar um berro de gratidão com a minha alma e sorri para o Universo.

Aquela vírgula no tempo foi o mais belo minuto de silêncio que iluminou a minha vida, que me fez reencontrar e que me deu a esperança de que num tempo que seja breve, me volte a acontecer.

Que esse Deus assim queira!


Raul Solnado”


Do arquivo morto

Importante bilhete que meu tio me deixou, antes de morrer,
esclarecendo um caso que esteve envolvido como testemunha.

Sou obrigado a relatar o que aconteceu, com objetividade e sem grandes preocupações literárias, visto que este é o último papel que me resta e, além disso, a fita da máquina está demasiadamente gasta e temo que para o final da história muitas letras estejam imperceptíveis, podendo resultar, para quem lê, numa interpretação incorreta dos fatos, prejudicando não só as pessoas que, de uma maneira ou de outra, estiveram envolvidas num caso repugnante e altamente escandaloso e cujos nomes mencionarei sem dúvida alguma assim que for chegado o momento. O terrível incidente em questão, além de macular o nome de duas grandes famílias, distorce a imagem do país no estrangeiro e envergonha a raça humana. A necessidade de contar tudo de maneira correta é aumentada agora pelo fato de minha sobrinha ter fechado os meus óculos à chave, e o natural cansaço dos meus olhos faz com que az litras danzem, o que poderá ter como consequência as palivras ficarem com latras traçadas, e qualquer truca de um nome poderá não só ilobar o cukpado como incrumynar om onicente.

Retas difer que suo o ínico pestemunha que koja msmoseghirei pêra o canyte poque n’o qiero omu nme ecolvido nets escavdio. Vou cojtra tudo com onetidade e onetidade polque o ppel está acabando: Ama Res desmofaba do cavalo, para beber aqgaú, seu pymt netysui e seus jetys priugdi, estavam escoj dioheh nsty nety, e seguidamente difama memsm covrdemente, atacaram pelas costradas terba sdnet asdiru dijah osd.

Psiinnd b bsuiftzz ççsm hdh oi crime çah no foi.


(Texto de Raul Solnado, humorista português)


Pensamentos de Raul Solnado

“Nós demos aos brasileiros a terra, o povo e a língua - e nós é que temos sotaque!”

“Tá lá? É da maternidade? Olhe minha senhora, já nasceu o meu filho? Como? Cesariana? Não minha senhora, é um rapaz e nem sequer tem nome!”

“Quando o médico me deu uma palmada no rabo, em vez de chorar, dei uma gargalhada.”

“Façam o favor de ser felizes”…


Este retrato de Raul Solnado, da autoria de André Carrilho, abria as páginas especiais dedicadas pelo Diário de Notícias (09.08.2009 ) a Raul Solnado.

Raul Solnado, que morreu esta manhã (9.8.2009), deixou gravado um último trabalho para a televisão: "As Divinas Comédias", uma série de quatro programas produzida pelas Produções Fictícias e pela Até ao Fim do Mundo, para a RTP 1, apresentada por Bruno Nogueira e Raul Solnado – a mais jovem e a mais antiga gerações do humor em Portugal. O primeiro irá já hoje para o ar, logo a seguir ao Telejornal.


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