quarta-feira, 20 de junho de 2018

Os Operários do Descobrimento

A Vida a Bordo


Representação mítica do mar tenebroso pelos europeus (século XV)

Era dura a vida durante as viagens na época dos descobrimentos. Cercados de privações, disciplina rígida, os marujos enfrentavam ainda o medo do desconhecido. Além das tempestades, sol inclemente e chuva, ainda havia a ameaça de monstros imensos e a crença de que o mundo podia acabar num terrível abismo...

Os navios comandados por Cabral eram quartéis flutuantes: reinava a bordo a mais severa disciplina. Submetidos a uma dieta pobre e a regras rígidas, os tripulantes não desfrutavam de conforto algum, e raros eram os momentos de lazer. A maioria dos homens dormia ao relento, no convés, pois os porões eram ocupados por tonéis com água, vinho e carne salgada. A capacidade dos navios era medida pelo número de tonéis a bordo (origem da expressão “tonelagem”). A base da alimentação eram duros biscoitos de água e sal, que, como o nome indica (“bis”: dois; “coctus”: cozido), eram cozidos duas vezes para durar mais tempo. Os homens recebiam rações iguais: 1,5 litro de água e 1,5 litro de vinho por dia e 15Kg de carne por mês. As refeições eram preparadas em pequenos fogões.

Estudos recentes mostram que a ração servida aos marujos dos séculos XV e XVI tinha apenas 3.500 calorias/dia. Para enfrentar a dureza da vida náutica, eles precisariam de, no mínimo, 5 mil calorias/dia. A carência alimentar provocava reflexos negativos na condição física e psíquica da tripulação.

A água tinha mau cheiro e causava diarreia. Alguns homens passavam tão mal que faziam suas necessidades no porão. Ninguém se lavava: o banho era considerado nocivo à saúde. O contato com os animais levados a bordo (ovelhas e galinhas) aumentava o risco de doenças, e epidemias eram comuns. Tão logo os navios começavam a “corcovear” nas ondulações do Atlântico, os marinheiros de primeira viagem vomitavam, “sujando-se uns aos outros”. Mas os enjoos eram o de menos: as condições higiênicas, os perigos do mar e a luta contra outros povos faziam com que quatro entre dez homens da tripulação não voltassem para casa. A cada três navios que partiam de Portugal, um era “comido pelo mar”, expressão utilizada na época que significava o naufrágio ou o fato de uma nau simplesmente ficar à deriva e perder-se da frota numa calmaria ou numa tempestade. Os perigos eram imensos, os riscos eram dramáticos, o que reduzia muito as chances de retorno. Por isso, antes de zarpar, os marujos assinavam seu testamento e recebiam um ano de salário adiantado.

As Crianças do Mar


http://marinhadeguerraportuguesa.blogspot.com.br/2011/02/
Quadros da Armada Real Portuguesa

Pelo menos 10% dos tripulantes da frota de  Pedro Álvares Cabral eram crianças entre 9 e 15 anos de idade. Algumas haviam sido recrutadas compulsoriamente, mas a maioria fora alistada pelos próprios pais, que embolsavam o soldo dos meninos. A presença de crianças a bordo foi um fenômeno constante ao longo do ciclo de descobrimentos portugueses. Os navios precisavam de grumetes, e os oficiais necessitavam de pajens. Grumetes e pajens eram sempre garotos. A vida dos “miúdos” a bordo era um inferno em meio ao mar.

Aos grumetes cabiam as piores tarefas do navio: lavar o convés, limpar excrementos, costurar as velas. “Se não atender ao segundo toque do apito, os marinheiros descarregam-lhes grandes golpes de bastão”, escreveu um viajante. Pajens e grumetes muitas vezes sofriam abusos sexuais, e mulheres eram vetadas a bordo. As crianças também se viam forçadas a conviver com degredados, criminosos cujas penas haviam sido comutadas em exílio. Na esquadra de Cabral, por exemplo, vieram 20 degredados.

(Texto do livro “Brasil: Terra à Vista!”, de Eduardo Bueno)





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