sexta-feira, 1 de junho de 2018

Zona do Mangue



 Foto de Cláudia Rangel

Zona do Mangue, Rio de Janeiro, nasceu com o desembarque de mulheres do leste europeu em fuga da Primeira Guerra Mundial, pobres e sem os maridos. As polacas, como eram conhecidas, misturaram-se às nativas ao longo dos anos, até desaparecerem. Foram perseguidas e mudaram quase uma dezena de vezes de logradouro, à medida que a cidade se modernizava. Considerada por décadas a maior zona do Brasil.

A Vila Mimosa surgiu no século XIX, a expansão urbana ocorrida na segunda metade deste século promoveu uma grande agitação no porto da cidade do Rio de Janeiro, que se tornou o centro das atividades econômicas do país. Por ali, desembarcavam imigrantes estrangeiros ou migrantes de regiões mais pobres do país em busca de melhores condições de vida. Devido ao enorme fluxo de marinheiros e de uma população de baixa renda, abriu-se espaço ali para o desenvolvimento de um mercado de baixo meretrício.

Através do porto, milhares de meninas oriundas do leste europeu desembarcaram na cidade. Os aliciadores agiam, principalmente, nas aldeias pobres da Polônia, Romênia, Rússia, Áustria e Hungria. Essas meninas que, ao desembarcar, tinham como única opção para sobrevivência, a prostituição, viriam a ser chamadas de “polacas”.

As “polacas” não eram necessariamente polonesas e resumiam a imagem das mulheres nativas de regiões atrasadas agrícola e industrialmente da Europa. Devido a seu fenótipo (mulher branca, loira e de olhos claros), as “polacas” se encaixaram perfeitamente em um ideal extremamente romantizado da burguesia carioca e passaram ser vistas e valorizadas enquanto acompanhantes de luxo.


Com a política de modernização e refinamento da cidade promovida por Pereira Passos, as prostitutas foram expulsas do centro do Rio de Janeiro. As meretrizes foram mandadas em direção aos subúrbios da cidade, e acabaram se estabelecendo no bairro da Cidade Nova. As “polacas” misturam-se, então, às prostitutas brasileiras e se mudam para a rua Pinto de Azevedo. Em uma região que constituía mais de dois quilômetros de raio, as prostitutas consolidam o que ficou conhecido como “Zona do Mangue”.


Zona do Mangue anos 80

A perseguição e repressão das autoridades cariocas e as notícias de prosperidade e riqueza oriundas do Ciclo da Borracha vindas de Manaus, faz com que parte das “polacas” da Zona do Mangue se transfira para a Amazônia. No final do século XIX, já eram as preferidas da alta burguesia da capital amazonense.

Outro fator que explica o desaparecimento das “polacas” da Zona do Mangue é a perseguição que entidades judaicas realizaram contra elas. É que a maior parte das prostituas oriundas do Leste Europeu era judia, e a ligação de uma comunidade inteira a atividades como a prostituição representava o perigo de uma estigmatização e da construção de uma imagem negativa perante a população nativa.

Porém, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914, o número de meretrizes vindas do leste europeu aumenta. Há uma emigração em massa da Europa, e muitos desses imigrantes vêm parar no Brasil. Com os maridos envolvidos no conflito, muitas mulheres desembarcam em solo carioca com muita fome e sem perspectivas de conseguir algum emprego no mercado formal de trabalho. Juntaram-se, então, às últimas “polacas”, na rua Pinto de Azevedo.

Após a chegada dessas mulheres que fugiam da guerra, a Zona do Mangue muda de endereço e se estabelece na rua Júlio do Carmo, ainda na Cidade Nova, onde ficam por mais de dez anos.

A prostituição cresce e se desenvolve. Diversos shows aconteciam nos bares e cabarés que compunham a Zona do Mangue. Grandes artistas, como Luiz Gonzaga, se apresentam por lá. Com isso, criam-se novas maneiras de sociabilidade e são desenvolvidas novas formas de comportamento, tanto masculino como feminino.

Em 1994/1995, a Vila muda novamente de lugar. Vai para a rua Sotero dos Reis, na Praça da Bandeira, por causa da construção do prédio que seria a sede da Prefeitura do Rio de Janeiro. Devido ao senso de humor e à irreverência do carioca, o prédio é apelidado de “Piranhão”, em referência às antigas moradoras do local.

(Do Blog ImpressOnline)

Balada do Mangue

Vinicius de Moraes, Oxford, 1946

Pobres flores gonocócicas
Que à noite despetalais
As vossas pétalas tóxicas!
Pobre de vós, pensas, murchas
Orquídeas do despudor
Não sois Loelia tenebrosa
Nem sois Vanda tricolor:
Sois frágeis, desmilinguidas
Dálias cortadas ao pé
Corolas descoloridas
Enclausuradas sem fé,
Ah, jovens putas das tardes
O que vos aconteceu
Para assim envenenardes
O pólen que Deus vos deu?
No entanto crispais sorrisos
Em vossas jaulas acesas
Mostrando o rubro das presas
Falando coisas do amor
E às vezes cantais uivando
Como cadelas à lua
Que em vossa rua sem nome
Rola perdida no céu...
Mas que brilho mau de estrela
Em vossos olhos lilases
Percebo quando, falazes,
Fazeis rapazes entrar!
Sinto então nos vossos sexos
Formarem-se imediatos
Os venenos putrefatos
Com que os envenenar
Ó misericordiosas!
Glabras, glúteas cafetinas
Embebidas em jasmim
Jogando
cantos felizes
Em perspectivas sem fim
Cantais, maternais hienas
Canções de cafetinizar
Gordas polacas serenas
Sempre prestes a chorar.
Como sofreis, que silêncio
Não deve gritar em vós
Esse
imenso, atroz silêncio
Dos santos e dos heróis!
E o contraponto de vozes
Com que ampliais o mistério
Como é semelhante às luzes
Votivas de um cemitério
Esculpido de memórias!
Pobres, trágicas mulheres
Multidimensionais
Ponto morto de choferes
Passadiço de navais!
Louras mulatas francesas
Vestidas de carnaval:
Viveis a festa das flores
Pelo convés dessas ruas
Ancoradas no canal?
Para onde irão vossos cantos
Para onde irá vossa nau?
Por que vos deixais imóveis
Alérgicas sensitivas
Nos jardins desse hospital
Etílico e heliotrópico?
Por que não vos trucidais
Ó inimigas? ou bem
Não ateais fogo às vestes
E vos lançais como tochas
Contra esses homens de nada
Nessa terra de ninguém!

A puta

Carlos Drummond de Andrade

Quero conhecer a puta.
A puta da cidade. A única.
A fornecedora.
Na rua de Baixo
Onde é proibido passar.
Onde o ar é vidro ardendo
E labaredas torram a língua
De quem disser:
Eu quero  puta.
Quero a puta. quero a puta.

Ela arreganha dentes largos
De longe. Na mata do cabelo
Se abre toda, chupante
Boca de mina amanteigada
Quente. A puta quente.

É preciso crescer esta noite inteira sem parar
De crescer e querer
A puta que não sabe
O gosto do desejo do menino
O gosto menino
Que nem o menino
Sabe, e quer saber, querendo a puta.


Judia Rara*

(Samba, 1964)

Jorge Faraj e Moreira da Silva

A rosa não se compara
A essa judia rara,
Criada no meu país.

Rosa de amor sem espinhos,
Diz que são meus seus carinhos
E eu sou um homem feliz.

Nos olhos dessa judia,
Cheios de amor e poesia,
Dorme o mistério da noite,
Canta o milagre do dia!

A sua boca vermelha
É uma flor singular
E o meu desejo é uma abelha
Em torno dela a bailar.


* “Judia Rara”, de Moreira da Silva, que viveu com uma polaca. Motorista de praça, de ambulância e sambista, o cantor Moreira da Silva (foto acima) namorou por 18 anos uma polaca: a russa Estera Gladkowicer, que chegou ao Brasil com 20 anos em 1927, foi dona de bordel no Mangue e se matou em 1968, ingerindo barbitúricos.

“Judia rara” − “Foi um caso meu”, contou ao Estado o sambista Moreira da Silva (1902-2000). “Uma vez fui ver o túmulo, mas não tem graça nenhuma: a vida continua”, diz ele, que mora com vista para o cemitério do Catumbi. “Enterrou ali, não sai mais”. Para ela compôs o samba Judia Rara. E com a memória afiada, aos 95 anos, viveria até os 98 anos, ele cantarolou:

A rosa não se compara
A essa judia rara
Criada no meu país.
Rosa de amor sem espinhos,
Diz que são meus seus carinhos
E eu sou um homem feliz.

P.S. A gravação dessa música está na internet, na voz do próprio Moreira da Silva.

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