sexta-feira, 25 de março de 2016

A morte de D. Pedro II



No dia 15 de novembro de 1889, D. Pedro de Alcântara estava em Petrópolis. Na véspera tivera notícias da demissão do Ministro Ouro Preto e sabia que havia movimento de tropas nas ruas do Rio de Janeiro. A princípio, o Imperador não se mostra muito abalado, tanto que dormiu até mais tarde, fora de seus hábitos, mas quando se cientificou de que na Corte uma rebelião estava em marcha, reuniu a família e, num trem especial, deixou Petrópolis, dirigindo-se ao Palácio do Rio de Janeiro. No próprio dia 15, resolveu convocar os demais Conselheiros, que foram ao Palácio discutir os acontecimentos com o Imperador, após o que várias demarches foram tentadas. Tudo sem resultado.

No dia seguinte, 16, por volta das 15 horas, com o Paço completamente cercado por forças de cavalaria, chegou o major-comandante da referida arma, Frederico Solon Sampaio Ribeiro, acompanhado de mais três oficiais subalternos pedindo para falar ao Imperador. Recebidos pelo monarca, o major Solon entregou-lhe uma carta assinada pelo marechal Deodoro. A mensagem tinha o seguinte teor:

“Os sentimentos democráticos da nação há muito preparados, havia agora despertado. Obedecendo, pois, às exigências do voto nacional, com todo o respeito à dignidade das funções públicas que acabais de exercer, somos forçados a notificar-vos que o Governo Provisório espera do vosso patriotismo o sacrifício de deixardes o território brasileiro com a vossa família no mais breve prazo possível”.

Era a expulsão do homem que havia governado o Brasil durante 35 longos anos.

Mais ou menos ao meio-dia de 17, o Imperador, seus familiares e alguns políticos embarcaram na lancha “Parnaíba”, que os conduziu até a bordo do paquete “Alagoas”, o qual, na noite de 17 para 18, iniciou viagem para Lisboa, levando para sempre de sua pátria a D. Pedro II, o Magnânimo.

Um mês depois morria na capital portuguesa a Imperatriz D. Tereza Cristina, evento que deixou D. Pedro profundamente chocado. Seguindo para Paris, hospedou-se num modesto hotel da Rua de La Árcade (tinha recusado a dotação de cinco mil contos que lhe havia destinado o Governo da República para as suas despesas) e, ali, dois anos depois, em 5 de dezembro de 1891, falecia, aos 66 anos de idade, cercado do apreço e da consideração das maiores figuras da época, na ciência, nas letras, nas artes, da Europa.

Seu corpo foi, primeiramente, transladado para o cemitério de São Vicente de Fora, em Lisboa. Porém, anos mais tarde, foi trazido, junto como da Imperatriz, para o Brasil, jazendo agora na catedral de Petrópolis.

Cumpriu-se, assim, a profecia do soneto famoso do Imperador poeta: A justiça de Deus na voz da história”.

(Amaro Júnior – Almanaque do Correio do Povo – 1979)

Dois sonetos de D. Pedro II


D. Pedro II no exílio

Ingratos

Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dois passos só estou da morte.

Do jogo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua f'licidade
E amanhã nem ‒ um bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,

É ver na mão cuspir a extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs ‒ outrora.

Terra do Brasil

Espavorida agita-se a criança,
De noturnos fantasmas com receio,
Mas se abrigo lhe dá materno seio,
Fecha os doridos olhos e descansa.

Perdida é para mim toda a esperança
De volver ao Brasil; de lá me veio
Um pugilo de terra; e neste creio
Brando será meu sono e sem tardança...

Qual o infante a dormir em peito amigo,
Tristes sombras varrendo da memória,
Ó doce Pátria, sonharei contigo!

E entre visões de paz, de luz, de glória,
Sereno aguardarei no meu jazigo
A justiça de Deus na voz da história!

Biografia resumida de D. Pedro II


D. Pedro II em retrato do pintor Delfim da Câmara, em 1875
  
→ Pedro de Alcântara João Carlos Salvador Bebiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Gonzaga (2/12/1825 ‒ 5/12/1891) nasce na cidade do Rio de Janeiro, sétimo filho de dom Pedro I e da imperatriz Maria Leopoldina.

→ Herda o direito ao trono com a morte dos irmãos mais velhos, Miguel e João Carlos. Tem 5 anos quando o pai abdica.

→ É coroado aos 15, em 1841.

→ Em 1843 casa-se com a princesa Teresa Cristina Maria de Bourbon, filha de Francisco I, rei das Duas Sicílias.

→ Interessado pelas letras e pelas artes, mantém correspondência com cientistas europeus, entre eles Pasteur e Gobineaude, e protege os intelectuais e escritores.

→ Durante seu reinado, viaja para várias partes do mundo, conhecendo quase toda a Europa, os Estados Unidos e o Canadá.

→ Calmo e inteligente, é prestigiado pelo progresso que promove na economia brasileira com a introdução da produção cafeeira e a ampliação da rede ferroviária e de telégrafo.

→ Governa o país até o fim do Império. No dia 15 de novembro é confinado ao Paço da Cidade do Rio de Janeiro, onde recebe a mensagem do governo provisório sobre a proclamação da República com tranqüilidade.

→ Lê revistas e faz versos, conforme revela posteriormente em seu diário.

→ Viaja para Portugal dois dias depois da proclamação da República, debilitado pela diabete. Recuperado da doença, passa a viver entre as cidades francesas de Paris, Cannes e Versalhes, onde assiste a espetáculos de arte e participa de palestras e conferências.

→ Morre de pneumonia em Paris, no Hotel Bedford, em 5 de dezembro de 1891, aos 66 anos de idade.


(Do Blog Só História)


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