sábado, 19 de março de 2016

Impor limites*




A cena chegou a ser dolorosa, mas deixou uma bonita lição. A jovem tinha cerca de 27 anos e o menininho, uns 2. Foi uma luta de gigantes. Ele se mostrava birrento, teimoso e violento. Ela, forte, serena e irredutível. O palco da guerra era uma prateleira de supermercado recheada de chocolates. O menino parecia uma fera enjaulada queria, porque queria, cinco. E ela, uma domadora sem chicote ele poderia levar apenas um. Foi uma aula de maternidade. Além de mim, pelo menos uns 15 espectadores observavam o acontecimento. Que menino nervoso! E que raiva ele cuspia daquele rostinho transtornado! Gritava tão alto, chorava tão forte e doído, que parecia estar apanhando de porrete. Batia os pés, rolava no chão, ameaçava derrubar a prateleira toda, mas todas essas tentativas foram inúteis. Sem usar de violência física ou erguer a voz, a mãe o obrigava a escolher. “Ou leva só um ou não leva nenhum. Vai ter de escolher”. A voz não era de quem tem raiva. Foram dez minutos dolorosos, no final dos qual o pequeno aceitou sua derrota. Os gritos, os urros e os pontapés foram diminuindo. Por fim, o garoto enxugou a manha, aceitou a mão da mãe e saiu do supermercado com sua única barra de chocolate. O resto ficou lá, na prateleira.

Vencera a mãe e perdera o supermercado.

Desde que o mundo é mundo, crianças querem, porque querem certas coisas. E muitos pais ou cedem, para não ter de enfrentar o incômodo da birra, ou se descontrolam e batem no filho birrento. Mas poucos pais educam os filhos para a questão do ter. Crianças são pequenos capitalistas que não gostam de renunciar ou perder. E, se os pais não lhes ensinam a aceitar sua escolha, elas sofrerão na vida e farão outros sofrer. São lindas as mães e fabulosos os pais que proíbem, sem raiva, e dão o necessário, sem dar demais. A nossa sociedade tem mentalidade de supermercado. Oferece mil prateleiras com tentações e incita os imaturos a consumir mais do que precisam. Por isso mesmo são dignos de aplauso e casais que conseguem educar seus filhos para não consumir demais. Com a televisão a ensinar o contrário, não é nada fácil. Mas muitos conseguem.

A lição da jovem mãe paulista me lembrou outra senhora jovem de New Bedford, Massachussets, grávida e com outro filho de três anos ao lado. Três amigos e eu esperávamos a vez de sermos servidos numa soverteria e, como era natural, cedemos a ela a nossa vez. Ela polidamente recusou, explicando-se “Estou bem e agradeço. Quero educar meu filho para que saiba esperar sua vez. Se eu passar a sua frente, ele vai aprender o que é errado”.

Gosto de contar isso aos casais. O Brasil seria outro, se os pais, ricos ou pobres, tivessem esse comportamento. Quanto mais cedo a criança aprende a escolher, melhor para ela. Se crescer ganhando tudo no grito, vai se perder um dia, na profissão ou no casamento.


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* Não temos a autoria ou fonte, se alguém souber qual seja, por favor, informe-nos, a fim de que possamos dar os devidos créditos. 


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