domingo, 8 de janeiro de 2017

Espantando o condor*


Luís Fernando Veríssimo


Cinema Imperial - 1960


Não quero reacender velhas discussões, mas havia, sim, quartos na boate Maipu. Subia-se por aquela escada até o salão, depois tinha outra escada igual para os quartos. Onde se acabava de fazer o que se tinha começado no salão, só que sem a música. Frequentei os quartos do Maipu. E não eram quartos secretos, só para amigos da casa e clientes escolhidos. Eu era um frequentador comum, sem nada, infelizmente, que justificasse um tratamento especial da gerência ou das mulheres. Olhava com uma certa admiração os assíduos, geralmente com cabelo “abotoado” atrás e casaco acinturado, que mereciam os privilégios do lugar. Estes só dançavam quando o “jazz” parava e entravam a “típica” e o tango. Todas as boates da cidade tinham um “jazz” e uma “típica”, quando não tinham também um “regional”. Mas subir as escadas para um quarto do Maipu não era privilégio de ninguém. Era só combinar com a moça.

O último bonde passava pelo abrigo ali pela uma. Aos sábados, tinha um mais tarde. Aos sábados a gente saía da sessão da meia-noite dos cinemas e corria para não perder o último bonde. As sessões da meia-noite, muitas vezes, eram de filmes “científicos”, lembra? Era a sacanagem que ainda não ousava dizer seu nome. Sessões separadas para homens e mulheres. Os adolescentes que hoje podem escolher entre Taradas Que Dão de Quatro e Te Lambo Toda para ver em qualquer cinema e têm sexo em profusão na revista da família não sabem o que era a nossa luta desesperada pela mulher nua. A mulher nua era racionada. Aparecia um seio da Martinne Carol no Ópera e nós estávamos fazendo fila na primeira sessão da tarde. As coxas da Silvana Mangano no Rex e corríamos para lá. Tínhamos vagas notícias de revistas dinamarquesas que mostravam tudo, mas onde encontrá-las? Não me lembro bem do que tratavam os “filmes científicos”, mas acho que eram alertas contra as doenças venéreas, com demonstrações gráficas das suas consequências, e, portanto, mais brochantes que qualquer outra coisa. Mas quem brochava, naquela época? Me lembro da adolescência como uma ereção ininterrupta. Bom, nada. Era um martírio.

Os bondes. Aquele cheiro metálico dos bondes, o barulho que eles faziam, os gemidos, o “pscht” dos freios. Nossa admiração pelos fiscais que pulavam de um bonde em movimento para outro, fazendo anotações misteriosas nas suas planilhas. O bonde Petrópolis, depois de vir numa boa velocidade pela Oswaldo Aranha, passando pelo Pronto-Socorro, pelo muro daquela área reservada para o Hospital de Clínicas, que nunca era construído, pelo cinema Rio Branco, pelo bar que ficava no pé da rua que dava no Colégio Americano e, lá em cima, no IPA, e tinha o melhor sorvete da cidade, começava a subir, lentamente, a Protásio Alves. Como era lenta a subida do bonde Petrópolis pela Protásio Alves. Mas não me lembro de achar que era uma perda de tempo. Aproveitava-se para pensar na vida, ou no que passava por vida na adolescência. Nada como um bonde lento para meditar sobre o significado de todas as coisas. Sempre imaginei que se alinha Petrópolis fosse um pouco mais longa eu teria decifrado o Universo. Como eu descia na João Abbott o Universo permaneceu indecifrado.

Descer do bonde em movimento era uma obrigação da juventude, quase uma prova de macheza. Mas o desafio maior era subir no bonde em movimento. Corria-se de costas ao lado do bonde, agarrava-se com uma mão a barra vertical da porta, pulava-se, girando o corpo no ar, e caía-se de pé no estribo, virado para frente. Alguns caíam embaixo do bonde, mas quem diz que na província não havia aventura?

As matinés de domingo no Imperial, seguida de um “ice cream” na Confeitaria Central. Nas matinés, antes de começar o filme, os rapazes ficavam de pé nas fileiras, virados para trás, para verem as meninas e serem vistos. De gravata, posto que era domingo, e com o Gumex brilhando no cabelo. Chaveiro com correntinha. A correntinha sendo enrolada e desenrolada no dedo, como uma hélice. As piadas, depois que começava o filme. Mulher bonita na tela era sempre recebida com o som do ar sendo sugado por todas as bocas masculinas da plateia, menos dos que estavam com a namorada. E, às vezes, até estes, se a mulher era irresistível ou o decote era maior. Beijos eram saudados com um grito de gol. E máximo do humor sofisticado era espantar o pássaro da apresentação da “Condor Films”. Algo mudou na nossa alma quando paramos de espantar o condor. E nos filmes musicais, sempre que alguém começava a cantar passava um murmúrio de impaciência pela plateia. As músicas não eram bem-vindas nos filmes musicais, em Porto Alegre.

E sempre a procura do sexo. O cabaré era o último recurso. A Cabo Rocha e a Pantaleão Telles eram as zonas do chamado “baixo meretrício”, onde íamos com o entendimento tácito que poderíamos, um dia, deixar o pênis gangrenado em algum ralo. Nos cabarés as mulheres eram de uma certa classe, às vezes até argentinas. Mas a glória era conseguir mulher sem pagar. Quem tinha automóvel “garceava”, lembra? O sonho era ter um “chateau”, um apartamento só para levar “as mina”, com luz indireta, eletrola e rum para o “Cuba Libre”. O que mais havia na vida? Essa época toda acabou numa madrugada dos anos 60, com a cara dentro da sopa do Treviso.

E, como no poema de John Updike, nós nem sabíamos que éramos uma geração.




*Crônica inserida no jornal Zero Hora dos anos 70, início dos anos 80.

Cabo Rocha: Atual rua professor Freitas e Castro, no Bairro Azenha.

Pantaleão Telles: Atual Rua Washington Luiz, Centro Histórico de Porto Alegre.



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