domingo, 29 de janeiro de 2017

Nelson Sargento e o idioma esquisito



O sambista mangueirense Nelson Sargento (no civil Nelson Mattos, com dois tês) é capaz de tiradas memoráveis, como nos versos que seguem:

“O nosso amor é bonito,
Ela finge que me ama,
E eu finjo que acredito.”

Ou ainda:

“Eu bebo demais por meu tamanho,
Arranjo brigas e sempre apanho.
Isso me faz infeliz.
Entro num boteco pra afogar a alma,
As garrafas, então, batem palma.
Me embriago, elas pedem bis.”

Mas todo esse talento, Nelson sempre lutou para conseguir gravar suas músicas. Um dia, ao procurar um produtor de gravadora, desses que mudam de gênero conforme a moda, ouviu uma sugestão que o deixou com a pulga atrás da orelha. O rapaz lhe disse que, para ser gravado, ele tinha que compor algo diferente. Não interessava a qualidade, tinha que ser diferente

Nelson foi para um botequim, pediu uma cerveja e ficou pensando em como fazer algo diferente. O tempo foi passando, a cerveja descendo, até que nasceu um samba realmente diferente, que foi batizado de Idioma esquisito.

Fui fazer meu samba
Na mesa de um botequim.
Depois de umas e outras,
O samba ficou assim:

Estrambonático, palipopético,
Cibalenítico, estapafúrdico,
Protopológico, antropofágico,
Presolopépipo, atroverático,
Batulitrético, pratofinâmbulo,
Calotolético, carambolâmbolo,
Posolométrico, pratofilônica,
Protopolágico, canecalônica.

É isso aí, é isso aí,
Ninguém entendeu nada,
Eu também não entendi.

Com o samba pronto, Nelson voltou à gravadora, cantou para o produtor e foi chamado de maluco. Mas, que era diferente, isso era.

Dizem que, no Japão, todo mundo achou normal.


(Do livro “Suíte Gargalhadas”, de Henrique Cazes)



Nelson Sargento (Rio de Janeiro, 25 de julho de 1924), nome artístico de Nelson Mattos, é compositor, cantor, pesquisador da música popular brasileira, artista plástico, ator e escritor brasileiro. Sua trajetória na música, na literatura e nas artes são suficientes para vários carnavais.


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